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3 de abril de 2021

Leitura um..


 

Este é um livro que eu posso reler várias vezes e sempre será a primeira vez. 

"O Véu Pintado" de William Somerset Maugham conta a história de Kitty Fane, uma garota que é desejada por todos os rapazes do seu círculo social mas, sentindo-se ameaçada pelo casamento da sua irmã mais nova (e desajeita) resolve aceitar como marido - para casar antes da irmã - Walter Fane. 

O casamento não lhe agrada mas ela o vive de forma suportável; porém, um novo contato tira-a do marasmo social e arrebata sua existência de um casamento sem paixão. 

Tudo o que Kitty vive após isso é consequência deste caso extraconjugal; seja para o bem ou para o mal, ela aprende algo que não pensava existir: uma vida além da sua existência mesquinha.

Essa transformação gradual de Kitty é o que há de mais lindo na trama: suas ânsias, suas buscas por respostas que parecem estar tão acessíveis, mas, na realidade são mais profundas do que ela pode entender. Cada fonte lhe dá uma dica do que ela pode estar buscando, mas por ela mesma estar perdida, não consegue encontrar fim último. Esta é a melhor parte do romance: a transformação da protagonista para um ser completamente superior àquela do início da trama.

Leiam Maugham!


Omnia Vanitas 💀

Trigésima segunda leitura..


 

Olá, abandonado leitor !

Que loucura ! Deixei este blog sem atualização durante muito tempo! Perdão aos leitores inexistentes desta página! Tive motivo para isso. Plausíveis? Não! Então, vamos à atualização de algumas leituras. 


Emily Brontë e o seu "O Morro dos Ventos Uivantes" foi a minha última leitura de 2020. Que livro, senhoras e senhores! Que força!

Este romance único de Emily Brontë traz a história de Heathcliff e Catherine Earnshaw. Estas duas personagens foram criadas sob o mesmo teto. Ele sendo adotado e ela filha legítima. 

Heathcliff é uma personagem que eu gosto muito por tudo o que ele representa: sua identidade incógnita, seus sentimentos por Catherine, seu tratamento com todos que habitam a cidade (e principalmente sua casa). Ele é o mal que foi trazido para um seio familiar que, ao meu ver, parecia próspero. Porém, o tratamento que ele recebeu de  todos foi retribuído com uma intensidade que poucos souberam entender. 

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um livro singular em alguns aspectos como sua narrativa muito verossímil com a realidade da sua época; para mim, ele tem toda a força da sua autora; possui passagens que são icônicas até os dias atuais. 

Este exemplar da foto tem a tradução da escritora brasileira Rachel de Queiroz.

Omnia Vanitas 💀


3 de setembro de 2020

Vigésima terceira leitura ..


 Olá, leitor !!


Que livro !! Mais um livro na lista para releitura: Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco.

Este ano eu já li Amor de Perdição, do mesmo autor, e gostei ; mas Amor de Salvação é sensacional! A trama é mais envolvente, as personagens são mais desenvolvidas na trama. 

Assim como em Amor de Perdição, um triângulo amoroso se forma: Afonso, Theodora e Mafalda, mas ao contrário da obra anterior, todos permanecem vivos - sem perdição.
Amor de Perdição é lindo! Mas como já mencionei, eu senti falta de personagens mais desenvolvidas: o amor de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque não me convenceu de fazer valer todo o sofrimento e sacrifícios do casal. Eu gostei muito mais de Mariana - o terceiro pé desta relação - e por pouco Simão não concorda comigo.

Antes de escrever sobre a leitura final, deixe-me fazer um adendo sobre Amor de Perdição: primeiro livro de Camilo Castelo Branco: escritor português, nascido na aristocracia - recebeu o título de visconde do rei D. Luís;  estava em cárcere por adultério quando escreveu esta obra quase biográfica.
Camilo Castelo Branco suicidou-se com um tiro na têmpora esquerda - movido pelo desespero de uma cegueira causada pela sífilis.

Amor de Perdição contém algumas notas muito semelhante com Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Ambas obras remetem à rivalidade entre as famílias do casal e ambas contém a morte como solução para a separação dos namorados. 

Amor de Salvação tem um viés diferente. 
Em uma véspera de Natal, um viajante/narrador busca informações sobre um atalho para chegar mais rápido ao seu destino e, seu informante, não é ninguém mais, ninguém menos que Afonso de Teive o protagonista de Amor de Salvação. Querendo saber mais sobre o rumo que levou o amigo ter oito filhos e uma felicidade sem medida, Afonso conta sua história trágica de amor e de como conseguiu encontrar a salvação no amor de esposa. 
Ao contrário dos Albuquerque e Botelho, a família de Afonso e Theodora são amigas. Ambos nasceram em um lar amoroso e abastado. Porém, Theodora fica órfã e é enviada para um convento - um convento era a solução para tudo no século XIX: órfãs, solteironas, viúvas e pasmem, para pessoas com vocação para a vida religiosa. 
Amada pela família de Afonso de Teive, Theodora é enviada para o convento das Ursulinas e separada do seu amigo de infância. Depois de exigir da mãe de Afonso, a boa Eulália, a tire daquela clausura, Afonso é separado de Theodora porque a mãe do jovem não gostou da personalidade forte da menina que exige sua saída da vida religiosa. 
Dois anos foi o tempo que estariam afastados os dois namorados - enquanto ficasse Theodora no convento.
Sem notícias e Afonso, Theodora faz a sua liberdade casando-se com seu primo Eleutério. 

A trama é muito bem arquitetada  e tem uma reviravolta magnífica. 

Eu não quero escrever mais sobre a obra não entregar o final, mas deixo minha sincera recomendação para que você, anônimo leitor, para que leia esta obra de Camilo Castelo Branco. 

Omnia Vanitas 💀

31 de agosto de 2020

A carta de Theodora ..






Olá, leitor !

Ontem, domingo, eu comecei minha manhã lendo na sacada do apartamento. Um café quente (sim, este ano decidi experimentar café e gostei - tomei três canecas) para acompanhar a leitura e ..enlouqueci !!! Que livro !!! Que leitura !!! Eu já decidi que este livro também será uma releitura com certeza ! 
Minha leitura atual é Amor de Salvação, do português Camilo Castelo Branco.

Eu gosto muito quando a personagem escreve cartas durante a trama. Amo cartas ! E, nesta leitura, Theodora escreve uma carta para Afonso! É maravilhosa !!! Divido esta experiência com você, leitor ! 

Quem te disse a ti que eu tinha caído diante de mim mesma, Afonso? Quando te dei eu direito de supor que o teu silêncio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, de um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te apareci magnífica dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lágrimas figuraram-se-te o pus de um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue. Não pudeste chegar com a fronte à altura da minha, e apedrejaste-ma! Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava. e não sabes sequer usar a misericórdia de dizer à mulher que te ama que não seja infame, amando-te?! (...) A contas, homem de ferro, que endureceste o teu frágil barro de outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezível! Que fazias tu quando eu me estorcia de saudades de ti e dores do meu cativeiro, dentro das grades das Ursulinas? Quando soubeste que a tirania me fechava a sete chaves numa cela e me media os átomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze anos de uma mulher que queria o sol das flores, das aves, dos mendigos, do último ver-me que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?! (...) Não respondas. A vil, a abjeta, a desgraçada, é generosa. Não respondas. Ri e escuta. Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços e esperar a morte. À borda do abismo. vi uma tábua de salvação. Sabia que, segurando-me nela, as mãos se rasgariam em chagas incuráveis. Sabia-o; mas agarrei-me à tábua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demônio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ela me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roía a serpente da soledade e do desabrigo. Vi árvores, vi estrelas, ouvi os cânticos da Terra e os amorosos murmúrios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a única mulher sem mãe, sem pai, sem amigo, sem coração que se abrisse às cinzas do meu. Não importa. Via o Sol no firmamento; e, para além do Sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor, que, à sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em inocência, não ousam interrogá-lo como Job! Transbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E,. quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a Terra que te não insulte. E escrevi-te, Afonso! Aquele papel era uma renunciação, aquelas palavras queriam dizer dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infâmia como glória; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que ele me aclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indigna delas; eu, contente da minha desonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseráveis que ma cuspirem. E tu, Afonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadáver, puseste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos lábios o sangue do coração, e escarraste-lhe! Voltei do outro mundo. A mulher que viste há pouco era um fantasma. Os cabelos negros que adornaste com três flores naqueles formosos quinze anos caíram-te aos pés. As flores vêm aradas do fogo do inferno. O fantasma voltou às suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos lábios com as chamas dos seus olhos. Vai tu ao Céu e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação e eternidade para o amor Adeus."


Trecho retirado do Domínio Público: Amor de Salvação 

3 de maio de 2020

Memórias de um Médico: primeira parte..


Livro um
Livro dois
Livro três
Livro quatro


Olá, leitor anônimo!!

Que prazer ter concluído esta primeira parte da saga Memórias de um Médico! Esta coleção estava mais de cinco anos na minha estante para a primeira leitura. E, desde a compra desta coleção foi algo muito especial para mim.
Deixe-me contar:

Eu tinha o plano de fazer um projeto de leitura livre no bairro que eu morava com meus pais; apenas um plano, quando uma amiga leu e levou à frente o projeto. Ela conseguiu vários patrocínios, bateu em várias portas para conseguir tudo o precisava para montar uma caixa para abrigar os livros. Depois, fomos buscar quem nos ajudaria com livros gratuitos para encher a caixinha. Visitamos alguns lugares que poderiam fornecer alguma doação para o projeto e, entre esses lugares, estava o sebo que eu amo visitar em Joinville - O Sebo Livraria. Foi lá que encontrei, sem ter procurado por ele na ocasião: foi na conversa informal com a dona do sebo sobre adaptações cinematográficas que cheguei a comentar sobre a saga e...ela tinha ! Não coleção completa, faltavam dois volumes que seriam muito fáceis de achar na internet ! E foi minha amiga que pagou para mim 😜 ..pois eu não tinha dinheiro na hora.

Ano passado eu fiz um "stories" no Instagram*  para comemorar o nascimento de Maria Antonieta pois a saga começa com a chegada dela na França para se casar com o Delfim (futuro Luíz XVI) e, me cobrei essa leitura pois era um crime ter passado tanto tempo para começar a lê-la. E, em Dezembro/19 eu trouxe a primeira parte para casa e jurei que começaria essa coletânea.
Neste ano, em março, foi obrigatório o recolhimento social por conta do COVID-19, então decidi começar a leitura desta obra de Dumas. Um dos motivo principais era não levar esses livros para minhas viagens de transporte urbano para não danificar mais a capa e páginas. Missão cumprida.

A leitura de todos os volumes foi muito agradável. Dumas (e Maquet) souberam compor uma trama que não deixou a leitura massante. Cada personagem foi bem aprofundada. Esta leitura me lembrou muito outras duas leituras: O Conde de Monte-Cristo (pela trama construída em lugares diferentes que se unem em determinada parte da narrativa) e O Visconde de Bragelonne por todas as tramas palacianas - o que me deixou com muita vontade de reler a trilogia de Os Três Mosqueteiros. 

Os romances de Alexandre Dumas são em sua maioria históricos. As suas personagens são reais mas o autor lhes dá atitudes que ele decide que servem para a sua obra. Ele não teve a intensão de tomar a história ao pé da letra, mas se utilizou dela para compor a sua realidade.  Portanto, a maior parte de seus personagem foram emprestados da história sem intensão de serem reais.
A corte francesa de Luíz XV está toda lá: a amante Du Barry, o marechal Richelieu - sim, mais um Richelieu, as filhas, o delfim, a nora Maria Antonieta... e o homem que dá nome a saga: Giuseppe Giovanni Battista Vincenzo Pietro Antonio Matteo Balsamo. José Balsamo.

Eu desconhecia totalmente esta personagem histórica. Ele foi tudo o que o Balsamo de Dumas é: maçom, alquimista, ocultista, feiticeiro, curandeiro - deve até jogar no bicho!
É com Balsamo que a trama inicia lá no livro um. Ele é o médico cuja memória é escrita.

O verdadeiro Balsamo, Giuseppe tinha uma real Lorenza - mas dela não procurei muito, visto que ela já deixou a trama. Giuseppe foi caçado pela inquisição e, teve um mestre que lhe ensinou sobre alquimia quando o rapaz tinha apenas dezessete anos. Giuseppe também atende pela alcunha de Alessandro, conde de Cagliostro e há alguns livros publicados sobre ele e o seu julgamento durante a Revolução Francesa.
Balsamo é respeitado até hoje como ocultista. Suas últimas palavras antes de morrer foram:
“Sono un cavaliere errante. Non sono di alcuna epoca né di alcun luogo, al di fuori del tempo e dello spazio, il mio essere spirituale vive la sua eterna esistenza e, se immergendomi nel mio pensiero risalgo il corso delle età, se distendo il mio spirito verso un modo d’esistenza lontano da quello che voi percepite, divengo colui che desidero."

Tradução: "Sou um cavaleiro errante. Não sou de nenhuma época ou lugar, fora do tempo e do espaço, meu ser espiritual vive sua existência eterna e, se imergindo em meu pensamento, volto ao longo dos tempos, se forçar meu espírito a uma maneira de existência longe do que você percebe, eu me torno o que eu desejo".

Nisso Dumas e Maquet acertaram: o José Balsamo da trama fictícia é um viajante além do tempo.

Omnia Vanitas.

*Salvo na pasta "Alexandre Dumas".

2 de maio de 2020

Fábula de La Fontaine..



O Louco que vende Sabedoria

Mantenham distância dos loucos, é o melhor conselho que posso lhes dar. Há muitos na corte e os príncipes gostam deles porque disparam seus chistes contra os teimosos, os tolos e os patifes.
Um Louco ia gritando, pelas ruas e praças, que vendia sabedoria, e muitos crédulos corriam para comprá-la. Fazia estranhas caretas e, depois de tomar-lhes o dinheiro, lhes dava uma bofetada e dois metros de barbante. A maior parte dos enganados se revoltava, mas de que adiantava? Acabavam sendo zombados duplamente: o melhor era rir e ir embora sem dizer nada. Buscar naquilo algum sentido seria levar a sério os mentecaptos. Qual razão explica os atos de um louco? A causalidade é o que movo o cérebro de um transtornado. Mesmo assim, um dos enganados foi procurar um homem erudito, que, sem vacilar, lhe disse: "O barbante e a bofetada têm sim um significado: toda pessoa de bom senso deve manter-se longe dos Loucos e a distância desse cordão. Se não fizer assim, se expõe a tomar uma pancada. O Louco não enganou ninguém: ele realmente vende sabedoria".

Le Fou qui vend la sagesse

Jamais auprès des fous ne te mets à portée:
Je ne te puis donner un plus sage conseil.
Il n'est enseignement pareil
À celui-là de fuir une tête éventée.
On en voit souvent dans les cours :
Le Prince y prend plaisir ; car ils donnent toujours
Quelque trait aux fripons, aux sots, aux ridicules.
Un Fol allait criant par tous les carrefours
Qu'il vendait la sagesse ; et les mortels crédules
De courir à l'achat : chacun fut diligent.
On essuyait force grimaces ;
Puis on avait pour son argent
Avec un bon soufflet un fil long de deux brasses.
La plupart s'en fâchaient ; mais que leur servait-il ?
C'étaient les plus moqués ; le mieux était de rire,
Ou de s'en aller, sans rien dire,
Avec son soufflet et son fil.
De chercher du sens à la chose,
On se fût fait siffler ainsi qu'un ignorant.
La raison est-elle garant
De ce que fait un fou ? Le hasard est la cause
De tout ce qui se passe en un cerveau blessé.
Du fil et du soufflet pourtant embarrassé,
Un des dupes un jour alla trouver un sage,
Qui, sans hésiter davantage,
Lui dit : Ce sont ici hiéroglyphes tout purs.
Les gens bien conseillés, et qui voudront bien faire,
Entre eux et les gens fous mettront pour l'ordinaire
La longueur de ce fil ; sinon je les tiens sûrs
De quelque semblable caresse.
Vous n'êtes point trompé : ce Fou vend la sagesse.

Link para o texto em língua francesa aqui.

1 de maio de 2020

Leitura quinze..


Fim da primeira parte de Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas. 

O último livro de José Bálsamo é quase uma história a parte da trama geral. Nesta parte do enredo, o destaque é para o drama da família de Tarveney, mais especificamente os dois irmãos Andréa e Phillipe. 

O sofrimento destas personagens se deve ao antigo conhecido da casa da Taverney, Gilberto. A obsessão deste por Andréa é notado desde o primeiro livro, quando ele deixa a casa do barão para seguir Andréa até a corte francesa. Sem muito o que deixar para trás, parte com algum dinheiro nos bolsos atrás da carruagem da filha do barão. Ele foi a pé.

Gilberto é dotado de uma sorte que desgraçados como ele não deveriam ter. Quase morrendo de fome e cansaço, é acudido pela irmã da favorita do rei o meio do caminho. Depois, sem ter onde ficar em Paris, encontra Jean Jacques Rousseau - de que é grande leitor - e permanece na casa dele para ganhar dinheiro, ensino e continuar sua aproximação de Andréa. Por mais um fortuna do destino, esta mora a cem passos da casa do seu protetor e ele consegue vigiá-la ela janela do seu quarto. 
Depois, expulso da casa de Rousseau, consegue emprego de jardineiro no Trianon - onde está Andréa e, claro, a vigia mais de perto.

Gilberto é o que se chama hoje de em dia "perseguidor". E, como cultura da época, depois de estuprar sua vítima/amada, ele quer redimir seu crime casando com a moça. E, claro, arruma quem lhe dê dinheiro para o dote de casamento. 

Gilberto nunca foi uma personagem com quem consegui estabelecer uma ideia boa sobre ela. Algo na descrição dele e nas suas atitudes é incômoda: e se mostrou exatamente do que dele se esperava. Tudo o que Gilberto faz é mau - e ele tenta colocar uma "intensão" nobre para justificar suas atitudes: o desprezo de Andréa ao saber que ele é  pai do filho que ela espera (ele a estuprou enquanto ela estava entorpecida) parecia para o criminoso uma ação incoerente visto que ele a amava e queria redimir seu erro. Ele só produz um absurdo atrás do outro. Todas as oportunidades honestas que lhe apareceram na vida ele as transformou em desgraça. 

O epílogo da trama apresenta a doença do rei Luiz XV e sua morte para a ascensão do Delfim e Maria Antonieta. 

A segunda parte da saga será O Colar da Rainha, com dois volumes, e tratará do caso do colar de diamantes de  Maria Antonieta às portas da Revolução Francesa.

Omnia Vanitas 💀

22 de abril de 2020

Leitura catorze..


Olá, isolado leitor!

Fim de mais uma leitura - e do terceiro livro da saga Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas. 
Esta primeira parte é composta por quatro volumes e chama-se José Bálsamo. Estes são os links para o primeiro e o segundo livros. 

Neste terceiro livro, o projeto de José Bálsamo segue seu curso, porém, nesta direção também estavam os planos de outros personagens

A condessa Du Barry estava em guerra contra todos que não a aceitavam como a favorita do rei Luís XV. Esta lista era composta por quase toda a França, pela família Choiseul, pela Delfina e seu esposo (Luiz XVI) e, também o marechal Richelieu - que muda mais de partido dentro da trama do que pode ser aceito em via de regra. 
Um adendo sobre esta personagem - não se trata do mesmo Richelieu de Os Três Mosqueteiros - o período entre as história o faria um matusalém; mas ambos existiram e foram ativos junto à monarquia francesa
Além de seus inimigos naturais, a condessa Du Barry ainda precisa enfrentar uma nova rival, a dama de companhia de Maria Antonieta, Andréa de Taverney. 
Mas o rei não é o único apaixonado por Andréa. A menina parece arrebatar corações por onde passa; e o mais apaixonado deste séquito de enamorados é Gilberto. Este aspirante a filósofo faz a sua vida orbitar conforme a trajetória de Andréa. E é isto que Du Barry utilizará para manter esta paixão de Luiz XV fora do alcance do rei. Em contra-partida, o marechal Richelieu pretende aproximar este casal para tirar a Du Barry "do sério" e "da vista".
Todo o mal entendido aconteceu por conta de um cargo no parlamento que foi recusado (pelo rei) ao senhor de Richelieu. Tal recusa foi entendida como uma traição de Du Barry ao marechal. E, sendo rivais, estão colocando empecilhos no caminho de cada um - que, às vezes, traz a vitória para um, outrora a vitória de outro. 
E nesta troca de cargo no parlamento francês, a disputa pela vaga que o ministro De Choiseul deixou, mobilizou uma revolta no parlamento que este decidiu não julgar mais nenhum caso. Mais uma vez a amante do rei entra em ação para fazer sua vontade ser ouvida. 

Entre os filósofos, Rousseau tem três participações interessantes: a primeira delas é a rompimento de relação professor x pupilo com o Gilberto. A segunda é em uma reunião onde ele encontra alguns participantes da maçonaria, entre eles, um médico relevante para a história com um sobrenome peculiar: Guillotin. A terceira participação que chamou minha atenção foi justamente a reunião com aqueles que causaram a sua separação de Gilberto - uma pequena ação contraditória.

Esta terceira parte de José Bálsamo me lembrou muito a saga O Visconde de Bragelonne, onde as intrigas da corte tomam mais conta da narrativa do que a trama central; mas, faço um adendo - desde que a sessão real foi convocada até a conversa que Bálsamo tem com Guillotin - a leitura foi muitíssima interessante (e dentro do enredo para  a queda da monarquia) e me permitiu terminar a leitura antes do prazo estipulado.

Esta saga apresenta o gérmen que surgiu para a  queda da monarquia francesa. José Bálsamo, um líder maçônico e alquimista (entre outros títulos) deseja tirar o rei Luís XV e sua descendência do poder e declarar a monarquia extinta. Para isso, conforme primeiro livro, ele pediu um prazo de vinte anos para a realização do projeto - prazo este que ele considerou justo para arrancar a monarquia pela raiz e não permitir a sua ascensão ao trono novamente.

Por hoje é só, começo a leitura do quarto e último volume desta primeira parte!

Omnia Vanitas

13 de abril de 2020

Leitura treze..


Olá, confinado leitor!

Fim de mais uma leitura! E que leitura! Eu concordo com cada letra da frase da professora Maria Lúcia Dias Mendes: "Alexandre Dumas é um bom contador de histórias". Ele sabe como deixar suas histórias com um gosto de "quero mais". 

A condessa Du Barry ainda não tem descanso com o seu França (Luis XV). Por falar neste apelido, eu acho uma graça quando ela o chama por esta alcunha. 
Para Dumas, Luis XV é um rei que reina sem se preocupar com o presente e com o futuro. O futuro não é da responsabilidade daqueles que o viverão, e o presente se resolve sozinho. 

José Balsamo usa da sua alquimia para trazer alguém para o seu lado - comprado. E o mais engraçado é que ele precisa passar recibo (da compra) para seus companheiros da seita. 
Ainda sobre Balsamo, sua esposa o ama quando está em transe de sono mas o renega quando está acordada. Dormindo, ela tenta seduzir seu marido para que a noite de núpcias seja consumada; acordada jura que irá matar-se se ele tocar nela. E Balsamo concorda que deseja tocá-la mas para sua feitiçaria precisa que ela se mantenha virgem. Interessante.

Ainda sobre casamentos não consumados, o Delfin tem o seu casamento mas uma noiva histérica no quarto. Mas ele não se preocupa visto que também não seduz sua noiva para levá-la à alcova. Fica nesse zero à zero, todos dormindo: ele no sofá e ela de frente para o altar. Os únicos acordados são os parisienses e o rei Luiz XV - que espia pela porta e vê o que não lhe agrada. 

E para os corações partidos, Gilberto continua apaixonado pela sua Andréa, apesar do desdém da moça. Vive como um que sofre todo o sofrimento daqueles que ousam amar uma realização impossível. 

A filosofia de Rousseau é o ponto de Arquimedes para Balsamo. Através dela o alquimista pretende derrubar a monarquia francesa.

Estou gostando muito da leitura, ela é envolvente e dinâmica. A história de cada personagem e sua trama tornam a leitura rápida e agradável. A construção da narrativa me lembrou muito o livro O Conde de Monte Cristo pois cada personagem tem a sua construção pessoal dentro dela, mesmo o egoísta barão de Taverney.

Omnia Vanitas 💀

5 de abril de 2020

Fábulas e contos ...


Olá, leitor!

Eu sou apaixonada por contos e fábulas (infantis?). Então, eu decidi compartilhar algumas dessas maravilhas com vocês deste exemplar da foto!

A metologia será da seguinte forma: publicarei a história escolhida do livro e tentarei achar o conto no idioma original. Sobre as ilustrações, que neste livro são de Gustave Doré, será disposta a mesma que se encontra no livro que irei reproduzir.






O Sol e as Rãs

Celebram-se as bodas de um Tirano e o Povo, com festiva algazarra afoga suas preocupações em copos cheios. Esopo era o único que no via com bons olhos tais celebrações.
Contava ele que, em épocas passadas, o Sol pensou em se casar. Em seguida começaram as lamentações das Rãs. "Que será de nós, se ele tiver filhos?", perguntaram as Cidadãs da lagoa. "Com apenas um Sol já sofremos; quando houver meia dúzia deles, os mares e todos os seus habitantes sumirão. Adeus, pântanos e córregos! Nossa raça diminuirá e logo estará reduzida às águas do Estige". Para um pobre Animal, as Rãs, ao meu ver, racionavam muito bem".


Le Soleil et les Grenouilles

Aux noces d'un Tyran (1) tout le Peuple en liesse
Noyait son souci dans les pots (2).
Esope seul trouvait que les gens étaient sots
De témoigner tant d'allégresse.
Le Soleil, disait-il, eut dessein autrefois
De songer à l'hyménée.
Aussitôt on ouït (3) d'une commune voix
Se plaindre de leur destinée
Les Citoyennes des étangs.
Que ferons-nous, s'il lui vient des enfants ?
Dirent-elles au Sort, un seul Soleil à peine
Se peut souffrir (4). Une demi-douzaine
Mettra la mer à sec et tous ses habitants.
Adieu joncs et marais : notre race est détruite.
Bientôt on la verra réduite
A l'eau du Styx (5). Pour un pauvre Animal,
Grenouilles, à mon sens, ne raisonnaient pas mal.

(1) chez les Grecs : souverain absolu d'une cité
(2) les cruches de vin (on dit actuellement prendre un pot pour prendre un verre)
(3) on entendit (on n'emploie plus ce verbe que dans l'expression J'ai ouï dire)
(4) supporter
(5) Le Styx est le fleuve marécageux des Enfers, dans la mythologie. Les grenouilles n'auront plus qu'à s'y réfugier


fonte para texto em francês aqui.

31 de março de 2020

Leitura onze..parte final



Olá, esperançoso leitor!

Fim da leitura de Servidão Humana, de William Somerset Maugham. 
Este livro é uma pseudo-biografia do autor. 

Gosto muito dos livros do Maugham, e com este não foi diferente; apesar de ter perdido o foco da leitura por achar que se tratar de uma narrativa onde a relação amorosa seria o tema central. Ledo engano.  Deixe-me explicar, equivocado leitor!


A primeira parte da vida de William Carey está nesta publicação. 
Partindo deste ponto, ele foi para Paris para viver como pintor, pois achava que esse era seu dom. Encontrou um tipo variado de pessoas que também se julgavam pintores natos. Poucos realmente tinha aptidão para a pintura. Suas vidas eram dedicadas a esta arte, devotados por uma arte que não os reconhecia como participantes dela. E algumas vezes, tal arte exige a vida.

Novamente à Inglaterra, Philip precisa decidir em que profissão encaixará a sua vida. Escolheu a medicina e, neste processo de estudo - que não exercia por paixão mas por necessidade - conheceu Mildred. 

Servidão Humana é um livro sobre escolhas. Para onde ir, quem amar, o que fazer da sua vida.. Philip colocou-se em situações que escolheu viver, desfrutou de viagens, escolher amar quem não lhe amava, conheceu  a solidão e amigos leais. 

Este livro me lembrou muito outro livro de Maugham: O Fio da Navalha. Enquanto Larry buscava se livrar das amarras que as pessoas exigiam dele, tentava descobrir o sentido de estar vivendo; em Philip a busca era por aprovação social, familiar e amorosa. 

Os livros de Maugham são muito reflexivos, e nesta obra que representa a sua vida, não poderia ser diferente. 

Omnia Vanitas. 💀

10 de março de 2020

Leitura dez..


Olá, equivocado leitor!!

Fim de mais uma leitura! E esta foi especial porque se trata de um dos meus personagens preferidos: Basílio de Brito.

O Primo Basílio é uma das grandes obras do escritor português Eça de Queiroz.
O livro trata da história de um casal que vive uma vida confortável e pacata no subúrbio de Lisboa. As relações sociais de Luísa e Jorge são de nível medianas à medíocres; porém, por Jorge ter um emprego como engenheiro, faz-se respeitável perante a vizinhança. 

Nesta paz que entra Basílio. 
Vindo à Lisboa para negócios e Jorge, neste mesmo período, ausenta-se de casa para ir trabalhar em outra cidade. Sabendo da ausência do marido da prima, Basílio vai à casa de Luísa para saber como a prima está - de aparência, para saber se está conservada ou feia. Imediatamente, as fagulhas do antigo namorico reacendem em ambos, tornando o adultério inevitável.

Luísa Mendonça do Brito Carvalho, a do Engenheiro, tem um caráter simplório e é coberta de mimos - desde antes do casamento. Nada a vida lhe pareceu muito difícil de conseguir e seu temperamento é romanesco: acredita ser amada pelo primo apenas porque merece esse amor, e o fantasia como se fosse saída de uma romance de Dumas (filho).

Os livros lidos pelos personagens ou apenas mencionados na trama são um esboço da própria obra. Como citei acima, o livro lido por Luísa é A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas (filho). Na trama, uma mulher cortesã vive um romance com um jovem estudante de Direito. Outro momento que um livro é apresentado - de modo a significar tão bem o momento da trama, é a representação teatral de Fausto do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, onde e protagonista vende a sua alma e em troca quer o amor de uma mulher. 

A personagem de Luisa é a principal personagem na trama. Mesmo Basílio está à margem na trama. 

E por falar em Basílio. Ele tem trinta e quatro anos quando reencontra sua prima, casada. Luísa tem vinte e cinco anos. O romance deles começou que ela tinha dezoito. A separação brusca do casal devido ao falecimento de um parente de Basílio - e das suas dívidas, segundo as línguas afiadas, o fizeram sair do país e vir para esta terra nossa, o Brasil. 
Apesar da dor da separação, o casamento com Jorge não foi penoso para a moça; mas o reencontro trouxe a nostalgia de um romance abandonado. 

Porém, Basílio é um canalha. O único motivo para estar em Lisboa, segundo ele mesmo, é por causa de Luísa. Esta afirmação não significa que lhe quer bem, apenas a deseja e usufrui dos prazeres que desfrutam no Paraíso. 
Ambos vivem esse adultério de modo pleno. E, também, vivem de modo leviano pois a do Engenheiro esquece de ter cuidados para que a vizinhança não note suas saídas ou as visitas frequentes de Basílio. E quem está prestando atenção nesta relação parental é Juliana Couceiro Tavira. 

Juliana é a empregada "de dentro" do casal Carvalho. Ela é uma "herança" que Jorge trouxe da casa de uma tia. Esta tia, adoentada ao longo de um ano, teve a sua cabeceira a dedicada Juliana. Como enfermeira zelosa, cuidou a velha tia até o fim...com apenas um interesse: ganhar uma gorda herança da doente para que pudesse parar de trabalhar e tornar-se senhora e deixar de ser serviçal. 
Toda a sua vida foi de sofrimento nas casas que trabalhou, e naquelas em que foi bem tratada, com toda a amargura que adquiriu não conseguia reconhecer os benefícios e boas atenções que lhe davam. 
Ao perceber que poderia fazer uma pequena fortuna e deixar de trabalhar para poder cuidar de sua saúde - e talvez, até encontrar um marido - viu na relação de Luísa e Basílio a sua moeda da boa sorte. 

Infelizes mulheres. Seja Luísa ou Juliana, ambas se iludiram em suas paixões. Enquanto a patroa achava-se amada e adorada pelo amante, a empregada achou-se rica com os abusos que fazia Luísa sofrer. 

Para finalizar, este romance deveria ser lido por todos que pensam em ter um relacionamento, seja ele qual for. Eça de Queiroz apresenta a realidade das relações que são romanceadas: amantes, litigioso, ambicioso, adúltero; a expectativa e convívio real das situações são mais complexas do que nas páginas de um livro. 

Omnia Vanitas. 💀

28 de fevereiro de 2020

Leitura nove..



Olá, anônimo leitor!

Fim a leitura do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Na verdade, terminei apenas a leitura do romance pois, nesta edição há alguns contos do autor. Mas, como o título do livro remete somente ao romance, esta publicação se aterá somente a ele.

Clara dos Anjos é a única filha de Joaquim e Engrácia - única filha que sobreviveu. Eles moram no subúrbio carioca e é nessa sociedade que todo o romance é passado. 

Lima Barreto apresenta a história de cada personagem do subúrbio. O romance, então, não se concentra apenas em Clara, mas faz da personagem o motriz que leva o leitor para conhecer a vida privada das outras pessoas da trama. 

Cada vida é apresenta em sua dignidade e seu vício; as famílias e os princípios que as regem. A leitura não está ligada ao personagem central - Clara - porém, todos a sua volta tornam-se participantes da sua vida e, alguns, fatais ao seu destino. 

Clara dos Anjos apaixona-se por Cassi Jones de Azevedo. Ambas as famílias criam seus filhos através da dignidade.
O núcleo Dos Anjos vêem na única filha sobrevivente o motivo de orgulho e preocupação. Rodeada de cuidados excessivos, Clara pouco conhece ou se envolve com a sociedade ao seu redor - fora a vizinha e algumas poucas amigas. Protegida e com pais que pouco prezam em designar a filha uma aprendizagem adequada para sua vida em sociedade - desta forma impedem que a menina tenha conhecimento sobre atuar em uma relação extra-família. 
Esse "aprisionamento" molda na protagonista uma personalidade fraca e inocente. Com todos esses cuidados excessivos, Clara não cria um discernimento sobre o caráter das outras pessoas.  
Enquanto a mãe a mantém presa em casa para a segurança da menina, o pai pouco a vê (pois trabalha de manhã até à noite). Ambos desejam que a menina tenha um bom casamento - desde que não seja com Cassi Jones, à quem mantém longe dos olhos da filha (ou pelo menos assim acham).
Todos esses cuidados são somente um motivo para que Clara se rebele - dentro da sua personalidade - contra as opiniões que os pais tem do rapaz.

Cassi Jones vem de uma família que, para o orgulho de dona Salustiana, apenas possui o subtítulo de um parente do passado. Apesar da mãe orgulhosa e totalmente cega aos maus feito do filho, o pai, senhor Azevedo, é um pais austero que ignora e expulsa o filho do convívio familiar à fim de não deixar que suas duas outras filhas (Catarina e Irene) sejam privadas de bons casamentos e sociedade por causa das atitudes do filho. 

Clara dos Anjos mostra a diferença social, mas, principalmente, racial de uma sociedade suburbana em formação. Os agouros e sonhos de pessoas que precisam sobreviver mediante sua dignidade, apesar da condição econômica e discriminação racial que vivem -e a última frase do romance mostra o desespero destas pessoas. 


Omnia Vanitas 💀



24 de fevereiro de 2020

Leitura oito..



Olá, indeciso leitor!

Ainda não sei se gosto deste livro. 

Quando peguei esse livro na estante, logo achei que seria uma dessas história arrebatadores de Aluisio Azevedo. Enganei-me. 

Primeiramente, esta história se passa em Paris, no século XVII. Péssimo! 
Em segundo lugar, eu não achei os personagens cativantes ou bem envolvidos na trama. O enredo parece pular de um lugar para outro sem muito sentido. Personagens são deixados para trás sem motivo aparente. 

E a trama é a seguinte: um órfão é deixado na porta de um seminário e, um padre que buscava por sua remissão de uma vida libertina, encontrou no menino a sua absolvição.
Angelo, este é o nome do órfão, foi criado para se tornar um eclesiástico perfeito, sem mácula ou qualquer tipo de vício que o pudesse tirar a virtude - incluindo a sua virgindade. 
O garoto teve pouco convívio social, morou durante muito tempo dentro de uma espécie de sótão e só conversava com pessoas que não poderiam tirá-lo do caminho de fé traçado pelo seu "pai", Ozéas.

E, para mim, só os nomes já começaram errado. França com Angelo e Ozéas não me cativaram. 

A ideia do menino viver no clausuro para tentar criar um homem sem vícios, bacana! Mas, sem aviso prévio, levá-lo para uma grande multidão ouvir  a sua primeira pregação e, ainda assim, levar todos às lágrimas - achei forçado.
E a paixão repentina pela cortesã que - só e olhar - enche o rapaz de amor puro e sincero. Não comprei a ideia. 

E esta foi a primeira parte.

A segunda parte mostra o jovem Angelo vivendo sozinho, pensando em Alzira - que se muda para a região onde o jovem e virtuoso padre mora. O segundo encontro deste casal é surreal e até anima um pouco o desenrolar da segunda parte quando o jovem padreco tem lá os seus sonhos. Mas ainda assim é uma história sem muito atrativo. 

Assim como em O Seminarista, de Bernardo Guimarães, o jovem toma a sua decisão entre a vida eclesiástica ou a  vida com Alzira. 
Mas algumas pontas ficam abertas.

Como já mencionei, depois de ler O Cortiço e O Mulato, ficou muito difícil engolir A Mortalha de Alzira como uma obra de Aluisio Azevedo. 

Leitura sete..


Olá, realista leitor!

Quando eu iniciei a leitura de O Seminarista, duas obras foram citadas no prefácio: Eurico, o Presbítero (Alexandre Herculano) e O Crime do Padre Amaro (Eça de Queiroz).
Infelizmente, o livro do Alexandre Herculano está na minha biblioteca lá na casa dos meus pais. Felizmente, Eça de Queiroz estava à mão.

Que livro!!!

Eu achei que a leitura estaria comprometida por eu conhecer o final da história. Ledo engano. Nada se perdeu durante a leitura por este motivo. Até gostei do Amaro Vieira - pelo menos até o capítulo XII.

Esta obra de Eça (e também outras, como Os Maias) causou burburinho quando do seu lançamento. Qual! Falar assim do clero e da instituição eclesiástica não deveria ser permitido. Mas o foi!

Eça de Queiroz apresenta uma sociedade mesquinha, habilidosa e sem virtude na figura do clero da pequena cidade de Leiria. O poder dessa classe era tão forte que ditou o modo de vida da região; ditando casamentos, empregos e vícios.

Amaro Vieira é um órfão que ficou sob a tutela da família na qual seus pais eram empregados. Franzino e de compleição submissa e tímida, sua tutora, ao falecer, o deixou de herança uma função: tornar-se padre. Padre? Justo à Amaro que adorava a companhia da mulheres, seus paparicos e chamegos. Porém, não tinha ideia do que ser na vida, mas sabia que padre não queria ser. Nunca compreendeu aqueles que se engajaram na profissão por amor a ela. Mas padre se tornou. Seu tempo de seminário foi um suplício e, não fosse pelo conde Ribamar, genro da sua tutora, viveria em uma comunidade serrana - totalmente fora dos centros urbanos onde ferviam atualidades e mulheres lindas. 
Leiria foi um ótimo celeiro para Amaro. Uma cidade repleta de vícios religiosos onde a figura da igreja - seja qual o seu cargo, era respeitada como o próprio Deus - e tão pouco questionável quanto o próprio. 
Apesar de se chocar com esta sociedade no início, Amaro fácil se acostumou a ela - visto que sempre um janota que aprecia tudo o que é bom e de fácil acesso.

Amélia Caminha é uma jovem de Leiria criada por uma mãe carola. Viveu sempre rodeada pelo clero e ouvindo história sobre esta classe de forma romanceada: uma mulher que perdeu o amor do sua vida e tornou-se freira para não se entregar a outro homem, ou o padre que se apaixonou por uma freira que teve a sua vida eclesiástica ofuscando essa paixão e blá-blá-blá.
Então, para uma jovem de vinte e três anos foi fácil apaixonar-se pelo bonito padre que chegou na região: Amaro Vieira. 

Eça de Queiroz deixa muito claro como o clero abusou do seu poder sobre as mentes fracas de seus seguidores. Criticou, também, o sacerdócio sem a vocação e como isso pode levar a uma função fora dos propósitos da fé. 
Todos os personagens, desde o menor até o principal apresentam vícios e caráteres que são baixos na personalidade humano. Pessoas mesquinhas e inclementes, orgulhosas, avarentas  e odiosas. 
Porém, antes de terminar a obra, Eça apresenta um personagem carismático e exemplo de sacerdócio. É uma flor em meio as ervas daninhas. 

Eu adorei a leitura desta obra, e, assim como minha mãe, odiei o Amaro - e fui torcedora fiel de João Eduardo (outro queridão que coloquei na minha lista junto com Ferrão).

Omnia Vanitas. 💀



3 de dezembro de 2019

Trigésima oitava leitura - parte I ..


Olá, atrasado leitor!

Terminei esta leitura de Oliver Twist no mês de Novembro, mas, infelizmente, meu tempo disponível foi somente hoje! 
E, talvez, eu tenha coisas demais para escrever e faça, por isso, duas publicações. 

Como já escrevi anteriormente, eu fiz marcações em partes da leitura, e será sobre elas que escreverei neste primeiro momento. 

Primeiramente, separei o livro em quatro partes.

- do capítulo I ao VII, Oliver Twist está no ambiente do asilo e sua sociedade está em torno desta casa. É nesse período que o protagonista chora muito. Nestes primeiros seis capítulo ele foi às lágrimas nove vezes - incluindo o choro de nascimento. Outra curiosidade que observei foi que Oliver poucas vezes interage nas cenas. Sua participação é quase de coadjuvante da história. As pessoas em volta são descritas, conversam, riem... E Oliver permanece em silêncio ou em choro. 

- do capítulo VIII ao XXVII, Oliver muda de cidade por não aguentar a injustiça proferida àquela que ele ama. Seus novos amigos, apesar da reputação não tão ilibada quanto a dos outros que conheceu antes, dão ao menino um lugar para morar e comida. 
Nesta parte da trama a identidade de quem seria Oliver Twist é apresentada ao leitor. E, a amizade que outrora era valiosa para o menino, nesta altura, o põe em apuros.

- do capítulo XXVIII ao XXXVII, a história muda de cenário novamente e Oliver conhece pessoas que realmente o podem ajudar - e, talvez, desvendar um pouco de quem pode ser esse jovem órfão. A ajuda virá de uma pessoa inesperada.

- do capítulo XXXVIII ao LIII - eu não escreverei sobre os pontos relevantes para não atrapalhar a leitura de alguém, apenas quero deixar registrado que o tom da narrativa, para mim, mudou de modo significativo. A ironia marcante do início da narrativa fica de lado ao longo da trama, e a maneira como os acontecimentos finais foram descritos me deixou um pouco assustada; pois aquela história que parecia suave se tornou pesada. Mas adorei cada capítulo.

Eu escrevi algumas anotações na borda das folhas, mas infelizmente não conseguirei transmitir tudo o que gostaria pois o texto ficaria extenso demais.  Apenas, permita-me, considerado leitor, algumas observações:

- a descrição de um enterro (na primeira parte) é triste. A morte ainda consegue ser mais miserável que  própria vida. 

- a fidelidade das crianças a Fagin (o velho judeu) é tão sincera que mesmo quando estão no cadafalso com sua vida ao fim não o traem. Existe uma lavagem cerebral, algumas vezes sutil em outras amedrontadora que leva as crianças a crerem que não poderão/poderiam ser outra coisa. 

- Charles Dickens debocha abertamente dos filósofos e seus pensamentos tão fora da realidade das pessoas que não estão no seu círculo de pensadores, e disso faz isso - com grifo meu - no capítulo XIII para descrever como Dawkins e Bates fogem quando Oliver é levado à prisão.

- sobre a prisão, há a descrição de três tipos de pessoas que frequentam a cadeia inglesa: "um delinquente miserável, descalço, que havida sido preso por tocar flauta"; "...um vagabundo de sessenta e cinco anos que estava preso (...) por esmolar nas ruas e não fazer nada para ganhar a vida" e "na cela seguinte encontrava-se outro homem, o qual se achava preso por vender caçarolas de estanho sem licença, com o que fazia alguma coisa para ganhar a vida, mas em detrimento do Tesouro Público" (cap.XIII). 

Leitor anônimo, terminarei esta primeira postagem aqui - para não alongar muito o texto.

17 de novembro de 2019

Trigésima sétima leitura..



Olá, anônimo leitor !!

Fim da primeira leitura de um livro do "Estevão Rei" neste ano! Este exemplar de Escuridão Total Sem Estrelas é especial por ser um presente de uma amiga muito querida! 

Este livro contém quatro contos, a maioria deles - ou todos - já se tornaram filmes. Destes, eu assisti 1922. E, vou repetir o que escrevi sobre este conto lá no Instagram: essa história me lembrou muito Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski. Um homem comete um crime é sua consciência o atormenta tanto que ele sente que a qualquer momento seu ato será descoberto - mas com uma pitada sinistra do mestre King.

A sequencia dos contos é a seguinte:
- 1922
- Gigante no Volante
- Extensão Justa
- Um Bom Casamento.

Com eu não quero dar spoiler, não vou apenas comentar que todos os contos tem um final comum. 

Escuridão Total Sem Estrelas é um livro violento. Assassinato e estupro é o que permeia estes contos do senhor King. 
Eu não quero escrever muito sobre cada um para não dar mancada em revelar algum desfecho; mas vou transcrever o que Stephen King escreveu sobre a inspiração para cada escrita. 
1922 foi inspirado em um livro de não ficção chamado Wisconsin Death Trip (1973), de Michael Lesy, que mostrava fotografias tiradas na pequena cidade de Black River Falls, Wisconsin Fiquei impressionado pelo isolamento rural dessas fotografias e pela severidade e pela privação no rosto da pessoas. (...)Em 2007, enquanto viajava pela Interestadual 84 para uma sessão de autógrafos no oeste de Massachusetts, passei por uma dessas paradas de estrada (...). Quando saí da lanchonete, vi uma mulher com o pneu furado tendo uma conversa ávida com um caminhoneiro estacionado na vaga ao lado. (...)Em Bangor, onde moro, uma via pública chamada extensão da rua Hammond margeia o aeroporto. (...) Há uma área de cascalho ao lado da cerca do aeroporto, na metade da extensão, onde vários vendedores de beira de estrada vêm montando suas barraquinhas ao longo dos anos. (...)A última história  veio à minha cabeça depois de ler um artigo sobre Dennis Rader, o infame assassino BTK (do inglês bind, torture and kill - amarrar, torturar e matar) que tirou a vida de dez pessoas - a maioria mulheres, mas duas eram crianças - em um período de 16 anos. (...) Paula Raider foi casada com esse monstro por 34 anos, e muitas pessoas na área de Wichita, onde Rader cometia seus crimes, se recusaram a acreditar que ela vivia com ele sem saber o que ele fazia.
Explicação para o título da obra:
Na ausência da luz, o mundo assume formas sombrias, distorcidas, tenebrosas. Os crimes parecem inevitávveis; as punições, insuportáveis; as cumplicidades, misteriosas. Os personagens destes quatro contos passas por momentos de escuridão total, quando não existe nada - bom senso, piedade, justiça ou estrelas - para guiá-los. Suas histórias representam o modo como lidamos com o mundo e como o mundo lida conosco. São narrativas fortes e, cada uma a seu modo, profundamente chocantes.

Eu adorei esta leitura, e a rapidez ao terminar o livro se deu por haver várias filas de carros parados me prendendo dentro de ônibus por mais de hora durante a semana!

Omnia Vanitas 💀

8 de novembro de 2019

Trigésima quinta leitura..

Flora 😺

Olá, leitor!

Estou seguindo a mesma ideia de quando li O Mosaico de Parsifal : não terminei a leitura, mas preciso escrever.

Archibal Joseph Cronin é um médico e escritor escocês. 
Este escritor foi uma surpresa para mim, tão agradável como William Somerset Maugham o foi. 
E, como fiz com Bernard Cornwell, antes de ler alguma de Cronin eu comprei três livros dele: Três Amores, Almas em Conflito - estou louca para ler - e, claro A Cidadela. 
Eu  nem teria como saber da existência da biblioteca de Cronin se fosse uma indicação que tive lá no Instagram. E a coincidência de eu encontrar um exemplar deste livro perdido em uma caixa que estava na casa da minha mãe. Depois, veio a viagem para São Paulo e a visita ao Sebo do Messias - e isso me deu a ideia de comprar um exemplar "novo" de A Cidadela (que se tornou um trio de livros do autor escocês).

Este edição que tenho agora (ao lado da Flora) é a décima segunda e publicada em 1952. A antiga dona se chamava Leocádia Cintra e a data ao lado do nome é 08-12-1952.
O prefácio desta edição (e a tradução) é de Geonilo Amado. A leitura o entusiasmou tanto que ele foi procurar José Olympio (o editor) pedindo para que fosse encontrado alguém para traduzir este livro maravilhoso que ele acabara de ler (em inglês). E Olympio designou o próprio Amado para a tarefa de trazer ao público brasileiro uma edição em português e The Citadel. 

Eu adoro livros antigos (e bem conservados, se possível) com suas folhas amareladas pelo tempo e sua oxidação natural, porém, neste exemplar, o cheiro está forte demais. Não é cheiro de mofo, mas de algo que foi guardado durante muito tempo em um lugar. Raramente tenho problemas com isso, mas isso foi algo que me chamou a atenção (olfativa) neste exemplar.

A.J.Cronin tem uma escrita simples, longe de uma linguagem dos clássicos, e uma história fascinante. Inicialmente, eu estranhei um pouco, pois desejava mais dos personagens - um aprofundamento melhor; mas tudo foi se tornando encantador sem precisar de nada mais lhe dar suporte. 

A história é a seguinte.
No ano de 1924, Andrew Manson, um recém formado médico muda-se para uma pequena vila de mineiros para começar sua prática médica e pagar o empréstimo estudantil que lhe foi dado. 

Manson tem momentos muito marcantes na vida dele antes de alguma mudança. Na minha opinião, elas foram necessárias para as decisões que tomou depois. 
Ainda como recém-formado, apaixona-se por Christine e casam-se antes da segunda mudança de lugar. 

Manson é um homem determinado que quer exercer a sua profissão sem burocracias. Luta contra todos que lhe impedem o caminho para crescer de forma honrosa na prática da medicina. 

Como todo iniciante, Manson trás ideias utópicos que precisam ser abandonados e descobre que a medicina está muito além dos livros. Manson não se contenta em saber somente o que aprendeu nos livros e questiona os métodos aplicados a literatura médica.
Andrew Manson é um ótimo médico e logo conquista uma freguesia fiel por onde passa. 

Este livro trata da ética médica. E a cada capítulo eu tenho menos vontade de marcar minha consulta médica (risos). 
Qualquer pessoa leiga como eu sabe que a indústria farmaceuta é uma espécie de cartel de drogas (lícitas). Manson luta contra esse cartel que distribui medicamentos sem motivo nenhum e que usa a medicina para enriquecer sem a preocupação primordial com o paciente. Para ele, a medicina é sagrada.
Mas Andrew malha em ferro frio. A maioria das pessoas com quem trabalha já está exercendo a profissão há muito tempo e não possui mais o ardor pela mudança de comportamento.

O livro é dividido em quatro partes; para cada parte é um lugar onde Andrew Manson exerce a função de médico. E, das anteriores, a quarta parte é a mais reveladora de todas.
Nesta altura da narrativa, Andrew escolhe o lado que deve seguir na sua profissão. E a cada capítulo eu estou esperando um desenrolar para cada acontecimento que parece estar tão perto ...e se afasta. 
Nesta manhã, no final da leitura do capítulo XV, eu precisei fechar o livro e não seguir adiante. Eu preciso respirar fundo para continuar. Precisei escrever esta publicação tão sem pé nem cabeça! Eu adorando tudo e não estou nem um pouco arrependida de ter outros dois livros deste autor em minha estante. 

E deixo esta frase para responder ao título do livro:
Você não se lembra de que considerava a vida como se fosse uma assalto ao desconhecido, uma investida para a altura?... Era como se quisesse conquistar uma cidadela que você não via mas que tinha a certeza de que estava lá, no alto...
 O livro é fantástico! Sinto muito por não conseguir escrever a real importância desta obra. 


P.S.: eu pulei a trigésima quarta leitura (Le Petit Nicolas et les Copains - Sempé/Goscinny)


26 de outubro de 2019

Trigésima primeira leitura ..

Olá, anônimo leitor ! 

Fim de mais uma leitura! Adorei ler "Verônica" de Johanna Spyri.


Verônica, assim como Heidi, Francisca e Jorli, é órfã. Ela é criada por Gertrudes e tem uma amizade sincera com o filho desta mulher, Teodorico.

O livro contém três linhas de tempo: a infância de Verônica é tratada de modo breve na trama, assim como sua vida adulta. O principal a trama está na juventude destes personagens. 

Spyri mais uma vez apresenta a temática da fé como parte da trama mas, neste livro, o foco principal é a dedicação ao trabalho honesto para viver de modo tranquilo e feliz. 

Verônica busca com afinco trabalhar para poder alcançar a sabedoria apresentada em uma rosa que sua mãe deixara para ela: 
A fortuna está pronta, e bem a vista;
E quem sabe apanhá-la é  que a conquista
Em busca desta fortuna (que é a felicidade) Verônica dedica-se a todo tipo de trabalho que encontra. E, ainda não encontrando a felicidade nesta tarefa, segue outros conselhos que podem levar a ele. Tudo em vão. Verônica não compreende como é possível ser feliz.

Enquanto Verônica é exímia em tudo o que faz e uma moça centrada e correta, Teodorico - mesmo desempenhando bem a sua tarefa, tem como calcanhar de aquilos dois amigos que lhe são boas influências: Blasi e Jost. 

A trama é muito bem desenvolvida entre estes quatro personagens que se descobrem lutando cada um por si. 

Uma parte me chamou muito a atenção na história: quando Teodorico sofre uma injúria, Verônica culpa os amigos e o próprio Teodorico pela sua má sorte. Então, Gertrudes apresenta o seguinte quadro para a moça:
"Quando o meu Teodorico era pequeno, e dependia de mim para tudo, no tempo em que não tinha idade para se ocupar de si, eu me vi muitas vezes aflita e inquieta, diante do seu caráter e procedimento. Ele queria ser sempre o primeiro em tudo, e fosse o que fosse que desejasse, havia de tê-lo, sem demora e sem esforço algum. E, ao passo que foi crescendo, e essas qualidades iam-se fortalecendo, pareceu-me muitas vezes que com aquela obstinação, nunca poderia vir a ser grande nem bom, se não tivesse a disciplina. (...) Se começaram para Teodorico as duras lições da vida, é que ele deve aprendê-las até o fim; e se seus pecados têm de ser expiados, não poderá deixar de sofrer". 

Isso me lembra uma frase de Pablo Neruda que diz:
Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências. 
Teodorico escolheu suas amizades e, mesmo sabendo que a mãe e a amiga eram contra aquele envolvimento, manteve estes dois maus conselheiros sob seu travesseiro. 

Se somos livres para escolher, que saibamos ouvir àqueles que nos querem bem - mesmo que não haja concordância em determinados pensamentos e ações. 

Omnia Vanitas. 💀



13 de agosto de 2019

Décima oitava leitura..


Fantástica!

Leitor, eu não tenho outra palavra para descrever esta leitura! 

A trama de Daphne du Maurier {Minha Prima Raquel} conta a história de dois homens que vivem suas vidas sem fazer questão de ter mulheres por perto. Na herdade que moram, apenas serventes do sexo masculino - muito raramente uma mulher vem auxilia-los em algum trabalho; e, suportam a visita de poucas conhecidas aos domingos. 

A vida destes dois familiares (tio e sobrinho) muda quando o tutor se casa com uma prima que mora em Florença. Para infelicidade do sobrinho, o tio falece por conta de um tumor cerebral (que já havia levado à morte outro membro da família). Em meio aos delírios (?), o tio envia cartas para o tutelado avisando sobre a caráter da sua esposa: a prima Raquel.

Para surpresa de todos, a viúva de Ambrósio chega a Inglaterra para devolver os pertences do falecido marido ao sobrinho. E, o que seria uma visita de três dias tornou-se uma permanência de um pouco mais de dez meses.

Durante sua estadia, o caráter de Raquel divide todos os personagens, sendo o principal deles Philip, sobrinho de Ambrósio e seu único herdeiro. 

A narrativa é feita a partir das memórias de Philip. Tudo o que compete sobre Raquel é do ponto de vista dele e o que ele dela entende através de outros. 
Imaturo, impulsivo e despreparado, Philip vive sentimentos que nunca havia experimentado em sua vida de misoginia: como agir e o que sentir perante uma mulher desconhecida, apaixonante e misteriosa o leva à beira da loucura e do êxtase. 

E, mesmo sabendo o quão tolo é o rapaz, o caráter de Raquel é totalmente desconhecido - apesar de eu apostar que apenas os gastos excessivos que citam sobre ela é verdade: mesmo sem provas concretas. 

Tudo em Raquel é dúbio - pelo menos é o que se vê através dos olhos de Philip. 

Eu já havia feito uma publicação sobre o quão semelhante é esta leitura de Dom Casmurro. 

- Dois homens apaixonados por mulheres que não controlam
- Ambos têm sentimentos divergentes pela amada
- Bentinho e Philip são imaturos
- Ambos não têm a presença paterna ao lado e são apegados ao lar
- Assim como Bentinho, Philip duvida da mulher amada e se sente traído quando outros homens conversam com ela.
- O final de ambos é muito semelhante.

E, por achar o livro de Machado de Assis e Daphne du Maurier com narradores-personagem tão semelhantes,  eu escolhi ler Dom Casmurro antes de começar a primeira (de muitas) leitura deste maravilhoso livro de Maurier.

Uma trama simples, envolvente e cheia de mistérios. Eu devorei cada página! 

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...