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27 de julho de 2026

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio


 

Olá, abandonado leitor! 

Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a história ainda não se desenvolveu direito; porém, o que chamou minha atenção foi o prefácio e tradução de Paulo Rónai (Rónai Pal). O primeiro texto que conheci de Rónai foi na faculdade de Letras, na matéria (infelizmente curta) de Latim: Gradus Primus. Como fiquei apaixonada por esse estudo (apesar de não ser boa neste assunto), o nome de autor ficou gravado na minha memória. 

Nesta edição com a tradução e notas de Rónai, eu não pude deixar de notar o esmero que há neste trabalho. Primeiramente, o Prefácio é algo que está além de falar sobre o livro; ele apresenta a língua húngara (também sua língua nativa) e como houve uma certa barreira em levar a literatura húngara para outras partes do mundo; e  a história de um povo que mudou de região e teve que levar sua língua para outros lugares que não conheciam seu idioma. 

"Os Meninos da Rua Paulo" foi apresentado aos brasileiros em 1952 - através de Rónai pela editora Saraiva. E, uma história infantil escrita por um homem saudoso da sua terra natal, atingiu o coração dos leitores. O tradutor apresenta dois exemplos de amigos que lhes escreveram para parabenizá-lo pelo trabalho; e um deles deixou uma frase que me chamou a atenção: 

"O mundo é um só, meu caro. Pena que os donos da vida continuem a dividi-lo para proveito próprio" (p.11).

E neste ponto, chego a outra observação do tradutor que chamou minha atenção: que existem literaturas escritas para adultos que são adaptadas para o público infanto-juvenil. Porém, há literatura juvenil adotada por adultos - assim como "Os Meninos da Rua Paulo" pela sua semelhança com a vida do leitor - mesmo sendo um brasileiro lendo uma história de adolescentes de Budapeste, porque "o mundo é um só, meu caro".  Esse é o poder da literatura! 

Além do prefácio, as notas que Paulo Rónai deixa no rodapé do texto são singulares. Todas as vezes que um leitor tem contato com leitura estrangeira (fora as línguas mais conhecidas como inglês e espanhol), não vemos uma iniciativa de apresentar a fonética deste idioma para o leitor - apenas somos deixados por conta própria para decifrar a pronúncia deste nome ou aquele. Porém, Rónai teve o apuro de apresentar sua língua e fonética para os leitores: 

- Csengey - pronuncía-se Tchênguei

- Nemecsek - pronuncía-se Nêmetchek

- Krajcár - pronuncía-se cráitsar. 

Outra coisa que chamou minha atenção foi como foi mantida a tradução de Rónai ao leitor brasileiro com  um glossário de Nelson Ascher para palavras do português pouco usadas como: verberou (censurou, repreendeu), magote (bando), esfaimados (famintos). 

Essa permanência em manter a tradução original me lembrou o quanto Ernani Ssó trouxe a tradução de Dom Quixote (ed. Penguin) para uma "realidade" brasileira e, transformou o "rocim" em "pangaré"; ou, o que fez Sérgio Molina (também para Dom Quixote) transformou a raça do cachorro do protagonista (galgo) em  "bom cão". Esse tipo de ofensa ao texto original é uma forma de diminuir a obra do dito autor. Quando Ssó transforma o "rocim" em "pangaré" ele esquece que esta palavra arrancada do texto deixa de fazer sentido com o próprio nome do cavalo de Dom Quixote - Rociante (o ante-Rocim, ou seja, o primeiro rocim da história da cavalaria andante). Ou como Molina deixa algo tão característico como a magreza do dono, do cavalo e do cão como uma figura só. 

Por hoje é só, eu apenas quis deixar  registrado o apreço pelo prefácio e tradução antes mesmo de me deliciar com a história. 

Omnia Vanitas 💀

Publicado: 27/07/26. Editado: 28/07/26

Título: Os Meninos da Rua Paulo
Autor: Fenrec Molnár
Tradução, Prefácio e notas: Paulo Rónai
Revisão e Tradução: Aurélio Buarque de Holanda
Posfácio e Notas: Nelson Ascher

Ilustrações: Tibor Gregely

Editora: Cosac Naify



9 de outubro de 2025

Leitura 15


Olá, destruído leitor! 

Neste mês, eu resolvi ler somente livros juvenis ou infantis - livros que fizeram parte da minha infância e anos adiante. Alguns eu consegui achar em sebos, outros eu adquiri novos. Alguns autores foram descobertos na fase adulta e assim por diante. Eu sou apaixonada por livros infanto-juvenis pelo simples fato de muitos escritores saberem expressar bons valores e esculpir o caráter de uma criança através da leitura. Escrevo isso por experiência própria. Alguns anos atrás eu fiz uma releitura dos livros que li na fase adolescente e tive o prazer de saber que os meus gostos e escolhas na fase adulta estavam naquelas linhas que me ensinaram de forma suave um pouco sobre a vida. 

Quando eu estava no Ginásio eu lembro de começar a frequentar mais a biblioteca da escola. Lá eu conheci Johanna Spyri - que mora no meu coração desde aquela época; Maria Gripe - que me encantou com "A filha do papai Pelerine", Michel Quoist com o seu inesquecível "Diário de Ana Maria" - o que me fez amar escrever diários e escrever cartas até hoje, Urda Alice Klueger e seu "Verde Vale" - que foi o livro que fez minha mãe gostar de ler. Neste mesma época eu peguei, pela primeira vez, "Meu Pé de Laranja Lima". Estava no início do primeiro capítulo quando minha professora de Língua Portuguesa, dona Edith, me viu com o livro na mão e disse: "Que bom que você está lendo esse livro, Adelita. Em que parte você está?". Eu disse que estava no começo do livro mas que não iria ler mais porque não gostei. "Que pena" ela respondeu "agora que começaria a conversar com o pé de laranja lima". Mesmo assim, abandonei o livro.

A primeira leitura que fiz de um livro do José Mauro de Vasconcelos foi "Coração de Vidro". Isso aconteceu no início do meu casamento, o exemplar eu peguei na casa da minha mãe (como ele foi parar lá é uma história longa). Achei o livro incrível! Uma história com uma sensibilidade linda de ler. 
E neste mês, com três décadas de atraso, resolvi seguir o conselho da dona Edith e começar novamente a leitura de "O Meu Pé de Laranja Lima". 

Comecei a leitura em uma segunda-feira e terminei hoje, quinta-feira (da mesma semana). Logo nas primeiras páginas, esse livro me deu um nó peito - eu sabia que seriam pouquíssimos os momentos de alívio durante a leitura. 
Zezé - José Mauro de Vasconcelos - aprendeu a ler sozinho aos cinco anos. Para que ele entrasse nas escola, a família disse que ele tinha seis. Eu não tenho como descrever o quando Zezé era encantador em sua sensibilidade e na sua imaginação. 
Em uma família que dizia que ele era o diabo (pelas travessuras que eram castigas com surras severas); e na escola em que a professora o via como um anjo pela sua empatia com os menos afortunados que ele - Zezé encontrou o seu verdadeiro lar através daqueles que buscavam e viam o seu melhor - além das travessuras de uma criança esquecida por quase todos de sua prole. 
Na primeira parte do livro, o nó no meu peito estava quieto e contido, porém, na segunda parte e capítulos finais eu simplesmente lia aos prantos - e não estou exagerando. Eu não conseguia parar de chorar. José Mauro de Vasconcelos me fez entender coisas da minha infância que eu não queria entender, me fez lembrar de coisas que eu não queria lembrar e em tudo isso eu só sabia chorar. Quando meu Marido ligou para mim hoje de manhã e perguntou como foi o final do livro, meus olhos se encheram de lágrimas eu disse "Preciso me concentrar para não chorar", e pedi para desligar. Meu Marido é um homem sensacional.

Se eu recomendo a leitura de "O Meu Pé de Laranja Lima"? Sim. Ele vai acabar com você? Sim. E você vai recomendar essa leitura para outras pessoas? Sim.
Coloque na sua lista, choroso leitor, outro livro para destruir seu coração, também: "O Cristal Polonês" de Letícia Wierzchowski e bom trauma (risos).

Omnia Vanitas 💀
 

1 de outubro de 2025

Soneto - O Véu Pintado

 


Olá, desconhecido Leitor ! Hoje, eu tive o prazer de descobrir que o título da minha leitura atual "O Véu Pintado" foi inspirado em um soneto de Mary Shelley - autora de Frankenstein ! Nunca estive empenhada em descobrir esta frase no início do livro, sempre dirigi minha atenção para a última frase de Walter "O cão foi que morreu" (clique aqui).

Deixo para você, poético leitor, este soneto que inspirou o título deste livro encantador: O Véu Pintado


Não levantes o véu pintado que aqueles que vivem
chamam de Vida: embora formas irreais sejam retratadas ali,
E ele apenas imite tudo o que acreditaríamos
Com cores espalhadas ociosamente, — atrás, espreitam Medo
e Esperança, Destinos gêmeos; que sempre tecem
Suas sombras, sobre o abismo, cego e sombrio.
Eu conheci alguém que o levantou — ele procurou,
Pois seu coração perdido era terno, coisas para amar,
Mas não as encontrou, ai! Nem havia nada Que
o mundo contenha, o que ele pudesse aprovar.
Através dos muitos desatentos ele se moveu,
Um esplendor entre sombras, uma mancha brilhante
Sobre esta cena sombria, um Espírito que se esforçou
Pela verdade, e como o Pregador não a encontrou.


Soneto encontrado aqui . Em outro momento eu pretende escrever sobre a relação desta inspiração com o romance. 

Omnia Vanitas 💀

30 de setembro de 2025

Leitura 13


Olá, esquecido leitor !

Nesta última leitura do mês, eu decidi reler um livro que tenho apreço: O Véu Pintado, de William Somerset Maugham. 

Por que eu gosto ? Porque ele é simples na narrativa e o arco de crescimento da protagonista é incrível! 

Kitty Fane casou-se com Walter pelo simples fato de não querer ver sua irmã mais nova casar-se antes dela. Porém, não soube escolher seu marido. Ele a ama, pelo menos assim ele declara. Ele cuida dela com toda afeição, envolve-se nas distrações que deixam Kitty satisfeita (mas não feliz). Durante uma saída social, Kitty encontra Charlie - um sedutor pseudo-elegante (o melhor que tem na região). Tornam-se amantes até o momento que Walter descobre o caso entre ambos. Rebaixada pelo marido e abandonada pelo amante, Kitty está sozinha em um lugar desconhecido e numa sociedade que não aceita muito bem o divórcio (anos 20). 

No lugar fictício de Mei-tan-fu (China) - envolvido em uma epidemia de cólera - Kitty vive dias insípidos e longos na companhia de Waddington - um homem que trabalha na alfândega, sem nenhum atrativo físico e um gosto excessivo pela bebida. No primeiro momento que saem da casa de Kitty e Walter, eles estão na seguinte cena que me chamou a atenção desta vez: 

"Subiram a colina ate chegarem no arco. Era mum monumento ricamente esculpido. Fantástico, irônico, erguia-se como um marco sobre a região vizinha. Sentaram-se no pedestal e ficaram a olhar a planície. A colina estava semeada dos montículos verdes dos mortos, não em linhas regulares mas desordenadamente, dando a impressão de que eles se acotovelavam embaixo da terra. A vereda estreita serpeava entre os verdes arrozais. Um menino montado no pescoço de um búfalo dirigia-o vagarosamente para casa, e três campônios de enormes chapéus de palha avançavam lerdos como o corpo vergado sob os seus fardos".

Permita-me, desocupado leitor, dividir convosco minha visão desta cena que Waddington e Kitty assistiam. 

Primeiramente, eles estavam sentados em uma visão privilegiada - o que é realmente o que vivem, pois por serem estrangeiros e brancos possuem um status social superior aos nativos. Eles estão, neste caso, acima da morte" - pois os montes (jazigos sem indicação) estão amontados como desconhecidos. Em uma parte da narrativa, eles declaram que em Mei-tan-fu as pessoas morrem como moscas. Exatamente isso, vidas que são dispensadas rapidamente de forma aleatória em um cemitério desordenado na paisagem dos arrozais - fonte de vida da região. 

Em segundo lugar (e último), um menino vem cadenciando um búfalo manso. A vida na forma de uma criança montada em um animal que a leva para casa. Criei (por não imaginar do Maugham tenha tido essa ideia) que a representação da criança é sempre a esperança, o futuro; enquanto três homens curvados pelo fardo do trabalho seguiam atrás dele. Nestes três homens eu vejo a representação das Parcas: Nona, Décima e Morta. Na mitologia grega elas são chamadas de Moiras (mas a função é mesma): dar a vida, tecer esse fio da vida, e cortar o fio (morte). É o destino do homem (menino) seguindo até em casa - se o caminho é longo ou curto, não cabe a ele saber. 

Então é isso, leitor desconhecido, que eu pensei quando li esta passagem nesta manhã, e não sosseguei até escrevê-lo aqui. 


Omnia Vanitas 💀

 

17 de junho de 2023

O caso do cachorro ..


 Olá, esquecido leitor ! 

 Apesar de passar muito tempo longe deste blog, tentei voltar algumas vezes mas o tempo nem sempre está do meu lado e, também, eu não sabia como colocar os pensamentos em ordem para escrever.

Portanto, ..

Vamos lá, anônimo leitor,  vou tentar escrever algumas loucuras por aqui .

Em Dezembro de 2021 eu comecei a ler "Le tour du monde en 80 jours" de Jules Verne. E foi um desafio enorme ler uma obra integral em língua francesa - eu tenho uma coleção de literatura infanto-juvenil muito legal do Petit Nicolas que me ajuda com um pouco de vocabulário e para não "enferrujar" meu francês. Porém, eu sempre digo a mim mesma que se eu não mudar o autor ou estilo literario, estarei fadada à um vocabulário restrito pois, acredito que cada escritor tem suas palavras "preferidas" e seu jeito de escrever peculiar para formar uma linha de pensamento. Ler os livros de René Goscinny sobre as aventuras do pequeno Nicolau é muito divertido, porém, é limitado para seguir somente neste caminho. Portanto, pular de Goscinny para Verne foi um salto bem distante. Quando comecei a ler "Le tour du monde.." eu me abasteci de post-it, lápis e dicionários on line em língua francesa. Levei mais de um mês para terminar a leitura deste clássico de Jules Verner, muita borracha usada, muitas pausas para entender, absorver e pensar e não pirar (principalmente, não parar).

Depois desta leitura, eu precisei "descansar" minha alma e voltei a ler Goscinny. Mas fraquejei no quesito de não ler somente as aventuras do pequeno Nicolau. 

Ano passado, eu tentei ler um livro do meu querido Alexandre Dumas (pai); Georges. Ironicamente, eu não sabia que tinha uma cópia em língua portuguesa deste livro (Jorge, ou Capitão dos Piratas). Cedi a tentação de ler no meu idioma e abandonei, depois de três folhas, a leitura de Georges. Voltei para minha área de conforto: Petit Nicolas.

Neste ano, ainda com uma leitura de Petit Nicolas na lista deste ano, me desafiei a ler "La tulipe noire". Parei logo nas primeiras páginas pois sabia que seria um passo grande para mim. Deixe-me fazê-lo entender, desanimado leitor, que ler Jules Verne é muito diferente de ler Alexandre Dumas (pai). Dumas é mais descritivo - tudo é adjetivado com riqueza de detalhes enorme e, principalmente, Dumas é um romancista histórico o que trás uma gama de personagens e fatos que nem sempre permitem que o texto seja fácil de entender. Exemplo: minha leitura anterior a atual foi "A Guerra das Mulheres", de Alexandre Dumas (pai). Um livro muito bom! Cheio traição política, vinganças, paixões de caráter duvidoso e tudo mais - recomendo para você, desconhecido leitor; porém, antes de começar a leitura deste romance dumasiano, eu fui procurar o momento histórico que o escritor estava apresentando - e esta pequena paranóia foi de grande ajudar para entender o que se passava no romance, pois, amiguinho e amiguinha, o titio Dumas não tem o hábito de explicar os fatos históricos que ele se propõe a escrever - o leitor que lute! Eu lutei ! E foi bom! Portanto, ler "La tulipe noire" seria um outro mergulho histórico na guerra Franco-Holandesa que eu não estava disposta a começar. Deixei este romance de lado e peguei outro livro do papai Dumas que tenho em casa: "Histoire d'un Casse-noisette" - sim, é um Dumas infantil - pelo menos eu assim o considero.

Agora, determinado leitor, estou chegando onde quero, na leitura deste clássico que é "...Casse-noisette". 

Como eu escrevi anteriormente, Dumas é um escritor de detalhes mínimos e, acrescento agora, vocabulário rebuscado. Muitas das palavras que ele usa para seu texto são consideradas "francês arcaico". Até aí estou indo bem, louco leitor, um dicionário ajuda nesta parte; porém, existe um outro desafio em ler uma literatura estrangeira em língua estrangeira: conhecer os hábitos daquele tempo. Vou explicar esse fato com o que ocorreu nesta minha manhã de estudos/leitura: 


Il y a plus: sur la prière de la petite Marie, qui voyait avec peine le chien de la cuisine tourner la broche, occupation très-fatigante pour le pauvre animal, le parrain Drosselmayer avait consenti à descendre des hauteurs de sa science pour fabriquer un chien automate, lequel tournait maintenant la broche sans aucune douleur ni aucune convoitise, tandis que Turc, qui, au métier qu'il avait fait depuis trois ans, était devenu très-frileux, se chauffait en véritable rentier le museau et les pattes, sans avoir autre chose à faire que de regarder son successeur, qui, une fois remonté, en avait pour une heure faire sa besogne gastronomique sans qu'on eût à s'occuper seulement de lui.


Leitor, como eu vou saber que realmente era um cachorro que cuidava da caçarola?? Eu li, eu compreendi as palavras, busquei o significado de outras, mas como, incrédulo leitor, eu ia saber que era cachorrinho de carne e osso que auxiliava o "cozimento" ? Eu achei que ser tratava de um expressar linguística ou qualquer coisa do tipo; procurei por outras interpretações mas, infelizmente, acabei usando a tradução em língua portuguesa - quando nada funciona, leitor, eu dou esse golpe baixo na minha leitura! E esse foi  o meu caso com cachorro.

Então é isso, leitor! Talvez eu continue a escrever, talvez não.

Omnia vanitas 💀



5 de setembro de 2021

Leitura 20..


 Olá, abandonado leitor ! 

Fim da última leitura de Agosto.

Mesmo não sendo mais tão assídua nesta página, mesmo este não sendo a maior leitura que fiz este ano; eu não quero deixar passar o registro de "A Laguna Azul" (1908) aka, A Lagoa Azul de Henry de Vere Stacpoole.

Depois de ser explorado de modo exaustivo nas telas da televisão dos anos 80 e 90, eu decidi comprar o exemplar (talvez dois anos atrás, não lembro) e ler este clássico oitentista. 

Sim, eu adorei ler este livro! Adorei o frenesi do final e quase chorei com o senhor Lestrange quando ele encontrou Dick e Emelina (e também Ana - o filho do casal de náufragos).


A narrativa não é prolixa. A vida na ilha não é detalhe em seus pormenores como, por exemplo: como um fluído de isqueiro pôde durar oito anos? Ou, como eles suportavam o frio da estação de inverno sendo que não tinham as roupas para a estação - e mesmo se tivessem, não serviriam depois de alguns anos na ilha.

Esses e outros questionamentos para uma vida prática não são respondidos, ou, talvez, o fato de que o homem se adapta à uma nova vida quando a necessidade o obriga seja a resposta. Esses detalhes perdidos ou não necessários, me fizeram lembrar da explicação do Abade Faria para Edmond Dantès em "O Conde de Monte-Cristo" sobre como ele criou, dentro de uma masmorra, papel, pena, vela etc  dentro do cárcere*.

Dick e Emelina chegaram à uma ilha do Pacífico ainda crianças e sem muitas experiências sobre como cuidarem de si. Tiveram como tutor neste pequeno paraíso, um velho bêbado e cheio de crendices  infantis tanto quanto eles. As crianças não sabiam explicar o que sentiam pois não conheciam palavras para esses sentimentos: sejam bons ou ruins. Quando um ciclone atacou a ilha, não souberam dizer que fenômeno natural era aquele: conheciam a chuva e os dias de sol - tudo o mais era inexplicável. Dick falava pouco - era lacônico muitas vezes; uma explicação seja o vocabulário limitado da infância. Até mesmo a gravidez de Emelina não foi explicada: em momento algum o narrador diz que ela estava com uma grande barriga ou mesmo comunicou se houve algum "susto" quando sua primeira menstruação aconteceu. Simplesmente, aceitamos o fato que eles sabiam que os animais tinham crias e, para Emelina, quando ela acordou do desmaiou que teve na floresta, perto de si havia uma criança e quando Dick perguntou sobre o bebê, ela respondeu "Eu o encontrei no mato. (...) Eu me senti muito doente, então fui descansar no mato e não me lembro de mais nada; quando acordei, ele estava lá". O menino, pois era um menino, recebeu o nome de "Ana" pois era "a lembrança de um outro bebê, cujo nome ela ouvira uma vez".

Tudo isso fascina no livro - muitas vezes é preciso adivinhar o que aconteceu justamente por essa falta de ter um nome para a ação ou coisa - o que eu achei muito atraente na leitura - o fato do narrador nos levar a pensar somente explicando o que aconteceu e permitindo que o leitor experimente a limitação dos protagonistas.

"A Laguna Azul" tem duas continuações - não publicadas no Brasil:

- The Garden of God (1923)

- The Gates of Morning (1925)

Talvez eu me arrisque a lê-los em inglês, mas não me comprometerei tão firmemente sobre isso.


Omnia Vanitas 💀


*"(...) Il faut le malheur pour creuser certaines mines mystérieures cachées dans l'intelligence humaine; il faut la pression pour faire éclater la poudre. La captivité a réuni sur un seul point toutes mes facultés flottantes çà et là; elles se sont heurtées dans un espace étroit (...)" - Tome Premier: XVII - La chambre de l'Abbé, page 226. Pocket Classiques nº 6216.

3 de abril de 2021

Leitura três..


 Primeiro King do ano ! Primeira leitura de "Saco de Ossos"! Parabéns para mim! ✌

"Saco de Ossos" conta a história de Mike Nooman, um escritor que sofre um bloqueio de escrita depois da morte de sua esposa, Jo.

Uma das coisas que me fascinou neste livro foi o fato de, pela segunda vez - pelo menos dos livros que eu já li do senhor King, ele cita Maugham. Jo e Mike se conheceram na faculdade e ambos gostavam de ler Maugham. Pouco antes de sua morte, Jo estava lendo "Um Gosto de Seis Vinténs" de William Somerset Maugham. Apaixonei! 

Desesperado pelo seu bloqueio, Mike se muda para sua casa de campo em Castle Rock (lugar fictício que é usado em alguns romances do senhor King). E em meio a sua luta em ajudar um jovem viúva a ter a guarda de sua filha, Mike percebe que além de estar contra um magnata (e avô da criança em disputa) ele também está lutando contra o sobrenatural que habita sua casa - e tenta saber quem está assombrando-o além de sua falecida esposa.

Assim com Derry é guiada pela sua história, Castle Rock conhece o seu mal e não o confronta. A cidade se conforma com aquilo que vive, vira o rosto para as injustiças e aceita como normais rituais infantis para pagar sua dívida com seu passado vergonhoso. E claro, há um saco de ossos na história.

Uma das coisas que me chamou a atenção foi como Stephen King apresenta o mundo editorial para o leitor: as manobras de publicação, a luta para se manter entre os "top 10". E, mais uma vez, o senhor King nos deleita com suas várias citações de autores proeminentes do início da década de noventa. 

Essa ambientação do mundo editorial me fez lembrar outra leitura de King: "Angústia"*. Neste livro o autor apresenta toda a força que o leitor tem sobre seu objeto de desejo: o livro. "Angústia" mostra um leitor ávido por ter seu livro preferido em mãos, e, no caso de Annie Wilkes, tem que ser do jeito que ela quer. 

"Saco de Ossos"  é  uma ótima história bem no estilo King de ser. 


Omnia Vanitas. 💀

Leitura dois..


 

Segunda leitura de 2021 e mais uma releitura ! Até parece que minha estante não está cheia de livros que nunca tiveram a primeira leitura realizada! Um absurdo ! Mas essa sou eu ! 

Mais um Maugham! "O Fio da Navalha" conta a história em primeira pessoa Lawrence Darrel (Larry) um jovem que participa da Primeira Guerra Mundial e, ao perder seu amigo, questiona sua existência e tudo o que pode abarcar esse fim. Larry é órfão e, mesmo noivo de uma bela jovem - Isabel - decide largar a sociedade proeminente em que vive para se tornar um vagabundo. Larry deixa a próspera América do Norte para visitar o velho continente em busca de suas respostas. 

No momento que a América do Norte estava vivendo um crescimento financeiro que só não se tornaria milionário "quem não quisesse", Larry decide que isso não serve para ele pois a vida é mais do que ganhar dinheiro e prosperar materialmente. 

Viajando por vários lugares, conhecendo vários tipos de pessoas, pensamentos, modos de vida, Larry tenta encontrar um fim para suas ânsias. 

Assim como Kitty Fane, Larry expande mais suas emoções, pensamentos e viagens para buscar em todo tipo de fé aquilo que sacie sua necessidade - algo que lhe seja coerente.

Mesmo que às vezes Larry esteja ausente durante a narrativa do autor-personagem, chegará o momento que alguém citará algo sobre sua atual situação que sempre contratará com aqueles que o mencionam. 

A simplicidade de uma vida ainda é cheia de desafios para aqueles que a buscam. 


Omnia Vanitas. 💀

Leitura um..


 

Este é um livro que eu posso reler várias vezes e sempre será a primeira vez. 

"O Véu Pintado" de William Somerset Maugham conta a história de Kitty Fane, uma garota que é desejada por todos os rapazes do seu círculo social mas, sentindo-se ameaçada pelo casamento da sua irmã mais nova (e desajeita) resolve aceitar como marido - para casar antes da irmã - Walter Fane. 

O casamento não lhe agrada mas ela o vive de forma suportável; porém, um novo contato tira-a do marasmo social e arrebata sua existência de um casamento sem paixão. 

Tudo o que Kitty vive após isso é consequência deste caso extraconjugal; seja para o bem ou para o mal, ela aprende algo que não pensava existir: uma vida além da sua existência mesquinha.

Essa transformação gradual de Kitty é o que há de mais lindo na trama: suas ânsias, suas buscas por respostas que parecem estar tão acessíveis, mas, na realidade são mais profundas do que ela pode entender. Cada fonte lhe dá uma dica do que ela pode estar buscando, mas por ela mesma estar perdida, não consegue encontrar fim último. Esta é a melhor parte do romance: a transformação da protagonista para um ser completamente superior àquela do início da trama.

Leiam Maugham!


Omnia Vanitas 💀

Trigésima segunda leitura..


 

Olá, abandonado leitor !

Que loucura ! Deixei este blog sem atualização durante muito tempo! Perdão aos leitores inexistentes desta página! Tive motivo para isso. Plausíveis? Não! Então, vamos à atualização de algumas leituras. 


Emily Brontë e o seu "O Morro dos Ventos Uivantes" foi a minha última leitura de 2020. Que livro, senhoras e senhores! Que força!

Este romance único de Emily Brontë traz a história de Heathcliff e Catherine Earnshaw. Estas duas personagens foram criadas sob o mesmo teto. Ele sendo adotado e ela filha legítima. 

Heathcliff é uma personagem que eu gosto muito por tudo o que ele representa: sua identidade incógnita, seus sentimentos por Catherine, seu tratamento com todos que habitam a cidade (e principalmente sua casa). Ele é o mal que foi trazido para um seio familiar que, ao meu ver, parecia próspero. Porém, o tratamento que ele recebeu de  todos foi retribuído com uma intensidade que poucos souberam entender. 

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um livro singular em alguns aspectos como sua narrativa muito verossímil com a realidade da sua época; para mim, ele tem toda a força da sua autora; possui passagens que são icônicas até os dias atuais. 

Este exemplar da foto tem a tradução da escritora brasileira Rachel de Queiroz.

Omnia Vanitas 💀


29 de dezembro de 2020

Vigésima nona leitura..


Olá, determinado leitor! 

Essa semana que passou, eu terminei a segunda leitura do segundo romance da caçulinha das Brontë, A Senhora de Wildfell Hall. Eu adorei! Incrível!

Este foi o segundo e último romance publicado por Anne Brontë. Sua primeira publicação ocorreu no ano de 1848 e, após a morte da autora, Charlotte Brontë não permitiu que fosse novamente por achar a obra violenta, e, claro, o abuso do álcool era baseada na vida promíscua do irmão e isso não agradou Charlotte. Apenas após a morte de Charlotte este livro voltou a ser publicado - e, também, em algumas edições alguns trechos foram emitidos pelos mesmo motivos que chocaram Charlotte - uma pena. 

Quando eu li Agnes Grey, a figura de Rosalie Murray ficou gravada na minha memória. Em A Senhora de Wildfell Hall essa personagem voltou à minha lembrança. 

Helen é uma jovem rica, órfã de mãe e criada pelos tios. Em sua estadia com os parentes fora da região rural, Helen é pressionada a escolher como futuro marido alguns pretendentes que sua tia acha conveniente para um futuro casamento. Helen descarta as orientações da tia, e, ao encontrar Arthur Huntingdon se apaixona de imediato. Contrariando os conselhos da tia, Helen decide casar com Arthur mesmo sabendo das falhas morais do rapaz - pois ela julgava ser capaz de mudar com seu amor de dedicação ao amado tornado o lar um lugar capaz de demolir os possíveis vícios do marido. Ledo engano. A moralidade de Arthur é decadente em vários aspectos e a protagonista se vê presa em um relacionamento abusivo com poucas chances de sair dele. 

Neste livro Anne Brontë trata com a maior realidade possível o que abuso do álcool pode causar ao usuário e àqueles que lhe são próximos (e íntimos).  Mas, principalmente, Anne nos mostra como os "erros" masculinos eram perdoáveis (e incentivados) em relação à conduta que uma mulher deveria ter. 

A chegada de Helen causa curiosidade na vizinhança: quem é aquela mulher de caráter sisudo, apegada ao filho de modo excessivo, e como pôde alugar uma casa tão velha como aquela e, como seu filho pode ser tão parecido com seu senhorio? 
Helen percebe sua vida se tornar insuportável quando fofocas sobre ela começam a rodar pela região e o seu relacionamento com o senhorio é visto com malícia por Gilbert Markham... então o leitor e apresentado ao seu diário através dos olhos do jovem e apaixonado fazendeiro Markham.

Uma outra situação que chamou a minha atenção foram as mães. A senhora Markham cobre Gilbert de cuidados e atenções - sua alimentação precisa ser preparada assim que ele chega pois mesmo atrasado ele não pode ter uma refeição fria. E ele a trata com pouca educação, às vezes exige que ela saia de perto de si, outras bate a porta ou responde com uma grosseria. 
Desde o início eu não gostei de Gilbert, e o tratamento de menino mimado me deixava com mais desgosto ainda. O mesmo ele fez com Helen: a cena de ele segurando o livro de Lawrence nas mãos e mostrando para a inquilina de Wildfell Hall me deixou irritada! Eu teria tirado o livro da mão dele e dito: "a porta para o senhor sair da minha casa é esta"! Muito mimado! 

Deixo uma nota especial para a gravidez de Helen. Nenhuma menção. A Era Vitoriana não gostava de mostrar uma mulher grávida pois seria uma vergonha saber que as mulheres casadas faziam sexo com seus maridos - porém, em contradição, era preciso que uma mulher tivesse uma prole de número alto para mostrar que era uma mulher capaz de gerar uma família numerosa.
A gravidez de Helen é só dita uma vez quando Huntingdon quer que sua esposa fique longe dele, a desculpa é esta: 

(...) Você anseia pelas brisas frescas de sua casa no campo e vai senti-las em dois dias. E lembre-se de seu estado, querida Helen. De sua saúde depende a saúde, se não a vida, de nossa esperança futura". (p. 225)

Este livro é maravilhoso; eu  o deixarei sempre perto de mim para uma pronta releitura! 


8 de novembro de 2020

Vigésima oitava leitura..


 

Olá, leitor anônimo!

Depois de ler Os Manuscritos Perdidos de Charlotte Brontë, eu senti falta da irmã mais nova, Anne; portanto, decidi ler, pela primeira vez, Agnes Grey.

Anne Brontë possui dois romances publicados além de poemas que publicou juntamente com as irmãs Charlotte e Emily.  O primeiro romance da escritora caçula das Brontë é Agnes Grey e, o segundo, A Inquilina de Wildfell Hall.

Neste romance de estreia, Anne Brontë tira toda idealização da função de preceptora que sua irmã, Charlotte, apresentou em Jane Eyre. A experiência de Anne como preceptora permeia este romance - e isso o torna realista. 

Agnes Grey é uma jovem que vê sua família perder a maior parte da sua fortuna em um negócio mau sucedido do pai e, para ajudar a família a reconstruir essa perda, ela decide se tornar preceptora em uma casa de família - mesmo não tendo nenhuma experiência em lidar com crianças. A protagonista trabalhará para duas famílias antes de retornar, em definitivo ao  seu próprio lar. 

A primeira família será os Bloomfield, em uma residência relativamente próxima a sua casa paterna. Esta primeira vivência de Agnes é a representação da experiência que Anne teve em sua vida. Segue um trecho de como eram as duas crianças que a senhorita Grey precisara ensinar - ou tentar:

Mas eles não conheciam a vergonha, zombavam da autoridade que não fosse baseada no terror; e quanto à bondade ou afeto, ou eles não tinham coração ou que tinham estava tão bem guardado e escondido que eu, apesar de todos os meus esforços, não havia descoberto um modo de chegar até ele. 

Realmente, essas crianças me assustaram muito com seus comportamentos cruéis - e vi em Tom um assassino em série. 

A segunda família foram os Murray. Foi um período longo que Agnes passou com a família e, as duas jovens: Rosalie e Matilda eram quase da sua idade. Apesar de não serem tão cruéis, a primeira era vaidosa ao extremo (fazendo os rapazes se apaixonarem por ela apenas para lhes recusar o pedido de casamento - este era seu passatempo preferido), Matilda era mais livre porém não menos indiferente aos ensinamentos e a presença de Agnes. 

Ao término do livro, meus pensamentos ficaram presos em Rosalie e no casamento desta personagem - eu fiquei triste pelo fim dela, mesmo sabendo que ela o escolheu de olhos bem abertos. 

Assim como Agnes Grey, Anne Brontë foi preceptora em duas famílias, sendo a última com que ficou mais tempo, porém, ao contrário de sua protagonista, Anne ficou amiga das suas alunas e passava férias com a família em uma casa na praia - lugar que Anne amava, e onde foi enterrada, sendo a única daquele grupo familiar a não estar no mesmo lugar que os demais. E, para infelicidade da escritora, ela precisou cortar os laços com as amigas (talvez únicas) pois seu irmão, Patrick, foi amante da mãe das meninas. 

Agnes Grey é um romance mais realista, não apresenta a fúria de Wuthering Heights ou o sofrimento de Jane Eyre, mas tem sua expressão em apresentar uma sociedade muito próxima da realidade de uma preceptora a exercer seu cargo, tirando dele toda a fantasia e apresentando a marginalização de um cargo. 


Omnia Vanitas 💀

 

Vigésima sétima leitura..


 

Olá, anônimo leitor!

Imagino o seu sofrimento, leitor, pela minha falta de atualização deste blog. Mas, sem explicações ou justificação, começarei esta publicação.

A vigésima sétima leitura foi um livro de estudo sobre os manuscritos encontrado em um livro de poemas que pertenceu à família Brontë.

Os Manuscritos Perdidos de Charlotte Brontë foi uma preciosa aquisição que o Sociedade Brontë adquiriu depois de quase dois séculos "perdido" na América do norte.

Este livro é uma fonte rica de estudos sobre a importância que este achado trouxe para a juvenília de Charlotte Brontë (e, também, para iluminar a obra de Emily Brontë, Wuthering Heights). Anne ficou à margem, de novo.

Cinco pessoas que são referência em estudos sobre a família Brontë expõem, neste livro, todo o valor de encontrar este fragmento (uma poesia e uma prosa) em um volume de poemas chamado Remains of Henry Kirke White

Ann Dinsdale apresentará a chegada do livro à família, desde a sua compra por Maria Branwell (futura senhora Brontë) em sua terra natal; o transporte para sua nova casa ao lado do marido Patrick e a perda em um naufrágio de parte da sua bagagem.

Barbara Heritage apresentará a arqueologia do livro - e do exemplar de Maria Brontë desde a morte marido Patrick e a venda dos bens materiais da família e em quais mãos esses dois exemplares (que se tornaram um) foram manuseados e a explicação para o acréscimo dos dois fragmentos no volume único.

Emma Butcher e Sarah E. Maier são responsáveis por dois estudos reservados à influência destes escritos na juvenília de Charlotte Bronë e como era produzida - com a parceria de seu irmão, Patrick Branwell. 

O último capítulo Reinventando o Céu, de Ann-Marie Richardson é dedicado à Emily Brontë e a inspiração que o poema Clifton Grove, de Henry Kirke White  na escritora de Wuthering Heights.

Eu decidi não me aprofundar em relatar cada capítulo deste livro  por se tratar de estudos direcionados, eu não teria como escrever sobre sem diminuir o valor do conteúdo. Porém, deixo a minha singela recomendação de leitura deste livro para os amantes das irmãs Brontë; e, acrescentarei uma nota para tal leitura: tente ler a juvenília de Charlotte Brontë antes de iniciar esta leitura para que não se torne estranha as ideias apresentadas.


Omnia Vanitas 💀

11 de outubro de 2020

Vigésima sexta leitura..



Olá, anônimo leitor!

Eu tinha esquecido como a leitura de Jane Eyre, de Charlotte Brontë, é maravilhosa.

Publicado em 1848 sob o pseudônimo de Currer Bell. O sucesso foi imediato ao lançamento e, nesta edição que tenho da BestBolso (2013, segunda edição) há o prefácio do autor para a segunda e terceira edições onde Brontë assina como Bell. 

Jane Eyre é um romance de formação que apresenta da vida da orfã (homônima) desde a sua infância até a fase adulta. O enredo é narrado pela protagonista e, portanto, não há outro ponto de vista exceto a do narrador.

A trama que dá vida à personagem é um empréstimo de alguns dramas vividos pela própria autora como: o orfanato para o qual a menina é enviada é uma representação do orfanato de Lancashire para onde ela e suas irmãs (Maria, Elizabeth e Emily) estudaram - e a precária condição da instituição deixou a saúde das duas irmãs mais velhas tão debilitadas que ambas morreram de tuberculose aos 11 e 10 anos sucessivamente). Para não perder Charlotte e Emily, o  pai - Patrick Brontë - busca as filhas e as ensina em casa. A personagem de Jane Eyre, Helen Burns é inspirada em sua irmã, Maria. 

E como Helen Burns me cativou nesta segunda leitura! Eu, simplesmente, não conseguia não me apaixonar pela personagem. Vou deixar duas frases - de tantas que gostei - para representar minha paixão por Helen:

(...) Acho que a vida é curta demais para ser gasta com animosidades, só pensando em acontecimentos ruins. (p.74)

Mesmo que o mundo inteiro detestasse você e a achasse má, se sua consciência a absolvesse de qualquer culpa, você não estaria sozinha (p.87)

Ainda sobre as ligações do romance com a vida da autora, o fato da protagonista ser órfã, também, diz muito respeito sobre Charlotte Brontë pois sua mãe faleceu em 1821 quando a autora tinha cinco anos de idade. E, este é um fato corriqueiro em seus romances, visto que a maioria de suas personagens não possuem os pais, ou pelo menos um deles.

Mais um fato marcante na obra de Jane Eyre é o Sr. Rochester que representa a figura de sua paixão por Constatin Héger, seu professor em Bruxelas.

O enredo, como já mencionado, contempla a infância da órfã Jane Eyre. Sua tia, Sarah Reed, precisava atender à apenas um pedido do falecido marido: cuidar da sua sobrinha como se fosse sua própria filha. Porém, isso não aconteceu. Sem o afeto da tia ou dos filhos desta - e tampouco dos empregados - Jane Eyre é enviado para o orfanado de Lowood. Neste lugar duas pessoas conquistam o coração carente da órfã, a supervisora Srta. Temple (que é uma figura materna para a criança) e sua amiga Helen Burns. Esta duas figuras darão a força e o amor necessários para que Jane Eyre aprenda a viver na obscura instituição de ensino. 

Após essas duas perdas, contanto com a idade de dezoito anos - e exercendo a função de professora desde os dezesseis - Jane Eyre rompe o laço com a instituição e se torna preceptora de uma menina órfã: Adèle Varens, em Thornfield Hall - residência de Edward Fairfax Rochester.

Uma nota que fiz sobre essa "casa". Ao meu ver, parece que o Sr. Rochester gosta de enviar para esse lugar os seus "problemas". Bertha Mason é a primeira a viver naquela mansão e Adèle chegará depois. Duas personagens que Monsieur Rochester parece querer esquecer em um lugar que lhe trouxe sofrimento.

Apesar de ser um ambiente amigável (Thornfield Hall), Jane Eyre não encontra muita alegria na sua estadia na mansão. Seu espírito ainda anseia por partir e descobrir outros lugares - mas, então, um encontro em um caminho obscuro muda toda a configuração dos sentimentos desta preceptora. 

Outra coisa que notei é que os fatos mais importantes da trama - os mais significativos pelo menos, acontecem à noite (ou madrugada). Preciso fazer mais anotações sobre isso em uma próxima leitura. Eu, infelizmente, somente atentei para este fato quando já havia passado da metade da leitura, mas os encontros com Rochester, com St. John e tantas outra decisões e atos aconteceram na madrugada ou, pelo menos, à noite. A Lua - nosso querido satélite natural - faz sua participação como coadjuvante nestas cenas "de la nuit".

Eu achei o capítulo vinte e sete interessante por ser a visão do Sr. Rochester sobre o primeiro encontro e tudo o houve até aquele momento - e foi um capítulo longo (o maior deles?) para o ponto de vista destas duas personagens.

Eu não quero parecer macabra, mas eu sou apaixonada pelas cenas de "sofrimento". Existe uma autenticidade na dor e nos conflitos que Charlotte Brontë descreve que impossível não entender o que Jane Eyre sente e como seu psicológico e moral sofrem quando ela se diante de grandes dilemas. 

Antes de terminar, quero deixar registrado que, assim como em Shirley, há uma punição e redenção para uma personagem. Quando o mal é causado, o agente precisa ser punido para que haja a redenção daquele que fez sofrer. 

Nesta leitura eu usei tantos "post-it" para marcar o que eu achei interessante, desde frases, o "escuro", e, também, todas as vezes que a protagonista descreveu o físico do Sr. Rochester (eu não sei porque fiz isso, mas foi algo que simplesmente aconteceu). Eu deveria tirar essas marcações, mas talvez eu as aproveite em outra próxima leitura, ou resolva fazer anotações à parte em algum caderno sobre o que senti/entendi sobre. 

Termino por aqui, e com a triste constatação que, apesar de ser a segunda leitura desta obra, é a primeira vez que escrevo sobre ela. Talvez eu seja mais eloquente na terceira 😉


Omnia Vanitas 💀



5 de outubro de 2020

A família Brontë..



Olá, obcecado leitor!

Eu não sei em que ponto da minha vida eu enlouqueci com as irmãs Brontë. Eu sou uma apreciadora das obras delas, mas parece que este ano, para ser mais exata em Setembro, elas me viraram de cabeça para baixo.

A primeira e última leitura que fiz dos livros que eu tenho delas em meu acervo, foi no ano de 2013. Li as três e, em 2015 eu li a Juvenília de Charlotte e Jane Austen. E por falar em Austen, também estou me devendo uma releitura dos seis romances (completos).
Voltando às Brontë; neste ano eu fiz a leitura anual de Norte de Sul da Elizabeth Gaskell. E, por ter uma assinatura no site Anne Brontë eu descobri que este livro da Gaskell foi inspirado em Shirley da Charlotte. Foi o que bastou para eu me decidir a ler os romances das irmãs - pelo menos compõem o acervo (parcial) na minha casa. E então comecei a fuçar mais sobre a família Brontë, assisti "lives" de pessoas que tem cátedra para falar sobre os Brontë, Gaskell e Austen. E cavocando um pouco mais, achei esse livro aí (da foto), que foi publicado no ano passado pela Faro Editorial. Busquei um pouco mais, achei um preço bem camarada no exemplar, convenci meu marido que minha vida dependia desse livro ..e voilà

Maria Brontë é uma figura silenciosa dentro da família Brontë: futura esposa de Patrick Brontë  e mãe de seis filhos - sendo que todos morrem em idade tão jovem (e prematuros) quanto a matriarca; deixando o marido, Patrick, como último a se despedir desta terra finita. 
Dois anos antes do seu casamento com o pastor Brontë (Prunty/Brunty), Maria Branwell tinha em seu poder um exemplar "The Remains of Henry Kirke White". No ano de 1812, ao se mudar para a terra de seu noivo, o navio que levava seu baú sofreu um naufrágio  que levou muitos bens pessoais para as profundezas do mar - porém, alguns foram recuperados pelo fato do acidente ter acontecido perto da margem.
Recuperado o exemplar, ele compôs a biblioteca e o imaginário de toda a família Brontë. Neste exemplar - que não foi apenas lido - foram anotados pensamentos dos leitores desta obra. 
No ano de 1861, após a morte do último membro deste núcleo familiar dos Brontë, muitos bens que ficaram para trás foram vendidos, entre eles, o exemplar de "The Remains of...". Viajando por mãos desconhecidas até chegar na América do Norte sob a tutela de um colecionar particular, em 2015 o exemplar foi comprado pelo The Brontë Society e publicado pela primeira vez em 2018. 
Anotações preciosas que permitem ao leitor descobrir uma nova faceta sobre as inspirações e ideias desta família extraordinária estão disponíveis para quem interessar possa.

O exemplar não possui os poemas de Henry Kirke White, apenas os manuscritos que foram encontrados nele e notas histórias sobre cada momento destas pessoas que encantaram o mundo com histórias e vidas tão sublimes. 

2 de outubro de 2020

Vigésima quinta leitura..

 



Fim de mais uma leitura !!! 


A partir de Shirley, eu decidi reler os livros das irmãs Brontë que estão comigo; e a escolha de desta obra de Charlotte Brontë é especial: foi nele que Elizabeth Gaskell se inspirou para escrever o meu amado Norte e Sul - porém, o livro de Charlotte não alcançou a mesma popularidade que o livro da amiga.

A publicação no livro foi no ano de 1849 - edição em três volumes sob o pseudônimo de Currer Bell. Este romance foi precedido por Jane Eyre (que teve uma ótima recepção pelo público e até hoje conhecido como a magnum opus de Charlotte Brontë) e seguido por Villete

A trama de Shirley acontece entre os anos de 1811 e 1812  - no período que a Inglaterra fecha o seu comércio por conta da guerra com Napoleão. Assim com em Norte e Sul, existe uma revolta ocasionada pela falta de emprego - porém, neste romance de Brontë a revolta se dá pela ocupação que as máquinas terão em detrimento a mão de obra humana. O desemprego é um dos temas de Shirley. A questão religiosa é uma das diferenças entre os romances de Gaskell e Brontë: em Norte e Sul é um assunto tratado de modo mais ameno, porém em Shirley a questão é mais aberta mostrando a rivalidade entre whigs e tories - para saber um pouco tem uma nota nesta publicação aqui

As personagens de Shirley também serviram de inspiração para Norte e Sul. O industrial Roberto Moore lembra muito a personalidade forte e determinada de John Thornton 💓. Ambos são ambiciosos, mas em Thornton há uma conotação de herói da trama que não lhe permite os erros de caráter de Roberto Moore. 

Entre as protagonistas, nenhuma delas tem relação entre si.

O romance, na minha opinião, poderia se chamar Carolina, pois mais de oitenta por cento da trama gira em torno desta personagem. A personagem que dá título ao livro aparecerá somente no capítulo dez (a partir da página 130 no meu exemplar*) e terá algumas participações na trama. Carolina Helstone, por outro lado, tem uma personalidade definida desde o início da trama e sua ausência na história se dá apenas para que o enredo entre a protagonista e Luís Moore 💗 cresça para fechar a trama.

Algumas anotações sobre Shirley - a mulher e não o livro - devem ser escritas: o nome dela era prevalentemente masculino, mas depois da publicação da obra algumas mulheres foram registradas com este nome. Shirley é uma das poucos mulheres ricas (protagonistas) que povoam as obras de Charlotte Brontë. Shirley tem personalidade forte e, por ser rica, muita das suas vontades são satisfeitas e poucas vezes é repreendida por algum ato cometido ou palavra dita. Shirley é quem cuida dos seus negócios, responde as cartas comerciais - geralmente feito pelo homem da casa ou por um contratado para o serviço; e por suas atitudes "masculinas", o tio de Carolina chama a herdeira de "Capitão Keeldar" - que é o sobrenome de Shirley, Keeldar. E ele o faz sem sentido pejorativo. E estas não são as únicas peculiaridades desta protagonista: seu cachorro não é de uma raça recomendada para "damas" - eu acredito que seja um buldogue inglês que, apesar de pequeno não é "educado". Geralmente as moças tinham poodles ou raça semelhante. Uma passagem intrigante para mim foi quando a sua acompanhante, a misteriosa senhora Pryor, repreende Shirley por ela estar assobiando - desde a primeira leitura essa foi uma parte marcante pois me instiga a pensar que não era "apropriado" para uma mulher assobiar - talvez seja pelo fato de homens usarem isso para caça (?); não sei!

Em oposto à Shirley está Carolina Helstone. Como em geral nos romances de Charlotte, ela é órfã - apesar de não saber o paradeiro da mãe, o pai é falecido. Mora com o tio que é pastor e tem sociedade com um casal de primos, os Moore (inicialmente Hortência e Roberto) e posteriormente, Luís. O fato de ela ser órfã e não ter fortuna para si, a faz crer que ser solteira será seu destino. E, o próprio Roberto a rejeita como esposa pela sua pobreza - pois com a guerra e sua possível falência, Roberto precisa de um cônjuge que lhe traga benefícios financeiros para que ele reerga a sua fábrica.  

Carolina é a personificação da heroína. Ela sofre por um amor que não pode ser conquistado, ela ajuda a todos além das suas forças, abdica do bem estar para que outros possam estar bem, jamais afirma que está cansada ou que algo lhe abate a alma - tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta - como está no Evangelho. E todos os benefícios colhidos (mesmo os mais ínfimos) são louvados, todas as injúrias sofridas são perdoadas em nome do amor.

Enquanto em Norte e Sul a morte permeia a trama, em Shirley ela é descartada. Talvez, porque no momento em que escrevia este romance, Charlotte Brontë havia perdido seus três último irmãos: Branwell (setembro 1848), Emily (dezembro 1848) e Anne (Maio 1849). 

Carolina sofre de um terrível mal físico (e psicológico)  que a deixa por várias semanas doente, a beira da morte. Sua recuperação se dá por meio de uma revelação que lhe trás um motivo para lutar contra a morte. Segundo uma amiga íntima de Charlotte, Carolina foi inspirada em sua irmã mais nova Anne e, pouca certeza há, que Shirley foi dedicada à Emily. Ellen Nussey, a amiga íntima, nunca confirmou a inspiração de Shirley em Emily. 

Um adendo para Luís Moore. 

Este irmão de Hortência e Roberto aparece no final da trama. Sua aparência não é tão bela quanto a de Roberto, mas ambos se assemelham fisicamente - e a comparação para por aí. Luís é quieto, mas altivo. Escolhe suas palavras antes de dizê-las, ao entrar em uma conversa ele domina o interlocutor - mesmo sendo Shirley. Ele é professor. E essa profissão é importante para Charlotte Brontë. Em sua estadia em Bruxelas, ela se apaixonou pelo professor, casado, Constantin Héger. Ela lhe enviava cartas para ele -  mesmo não sendo encorajada a fazer isso. A obsessão por este homem está marcado em seus romances: em O Professor (romance póstumo, publicado em 1857) William Crimsworth é a representação de Héger; em Villette ele é Monsieur Paul; em Jane Eyre ele é Mr. Rocherster. 


Então é isso! 

Omnia Vanitas 💀


*BRONTE, Charlottte. Shirley. Ed. Brasileira, 1949. Tradutor: Fábio Valente.


3 de setembro de 2020

Vigésima terceira leitura ..


 Olá, leitor !!


Que livro !! Mais um livro na lista para releitura: Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco.

Este ano eu já li Amor de Perdição, do mesmo autor, e gostei ; mas Amor de Salvação é sensacional! A trama é mais envolvente, as personagens são mais desenvolvidas na trama. 

Assim como em Amor de Perdição, um triângulo amoroso se forma: Afonso, Theodora e Mafalda, mas ao contrário da obra anterior, todos permanecem vivos - sem perdição.
Amor de Perdição é lindo! Mas como já mencionei, eu senti falta de personagens mais desenvolvidas: o amor de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque não me convenceu de fazer valer todo o sofrimento e sacrifícios do casal. Eu gostei muito mais de Mariana - o terceiro pé desta relação - e por pouco Simão não concorda comigo.

Antes de escrever sobre a leitura final, deixe-me fazer um adendo sobre Amor de Perdição: primeiro livro de Camilo Castelo Branco: escritor português, nascido na aristocracia - recebeu o título de visconde do rei D. Luís;  estava em cárcere por adultério quando escreveu esta obra quase biográfica.
Camilo Castelo Branco suicidou-se com um tiro na têmpora esquerda - movido pelo desespero de uma cegueira causada pela sífilis.

Amor de Perdição contém algumas notas muito semelhante com Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Ambas obras remetem à rivalidade entre as famílias do casal e ambas contém a morte como solução para a separação dos namorados. 

Amor de Salvação tem um viés diferente. 
Em uma véspera de Natal, um viajante/narrador busca informações sobre um atalho para chegar mais rápido ao seu destino e, seu informante, não é ninguém mais, ninguém menos que Afonso de Teive o protagonista de Amor de Salvação. Querendo saber mais sobre o rumo que levou o amigo ter oito filhos e uma felicidade sem medida, Afonso conta sua história trágica de amor e de como conseguiu encontrar a salvação no amor de esposa. 
Ao contrário dos Albuquerque e Botelho, a família de Afonso e Theodora são amigas. Ambos nasceram em um lar amoroso e abastado. Porém, Theodora fica órfã e é enviada para um convento - um convento era a solução para tudo no século XIX: órfãs, solteironas, viúvas e pasmem, para pessoas com vocação para a vida religiosa. 
Amada pela família de Afonso de Teive, Theodora é enviada para o convento das Ursulinas e separada do seu amigo de infância. Depois de exigir da mãe de Afonso, a boa Eulália, a tire daquela clausura, Afonso é separado de Theodora porque a mãe do jovem não gostou da personalidade forte da menina que exige sua saída da vida religiosa. 
Dois anos foi o tempo que estariam afastados os dois namorados - enquanto ficasse Theodora no convento.
Sem notícias e Afonso, Theodora faz a sua liberdade casando-se com seu primo Eleutério. 

A trama é muito bem arquitetada  e tem uma reviravolta magnífica. 

Eu não quero escrever mais sobre a obra não entregar o final, mas deixo minha sincera recomendação para que você, anônimo leitor, para que leia esta obra de Camilo Castelo Branco. 

Omnia Vanitas 💀

5 de maio de 2020

Releitura de "As Viagens de Gulliver"..



Olá, anônimo leitor!

Estou na segunda leitura deste livro do Swift, depois de mais de oito de distância da primeira. E é um novo olhar por dois motivos.

Primeiro, faz muito tempo desde a primeira leitura, todas as particularidades foram esquecidas conforme outras leituras foram feitas depois desta. 

Segundo motivo foi que desta vez eu decidi incluir as notas explicativas na leitura.
Este exemplar é da Nova Cultural (2003) com tradução e notas de Therezinha Monteiro Deutsch. Ela, também, traduziu pela editora Best Bolso os livro Emma e Razão e Sensilidade de Jane Austen - ambos indicados pela Raquel Sallaberry Brião no seu site Jane Austen em Português como as entre as melhores traduções das obras da escritora inglesa.

Faz pouco tempo que comecei a cuidar das traduções que tenho na minha estante. Algumas edições eu tenho a oportunidade de trocar, mas em sua maioria fico à mercê do que tenho em mãos.
A primeira vez que notei uma tradução diferente foi no livro Persuasão da própria Jane Austen. Vou deixar o link aqui para não me alongar na explicação.
Para outras obras, eu uso as publicações do blog Não Gosto de Plágio da Denise Bottman.
Sendo assim, mais confiante na tradução e nota de Deutsch, eu faço desta segunda leitura de As Viagens de Gulliver uma aventura mais real da história. 

 As notas sobre o texto enriquecem muito a leitura. As observações permitem que o leitor encontre os motivos que levaram àquele trecho ou algumas possíveis ideias de estudiosos de Swift para que esta ou aquela frase estivesse ali. Estar na cabeça e na história que o escritor viveu ao escrever torna a leitura muito mais rica e completa e permite ao leitor rir da sátira que é As Viagens de Gulliver
Para não deixar você, leitor anônimo, sem um exemplo, deixarei dois para lhe dar uma luz sobre o que escrevi.

"(...) Diverti-me, entre outras coisas, como dançarinos na corda-bamba¹, que se apresentavam sobre um fino fio branco esticado a cera de um metro e meio do solo. Peço licença, e paciência ao leitor para me alonga um pouco a este respeito.
Esta diversão é praticada apenas pelas pessoas que são candidatas a altos cargos e altos favores na corte. São treinadas nesta arte desde bem pequenas e nem sempre são de nascimento nobre ou têm educação liberal. Quando um alto cargo fica vago, por morte ou queda em desgraça (o que acontece muito), cinco ou seis desses candidatos apresentam petições para divertir Sua Majestade e a corte com a dança na corda-bamba; então, aquele que saltar mais alto sem cair ganha o cargo". (página 62-3)
 (...)
"Mandei tantas cartas e petições para minha liberdade que por fim Sua Majestade mencionou o assunto no gabinete e, depois, numa reunião do Conselho, ninguém e opôs, a ser Skyresh Bolgolam², que resolveu, sem nenhum motivo, ser meu inimigo mortal". (página 67).

Notas:

(1):  dançarinos em corda-bamba: exibição preferida ente os divertimentos populares no período. Para avaliar o significado satírico, confrontar com a observação de Swift num panfleto religioso (1709): "Leve-se em conta que andar na corda-bamba é o único talento requerido por um ato do Parlamento para transformar um homem em bispo; não se duvide de que depois de ter feito esta demonstração de atividade, de estar em forma, esse homem poderia sentar-se na Câmara dos Lordes...mas é preciso ser pouco cristão para acreditar que esse funâmbulo depois disso tornara-se um tiquinho ais bispo do que antes..." prose, ii, 75; E.W. Rosenheim, PQ, xxxi, 1952, 209).

(2): Skyresh Bolgolam: "Estilo 'im Mar'boro'" (Clark, pp 604-5, i.é,; o duque de Marlborough, a quem Swift atacara várias vezes (principalmente no Examiner, 23 de novembro de 1710) como chefe representativo da polícia-de-guerra dos whigs*. Firth (p.242) identifica Bolgolam como o conde de Nottingham, que usou sua iinflência para impedir que Swift conseguisse um bispado. Se bem qu não fosse um almirante, Nottingham fora Primeiro Lode do Almirantado (1680-4), e se bem que totalmente ignorante em conhecimentos marítimos, sempre se vangloria de ser um perito naval. Case (p.72), que relata a carreira de Gulliver em Liliput não em relação à biografia de Swift, mas sim em referência à sorte política de Oxford e Bolingbroke, aceita esta identificação pelo fato de que Nottingham era hostil a Oxford "sem que tivesse havido nenhuma provocação", a ser o fato de Oxford (então Harley) tê-lo sucedido no cargo (1704).

*whigs: Whig é uma expressão de origem popular que se tornou termo corrente para designar o partido liberal no Reino, e contrapunha-se ao Tory, de linha conservadora.

Eu ainda estava procurando algumas informações sobre a tradutora quando achei dois trabalhos que serão um ótimo suporte para esta leitura, segue os links abaixo;

- Autor: Leonardo José César de Mattos Guerra. Título: Viagens de Gulliver: recepção (história) e interpretação (crítica)

- Autor: Evaldo Gondim dos Santos. Título: Tradução e ironia: o cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels vs. (As) Viagens de Gulliver

Então é isso, leitor!

Omnia Vanitas. 💀


3 de maio de 2020

Memórias de um Médico: primeira parte..


Livro um
Livro dois
Livro três
Livro quatro


Olá, leitor anônimo!!

Que prazer ter concluído esta primeira parte da saga Memórias de um Médico! Esta coleção estava mais de cinco anos na minha estante para a primeira leitura. E, desde a compra desta coleção foi algo muito especial para mim.
Deixe-me contar:

Eu tinha o plano de fazer um projeto de leitura livre no bairro que eu morava com meus pais; apenas um plano, quando uma amiga leu e levou à frente o projeto. Ela conseguiu vários patrocínios, bateu em várias portas para conseguir tudo o precisava para montar uma caixa para abrigar os livros. Depois, fomos buscar quem nos ajudaria com livros gratuitos para encher a caixinha. Visitamos alguns lugares que poderiam fornecer alguma doação para o projeto e, entre esses lugares, estava o sebo que eu amo visitar em Joinville - O Sebo Livraria. Foi lá que encontrei, sem ter procurado por ele na ocasião: foi na conversa informal com a dona do sebo sobre adaptações cinematográficas que cheguei a comentar sobre a saga e...ela tinha ! Não coleção completa, faltavam dois volumes que seriam muito fáceis de achar na internet ! E foi minha amiga que pagou para mim 😜 ..pois eu não tinha dinheiro na hora.

Ano passado eu fiz um "stories" no Instagram*  para comemorar o nascimento de Maria Antonieta pois a saga começa com a chegada dela na França para se casar com o Delfim (futuro Luíz XVI) e, me cobrei essa leitura pois era um crime ter passado tanto tempo para começar a lê-la. E, em Dezembro/19 eu trouxe a primeira parte para casa e jurei que começaria essa coletânea.
Neste ano, em março, foi obrigatório o recolhimento social por conta do COVID-19, então decidi começar a leitura desta obra de Dumas. Um dos motivo principais era não levar esses livros para minhas viagens de transporte urbano para não danificar mais a capa e páginas. Missão cumprida.

A leitura de todos os volumes foi muito agradável. Dumas (e Maquet) souberam compor uma trama que não deixou a leitura massante. Cada personagem foi bem aprofundada. Esta leitura me lembrou muito outras duas leituras: O Conde de Monte-Cristo (pela trama construída em lugares diferentes que se unem em determinada parte da narrativa) e O Visconde de Bragelonne por todas as tramas palacianas - o que me deixou com muita vontade de reler a trilogia de Os Três Mosqueteiros. 

Os romances de Alexandre Dumas são em sua maioria históricos. As suas personagens são reais mas o autor lhes dá atitudes que ele decide que servem para a sua obra. Ele não teve a intensão de tomar a história ao pé da letra, mas se utilizou dela para compor a sua realidade.  Portanto, a maior parte de seus personagem foram emprestados da história sem intensão de serem reais.
A corte francesa de Luíz XV está toda lá: a amante Du Barry, o marechal Richelieu - sim, mais um Richelieu, as filhas, o delfim, a nora Maria Antonieta... e o homem que dá nome a saga: Giuseppe Giovanni Battista Vincenzo Pietro Antonio Matteo Balsamo. José Balsamo.

Eu desconhecia totalmente esta personagem histórica. Ele foi tudo o que o Balsamo de Dumas é: maçom, alquimista, ocultista, feiticeiro, curandeiro - deve até jogar no bicho!
É com Balsamo que a trama inicia lá no livro um. Ele é o médico cuja memória é escrita.

O verdadeiro Balsamo, Giuseppe tinha uma real Lorenza - mas dela não procurei muito, visto que ela já deixou a trama. Giuseppe foi caçado pela inquisição e, teve um mestre que lhe ensinou sobre alquimia quando o rapaz tinha apenas dezessete anos. Giuseppe também atende pela alcunha de Alessandro, conde de Cagliostro e há alguns livros publicados sobre ele e o seu julgamento durante a Revolução Francesa.
Balsamo é respeitado até hoje como ocultista. Suas últimas palavras antes de morrer foram:
“Sono un cavaliere errante. Non sono di alcuna epoca né di alcun luogo, al di fuori del tempo e dello spazio, il mio essere spirituale vive la sua eterna esistenza e, se immergendomi nel mio pensiero risalgo il corso delle età, se distendo il mio spirito verso un modo d’esistenza lontano da quello che voi percepite, divengo colui che desidero."

Tradução: "Sou um cavaleiro errante. Não sou de nenhuma época ou lugar, fora do tempo e do espaço, meu ser espiritual vive sua existência eterna e, se imergindo em meu pensamento, volto ao longo dos tempos, se forçar meu espírito a uma maneira de existência longe do que você percebe, eu me torno o que eu desejo".

Nisso Dumas e Maquet acertaram: o José Balsamo da trama fictícia é um viajante além do tempo.

Omnia Vanitas.

*Salvo na pasta "Alexandre Dumas".

2 de maio de 2020

Fábula de La Fontaine..



O Louco que vende Sabedoria

Mantenham distância dos loucos, é o melhor conselho que posso lhes dar. Há muitos na corte e os príncipes gostam deles porque disparam seus chistes contra os teimosos, os tolos e os patifes.
Um Louco ia gritando, pelas ruas e praças, que vendia sabedoria, e muitos crédulos corriam para comprá-la. Fazia estranhas caretas e, depois de tomar-lhes o dinheiro, lhes dava uma bofetada e dois metros de barbante. A maior parte dos enganados se revoltava, mas de que adiantava? Acabavam sendo zombados duplamente: o melhor era rir e ir embora sem dizer nada. Buscar naquilo algum sentido seria levar a sério os mentecaptos. Qual razão explica os atos de um louco? A causalidade é o que movo o cérebro de um transtornado. Mesmo assim, um dos enganados foi procurar um homem erudito, que, sem vacilar, lhe disse: "O barbante e a bofetada têm sim um significado: toda pessoa de bom senso deve manter-se longe dos Loucos e a distância desse cordão. Se não fizer assim, se expõe a tomar uma pancada. O Louco não enganou ninguém: ele realmente vende sabedoria".

Le Fou qui vend la sagesse

Jamais auprès des fous ne te mets à portée:
Je ne te puis donner un plus sage conseil.
Il n'est enseignement pareil
À celui-là de fuir une tête éventée.
On en voit souvent dans les cours :
Le Prince y prend plaisir ; car ils donnent toujours
Quelque trait aux fripons, aux sots, aux ridicules.
Un Fol allait criant par tous les carrefours
Qu'il vendait la sagesse ; et les mortels crédules
De courir à l'achat : chacun fut diligent.
On essuyait force grimaces ;
Puis on avait pour son argent
Avec un bon soufflet un fil long de deux brasses.
La plupart s'en fâchaient ; mais que leur servait-il ?
C'étaient les plus moqués ; le mieux était de rire,
Ou de s'en aller, sans rien dire,
Avec son soufflet et son fil.
De chercher du sens à la chose,
On se fût fait siffler ainsi qu'un ignorant.
La raison est-elle garant
De ce que fait un fou ? Le hasard est la cause
De tout ce qui se passe en un cerveau blessé.
Du fil et du soufflet pourtant embarrassé,
Un des dupes un jour alla trouver un sage,
Qui, sans hésiter davantage,
Lui dit : Ce sont ici hiéroglyphes tout purs.
Les gens bien conseillés, et qui voudront bien faire,
Entre eux et les gens fous mettront pour l'ordinaire
La longueur de ce fil ; sinon je les tiens sûrs
De quelque semblable caresse.
Vous n'êtes point trompé : ce Fou vend la sagesse.

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Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...