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31 de janeiro de 2020

Empréstimo..


Olá, leitor!

Essa semana começou com uma conversa literária na agência dos Correios que frequento: Cervantes tem ou não um biografia paupável - além das obras que deixou?
Enquanto eu coloquei em dúvida a existência de uma biografia do autor de Dom Quixote, o atendente dos Correios foi contra minha opinião.
Com uma pitada de rivalidade literária, foi proposta uma leitura a partir da biografia que cada um tem em sua biblioteca - no meu caso, Cervantes de Jean Canavaggio. E, meu colega atendente, esta edição de Roger Chartier.
Para efeito de biografia, o francês não tem nada a oferecer; apenas a história sobre um conto que se encontra na primeira parte do livro O Engenhoso Dom Quixote da Mancha: Cardenio.

Eu lembro desta história em especial por conter duas citações de que sou apaixonada:

Quem não tenciona satisfazer não regateia condições no contratar.
e
Se aos céus piedosos apraz que chegues a gozar algum descanso, em nenhum lugar, leal, firme e formosa senhora minha, o encontrarás ao meu parecer mais seguro que nestes braços que te agora recebem, e que já em outro tempo te receberam quando a fortuna permitiu que eu pudesse chamar-te minha.

Neste livro, Roger Chartier traz documentos factuais que apontam que este mesmo conto "Cardenio" foi apresentado por Shakespeare.

Ainda estou nas primeiras páginas, mas a viagem até uma época de publicações obscuras de autores esquecidos é maravilhosa. Um simples conto traz em si muitas facetas de um período que as traduções e publicações ainda engatinhavam. 

Se eu conseguir ler até o final  - pois trata-se de uma leitura pesada (com datas, nomes e períodos desconhecidos para mim), trarei um breve esboço da obra.

Torça por mim, anônimo leitor!

Omnia vanitas. 💀💪

18 de outubro de 2019

Vigésima oitava leitura..



Fim de mais uma leitura !

Esta não é a edição que li na minha adolescência, mas não pude deixar de comprá-la quando estava em uma sessão de compra (inocente) em um sebo em Joinville.

Este Dom Quixote de Monteiro Lobato foi o meu primeiro contato (indireto) com a opera magna de Miguel de Cervane Saavedra.

Desta leitura, o que mais marcou, além da clássica cena dos moinhos de vento, foi a indignação e não aceitação de Emília para o fim do livro do espanhol. 

A história é recontada por dona Benta durante alguns dias (antes das crianças irem dormir) e acompanhada pelos deliciosos quitutes de tia Nastácia. 
Em toda a contação da obra, dona Benta ressalta que quando as crianças forem maiores e tiverem o domínio linguístico para ler uma obra como Dom Quixote, verão o quão ela é rica em detalhes e significado. As partes que foram contadas para as crianças (Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília) foram somente as principais aventuras do Cavaleiro da Triste Figura. E, para minha alegria, a  briga na taverna e a manteada sofrida por Sancho (sinto muito, fiel escudeiro) estava na narrativa de dona Benta. 

Minha lembrança, além do que escrevi acima, eu me vejo sentada com o livro em mãos na cancha de bocha do meu pai. Não como ela está agora, mas a antiga, que tinha o chão de saibro batido com duas pistas para o jogo.  E, também, lembro de alguém passar por mim e ler o título do livro em voz alta. 

Esta leitura me fez sentir saudade da outra leitura que fiz de Dom Quixote de La Mancha. 
E, para finalizar, deixo o meu agradecimento à Monteiro Lobato  por não ter se alongado muito para escrever sobre o segundo livro da história de Dom Quixote - eu detesto aquele duque e sua esposa.

Omnia Vanitas. 💀


P.S.: A boneca Emília - tal como foi concebida - não poderia ser aceita nos dias atuais.  Tivemos sorte! 

26 de agosto de 2016

Fantasia e Realidade ..






Ás vezes eu imagino que meu marido supõe que eu ficarei louca de ler tanto sobre Cervantes, mas sabemos que isso pode ser verdade {rs}.

Deixo, em seguida, a última reportagem que encontrei no site da Folha sobre os quatrocentos anos da morte de Cervantes {e Shakespeare}.


Fantasia e realidade
Como Cervantes e Shakespeare redigiram o manual de regras literárias modernas; Juntos, desafiaram as fronteiras do tempo 
SALMAN RUSHDIE
Já se passaram 400 anos desde que Shakespeare e Cervantes morreram. Juntos, eles desafiam as fronteiras do tempo e das convenções que separam a vida cotidiana da fantasia. No momento em que comemoramos os aniversários de 400 anos da morte de William Shakespeare e Miguel de Cervantes Saavedra, vale observar que, embora seja geralmente aceito que os dois gigantes morreram na mesma data, 23 de abril de 1616, na verdade não foi no mesmo dia.
Em 1616, a Espanha já usava o calendário gregoriano, enquanto a Inglaterra ainda usava o juliano, de modo que estava atrasada em 10 dias. (A Inglaterra continuou com o sistema juliano antigo de datação até 1752, e, quando a mudança finalmente chegou, houve tumultos e turbas nas ruas gritando devolvam-nos nossos dias!) Desconfio que tanto a coincidência de datas quanto a diferença nos calendários teriam agradado e muito às sensibilidades eruditas e travessas dos dois pais da literatura moderna.
Não sabemos se eles tinham consciência um do outro, mas tinham muitas coisas em comum, a começar bem ali na área do não sabemos, porque ambos eram homens cercados de mistérios; há anos faltando no registro de suas vidas e, o que é ainda mais revelador, documentos que faltam.
Nenhum dos dois deixou muito material pessoal. Muito pouco ou nada em matéria de cartas, diários de trabalho, rascunhos abandonados apenas suas obras concluídas, colossais. O restante é silêncio. Consequentemente, ambos viraram vítimas do tipo de teoria idiota que procura contestar sua autoria.
Teorias malucas
Uma busca superficial na internet revela, por exemplo, que não apenas Francis Bacon escreveu as obras de Shakespeare como também escreveu Dom Quixote (minha teoria maluca favorita a respeito de Shakespeare reza que as peças de Shakespeare não foram escritas por ele, mas por outro de mesmo nome).
E é claro que Cervantes viu sua autoria ser contestada ainda em sua vida, quando um certo pseudonímico Alonso Fernández de Avellaneda, cuja identidade também é incerta, publicou sua falsa sequência de Dom Quixote, incitando
Cervantes a escrever a verdadeira parte dois, cujos personagens têm consciência do plagiário Avellaneda e nutrem grande desprezo por ele.
Ecos
É quase certo que Cervantes e Shakespeare nunca se conheceram pessoalmente, mas, quanto mais de perto você olhar as páginas que eles nos deixaram, mais ecos ouvirá.
A primeira ideia que eles compartilham, e, a meu ver, a mais valiosa, é a de que uma obra literária não precisa ser meramente cômica, trágica, romântica ou política/histórica: que, se for corretamente concebida, ela pode ser muitas coisas ao mesmo tempo.
Dê uma olhada nas primeiras cenas de Hamlet. Primeiro Ato, Cena Um, é uma história de fantasmas. Não é mais do que simples fantasia?, Bernardo pergunta a Horácio, e é claro que a peça é muito mais que isso.
O Primeiro Ato, Cena Dois, apresenta as intrigas na corte de Helsingor: o príncipe estudioso e revoltado, sua mãe que enviuvou recentemente e se casou com seu tio (Ó pressa iníqua de subir para o tálamo incestuoso!).
Primeiro Ato, Cena Três: aqui vemos Ofélia contando a seu pai cético, Polônio, o início daquela que será uma história de amor triste: Senhor, ultimamente fez-me muitas propostas de afeição. […] Mas sua insistência sempre foi de moral honrosa e digna.
Primeiro Ato, Cena Quatro, é uma história de fantasmas outra vez e há algo de podre no reino da Dinamarca.
À medida que a peça avança ela continua a se metamorfosear, tornando-se alternadamente uma história de suicídio, uma história de assassinato, uma conspiração política e uma tragédia sobre vingança. Ela tem momentos cômicos e uma peça no interior da peça. Contém alguns dos mais belos trechos de poesia já escritos em inglês e se encerra em meio a melodramáticas poças de sangue.
Nós, que viemos depois, herdamos do bardo a consciência de que uma obra pode ser tudo ao mesmo tempo.
A tradição francesa, mais severa, separa a tragédia (Racine) da comédia (Molière). Shakespeare mistura os dois gêneros, e assim, graças a ele, nós também podemos fazê-lo.
Em um ensaio famoso, Milan Kundera propôs que o romance tem dois progenitores: Clarissa, de Samuel Richardson, e A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne; mas essas duas obras de ficção enciclopédicas revelam a influência de Cervantes.
O tio Toby e o cabo Trim, de Sterne, se inspiram abertamente em Dom Quixote e Sancho Pança, enquanto o realismo de Richardson deve muito ao fato de Cervantes ter ridicularizado a tola tradição literária medieval cujas ilusões dominam Dom Quix ote.
Trôpegas emoções
Na obra-prima de Cervantes, assim como nas obras de Shakespeare, os tombos cômicos, como de palhaços, convivem com a altivez, o páthos e a emoção, com a libertinagem, culminando no momento infinitamente comovente em que o mundo real se afirma e o cavaleiro da triste figura reconhece que tem sido um velho tolo e louco, que procura as aves deste ano nos ninhos do ano passado.
Tanto Shakespeare quanto Cervantes são escritores autoconscientes, modernos de uma maneira que a maioria dos mestres modernos reconheceria um deles criando peças que têm alto grau de consciência de sua teatralidade, de serem encenadas, e outro criando ficção que tem consciência aguda de sua natureza fictícia, ao ponto de inventar um narrador imaginário, Cide Hamete Benengeli. Fato interessante, é um narrador que tem antecedentes árabes. E os dois gostam tanto do submundo quanto das ideias nobres, e são tão adeptos em retratar a ambos; suas galerias de pilantras, putas, batedores de carteiras e bêbados ficariam à vontade nas mesmas tavernas. Esse lado ordinário revela que ambos são realistas de modo grandioso, mesmo quando se fazem passar por fantasistas, e assim, mais uma vez, nós que viemos depois podemos aprender com eles que a magia não tem sentido exceto quando está a serviço do realismo alguma vez já houve um mago mais realista que Próspero? e que o realismo pode beneficiar-se de uma injeção de uma saudável dose fabulista.
Finalmente, embora ambos empreguem tropos que se originam em contos populares, mitos e fábulas, eles se recusam a apontar para conclusões morais, e nesse aspecto, sobretudo, são mais modernos do que muitos que os seguiram. Eles não nos dizem o que devemos pensar ou sentir, mas nos mostram como fazê-lo.
Dos dois, Cervantes foi o homem de ação, que combateu em batalhas, foi gravemente ferido, perdeu o uso da mão esquerda e passou cinco anos escravizado pelos corsários de Argel, até sua família levantar o dinheiro e pagar seu resgate. Shakespeare não tinha dramas comparáveis em sua experiência pessoal, mas, dos dois, parece ter sido ele o escritor mais interessado na guerra e no ofício militar.
Otelo, Macbeth e Rei Lear são todas histórias de homens em guerra (em guerra interior, sim, mas também no campo de batalha). Cervantes utilizou suas experiências dolorosas, por exemplo na História do Cativo, em Quixote, e em duas peças, mas a batalha na qual Dom Quixote se lança é, para usar palavras modernas, absurdista e existencial, mais que real.Estranhamente, o guerreiro espanhol escreveu sobre a inutilidade cômica de ir para a batalha e criou a grande figura icônica do guerreiro como tolo (pensamos em Ardil 22, de Heller, ou Matadouro Cinco, de Vonnegut, explorações mais recentes desse tema), enquanto a imaginação do poeta e dramaturgo inglês (como Tolstói, como Mailer) mergulhava diretamente na direção da guerra.
Em suas diferenças, Shakespeare e Cervantes encarnam opostos muito contemporâneos, assim como, em suas semelhanças, eles coincidem em relação a muito que ainda é útil para seus herdeiros.


25 de agosto de 2016

Um Viajante que teve o Sonho Frustrado..



Nobre leitor, eu acredito que você deva estar um pouco cansado de ouvir sobre um tal espanhol chamado Miguel de Cervantes y Saavedra.
Mas, permita-me aproveitar este momento histórico que contempla os quatrocentos anos da morte deste escritor e "roubar" tudo o que possa servir para acrescentar conhecimento sobre este ícone da literatura universal.
Encontrei no site da Folha alguns artigos interessantes que farei "Crl+C Crl+V" para nosso deleite, anônimo leitor!

Primeiro artigo é de Sylvia Colombo e intitula-se Um Viajante que Teve o Sonho Americano Frustrado.

Crl+V:

Não foi por falta de insistência. Entre 1582 e 1590, Miguel de Cervantes fez vários pedidos à Coroa espanhola para viajar para as Américas. Não se tratava de um desejo abstrato, o escritor-aventureiro esteve obcecado com a ideia. Postulara a cargos na Guatemala, no México e no que hoje seria a Colômbia.

Não teve jeito. A resposta que recebia era sempre a mesma: Peça algo por aqui. Chegou mesmo a ir a Lisboa, na tentativa de embarcar de qualquer jeito em algum navio para o Novo Mundo. Poderíamos ter um dos mais importantes escritores da história desembarcando em nossas praias. Porém, se isso de fato ocorresse, talvez jamais tivéssemos conhecido o Dom Quixote.

Afinal, biógrafos concordam que sua grande obra, que conta a história do fidalgo que enlouqueceu por ler muitos romances de cavalaria, é em parte fruto de sua frustração. Mas por que Cervantes queria deixar a Espanha?

Primeiro, porque se sentia desprestigiado. Achava que merecia uma recompensa por ter lutado corajosamente na batalha de Lepanto contra os turcos, em 1571, onde levou três tiros de arcabuz um deles praticamente destruiu sua mão esquerda. Iniciava-se, então, um período de andanças e dificuldades.

Após Lepanto, seguiu mais uns anos na Itália, onde já havia sido camareiro de um nobre. Após a guerra, como soldado inutilizado, entregou-se às noites nas tavernas e às bebedeiras em Nápoles.

Em 1575, ao tentar voltar à Espanha, teve o navio em que viajava abatido e ele, levado prisioneiro para a Argélia. Passaria ali cinco anos, tentando escapar quatro vezes, todas fracassadas.

Quando de fato conseguiu retornar à Espanha, teve dificuldades financeiras. Mesmo tentando diversos serviços, nada lhe garantia renda fixa.

Não se sabe quando, exatamente, começou a escrever regularmente. Em 1585, publica La Galatea e arrisca suas primeiras obras de teatro, mas não consegue emplacar.

Quando vê enterradas as expectativas de ir à América, consola-se com o posto que lhe é conferido de arrecadador de impostos e, depois, de víveres para a famosa Armada espanhola, conhecida como invencível até ser derrotada em 1588 pela Inglaterra.

Apesar de haver discrepâncias, a versão mais aceita é a de que Cervantes começou a escrever o Quixote quando esteve preso em Sevilha, a partir de 1597, acusado, supostamente, de ter desviado bens da própria Armada.

Quando o Quixote veio à público, em 1605, Cervantes já tinha 58 anos, um idoso para a época. Só então passou a conhecer algo de fama. Lançou outros livros importantes, como a coletânea Novelas Exemplares, em 1613. Dois anos depois, a segunda parte do Quixote.

Porém, em 22 de abril de 1616, fragilizado pela diabetes, morre não sem antes descrever como via o próprio fim, na dedicatória de Los Trabajos de Persiles y Sigismunda.

Paciente leitor, em seguida {porque eu não descanso nunca} farei a outra publicação que encontrei neste site.



9 de agosto de 2016

Mudança de Planos..



Olá, anônimo leitor!

Ontem, eu tive a oportunidade de receber orientações da professora Maria Augusta da Costa Viera.
Consegui entrar em contato com ela por email e, gentilmente, ela me respondeu a missiva eletrônica.

Da leitura que eu estava fazendo de Bráulio Sánchez-Sáez, ela não recomendou, assim como Fernando Arrabal e Andrés Trapiello.
Da lista que fiz de estudo, Jean Canaggio foi o único que permaneceu na lista, mas, este, eu não tenho no momento.
Portanto, estudioso leitor, estarei adiando meus estudos sobre Miguel de Cervantes. Logo que eu tiver em mãos uma leitura mais substancial, voltarei a publicar sobre este enigmático espanhol.

Omnia Vanitas.

8 de agosto de 2016

Alucinações sobre Cervantes..



Caro leitor, estou em estado de pasmo! A leitura de "Dor e Glória de Cervantes" começou e eu estou lendo algumas descrições tão ínfimas sobre as emoções do enigmático espanhol, que começo a duvidar do conhecimento de Bráulio Sánchez-Sáez. Vou-lhe citar duas passagens utópicas:

 "(...) A maior delícia de Miguel era quando saía a reboque de sua irmã mais velha, em virtude de alguma incumbência ou ordem da mãe, e detinham-se, abobalhados, pelas esquinas, onde algum mendigo ou jogral de pouca importância, esguelando-se, recitava os velhos romances tradicionais de mouros e cristãos (...)"

Eu concordo com a descrição de como uma multidão se comportava em feiras ou vendas de rua, mas a dar a Miguel de Cervantes uma atitude tão genuína (justo à ele que não deixou nada escrito sobre sua vida ou criações e influências literárias que o tornaram o escritor que foi...). Minha credulidade precisa de mais fé sobre os assunto que Sáez escreve com tanta convicção.

"Miguel vivia em estado de pleno exaltação. A estrada parecia-lhe maravilhosa e era mais o que andava de um lado para o outro, junto às cavalgaduras, taramelando com os arrieiros".

Detalhes demais para alguém tão indecifrável como Miguel de Cervantes.
A "Nota Explicativa" de Edgar Cavalheiro me sugeriu um escritor (Sáez) mais sóbrio ao escrever sobre o espanhol seiscentista.

"(...) Refiro-me como todos devem ter percebido, a Bráulio Sánchez-Sáez, que ainda há pouco tempo nos brindou com um curso sobre Cervantes, curso ora reunido num volume muito bem apresentado e que circula por aí sob os auspícios da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, da qual, ele faz parte, como professor  de Língua e Literatura Castelhanas e Hispano-Americana".

Vou continuar a leitura, ignorando alguns trechos de cunho demasiado criativo.

Omnia Vanitas.

7 de agosto de 2016

Biblioteca Cervantina..


Último artigo da revista Entre Livros na edição Entre Clássicos - Cervantes.

Confesso, eu precisaria escrever sobre os pintores que foram inspirados pela obra de Cervantes, mas não vou me prender a este artigo pois não sou interessada em obras de arte - sinto muito, leitor. É uma falha minha não escrever sobre cada artigo, como prometido.

Este último artigo Biblioteca Cervantina, também, é escrito por Reynaldo Damazio. 

O autor do artigo inicia a sua escrita trazendo à pauta a importância de um boa tradução. Uma tradução, escreve Damazio, não é apenas um tradução de palavras; a cultura e a história presente dentro da história também tem a sua importância. Segundo Damazio ao citar Miguel de Cervantes y Saavedra

"A riqueza da linguagem empregada por Miguel de Cervantes, que oscila do rebuscado ao popular, do poético ao prosaico, do trocadilho à referência erudita, do provérbio à parábola, intercalando gêneros e narrativas, fez do Quixote um texto paradigmático e, para muitos, fundador do romance moderno. Se a isso acrescentarmos o torneio das frases, seu ritmo, o uso de termos arcaicos, a variedade de tons discursivos, chegamos a uma obra de difícil tradução, poque que compreendê-la em sua grandeza semântica e sintática já demanda esforço considerável. Na maioria das vezes, a tradução de uma obra dessa natureza fica no meio do caminho entre a transposição literal - na medida do possível - e a adaptação, de acordo com o talento e os objetivos dos tradutores".

Quero acrescentar mais umas palavras de Damazio sobre a dificuldade em traduzir clássicos, como este de Cervantes:

"Com o passar do tempo e das mudanças no idioma, na cultura e no pensamento, traduzir é quase como reconstruir arqueologicamente certas estruturas linguísticas. Por outro lado, optar pela tradução dita 'literal' é quase uma falácia, pois há expressões que são típicas da época ou daquela língua e não fazem sentido se transportas ao pé da letra. Por outro lado, enveredar pela transcrição radical traz o risco de destruir a beleza e as peculiaridades  do original, que dizem respeito ao momento em que foram criadas".

Damazio faz observações sobre três traduções principais da obra D. Quixote de La Mancha: os portugueses Viscondes de Castilho e Azevedo, o argentino Sérgio Molina, e a dupla: o brasileiro Carlos Nougué com o espanhol José Luiz Sanchéz.

A primeira tradução feita para o Brasil, foi em 1794 - tarde, não é mesmo? Note, atrasado leitor, que na França a tradução ocorreu em 1614 e na Inglaterra em 1612. A explicação para a tardia tradução para nossa língua colonizada é que os portugueses que por cá estavam liam na língua original.

Foi no século XX que houve a primeira tradução integral da obra. Exemplar já não disponível em lojas do ramo, a tradução de Almir de Andrade e Milton Amado, pela José Olympio, foi feita em 1952. 

As editoras Nova Cultural e L&PM tem como tradutores os viscondes portugueses. E, sobre estes Damazio escreve

"Os viscondes 'formalizam' Cervantes e até o corrigem. Tiram-lhe, assim, a ousadia e a inventividade que estão justamente nos usos e abusos da linguagem, do coloquialismo e das imperfeições da fala cotidiana. Deram certa informalidade a uma narrativa cuja graça está propositalmente na irregularidade, na maleabilidade de focos narrativos e de vozes que se atritam no interior do discurso".

Para minha tristeza, leitor, a minha tradução dos dois volumes é destes nobres viscondes! :( Mesmo assim, nesta ignorância tradutória, ri às boas com Dom Quixote e Sancho Pancha; mas estou atenta para a tradução mais próxima que o argentino fez deste clássico. É assim que escreve Damazio sobre Molina:

"(...) Molina afirma que desde o início do trabalho esteve sempre preocupado em encontrar o 'tom', mas que não poderia ser um tom geral para toda a obra, que por sua vez não atendesse 'à diferenciação de vozes, à variedade de estilos e gêneros incorporados e retrabalhados por Cervantes'. (...) Molina realizou intensa pesquisa para chegar à tradução, que incluiu viagem à Espanha, e acrescenta notas importantes ao final dos capítulos, com referências históricas, literárias, idiomáticas etc. A edição traz ainda o texto original no rodapé a página, que permite um cotejo imediato, muito enriquecedor, a cada passo da leitura".

Este exemplar da Editora 34 com a tradução de Sérgio Molina custa, atualmente, R$ 98 mil réis! Sinto muito, rico leitor, meu pobre bolso não pode arcar com essa beleza no momento! Ficarei com os viscondes.

A última tradução que Damazio apresenta é da dupla Nougué e Sanches. Sobre eles, o autor do artigo escreve o seguinte:

"(...) Mudaram os epítetos formados por topônimos, como Quixote 'da' Mancha, Dulcinéia 'do' Toboso; mantiveram as inversões sintáticas e sintagmáticas, a voz passiva etc. Tiveram a preocupação excessivamente didática, aferrada à correção, e talvez por isso mesmo perderam um pouco a força, do humor e da musicalidade do original. Não que a leitura não flua, mas há momentos em que o texto parece simplificado, para facilitar a leitura; e noutros, volta-se a uma certa sobriedade, escorada numa dicção mais antiga".

Esta não foi a primeira que leio elogios à Editora 34. Logo que eu tiver a oportunidade financeira, estarei adquirindo esta edição de Dom Quixote e, também Crime e Castigo de Dostoiévski - de quem ouvi pela primeira vez elogios à tradução.

Para finalizar, Damazio escreveu sobre a tradução infantil do clássico cervantino por Monteiro Lobato. Eu quero adicionar este comentário pois se trata do meu primeiro contato com Miguel de Cervantes. Escreveu Damazio

"No episódio 'Dom Quixote das Crianças, o escritor Monteiro Lobato (1882 - 1948) fez Dona Benta contar as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura para a turma do sítio do Pica-Pau Amarelo, depois que a boneca Emília encontrou o título de Cervantes numa estante alta da biblioteca. Em linhas gerais, a obra está ali, com sagacidade e o virtuosismo de Lobato".

Damazio detalha outras traduções, mas estou me prendendo apenas nestas que citei - aquelas que me interessam. 

E..fim. Minha próxima leitura será de Bráulio Sánchez-Sáez:  Dor e Glória de Cervantes.

Até lá! 

Omnia Vanitas.


DAMAZIO, Reynaldo. Biblioteca Cervantina; página 92 à 98. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



Lazarillo de Tormes..


Ontem, para meu desespero, deixei a revista que estava lendo sobre Cervantes em casa. Para passar o dia, eu resolvi começar uma leitura alternativa.
A escolha não poderia ser outra: Lazarillo de Tormes.

La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades é o título original deste livro, escrito no século XVI, época de Miguel de Cervantes - que recebeu influência desta obra - publicado em 1554. À princípio, a autoria desta novela picaresca é anônima, porém, na edição que li, o nome de Diego Hurtelo de Mendonza é apontado como um possível autor desta obra.

Lazarillo de Tormes é uma novela picaresca que, segundo a Wikipédia significa:

Romance picaresco (em espanhol: "picaresca", de "pícaro", "delinquente" ou "malandro") é um sub-gênero literário narrativo da ficção em prosa, geralmente satírico e que descreve, em detalhes realistas e muitas vezes humorísticos, as aventuras de um herói malandro da classe social baixa, que vive por sua inteligência em uma sociedade corrupta. Este estilo do romance foi originado na Espanha, nos anos de transição do Renascimento para o Barroco, durante o chamado Século de Ouro, possivelmente influenciado pela literatura árabe (especificamente o gênero maqamá), e floresceu na Europa nos séculos XVII e XVIII, e continua a influenciar a literatura moderna.

O momento que a Espanha vivia na época que Lazarillo foi escrito contava um momento bom para a país - porém a miséria era agravante mesmo em meio a sua fortuna. A explicação é simples: buscando descobrir o Novo Mundo, a coroa espanhola lançava ao mar sua tripulação - e com ela ia todo o dinheiro do reinado, deixando, então, um país pobre para trás. Toda a narrativa de Lazarillo demonstra essa pobreza na Espanha. 

E o personagem? Ele é carismático! É fácil se comover com a história dele e, quando possível, rir com ele. Escassos são os momentos de felicidade deste personagem, que se vê longe da mãe e da família desde a idade mais tenra. 
Lázaro, como se chama o menino, tem cinco patrões durante a primeira parte da sua vida - que é narrada até a vida adulta.
Seu primeiro patrão é um cego que se diz curandeiro, meteorologista e toda a sorte de mentiras que possam lhe trazer algum benefício financeiro (ou mesmo em troca de comida - moeda comum neste meio). O segundo patrão de Lázaro foi um padre - tão avarento quanto o cego. O terceiro patrão foi um escudeiro falido que tinha para si somente a honra, nada mais. 
Este trio deu à Lazarillo um banquete de nulidade. A fome foi próspera na vida deste menino, que se não foi a piedade de alguns, teria morrido de fome no segundo capítulo. 
Foi o quarto patrão foi um trambiqueiro maior que os outros - porém, não faltava comida para Lázaro. E, mesmo em meio ao banquete, os escrúpulos do pobre menino não puderam aguentar a mentira que o doutro Cura-Tudo aplicava ao povo pobre e ignorante. 

Foi o quinto capítulo que trouxe a alegria a Lázaro - e  também à mim, pois tenho a hábito de sofrer com os personagens que tenho simpatia. 

A miséria do protagonista e a maneira que Lazarillo utiliza para se manter em cada situação que lhe ocorre é um exemplo do caráter correto que ele possui, mesmo vindo da pobreza e ignorância do berço. Assim como em Novelas Exemplares de Miguel de Cervantes, o ensinamento vem da adversidade de vida do protagonista e não da sua boa sorte. E, assim como em Cervantes, o final culmina com o sacramento do matrimônio - que encerra todo o mal na vida do protagonista.

E esta foi minha leitura de sábado/domingo de manhã! Recomendo esta leitura, não somente instrutiva mas, muito agradável de ler! 
Omnia Vanitas.

3 de agosto de 2016

Reinveções do Quixote..


Assim como a maioria dos clássicos, Dom Quixote de La Mancha foi reescrito em diversas adaptações e reinvenções, como escreveu o autor deste artigo Reynaldo Damazio.
O artigo é bem simples pois comenta as referências literárias que tiveram Cervantes como ponte para sua concepção. 
Eu acho cansativo fazer um resumo do resumo de cada uma, então, apenas deixarei algumas poucas palavras que podem ligar a obra do espanhol àquela que criada à partir dela.

Vamos lá, dinâmico leitor, àquelas obras que foram inspiradas pelo obra máxima de Miguel de Cervantes y Saavedra.

Damazio começa citando o escritor francês Gustave Flaubert e sua Madame Bovary: "mulher sonhadora e perturbada por uma visão livresca, idealizadora, do mundo". Além disso, um amante lhe sonda as saias já que percebe que seu casamento é monótono. Delirante leitor, imagine o "estrago" que este francês causou quando o livro foi publicado.

Próximo: Charles Dickens bebeu da fonte quixotesca e criou o seu clássico As Aventuras do Sr. Pickwick. Há muito tempo que quero ter esse livro na minha biblioteca, ansioso leitor, mas o que me impede de comprá-lo é o fato de encontrar somente as edições da Abril que são impressas com letras miseravelmente pequenas para uma leitura anciã. Veja só, preocupado leitor, quando eu for uma senhorinha de 80 anos, pretendo continuar sendo uma leitora ativa. Portanto, se hoje eu comprar livros com letras minúsculas, que trabalho enorme terei no futuro! Cautela, jovem leitor! 
Voltando ao senhor Pickwick, só o nome já dá sinais de divertimento - pelo menos à mim. Damazio liga o espanhol ao inglês com a seguinte explicação: "um grupo se reúne para realizar uma pretensa investivação científica dos costumes e das relações humanas na capital inglesa".

Se o assunto é reinvenção, o russo Dostka não pode ficar de fora da festa. Fiódor Dostoiévski retratou o Cavaleiro da Triste Figura através do seu O Idiota. Já fiz publicações aqui. Acrescento Damazio:

"Dostoiévski enfrentou com brilhantismo incomum temas cruciais que preparam a mentalidade do mundo contemporâneo, como o misticismo e  o materialismo, o nacionalismo e o universalismo, as paixões e a razão, a barbárie e o senso de humanidade no terreno movediço da literatura, fazendo do ficcional o instrumento de reflexão sobre as angústias mais profundas do homem".
Damazio ainda cita o livro de Nikolai Gógol Almas Mortas e o livro de Rudolf Erich Raspe com Gottfired August Bürger intitulado As Aventuras do Barão de Münchhausen. 
A minha ignorância não permite comentar sobre estas duas reinvenções. Perdoe-me, culto leitor.

O Brasil não deixou de beber desta fonte cervantina. E, não que me "gambar" - como diria uma amiga - mas antes de eu ler este artigo, eu já reconhecera Dom Quixote na obra de Machado de Assis Quincas Borba e na obra de Lima Barreto O Triste Fim de Policarpo Quaresma. Ai, sou tão inteligente! 

Rubião é o personagem de Machado de Assis que recebeu uma herança de seu amigo Quincas Borba. Eu achei hilário o fato de o dono ter colocado o próprio nome no cachorro. Fantástico. E, após a morte do filósofo (dono do cão), o bichano vai junto com a herança deixada à Rubião. O cômico é que muitas vezes Rubião olhava para o cachorro e não sabia se era animal que lhe olhava ou amigo falecido. E, do mesmo modo que Dom Quixote provocou em mim uma fúria pelo mau tratamento que recebia de seus amigos, Rubião também despertou esta carisma em mim. Coisa de leitor.

Na obra de Lima Barreto é muito fácil identificar Dom Quixote: o personagem promove a volta da língua materna do Brasil - antes que os portugueses viessem impor a cultura aos nativos das terras de cá. Sim, ele desejava a volta da língua indígena na cultura brasileira colonizada. E o fim de Policarpo Quaresmo, como título da obra já declara, é triste - assim como Dom Quixote. A realidade volta à razão do protagonista e o devora a sua tolice.

Segundo Damazio, outros escritores brasileiros beberam de Miguel de Cervantes: José de Alencar, Aluísio Azevedo, Coelho Neto, José Lins do Rego, Fernando Sabino. Os estrangeiros do nosso continente como  Jorge Luis Borges Pierre Menard, autor de Dom Quixote, e Italo Calvino O Cavaleiro Inexistente.

A primeira vez que li Dom Quixote foi na versão infantil que foi adaptada por Monteiro Lobato no seu Dom Quixote para Crianças - com a participação da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo (saudades!). Emília encontra um exemplar nas coisas da Dona Benta e, ao final da história, ela clama em plenos pulmões o que eu também tenho em meu coração de leitora:

- Morreu, nada! - dizia ela. - Como morreu, se D. Quixote é imortal?


Omnia Vanitas.


DAMAZIO, Reynaldo. Reinvenções de Quixote; página 78 à 83. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.


2 de agosto de 2016

Persiles e Sigismunda: a grande aposta de Cervantes..




Eis um desafio: escrever sobre algo completamente desconhecido, para mim. 
Nunca chegou às minhas mãos ou ao meu interesse o livro Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, e nem sei explicar o motivo.  Na minha pequena biblioteca, encontra-se, das obras de Cervantes, apenas três volumes de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (volumes: 1, 2 e único), Novelas Exemplares, e A Galatéia - que ainda não li.
E, mesmo se eu quisesse obter esta obra póstuma de Miguel de Cervantes, eu teria que investir um valor monetário sublime para chamá-la de minha. O título não está disponível para vendas em sebos ou livrarias mortais - apenas sob encomenda. Talvez, se eu procurar em uma biblioteca pública eu poderia roubar.. digo, emprestar está joia tão valiosa à pena que a concebeu!

Depois desta introdução simplória e lamuriosa, eu espero que tenha paciência comigo, passageiro leitor, para ler meus possíveis enganos de interpretação do artigo de Adma Fadul Muhana - isto mesmo, a mesma autora do artigo Novelas Exemplares.

Para começar, quero lembrar que Cervantes concluiu e dedicou esta obra três dias antes de morrer, segundo relata no prólogo desta obra:

"Ontem me deram a extrema-unção e hoje escrevo está; o tempo é breve, as ânsias crescem, as esperanças minguam e, com tudo isso, levo a vida além do desejo que tenho de viver".

Eu não sei quanto a você, desocupado leitor, mas à mim tocou essa despedida de Miguel de Cervantes. E, talvez, tenha sido bom ele não ver superioridade que Dom Quixote ainda mantém desta publicação que foi aquela ns qual apostou que sobrepujaria ao cavaleiro.
Segundo Muhana

"Desde quando Cervantes começou a redigi-lo, não se sabe; mas, no todo, o livro oferece como que uma morada de ancião, cheia de memórias, lembranças e histórias, acumuladas durante uma longa e diversificada existência, cuja vida as justificava. Claro, é tempo em que ecoam a Contra-Reforma e seu esquisito estoicismo, o Seiscentos renascido e já cansado".

Tão certo quanto Quixote é uma alegoria para os cavaleiros andantes, Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda tem sua base na epopeia grega de Heliodoro Teágenes e Caricléia. Muhana ainda acrescenta que Cervantes queria "atingir seus fins e agradar pela variedade, fazendo os protagonistas se envolverem em uma sucessão de episódios memoráveis".

E os coadjuvantes desta trama tinham suas características bem marcadas pela nacionalidade de cada personagem, conforme Muhana

"Aliás, em toda a ficção até o século XVIII, a tipificação dos caracteres pátrios é tão frequente quanto na Antiguidade. Aqui, portugueses sempre falecem de amor, espanhóis são presunçosos, judeus são médicos e avarentos, franceses, bonitos, italianos, afeitos às artes (IV,3); mouros, por sua vez, são tão corteses como traidores, do mesmo modo que, nas epopeias em prosa antigas, os de Lesbos são lascivos, os egípcios são supersticiosos, dos atenienses, amantes de fábulas e, na Pérsia, as !mulheres são luxuriosas e os homens, efeminados".

Os personagens secundários caminham pela trama sem ter a intenção de chegarem ao destino que espera os protagonistas. Saem de cena quando são dispensáveis para a próxima teia do enredo.
Os protagonistas, obviamente, mantêm-se firmes aos seus propósitos até o fim da trama, pois são os heróis que não caem em desagrado moral perante o leitor - sendo a exatidão do modelo a ser seguido, e deles só se espera que alcancem "aquilo que lhes é destinado como prêmio, a felicidade".

Termino está publicação com as palavras finais de Muhana para seu artigo:

"São tempos são diferentes, ou melhor, não há mais tempo. Seus livros estão escritos, sua vida está cumprida (...). Os tempos são mesmo diferentes, inclusive para Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda. Não há hoje quem julgue ser o melhor livro que já se escreveu em língua castelhana, nem o melhor de Cervantes. Poucos são os que conhecem as histórias bizantinas e esses acham que elas já não tem mesmo muito lugar. São pomposas, eruditas, parecem estar sempre a ensinar. Sua graça luxuosa e aristocráticas, reside muito no conhecimento que se tem dos demais gêneros poéticos da Antiguidade".

Omnia Vanitas.

MUHANA, Adma Fadul. Persiles e Sigismunda; página 66 à 75. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

31 de julho de 2016

Novelas Exemplares de Cervantes..


Parte I: Cervantes e Seu Tempo
Parte II: Por que Ler o Clássico Dom Quixote
Parte III: O Retrato e a Escrita de Cervantes
Parte IV: A Obra prima de Cervantes
Parte V: Sentenças e Aforismos em Cervantes

Eu lembro do dia em que comprei o livro Novelas Exemplares. Estava animada em comprar mais um livro de Cervantes - contando que fiquei apaixonada por Dom Quixote de La Mancha.
E, na primeira vez que me propus a ler esta obra, não cheguei nem até a metade. Algo não estava pronto em mim para ler as doze novelas. 
Foi depois de um pouco mais de um ano que eu tive a segunda oportunidade de ler este livro incompreendido. E, mesmo assim, eu não atendi o significado que tem as novelas.

Agora, lendo o artigo de Adma Fadul Muhana foi uma boa explicação minha ignorância. 

Começo, com as palavras da dona do artigo, sobre a definição do termo "novela":

"A questão, na época, é importante. No século XVI, o termo 'novela' - cuja raiz é a mesmo de 'novo', 'nova' e 'notícia', ou em bom português, 'caso' - reporta-se apenas a historietas (...). Embora o uso do termo tenha se difundido rapidamente, até serem consideradas 'novelas', como hoje em dia, as picarescas, as sentimentais, as da cavalaria e as pastoris, ate então elas eram pensadas como sendo desprovidas de critérios que permitissem incluí-las entre os grandes gêneros poéticos da Antiguidade, nomeadamente a épica e a tragédia; esses critérios se referiam sobretudo ao caráter dos personagens, ao modo narrativo, à ação, ao estilo e à destinação. Isso fazia das novelas uma espécie menor, isto é, que só podia interessar a jovens, mulheres e semiletrados".

Sendo assim, era um livro "ao gosto do povo", sem muitos requintes que o tornavam tolerável à corte.
Um grande "inimigo" de Cervantes era o poeta Lope da Vega. Este poeta tinha um grande prazer de fazer dos escritos de seu conterrâneo diminutos aos olhos da corte - de onde ele participava com grande reconhecimento dos príncipes. E, mesmo sendo um grandessíssimo baba-ovo  fazia de Cervantes um enganado escritor. E, talvez, por ser Miguel de Cervantes um dos primeiros a escrever esse gênero literário - visto que antes eram traduções italianas que chegavam até o leitor espanhol. Lê-se o que o mal-amado Veja escreveu sobre as Novelas de Cervantes:

Lope da Vega, portanto, apesar de reconhecer alguma graça e estilo nas novelas de Cervantes, não partilha da opinião de que elas pudessem ser tidas por exemplares, pois seu autor, infere-se, nem era letrado, nem se remetia aos hábitos da corte - como o faz ele, Lope a propósito, que vivia com fausto principesco, cuja popularidade na corte nunca foi superada e que, além de eclesiástico, dispunha do grau de doutor em teologia outorgado pelo papa Urbano VIII, em agradecimento ao poema La corona trágica, que lhe enviara...".

Miguel de Cervantes, ao contrário do seu desafeto, nunca foi reconhecido por seus feitos em Lepanto - ou reconhecido suficientemente - para cair no gosto da corte. Somente após o sucesso da primeira parte de O Engenhoso Dom Quixote da La Mancha que experimentou viver sob os olhos da realeza nos seus últimos dez anos de vida. No ano de 1613, ele publica Novelas Exemplares, uma forma humorada e humanista de educar. Porém, como já foi escrito na opinião de Lope da Vega, as novelas não estavam situadas na vida da corte espanhola, mas no populacho. Desta forma, as novelas

"(...) exploram os lugares baixos da cidade, em que personagens de comédia se locomovem - e não fidalgos de alta estirpe, que já desconhecem os ideias heróicos. A ação decorre entre ciganos em A Ciganinha; entre ladrões, em Riconete e Cortadilho; entre mercadores, em A Espanhola Inglesa e em O Ciumento da Extremadura; entre alferes e licenciados que lutam por obter lugar na corte, em O Licenciado Vidraça e em O Casamento Enganoso; entre fidalgotes desonrados, em A Força do Sangue etc.".
A falta de caráter de alguns personagens servem de exemplo nas novelas de Cervantes, não o exemplo que deve ser seguido, mas algo que ao término da narrativa precisou ser alterada para terminar "bem". Outra característica é que os personagens inseridos nas tramas não estão distantes de uma descrição realista da vida cotidiana do leitor. Cervantes levou a sério utilizar-se de personagens comuns que inclusive na fala de suas personagens é própria da  classe social que representam.  

Em seu artigo, Muhana destaca personagens como Tomás Rueda {O Licenciado Vidraça} e Campuzano {O Colóquio dos Cães}. Confesso, lembro vagamente da primeira história - que é hilária, mas pouco lembro da segunda portanto, somente escreverei sobre aquela que lembro. Este fato me move a ler novamente esta obra de Cervantes.

O motivo de Muhana destacar em especial estas duas personagens é que a loucura de ambos parece salvar-lhes a vida de uma existência enfadonha. Explicarei: Tomás Rueda é um licenciado que foi enfeitiçado por uma mulher que foi desdenhada por ele. O poção dada à Rueda lhe causou loucura, achando que era feito de vidro. Seus costumes eram respeitados e seus conselhos e repreensões aceitos por todos - visto que era louco e a todos fazia rir sendo louco.

"Vidraça é um desses que abusa do modo sentencioso de falar proferindo seus impertinências com citações bíblicas, lugares-comuns, trocadilhos, versos, pensamentos, provérbios, anexins, agudezas, parêmias, máximas - cujas tantas denominações mostram a diversidade das formas breves, que significariam a autoridade moral daquele que as pronuncia se não significassem a parvoíce de quem as diz por tudo e por nada".

Mas ao ser curado, ele perde o seu encanto e torna-se apenas mais um comum licenciado entre todos - sem utilidade para o público que antes lhe acolhia.

Neste artigo, Muhana definiu o que era uma novela no século XVI e também porque este gênero literário foi classificado como "exemplar" - mesmo seguindo os rumos contrários, inicialmente, à moral que deveria ser seguida. Muhama também destacou o que o sucesso de Dom Quixote trouxe a Cervantes e o seu empreendimento em iniciar uma narrativa novelística fora dos padrões preexistentes de concepção deste gênero literário, dando ao seus personagens características singulares à classe social que estavam inseridos. 

Em suma, esta é a minha visão do que se tratou este artigo. Espero não ter sido confusa em todas as publicações que até o momento escrevi sobre Miguel de Cervantes Saavedra.

Omnia Vanitas.


MUHANA, Adma Fadul. Novelas Exemplares; página 54 à 65. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.


30 de julho de 2016

Sentenças e Aforismo em Cervantes..



Primeira Parte: Cervantes e Seu Tempo


Fim de mais uma etapa de leitura sobre a vida e a obra de Miguel de Cervantes. 
Este artigo foi escrito por Adolfo Mintejo Navas. O estudo de Navas será sobre  estilo de escrita que Cervantes utilizou em suas obras. 
Aforismo é uma maneira de escrever verdades morais a cerca de algo - como uma máxima ou um ditado; porém, o aforismo é uma maneira um pouco mais culta de expressão linguística. Conforme Navas, era um modelo de escrita muito comum

"(...) são muitas as seleções ou inventários de sentenças que circulam pelo século XVI, em latim ou romanço, como parte de uma herança clássica que estava vias de torna-se popular. Por seu caráter de antologia, eles permitiam reunir fragmentos literários e filosóficos de tempos clássicos (Grécia e Roma), assim como guia espiritual ou receituário de conduta ética".

Não pense, máximo leitor, que este uso caiu no esquecimento; na verdade está aprimorado. Explicarei a ideia pontuada: lembra que no artigo de Molina o próprio declarou que existe uma poluição de informações que não permite ao leitor descobrir a obra, apenas suas idéias e trechos fragmentados? Pois trata-se disso nos dias de hoje. Pegue uma frase de efeito em algum livro que esteja em uma prateleira e você terá seu aforismo - sem contextualizar o trecho, coloque-o em algum lugar de destaque e as curtidas e compartilhamentos serão instantâneos, mesmo que ninguém esteja interessado em saber do que se trata. Faz-se isso continuamente com várias obras, algumas distorcidas por filmes. A literatura saiu uma linha de livros que compilam frases de filósofos e comentam, rapidamente, a ideia destes em questão. Acho uma literatura crua pois não alcança a dimensão da totalidade da obra citada. Perde-se o valor verdadeiro do estudo.

Ça va, voltando à Navas

"(...) os aforismos procedentes da Grécia também orientam pelo conhecimento ou por um tipo de saber de caráter científico - mas neles o que se reforça é a necessidade de uma sabedoria contrastada pela práxis humana, certa validade universal, da qual bebem também, ainda que de outra forma, os provérbios populares".

E quando se menciona provérbios/ditados populares, Sancho Pança é o rei da categoria. Não existe um momento para este escudeiro que não precise ou seja necessário um bom ditado popular. E, acredite, até mesmo alguns ditados possuem uma história sobre si. 
Na minha família, minha irmã número cinco tem o hábito de dizer "Agora, Inês é morta!". Eu sempre acho engraçada essa frase e, de tanto cismar, procurei o significado. Clique aqui e saberá quem é Inês! ;)

Segundo Navas, o aforismo era tão apreciado por Cervantes que foi um desejo deste escrever apenas um livro com essas máximas filosóficas mas, pelo pouco - ou nenhum, talvez - patrocínio, Cervantes abandonou a ideia é buscou outros rumos. 
Mas repare bem, anônimo leitor, que quando uma ideia chega a cabeça, de uma maneir ou outra torna-se imperativo colaca- lá em prática - direta ou indiretamente ( no caso de Cervantes foi de !odo indireto). Seguindo com Navas

(...) há exemplos numerosos dessa escrita breve, concentrada (...) A Galatéia, Dom Quixote, Novelas Exemplares".

A maior parte estará em Dom Quixote, sem dúvida. Para exemplificar, le-se os seguintes aforismos quixotescos

"Procura descobrir a verdade entre as promessas e dádivas do rico entre os soluços e inoportunidade do pobre"; "Come pouco e janta ainda menos, que a saúde de todo o corpo se forja na cozinha do estômago"; "Não desejes e serás o mais rico homem do mundo".

O mais interessante nas obras de Cervantes é que o aforismo não estava fora do contexto que seus personagens a citavam, isso torna mais rico ainda a construção literária dos livros de Cervantes e, também é as mazelas da vida particular foram decisivas para a dedicação do espanhol na escolha de quais sentenças utilizar na sua produção textual.

Bom, leitor, não quero mais prolongar minhas palavras para este artigo; e, termino esta publicação com meu aforismo favorit em O Engenhoso Dom Quixote de La Mancha

"...aquele que não tenciona satisfazer não regateia condições no contratar"

Omnia Vanitas.

NAVAS, Adolfo Montejo. Sentenças e Aforismos; página 46 à 53. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



28 de julho de 2016

A Obra-Prima de Cervantes..


Primeira Parte: Cervantes de Seu Tempo
Segunda Parte: Por que Ler o Clássico
Terceira Parte: O Retrato e a Escrita (nesta publicação há dois outros links - no final - que ajudam de complemento)
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Depois de ler sobre o tempo, a vida e a escrita de Cervantes, chegou o momento de escrever sobre a obra deste espanhol.

A proposta de Sérgio Molina é de esquecer tudo o que já foi escrito sobre a obra. Sim, esforçado leitor, deixe de lado todas as referências já feitas para Cervantes e Dom Quixote é mire o alvo para a obra em si.
Em alguns pontos eu concordo com Molina: muito é dito sobre a obra e pouco dela é lida.  Vou lhe dar um dica, confuso leitor: quando ouve-se o nome próprio Quixote a primeira imagem que surge na cabeça na cabeça do ouvinte é um moinho de vento; mas a obra de Cervantes vai além da alucinação do protagonista.

O autor deste artigo apresenta um conselho já debatido - uma quimera muito semelhante ao Quixote: "aconselha ao leitor despojar-se de toda a ideia preconcebida e aproximar-se da obra com a mente limpa e o coração puro".

Sabendo que esta sugestão é impossível de ser aplicada e que a visão imposta por mecanismos de comunicação não é fácil de suplantar, Molina apresenta suas impressões sobre a obra de Cervantes:

"(...) compartilhar impressões nascidas de minha experiência de leitura e reescritura, situado num lugar que não é nem o do leitor acadêmico, nem o do leigo, nem o do escritor, mas onde chegam as três vozes".

E lá se vai Molina, tirando de Cervantes as construções literárias que já foram escritas através do tempo - conclua você, letrado leitor, se isso é bom ou não.

Uma das pontuações de Molina é visto já no título do livro do espanhol: "O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha". Se você notou, culto leitor, parabéns! À mim passou sem percepção o dualismo de títulos sociais que Alonso Quijana (Quesada, Quijada  ou Quijano) atribui à sim. Para ser sincera, fidalgo ele já era, mas o título de Dom não é algo que se deva utilizar à mesma pessoa e, Molina esclarece a nossa razão:

"(...) O que interessa observar aqui, em primeiro lugar, é a contradição entre don e fidalgo. Este, situado no nível mais baixo da hierarquia nobiliárquica, a rigor nunca poderia ostentar essa marca de status, reservada às altas-rodas dos caballeros e grandes de Espanha. Uma apropriação indébita que já não era incomum na época, mas ainda vista, quando menos, como um censurável desatino".
Mas a investida não pára: 

"(...) se o fidalguete pode tomar para si tal don porque estava doido, como se explica o qualificativo de 'engenhosos', que lhe atribui uma excelência intelectual? (...) Uma faculdade (...) caracterizada sobretudo pela elegância e inteligência no falar: o discreto".

Bom, desocupado leitor, isso é tudo o que tenho a escrever sobre o artigo de Sérgio Molina. O estudo que ele propôs foi uma leitura sem vínculos viciosos, mas nada pode acrescentar daquilo que já se sabe sobre a narrativa louca e racional de Quixote ou da malícia e parvorice de Sancho Pança. As pontuações que li, para mim, nada mais são do que citações da obra e observações comuns do texto, por exemplo:

"(...) personagens entram voluntária e alegremente no faz-de-conta do maníaco*. (...) É para livrar-se do hóspede problemático que um estalajadeiro se finge cavaleiro castelão (...); é para despachar um barbeiro impertinente que se inventa um judiciosa tribunal dedicado a dirimir dúvidas absurdas quanto à aparência de dois objetos banais; é para reconduzir Dom Quixote à aldeia que seus amigos montam a farsa de uma princesa destronada e a pantomima dos feiticeiros-profetas".
Veja só o que ele fez: referiu-se às cenas sem acrescentar nada do que o leitor menos interessado consegue observar. 

Por isso, limito minha publicação nesta altura, sem mais nada acrescentar.  E, para justificar o (*) na citação acima, não concordo com o termo usado por Molina para descrever Dom Quixote.

Omnia Vanitas.
MOLINA, Sérgio. A obra-prima; página 33 à 45. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

27 de julho de 2016

O Retrato e a Escrita de Cervantes


Sabe as corriqueiras fotos de Miguel de Cervantes que encontramos na internet? Falsas. Sim, enganado leitor.

Nenhum retrato de Cervantes que foi apresentado ao público é uma representação fiel dos traços da fisionomia deste espanhol. Veja, iludido leitor, no que Viera nos elucida: ela escreve que nenhum retrato fidedigno deste espanhol, exceto aquele que ele mesmo descreve em seu prólogo de Novelas Exemplares. Como sou boa moça, tenho esta citação caricatura em uma publicação feita na época que li a obra em menção; então, clique aqui e saberás sobre o que ela escreveu.

Não há quem escreva sobre o escritor, por esse motivo, ele introduz um "amigo" que lhe descreve - porém, este amigo é o próprio Cervantes escrevendo sobre si. Vieira escreve o seguinte:

"A presença do 'amigo' não se dá apenas no prólogo das Novelas Exemplares. Trata-se de um recurso recorrente nos prólogos cervantinos, usando a primeira pessoas num discurso supostamente referencial, multiplica as vozes, desdobrando-se em um 'ele' que emite opiniões, confunde-se e se contrapõe à voz da primeira pessoa, fazendo com que o próprio autor se converta em uma terceira pessoa, provocando afetos e opiniões divergentes".

Anônimo leitor, você consegue imaginar que um escritor como Cervantes não tenha ninguém para lhe ajudar em um mísero prólogo, tornando-se ele mesmo o enunciador de seu caráter? É muita solidão! Eu mesma fiquei  triste ao descobrir o descaso que cobria este escritor na sua contemporaneidade.

Escrevendo Ocho Comedias y Ocho Entremeses, "o autor simula um diálogo com um livreiro que o acaba convencendo a publicar suas peças teatrais, já que elas não produziram interesse entre os diretores de companhias e corriam, assim, o risco de se perderem entre velhos papéis".  E, no dias finais que lhe vinham, ele se despede dos leitores com a seguinte frase:

"Adeus, graças; adeus, donaires, adeus jubilosos amigos; pois me vou morrendo, e desejando logo vos ver contentes na outra vida!"

...mas no prólogo desta obra, ele se depara com um "estudante" que é grande admirados do "Manco de Lepanto", e esta fantasiosa pessoa cita as qualidades do espanhol. Segundo Vieira o encômio do estudante se contrapõe à modéstia do autor e, e cita Jean Canavaggio ao acrescentar esta atitude "como a voz do reconhecimento que o próprio escritor planejava para si mesmo em suas derradeiras horas de vida".

Não é apenas o retrato que não conhecido do escritor, é o próprio escritor desconhecido para todos. 

Mas Cervantes não era desprovido de referências literárias, conforme escreve Vieira:

"É muito provável que Cervantes tenha tido contato com os teóricos italianos, sobretudo no período italianos, sobretudo no período em que viveu na Itália, mas também com as perspectivas espanholas (...). Além de orientações teóricas, Cervantes leu profundamente obras literárias e estabeleceu intenso diálogo com várias formas, não apenas com as novelas de cavalaria, mas também com os demais gêneros e conceitos. Desse modo, é plenamente possível ler as andanças do cavaleiro manchego como uma obra sobre a própria literatura, em toda sua complexidade". 

Cervantes tem uma preocupação ao escrever suas histórias: torná-las acessíveis tanto para leigos como para instruídos; ou "vulgares" e "discretos". Viera faz a descrição destas duas categorias, lê-se:

"Os leitores discretos seriam os leitores cultos e com discernimento, enquanto os vulgares seriam os incultos e néscios, mostrando completa incapacidade para discriminar. O discreto seria aquele leitor capaz de observar nuances no modo de contar, estando atendo aos percursos engenhosos do narrador, enquanto o vulgar ficaria limitado ao aspecto anedótico da narrativa, sem notar a gama de artifícios que ela contém. (...) Cada uma das espécies de leitores teria seu lugar garantido na obra, de maneira que ela pudesse agradar tanto o mais refinado, preocupado com a construção engenhosa, quanto ao que se limita ao aspecto puramente anedótico da narração".

E não era apenas essa característica que tornou as obras de Cervantes a dulcineia* de muitos leitores, o escritor mantinha-se fiel ao requisito principal para escrever uma obra no seu tempo: ser verossímil. Escreveu Vieira:

"Outro princípio fundamental no século XVI era o da verossimilhança. A narrativa que não a respeitasse corria o risco de ser classificada como totalmente  disparatada, equiparada às fábulas milésias, que buscavam apenas o deleite e não o ensinamento. (...) Como dizia Pinciano, o critério da literatura criativa era o de fingir de forma plausível, provocando admiração no leitor e ainda respeitando o princípio do utile dulce de fazer coincidir o ensinamento com o deleite".

E, para finalizar este artigo composto por Maria Augusta da Costa Vieira, escreve-se o seguinte, nas palavras de Cervantes em Novelas Exemplares, citada pela autora:
"Minha tentativa foi colocar na praça de nossa república uma mesa de bilha, onde cada um pode chegar e entreter-se sem danos alheios, digo, sem dano da alma nem do corpo, porque os exercícios honestos e agradáveis antes favorecem que prejudicam".

Omnias Vanitas.

*querida, namorada, amada

VIEIRA, Maria Augusta da Costa. Por que Ler o Clássico; página 25 à 31. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



Primeira Parte: Cervantes e Seu Tempo
Segunda Parte: Por que Ler o Clássico
Leitura Complementar: entrevista feita pela Folha com a BNE em abril/2016.
Entrevista de Maria Augusta da Costa Vieira: Literatura Fundamental.


Por que Ler o Clássico Dom Quixote..


Caro leitor, eu achei a publicação anterior um pouco longa; então, para deixar um pouco menos longa, eu resolvi dividir este artigo de Maria Augusta da Costa Vieira em duas partes - talvez três. A dona Maria tem este artigo intitulado como "Por que Ler o Clássico". E, ainda falando um pouco do autor, eu vou pegar a escrita dela para acrescentar o que não foi escrito pelo Lopes. Sigamos, honorável leitor.

Viera se utiliza do mesmo argumento de Lopes ( e de qualquer pesquisador de Miguel de Cervantes) afirmando que o pouco material deixado pelos contemporâneos de Miguelito - e pelo próprio - não permite que a vida do espanhol seja explorada e entendida por aqueles que  sucederam sua época. Sendo assim, Viera acrescenta:

"(Cervantes) não deixou escritos que pudessem definir suas idéias acerca da poética e da literatura em geral (...). Cervantes não deu margem a esse tipo de especulação, que, sem dúvida, poderia permitir e estimular suspeitos cruzamentos entre aspectos biográficos e produção artística. Assim, não há registro de cartas, debates ou polêmicas travados com outros escritores e com a intelectualidade da época e, menos ainda, manifestos sobre seu !ido de entender a arte da composição literária. Cervantes foi !muito mais habilidoso: deixou uma obra em prosa e em poesia repleta de discussões e controvérsias sobre a literatura".

Um ponto que eu não havia lido sobre a biografia do espanhol é que sua origem pudesse ser judaica. Segundo Vieira, a profissão do pai, Rodrigo, que hoje corresponde a atividade sanitária (cirurgião) e as várias mudanças de local - tão comum entre os judeus que mudam-se constantemente em busca de lugares mais rentáveis financeiramente - conotam um caráter judaico aos pais de Cervantes.
Maria Augusta também descreverá a fuga da Justiça pela condenação que o aguardava por haver agredido um homem e, também, registrará a marcante participação de Cervantes na Guerra de Lepanto  que ocasionou o ferimento que inutilizou permanentemente a mão esquerda do espanhol.

Como já escreveu Lopes, em 1585 houve a publicação do A Galatéia; mas Viera acrescenta que a boa receptividade desta primeira publicação desencadeia, após cinco anos, a segunda edição. E, assim como Lopes, apresenta um leitor estrangeiro mais ávido para ler os escritos de Cervantes do que a pátria que o pariu.
O interesse neste patrício escritor desconhecido é motivo de conversa entre seus personagens dentro de Dom Quixote:

"Muitos anos há que é grande amigo meu esse Cervantes, e sei que é versado em desventuras que em versos. Seu livro tem algo de boa invenção; propoe algo e concluí nada: é mister esperar a segunda parte que promete" {Dom Quixote  I, VI}.

Depois de A Galatéia, Cervantes escreveu peças de teatro (a coqueluche daquela época) e listo A Destruição de Numancia como uma das obras rejeitadas por espanhóis e acolhida por alemães.

Segundo Vieira, Cervantes fica sem registro algum de 1598 e 1604 quando está prestes a lançar Dom Quixote. Sobre este período, ela escreve:

"Entre 1598 e 1604, pouco se sabe sobre Cervantes e de sua família. No entanto, às vésperas da publicação da primeira parte do Dom Quixote, sabe-se que reside em Valhadoli, ao lado da esposa, de duas irmãs, de uma sobrinha e da filha". 

Conforme um estudo de Roger Chartier em 2005, entre 1605 e 1615 ( ano de publicação da segunda parte de Dom Quixote)

"calcula-se que tenham sido publicados 13.500 exemplares da primeira parte da obra, divididos em nove edições (três em Madri, duas em Milão, duas em Lisboa, uma em Valência, uma em Milão e duas em Bruxelas), cifra surpreendente para uma época em que o número de leitores ainda era bastante reduzido".

A corte real tem consigo uma vasta fila de seguidores, então, quando está se instala em Madri, Cervantes encontra a possibilidade de se fazer valorizar ingressando na Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1606 e, poucos dias antes da sua morte em 1616, faz votos e encomenda dez missas para sua alma através da Ordem Terceira de São Francisco onde inicou três anos antes.

Quero fechar esta publicação com algo que deixa os atuais pesquisadores sobre a vida de Miguelito com pulga na cama:

"Deixou encomendadas dez missas pela intenção de sua alma e foi enterrado com o hábito dos franciscanos, no convento dos trinitários, em Madri: uma vida dedicada às armas e às letras. Sua filha, Isabel, morre em 1652 sem deixar herdeiros, quando os demais membros da família já haviam falecido, encerrando assim a história da família Cervantes y Saavedra".

VIEIRA, Maria Augusta da Costa. Por que Ler o Clássico; página 18 à 25.. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

Primeira publicação: Cervantes e Seu Tempo



26 de julho de 2016

Cervantes e seu Tempo..


Fim da primeira parte da leitura sobre a biografia de Cervantes.
Este artigo foi escrito por Marcos Antônio Lopes* e contempla momento histórico  contemporâneo do espanhol. Como meu conhecimento de história é pequeno, não tenho muito o que a acrescentar como nota.

Agora, segue alguns apontamentos que considerei interessantes:

Inicialmente, Lopes declara que ler Dom Quixote é estar em uma aula de história "de valores culturais e de mitologia clássica. Há uma saraivada infernal de erudição greco-romano nesse longo livro. E as referências à cultura árabe fazem coro". E logo você saberá, inquieto leitor, o motivo da cultura árabe fazer parte da narrativa cervantina.

É de sabedoria popular que Cervantes faz uma sátira à Cavalaria Andante, mas é útil saber o mínimo sobre o que realmente era esse título para entender o que estava sendo satirizado. Lopes explica da seguinte maneira:

"(...) O romance cavaleiresco fundia elementos sagrados e profanos: guerras, milagres, amor e aventura eram os principais ingredientes. Durante a Idade Média, o cavaleiro era um servo de Cristo e, a partir dos séculos XII e XIII, as guerras que travava tinham as suas normas estabelecidas pela igreja. A Cavalaria tornou-se um estilo de vida marcado por regras de civilidade definidas pelas autoridades eclesiásticas (...)".

O cavaleiro perdeu o aspecto secular e incorporou uma conotação religiosa que incluía combater os vícios morais e perseguir os malfeitores.

Lopes ainda acrescenta:

" (...) Os romances de Cavalaria descrevem as sociedades aristocráticas, muito ocupadas com os torneios, que substituíam as guerras privadas e as pilhagens das épocas anteriores. O romance de Cavalaria foi o primeiro gênero literário de alcance continental escrito nas línguas vernáculas emergentes. Essa literatura foi bem além da Europa. No século XVI, livros de Cavalaria chegaram as Índias de Castela, pelas mãos dos comandos de Cortez e Pizarro (...)".

Ao escrever Dom Quixote, Cervantes faz uma analogia saudosa e irônica das façanhas de personagens literários como Amadis de Gaula e Ivanhoe; torna cômico os feitos honrosos destes personagens que, antes, compunham o ideal romanesco de uma época.  Até mesmo a repentina cura corporal de Quixote depois das lutas é um modo irônico de apresentar a outrora figura heroica; a bravura do Cavaleiro da Triste Figura pode ser vista como uma zombaria e a recuperação sobrenatural que o acompanha após cada valente luta segue o mesmo viés: como se esses seres extraordinários possuíssem poderes miraculosos em sua constituição humana.

Por não pertencer ao seu tempo, Quixote torna-se um louco para aqueles com quem socializar, por esse motivo, muitos se aproveitam da sua " loucura". Mas até mesmo essa loucura é questionável - mas isso fica para depois.
Os maus agouros do personagem são um reflexo da vida pobre e malfadada do escritor. Preso inúmeras vezes e sem o reconhecimento merecido, Cervantes viu seu livro Dom Quixote de La Mancha circular na sociedade espanhola e mesmo assim não ter um tostão nos bolsos. Mas deixe-me voltar um pouco na história.

Nascido em 29 de setembro de 1547 - sendo esta a data mais aceita pela maioria dos historiadores, Cervantes foi filho de Rodrigo de Cervantes e Leonor de Cortinas. A profissão do pai era de cirurgião (sangrias) e as dívidas que este contraiu o fez ir para a prisão - lugar que o filho conheceria de maneira particular ao longo da vida. 
Lopes escreve:

"Aos 22 anos, em 1569, Cervantes seguiu para a Itália. É provável que estivesse fugindo das sanções que teriam recaído sobre ele sobre ele por ter ferido um adversário em duelo. Em Roma, tornou-se camareiro do cardeal Acquaviva, cargo que ocupou por alguns meses. Pouco tempo depois, alistou-se como soldado nos exércitos da Santa Liga, para combater a expansão dos turcos otomanos pela Europa Central. (...) Em seus anos italianos, pode, pela primeira vez na vida, comer com regularidade. (...) À procura de prêmios e distinções, nos finais de 1571, Miguel de Cervantes estava no norte da Grécia, a bordo de um dos navios da esquadra comandada por D. João da Áustria (...). E foi exatamente em Lepanto, no norte da Grécia, que se deu o choque entre a Cristandade e o Islã. Doente no porão de um navio, o jovem soldado quis tomar parte na batalha. (...) Recebeu três ferimentos de arcabuz, um dois quais lhe inutilizou os movimentos da mão esquerda pelo resto da sua vida. (...) Em sua tentativa de regresso à Espanha, em 1575, ilusões de distinção e honrarias levaram-no a crer que estava com a vida ganha (...). Mas, entre o prenúncio desses tempos róseos e a efetiva realização das conquistas literárias idealizadas por Cervantes, estavam os piratas berberes do Mediterrâneo (...). As altas expectativas do valente soldado foram resfriadas por cinco anos de cativeiro entre os mouros do norte da África".

E, ao voltar do cativeiro, encontrou seu país em declínio e, em consequência, seus patronos detronados; mesmo assim, A Galatéia é lançada em 1585 e casou-se nesta mesma época com Catarina de Salazar - vinte anos mais jovem que ele.
Tentando a carreira de escritor teatral, viu seu sonho ruir através da crítica. Procurou emprego fora dos vinhedos e olivais que compunham a herança matrimonial da esposa, e foi ser cobrador de impostos - o que o levou a experimentar à contra gosto a prisão. 

Quando Dom Quixote foi lançado no início do século XVII, "já são característicos da agonia da Espanha (...). O momento de criação da obra é o da acentuação da crise econômica do império espanhol".
O motivo desse declínio se dá porque os sucessores de Felipe II  já estavam mortos e o reino foi para a mão de pessoas da corte que não tinham bom caráter para administrar o trono. Muito dinheiro foi gasto sem que nada do que foi feito deu ao perdido trono uma recuperação nacional da crise.

Ao terminar a primeira parte de Dom Quixote de La Mancha, Cervantes contava a idade de 58 anos - e a sua situação econômica não estava diferente daquela que levava antes da miserável fama.

Desocupado leitor, este foi o fim da primeira parte sobre a vida de Cervantes e, como anuncia o título, fala do tempo histórico o espanhol vivenciou. 

Omnia Vanitas.

*LOPES, Marcos Antônio. Cervantes e seu tempo; página 6 à 17. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

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