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18 de outubro de 2019

Vigésima oitava leitura..



Fim de mais uma leitura !

Esta não é a edição que li na minha adolescência, mas não pude deixar de comprá-la quando estava em uma sessão de compra (inocente) em um sebo em Joinville.

Este Dom Quixote de Monteiro Lobato foi o meu primeiro contato (indireto) com a opera magna de Miguel de Cervane Saavedra.

Desta leitura, o que mais marcou, além da clássica cena dos moinhos de vento, foi a indignação e não aceitação de Emília para o fim do livro do espanhol. 

A história é recontada por dona Benta durante alguns dias (antes das crianças irem dormir) e acompanhada pelos deliciosos quitutes de tia Nastácia. 
Em toda a contação da obra, dona Benta ressalta que quando as crianças forem maiores e tiverem o domínio linguístico para ler uma obra como Dom Quixote, verão o quão ela é rica em detalhes e significado. As partes que foram contadas para as crianças (Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília) foram somente as principais aventuras do Cavaleiro da Triste Figura. E, para minha alegria, a  briga na taverna e a manteada sofrida por Sancho (sinto muito, fiel escudeiro) estava na narrativa de dona Benta. 

Minha lembrança, além do que escrevi acima, eu me vejo sentada com o livro em mãos na cancha de bocha do meu pai. Não como ela está agora, mas a antiga, que tinha o chão de saibro batido com duas pistas para o jogo.  E, também, lembro de alguém passar por mim e ler o título do livro em voz alta. 

Esta leitura me fez sentir saudade da outra leitura que fiz de Dom Quixote de La Mancha. 
E, para finalizar, deixo o meu agradecimento à Monteiro Lobato  por não ter se alongado muito para escrever sobre o segundo livro da história de Dom Quixote - eu detesto aquele duque e sua esposa.

Omnia Vanitas. 💀


P.S.: A boneca Emília - tal como foi concebida - não poderia ser aceita nos dias atuais.  Tivemos sorte! 

7 de agosto de 2016

Biblioteca Cervantina..


Último artigo da revista Entre Livros na edição Entre Clássicos - Cervantes.

Confesso, eu precisaria escrever sobre os pintores que foram inspirados pela obra de Cervantes, mas não vou me prender a este artigo pois não sou interessada em obras de arte - sinto muito, leitor. É uma falha minha não escrever sobre cada artigo, como prometido.

Este último artigo Biblioteca Cervantina, também, é escrito por Reynaldo Damazio. 

O autor do artigo inicia a sua escrita trazendo à pauta a importância de um boa tradução. Uma tradução, escreve Damazio, não é apenas um tradução de palavras; a cultura e a história presente dentro da história também tem a sua importância. Segundo Damazio ao citar Miguel de Cervantes y Saavedra

"A riqueza da linguagem empregada por Miguel de Cervantes, que oscila do rebuscado ao popular, do poético ao prosaico, do trocadilho à referência erudita, do provérbio à parábola, intercalando gêneros e narrativas, fez do Quixote um texto paradigmático e, para muitos, fundador do romance moderno. Se a isso acrescentarmos o torneio das frases, seu ritmo, o uso de termos arcaicos, a variedade de tons discursivos, chegamos a uma obra de difícil tradução, poque que compreendê-la em sua grandeza semântica e sintática já demanda esforço considerável. Na maioria das vezes, a tradução de uma obra dessa natureza fica no meio do caminho entre a transposição literal - na medida do possível - e a adaptação, de acordo com o talento e os objetivos dos tradutores".

Quero acrescentar mais umas palavras de Damazio sobre a dificuldade em traduzir clássicos, como este de Cervantes:

"Com o passar do tempo e das mudanças no idioma, na cultura e no pensamento, traduzir é quase como reconstruir arqueologicamente certas estruturas linguísticas. Por outro lado, optar pela tradução dita 'literal' é quase uma falácia, pois há expressões que são típicas da época ou daquela língua e não fazem sentido se transportas ao pé da letra. Por outro lado, enveredar pela transcrição radical traz o risco de destruir a beleza e as peculiaridades  do original, que dizem respeito ao momento em que foram criadas".

Damazio faz observações sobre três traduções principais da obra D. Quixote de La Mancha: os portugueses Viscondes de Castilho e Azevedo, o argentino Sérgio Molina, e a dupla: o brasileiro Carlos Nougué com o espanhol José Luiz Sanchéz.

A primeira tradução feita para o Brasil, foi em 1794 - tarde, não é mesmo? Note, atrasado leitor, que na França a tradução ocorreu em 1614 e na Inglaterra em 1612. A explicação para a tardia tradução para nossa língua colonizada é que os portugueses que por cá estavam liam na língua original.

Foi no século XX que houve a primeira tradução integral da obra. Exemplar já não disponível em lojas do ramo, a tradução de Almir de Andrade e Milton Amado, pela José Olympio, foi feita em 1952. 

As editoras Nova Cultural e L&PM tem como tradutores os viscondes portugueses. E, sobre estes Damazio escreve

"Os viscondes 'formalizam' Cervantes e até o corrigem. Tiram-lhe, assim, a ousadia e a inventividade que estão justamente nos usos e abusos da linguagem, do coloquialismo e das imperfeições da fala cotidiana. Deram certa informalidade a uma narrativa cuja graça está propositalmente na irregularidade, na maleabilidade de focos narrativos e de vozes que se atritam no interior do discurso".

Para minha tristeza, leitor, a minha tradução dos dois volumes é destes nobres viscondes! :( Mesmo assim, nesta ignorância tradutória, ri às boas com Dom Quixote e Sancho Pancha; mas estou atenta para a tradução mais próxima que o argentino fez deste clássico. É assim que escreve Damazio sobre Molina:

"(...) Molina afirma que desde o início do trabalho esteve sempre preocupado em encontrar o 'tom', mas que não poderia ser um tom geral para toda a obra, que por sua vez não atendesse 'à diferenciação de vozes, à variedade de estilos e gêneros incorporados e retrabalhados por Cervantes'. (...) Molina realizou intensa pesquisa para chegar à tradução, que incluiu viagem à Espanha, e acrescenta notas importantes ao final dos capítulos, com referências históricas, literárias, idiomáticas etc. A edição traz ainda o texto original no rodapé a página, que permite um cotejo imediato, muito enriquecedor, a cada passo da leitura".

Este exemplar da Editora 34 com a tradução de Sérgio Molina custa, atualmente, R$ 98 mil réis! Sinto muito, rico leitor, meu pobre bolso não pode arcar com essa beleza no momento! Ficarei com os viscondes.

A última tradução que Damazio apresenta é da dupla Nougué e Sanches. Sobre eles, o autor do artigo escreve o seguinte:

"(...) Mudaram os epítetos formados por topônimos, como Quixote 'da' Mancha, Dulcinéia 'do' Toboso; mantiveram as inversões sintáticas e sintagmáticas, a voz passiva etc. Tiveram a preocupação excessivamente didática, aferrada à correção, e talvez por isso mesmo perderam um pouco a força, do humor e da musicalidade do original. Não que a leitura não flua, mas há momentos em que o texto parece simplificado, para facilitar a leitura; e noutros, volta-se a uma certa sobriedade, escorada numa dicção mais antiga".

Esta não foi a primeira que leio elogios à Editora 34. Logo que eu tiver a oportunidade financeira, estarei adquirindo esta edição de Dom Quixote e, também Crime e Castigo de Dostoiévski - de quem ouvi pela primeira vez elogios à tradução.

Para finalizar, Damazio escreveu sobre a tradução infantil do clássico cervantino por Monteiro Lobato. Eu quero adicionar este comentário pois se trata do meu primeiro contato com Miguel de Cervantes. Escreveu Damazio

"No episódio 'Dom Quixote das Crianças, o escritor Monteiro Lobato (1882 - 1948) fez Dona Benta contar as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura para a turma do sítio do Pica-Pau Amarelo, depois que a boneca Emília encontrou o título de Cervantes numa estante alta da biblioteca. Em linhas gerais, a obra está ali, com sagacidade e o virtuosismo de Lobato".

Damazio detalha outras traduções, mas estou me prendendo apenas nestas que citei - aquelas que me interessam. 

E..fim. Minha próxima leitura será de Bráulio Sánchez-Sáez:  Dor e Glória de Cervantes.

Até lá! 

Omnia Vanitas.


DAMAZIO, Reynaldo. Biblioteca Cervantina; página 92 à 98. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



22 de abril de 2015

Morto do Dia ..



A primeira vez que li algo de Miguel de Cervantes, foi quando eu tinha treze anos. Eu li uma adaptação feita por Monteiro Lobato: "Dom Quixote de La Mancha para Crianças". Lembro ainda de como a Emília ficou irritada com o final do Cavaleiro da Triste Figura. Se lhe serve de consolo, Boneca de Pano, eu também não aceitei, mas concordei com a ideia do autor sobre o personagem. E, para a biblioteca infantil que estou preparando para minhas sobrinhas-netas (Amanda e Ágata têm esse luxo), eu comprei este exemplar para que elas possam ler um pouco do que tive na minha época! Espero que gostem de leitura tanto quanto a tia-velha gosta! ;)

Miguel de Cervantes foi um dos raros escritores de quem li uma biografia. Certa vez, ao entrar entrar em um sebo aqui da cidade (e jurando não comprar nada para mim, somente fazer os pedidos da minha mãe para comprar livros para ela) eu encontrei um título de Fernando Arrabal: "Um Escravo Chamado Cervantes". Eu não pensei duas vezes e comprei o exemplar para mim. Não sei o que sinto sobre Cervantes - ele é um tipo diferente de escritor que chama minha atenção.
O livro de Arrabal é mais uma narrativa histórica do que uma verdade sobre fatos da vida do espanhol. A narrativa biográfica está ligada ao que estava ao redor de Cervantes, pois, realmente, há pouquíssimo material sobre a vida deste. Atualmente, há uma busca dos ossos do escritor de Dom Quixote. Na última tentativa de "tomara que seja ele" havia somente duas letras no caixão "M.C.". O que escrever sobre isso? "Boa sorte, rapazes!"

Já adulta, eu ganhei de aniversário os dois volumes da obra de Dom Quixote. E, a primeira parte é apaixonante e hilária! Eu ria muito com os ditados fora de hora do Sancho e, coitado!, a manteada que ele sofreu foi muitíssimo engraçada tanto quanto a briga na estalagem! E.. como comem! Deus !!! Certo domingo, enquanto lia um trecho do livro na frente de  casa, precisei ir até a cozinha e preparar um pão quente com queijo e encher um cálice de vinho para acompanhar o fiel escudeiro em sua refeição, tamanha foi a vontade que a leitura de meu! 

Porém, a "paixão" pela segunda parte não aconteceu, exceto pelo maravilhoso prólogo que o autor fez para esta em crítica ao "ladrão" que publicou a segunda parte de Dom Quixote sem consultá-lo! Por esse motivo, eu aceito o final escrito ao personagem título!
Um dos motivos para eu não apreciar da segunda parte é, por eu gostar muito do protagonista, não conseguir ler Dom Quixote sofrer tanta injúria em sua estadia na casa de um tal Duque. Meu coração ficava doído por tantas brincadeiras de mal gosto feitas ao meu querido Cavaleiro! E, ele, tão inocente e louco, as aceitava como elogios e cumprimentos educados! Demorei muito para terminar de ler pois quando me irritava, fechava o livro e me negava a ler (como se isso fizesse a leitura seguir adiante).
Sancho Pança também não ficou fora do péssimo tratamentos do casal "hospitaleiro". E, não consegui segurar o choro quando ele abraça seu burro e chora com ele a sua má sorte! 
Um ponto positivo para esta segunda parte da história de Dom Quixote,  não posso negar, o Cervantes é muito espirituoso ao citar os eventos escritos seu "rival" dentro da sua narrativa. Ele não poupa ironia quando escreve um possível momento de "confusão" sobre as aventuras do protagonista.

Outras obras de Cervantes que li foram "A Prisioneira" - uma leitura de domingo - e "Novelas Exemplares". Ambas interessantes e que possuem histórias iguais. A publicação, antigamente, tinha um modo interessante de edição: normalmente se encontra uma obra com títulos diferentes. Em Dumas, eu me engano muito fácil por haver uma obra com dois títulos. Exemplo (em Dumas): O Castelo de Epstein e O Quarto Vermelho são a mesmíssima história; mas se você, leitor, não leu a segunda, acabará se enganando ao comprar a primeira. Coisas de antigamente! (rs).

Ler Cervantes é sempre uma aventura. E, quando se trata de "descobrir" novas palavras, este clássico não deixa dúvidas de quão vasto pode ser o vocabulário clássico. Nas duas primeiras páginas do livro Dom Quixote eu tenho mais de quinze anotações de palavras que tive que buscar em um dicionário na internet para poder esclarecer o significado. Então, ler Cervantes é quase uma ato de fé! (rs).


Omnia Vanitas.

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...