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3 de abril de 2021

Leitura dois..


 

Segunda leitura de 2021 e mais uma releitura ! Até parece que minha estante não está cheia de livros que nunca tiveram a primeira leitura realizada! Um absurdo ! Mas essa sou eu ! 

Mais um Maugham! "O Fio da Navalha" conta a história em primeira pessoa Lawrence Darrel (Larry) um jovem que participa da Primeira Guerra Mundial e, ao perder seu amigo, questiona sua existência e tudo o que pode abarcar esse fim. Larry é órfão e, mesmo noivo de uma bela jovem - Isabel - decide largar a sociedade proeminente em que vive para se tornar um vagabundo. Larry deixa a próspera América do Norte para visitar o velho continente em busca de suas respostas. 

No momento que a América do Norte estava vivendo um crescimento financeiro que só não se tornaria milionário "quem não quisesse", Larry decide que isso não serve para ele pois a vida é mais do que ganhar dinheiro e prosperar materialmente. 

Viajando por vários lugares, conhecendo vários tipos de pessoas, pensamentos, modos de vida, Larry tenta encontrar um fim para suas ânsias. 

Assim como Kitty Fane, Larry expande mais suas emoções, pensamentos e viagens para buscar em todo tipo de fé aquilo que sacie sua necessidade - algo que lhe seja coerente.

Mesmo que às vezes Larry esteja ausente durante a narrativa do autor-personagem, chegará o momento que alguém citará algo sobre sua atual situação que sempre contratará com aqueles que o mencionam. 

A simplicidade de uma vida ainda é cheia de desafios para aqueles que a buscam. 


Omnia Vanitas. 💀

22 de abril de 2020

Leitura catorze..


Olá, isolado leitor!

Fim de mais uma leitura - e do terceiro livro da saga Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas. 
Esta primeira parte é composta por quatro volumes e chama-se José Bálsamo. Estes são os links para o primeiro e o segundo livros. 

Neste terceiro livro, o projeto de José Bálsamo segue seu curso, porém, nesta direção também estavam os planos de outros personagens

A condessa Du Barry estava em guerra contra todos que não a aceitavam como a favorita do rei Luís XV. Esta lista era composta por quase toda a França, pela família Choiseul, pela Delfina e seu esposo (Luiz XVI) e, também o marechal Richelieu - que muda mais de partido dentro da trama do que pode ser aceito em via de regra. 
Um adendo sobre esta personagem - não se trata do mesmo Richelieu de Os Três Mosqueteiros - o período entre as história o faria um matusalém; mas ambos existiram e foram ativos junto à monarquia francesa
Além de seus inimigos naturais, a condessa Du Barry ainda precisa enfrentar uma nova rival, a dama de companhia de Maria Antonieta, Andréa de Taverney. 
Mas o rei não é o único apaixonado por Andréa. A menina parece arrebatar corações por onde passa; e o mais apaixonado deste séquito de enamorados é Gilberto. Este aspirante a filósofo faz a sua vida orbitar conforme a trajetória de Andréa. E é isto que Du Barry utilizará para manter esta paixão de Luiz XV fora do alcance do rei. Em contra-partida, o marechal Richelieu pretende aproximar este casal para tirar a Du Barry "do sério" e "da vista".
Todo o mal entendido aconteceu por conta de um cargo no parlamento que foi recusado (pelo rei) ao senhor de Richelieu. Tal recusa foi entendida como uma traição de Du Barry ao marechal. E, sendo rivais, estão colocando empecilhos no caminho de cada um - que, às vezes, traz a vitória para um, outrora a vitória de outro. 
E nesta troca de cargo no parlamento francês, a disputa pela vaga que o ministro De Choiseul deixou, mobilizou uma revolta no parlamento que este decidiu não julgar mais nenhum caso. Mais uma vez a amante do rei entra em ação para fazer sua vontade ser ouvida. 

Entre os filósofos, Rousseau tem três participações interessantes: a primeira delas é a rompimento de relação professor x pupilo com o Gilberto. A segunda é em uma reunião onde ele encontra alguns participantes da maçonaria, entre eles, um médico relevante para a história com um sobrenome peculiar: Guillotin. A terceira participação que chamou minha atenção foi justamente a reunião com aqueles que causaram a sua separação de Gilberto - uma pequena ação contraditória.

Esta terceira parte de José Bálsamo me lembrou muito a saga O Visconde de Bragelonne, onde as intrigas da corte tomam mais conta da narrativa do que a trama central; mas, faço um adendo - desde que a sessão real foi convocada até a conversa que Bálsamo tem com Guillotin - a leitura foi muitíssima interessante (e dentro do enredo para  a queda da monarquia) e me permitiu terminar a leitura antes do prazo estipulado.

Esta saga apresenta o gérmen que surgiu para a  queda da monarquia francesa. José Bálsamo, um líder maçônico e alquimista (entre outros títulos) deseja tirar o rei Luís XV e sua descendência do poder e declarar a monarquia extinta. Para isso, conforme primeiro livro, ele pediu um prazo de vinte anos para a realização do projeto - prazo este que ele considerou justo para arrancar a monarquia pela raiz e não permitir a sua ascensão ao trono novamente.

Por hoje é só, começo a leitura do quarto e último volume desta primeira parte!

Omnia Vanitas

5 de abril de 2020

Fábulas e contos ...


Olá, leitor!

Eu sou apaixonada por contos e fábulas (infantis?). Então, eu decidi compartilhar algumas dessas maravilhas com vocês deste exemplar da foto!

A metologia será da seguinte forma: publicarei a história escolhida do livro e tentarei achar o conto no idioma original. Sobre as ilustrações, que neste livro são de Gustave Doré, será disposta a mesma que se encontra no livro que irei reproduzir.






O Sol e as Rãs

Celebram-se as bodas de um Tirano e o Povo, com festiva algazarra afoga suas preocupações em copos cheios. Esopo era o único que no via com bons olhos tais celebrações.
Contava ele que, em épocas passadas, o Sol pensou em se casar. Em seguida começaram as lamentações das Rãs. "Que será de nós, se ele tiver filhos?", perguntaram as Cidadãs da lagoa. "Com apenas um Sol já sofremos; quando houver meia dúzia deles, os mares e todos os seus habitantes sumirão. Adeus, pântanos e córregos! Nossa raça diminuirá e logo estará reduzida às águas do Estige". Para um pobre Animal, as Rãs, ao meu ver, racionavam muito bem".


Le Soleil et les Grenouilles

Aux noces d'un Tyran (1) tout le Peuple en liesse
Noyait son souci dans les pots (2).
Esope seul trouvait que les gens étaient sots
De témoigner tant d'allégresse.
Le Soleil, disait-il, eut dessein autrefois
De songer à l'hyménée.
Aussitôt on ouït (3) d'une commune voix
Se plaindre de leur destinée
Les Citoyennes des étangs.
Que ferons-nous, s'il lui vient des enfants ?
Dirent-elles au Sort, un seul Soleil à peine
Se peut souffrir (4). Une demi-douzaine
Mettra la mer à sec et tous ses habitants.
Adieu joncs et marais : notre race est détruite.
Bientôt on la verra réduite
A l'eau du Styx (5). Pour un pauvre Animal,
Grenouilles, à mon sens, ne raisonnaient pas mal.

(1) chez les Grecs : souverain absolu d'une cité
(2) les cruches de vin (on dit actuellement prendre un pot pour prendre un verre)
(3) on entendit (on n'emploie plus ce verbe que dans l'expression J'ai ouï dire)
(4) supporter
(5) Le Styx est le fleuve marécageux des Enfers, dans la mythologie. Les grenouilles n'auront plus qu'à s'y réfugier


fonte para texto em francês aqui.

31 de março de 2020

Leitura onze..parte final



Olá, esperançoso leitor!

Fim da leitura de Servidão Humana, de William Somerset Maugham. 
Este livro é uma pseudo-biografia do autor. 

Gosto muito dos livros do Maugham, e com este não foi diferente; apesar de ter perdido o foco da leitura por achar que se tratar de uma narrativa onde a relação amorosa seria o tema central. Ledo engano.  Deixe-me explicar, equivocado leitor!


A primeira parte da vida de William Carey está nesta publicação
Partindo deste ponto, ele foi para Paris para viver como pintor, pois achava que esse era seu dom. Encontrou um tipo variado de pessoas que também se julgavam pintores natos. Poucos realmente tinha aptidão para a pintura. Suas vidas eram dedicadas a esta arte, devotados por uma arte que não os reconhecia como participantes dela. E algumas vezes, tal arte exige a vida.

Novamente à Inglaterra, Philip precisa decidir em que profissão encaixará a sua vida. Escolheu a medicina e, neste processo de estudo - que não exercia por paixão mas por necessidade - conheceu Mildred. 

Servidão Humana é um livro sobre escolhas. Para onde ir, quem amar, o que fazer da sua vida.. Philip colocou-se em situações que escolheu viver, desfrutou de viagens, escolher amar quem não lhe amava, conheceu  a solidão e amigos leais. 

Este livro me lembrou muito outro livro de Maugham: O Fio da Navalha. Enquanto Larry buscava se livrar das amarras que as pessoas exigiam dele, tentava descobrir o sentido de estar vivendo; em Philip a busca era por aprovação social, familiar e amorosa. 

Os livros de Maugham são muito reflexivos, e nesta obra que representa a sua vida, não poderia ser diferente. 

Omnia Vanitas. 💀

18 de março de 2020

Conversa de bar..


Maugham é maravilhoso!
Se você nunca leu nada dele, desorientado leitor, por favor, leia! Comece com O Fio da Navalha ou O Véu Pintado. Leia! Perceba como ele escreve em entrelinhas e conversas tolas as verdades da alma humana.

Aqui estou eu, passando raiva com Philip Carey quando um conserva com dele com um amigo artista - pois em Paris todos o são - chama a minha atenção. E, como eu não estou sozinha, no momento, e precisando muito desabafar essa conversa, deixo o trecho da leitura para pedir: converse comigo leitor anônimo!

— Soube que não faz grande opinião dos meus versos.
Philip sentiu-se embaraçado.
— Não é bem isso — respondeu. — Gostei muito deles.
— Não procure poupar a minha suscetibilidade — retorquiu Cronshaw, com um gesto da mão gorda. — Não empresto nenhuma importância exagerada aos meus trabalhos poéticos. A vida aí está para ser vivida e não para que escrevamos a seu respeito. Meu objetivo é procurar as múltiplas experiências que ela oferece, arrancando a cada momento toda a emoção que ele apresenta. Considero meus escritos como uma graciosa habilidade que, em vez de absorver a existência, acrescenta-lhe prazer. E quanto à posteridade — que o diabo a carregue!
Philip sorriu, pois dava na vista que esse artista da vida não produzira mais do que um mísero borrão. Cronshaw fitou-o meditativamente e encheu o copo. Pediu, depois, ao garçom que lhe trouxesse uma carteira de cigarros.
— Você acha graça por me ouvir falar assim quando sabe que eu sou pobre e vivo numa água furtada em companhia de uma fêmea vulgar que me engana com cabeleireiros e garçons de café. Traduzo livros miseráveis para o público inglês e escrevo artigos a respeito de quadros desprezíveis que nem ao menos condenados merecem ser. Mas faça o favor de me dizer: qual é o sentido da vida?
— Ora, a pergunta é bastante difícil. Por que não a responde você mesmo?
— Não, porque isso é inútil a menos que a gente o descubra por si próprio. Para que supõe que está no mundo?
Philip nunca havia pensado nisso. Após meditar um momento, respondeu:
— Oh, não sei! Acho que estamos aqui para cumprir o nosso dever, fazer o melhor uso possível de nossas faculdades e evitar magoar os outros.
— Em resumo: não faças a outrem o que não queres que te façam, não é assim?
— Creio que sim.
— Cristianismo.
— Não, não é — protestou Philip, indignado. — Isso nada tem a ver com o cristianismo. É apenas moral abstrata.
— Moral abstrata é coisa que não existe!
— Nesse caso, suponha que, ao sair daqui, sob a influência da bebida, esquecesse a sua bolsa sobre a mesa. Por que razão acha que eu a restituiria? Não havia de ser por medo da polícia.
— Seria o temor ao inferno, se você pecasse, e a esperança no céu, se fosse justo.
— Mas se eu não acredito no céu nem no inferno!
— Pode ser. Kant também não acreditava ao conceber o imperativo categórico. Você renegou um credo, mas conservou a ética desse credo. É ainda um cristão, para todos os efeitos, e se existir um Deus no céu você receberá sem dúvida a sua recompensa. O Todo-Poderoso não pode ser tão tolo como as igrejas o representam. Desde que obedeçamos às Suas leis, não me parece que Ele dê importância ao fato de acreditarmos ou não na Sua existência.
— Mas se eu esquecesse aqui a minha carteira, tenho certeza de que você me restituiria — disse Philip.
— Não por motivos de moral abstrata, mas somente por medo da polícia.
— As probabilidades de a polícia descobrir o furto seriam de um para mil.
— Meus antepassados viveram tanto tempo uma existência civilizada que o medo da polícia me impregnou os próprios ossos. A filha de minha concierge não vacilaria um só momento. Responderá,naturalmente, que ela pertence às classes criminosas. Nada disso. Ela está, apenas, isenta dos preconceitos vulgares.
— Nesse caso vai por água abaixo a honra, a virtude, a bondade, a decência, tudo enfim — observou Philip.
— Alguma vez já cometeu um pecado?
— Não sei, mas suponho que sim.
— Fala como um ministro dissidente. Pois eu nunca cometi pecado algum.
Metido no seu sovado casacão, a gola voltada para cima, o chapéu enterrado na cabeça, com seu rosto rechonchudo e vermelho e seus pequeninos olhos cintilantes, Cronshaw parecia extraordinariamente cômico, mas Philip estava levando a coisa muito a sério para rir.
— Nunca praticou algo de que se arrependesse mais tarde?
— Como poderia arrepender-me de haver praticado um ato inevitável? — perguntou Cronshaw, em troco.
— Mas isso é fatalismo.
— A ilusão nutrida pelo homem de que sua vontade é livre tem raízes tão profundas que estou pronto a aceitá-la. Procedo como se fosse um agente livre. Mas quando um ato se realiza, está claro que todas as forças do Universo, desde toda a eternidade, conspiraram para motivá-lo e nada que eu pudesse fazer o teria impedido. Era um ato inevitável. Se foi bom, não me posso arrogar mérito algum; se foi mau, não posso aceitar censura alguma.
— Minha cabeça está dando voltas — disse Philip.
— Beba um gole de uísque — redargüiu Cronshaw, passando-lhe a garrafa. — Não existe nada melhor que uísque para clarear as idéias. É natural que você tenha o espírito lerdo, uma vez que insiste em beber cerveja.
Philip balançou a cabeça e Cronshaw continuou:
— Você não é um mau rapaz, mas acontece que não bebe. A sobriedade perturba a conversação. Quando falo a respeito do bem e do mal... — Philip notou que ele retomava o fio do discurso — ... falo convencionalmente. Não atribuo significação alguma a essas palavras. Ninguém me induzirá a instituir uma hierarquia de ações humanas, emprestando dignidade a umas e vituperando outras. Os termos vício e virtude não possuem sentido algum para mim. Não louvo nem censuro. Apenas aceito. Sou a medida de todas as coisas. Sou o centro do Universo.
— Mas existem outras pessoas no mundo — objetou Philip.
— Eu falo apenas por mim. Só noto as outras pessoas na medida em que elas limitam as minhas atividades. O mundo também gira em torno delas, e cada uma julga ser o centro do Universo. Meus direitos sobre elas não vão além do alcance de minha força. O que eu posso fazer é o limite do que devo fazer. Somos gregários, e por isso vivemos em sociedade. E a sociedade se conserva unida por meio da força, a força das armas (isto é, a polícia) e a força da opinião pública (isto é, a mrs. Grundy*). De um lado há a sociedade; do outro, o indivíduo: cada um dos dois é um organismo que luta pela sua conservação. É a força contra a força. Eu me encontro só, obrigado a aceitar a sociedade, o que faço de bom grado, uma vez que ela, em troca dos impostos que eu pago, me protege (um fraco) contra a tirania de pessoas mais fortes do que eu. Mas eu me submeto às suas leis porque sou compelido a isso. Não lhe reconheço a justiça nem sei o que isso seja, pois conheço apenas a força. E, depois de pagar uma taxa para que o policial me proteja e (se eu viver num país onde o recrutamento militar for obrigatório) depois de servir no exército que guarda a minha casa e a minha terra contra o invasor, estou quite com a sociedade. Quanto ao mais, contrabalanço a sua força com a minha astúcia. Ela cria leis que visam à sua própria conservação, e se eu as violar sou morto ou encarcerado. A sociedade tem o poder de fazer isso e, por conseguinte, o direito. Se eu violar as leis, aceitarei a vingança do Estado, mas não a considerarei um castigo nem tampouco me julgarei culpado. A sociedade procura atrair-me para o seu serviço acenando-me com honrarias, riquezas e o bom conceito de meus semelhantes. Sou, porém, indiferente à opinião deles. Desprezo as honrarias e posso muito bem dispensar a riqueza.
— Mas, se todos pensassem assim, o mundo viria abaixo num instante.
— Nada tenho que ver com os outros. Só me ocupo comigo mesmo. Tiro proveito do fato de que a maior parte da humanidade é levada, com o olho nas recompensas, a realizar coisas que, direta ou indiretamente, vem beneficiar-me.
— Considero esse um modo extremamente egoísta de encarar as coisas — disse Philip.
— Julga, por acaso, que o homem seja capaz de fazer alguma coisa a não ser por propósitos egoístas?
— Julgo.
— É impossível que assim seja. Quando ficar mais velho, compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. É absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que sacrificariam eles os seus desejos pelos nossos? Quando você quiser compreender que cada um, no mundo, se preocupa apenas consigo mesmo, exigirá menos dos seus semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer".

MAUGHAM, William Somerset. Servidão Humana. Ed. Globo, 1940; cap. XLV, páginas 236 a 240.

Omnia Vanitas. 💀



16 de março de 2020

Leitura onze..parte I



Olá, fragmentado leitor!

Antecipo-me ao escrever neste blog sobre a leitura atual de Servidão Humana do querido William Somerset Maugham.
Como não poderia ser diferente, é uma leitura densa, com pensamentos e personalidades que atraem minha atenção.
Portanto, mesmo estando apenas na página 178 (de 701), preciso parar para fazer algumas breves considerações. Vamos lá ...

Philip Casey em menos de um ano perdeu seus pais em circunstâncias diferentes: o pai fora envenenado e a mãe morreu após o parto do seu irmão natimorto. Philip tinha nove anos na época que sua mãe faleceu. 

Após toda essa tragédia, foi morar com o tio e sua esposa. William Casey é um vigário na região de Blackstable. 

Após a chegada na casa dos tios, Philip viu sua vida direcionada para o trabalho religioso.  Frequentou a escola da região e teve seu primeiro contato social: sua deficiência no pé o levou conhecer a maldade que seus colegas de ensino lhe demonstravam por ele não ser "normal". Precisou enfrentar o deboche dos alunos e conviver com o autoritarismo de alguns professores. E neste ambiente, Philip precisou construir o seu caráter.
A falta de habilidade esportiva o levou aos livros. Tornou-se o primeiro em algumas matérias, cativou a simpatia de alguns professores e o horror de outros. Sua inteligência e perspicácia permitiram à Philip saber usar de argúcia contra seus colegas - visto que mesmo com seu destaque nos estudos, pouco convívio social tinha com os demais alunos pois em sua maioria o consideram estranho ou arrogante. 
E, na falta de companheiros, o protagonista encontrou Rose, um aluno que chegou ao instituto e logo cativou amizade com todos, incluindo Philip. E Philip se entregou a esta amizade de corpo e alma. Ele tinha alguém para compartilhar a vida na escola e ao chegar as férias, ansiou pelo retorno ao liceu para voltar a compartilhar da amizade de Rose. 
Mas o período de férias trouxe um novo Rose.

Philip precisou aprender a lidar com a indiferença do amigo e com o próprio orgulho ferido. Sua personalidade muda. Seu caráter tornou-se ácido com os outros, os estudos já não lhe davam prazer. Suas notas ficaram abaixo do normal e, agora, ele viu que precisa de um novo horizonte. 

E este horizonte foi a Alemanha. Na casa de pensão de uma pequena família, conhece outras personalidades completamente diferentes daquelas que ele conviveu no instituto - incluindo o convívio com o sexo oposto (dentro da sua faixa etária). 
Ainda era um mundo estranho para ele. Philip tem dificuldade de fazer-se expressar e de entender os outros.  E as mulheres com mais dificuldade ainda. 
Entre os conhecidos que faz e das conversas que tece, descobre-se ateu. E os pensamentos e ideais que descobre nesta nova condição lhe são mais confusos do que a própria crença cristã. 
E, apesar das coisas que descobriu que pensão, ainda faltava apaixonar-se... Mas antes lhe faltou dinheiro - o que levou a retornar para a casa dos tios.

Blackstable lhe trouxe uma nova mudança, e ela veio na figura de Emily Wilkinson. Ela foi seu ensaio amoroso. A busca pelo descobrimento de um sentimento profundo ou efêmero pela mulher, testava meros galanteios que pudessem sortir efeito positivo; viu-a desdenhar ou ignorar suas investidas. As longas conversas e as leituras permitiram a Philip conhecer Miss Wilkinson com mais propriedade. O convívio lhe foi prazeroso e educativo. Emily era mais velha que Philip e isto não estava definido para ele com atrativo ou desagradável. 
As relações íntimas que teve com ela o fez mentir em uma carta para o colega que conheceu na Alemanha. Florou a situação, falseou a imagem de Emily para convencer o destinatário da grande façanha que viveu.  Ainda não era amor. Ainda não lhe conheceu aquela que o faria viver a intensidade do sentimento amoroso. 

Philip Casey está perdido. Sua personalidade não está completa pois lhe falta o amor. Viveu as mudanças que precisou fazer para conhecer-se como cidadão em sociedade: enfrentou o tio, os professores, seus colegas - tornou-se aquele que lhe foi permitido ser; dialogou uma fé que lhe foi imposta, descobriu as falhas que nela há e naqueles que vivem dela e para ela. Compreendeu que uma mulher pode ser atraente mas não necessariamente amada. 
E segue adiante a leitura...

Omnia Vanitas. 💀

16 de outubro de 2019

Vigésima sétima leitura ..



Olá, leitor !!

Outro livro do projeto "Outubro" finalizado.
Este livro - na verdade, foi outro exemplar - eu comprei em uma feira que acontece na escola que eu estudava. Eu não lembro de ter terminado a leitura época, mas uma frase eu nunca esqueci:
Miguel cerrou os dentes...

O motivo de ela se manter na minha cabeça foi porque eu troquei os verbos cerrar e serrar.  Tolo, não é?

Pântano de Sangue (1987) é a segunda aventura (e não a última) de Os Karas: Miguel, Crânio, Chumbinho, Magri e Calu. 

Os Karas! O avesso dos coroas, o contrário dos caretas! Aquele grupo secreto de alunos do Colégio Elite reunido por Miguel só pela farra, pela aventura, mas que logo acabou se envolvendo em perigos reais. 

A primeira aventura real foi em A Droga da Obediência (1984), que é algumas vezes mencionada na trama de Pântano de Sangue.  Infelizmente, para mim, eu não li a primeira aventura da turma, logo, não foi possível compreender algumas situações.

Mas esta não foi a última aventura de Os Karas:

- Anjo da Morte (1988)
- A Droga do Amor (1994)
- Droga de Americana! (1999)
- A droga da amizade (2014)

Na trama de Pântano de Sangue, a turma começa um dia comum de aula com a brutal morte do professor de Matemática. Crânio, o aluno mais próximo do professor, não se conforma com a morte e parte em busca de resposta..no pantanal mato-grossense. 
Nesta demanda, os amigos encontram muitas coisas erradas acontecendo no coração do Pantanal: tráfico de drogas, de animais, mortes (de pessoas e animais) e  a contínua extinção dos índios.
Uma história muito inteligente que todo adolescente (e adultos) deveriam ter na estante.

Uma das coisas me chamou à reflexão foi a questão dos índios; e quero ir um pouco além do livro para expor meu ponto de vista sobre o assunto.

Certa vez, lendo um livro de Rachel de Queiroz "As Terras Ásperas" (1993), vários temas são abordados em forma de crônicas: política, mulher, nordeste, seca, escravidão ... E um dos textos mencionava a condição do índio no Brasil. 
Depois de ler essa crônica, eu pensei: Por que o índio tem que viver no mato? Não tem sentido. Promove-se ao homem branco todo o conforto de uma civilização urbana (e rural) mas ao índio damos o mato. Será uma tentativa de tentar deixar a consciência limpa por todo o mal causado na colonização deste triste país?  E se o índio não quiser mais viver no mato? E que lhe seja imputado o direito de usufruir da terra que habita. 
Uma cultura sofre transformações ao longo de sua história, isso é muito natural acontecer. Que os índios e seus descendentes, se assim quiserem, vivam onde quiserem: seja no mato ou na cidade. A cultura indígena precisa ser preservada, isso é fato - mas não pode ser enclausura em uma floresta. 
Índio é índio dentro ou fora da tribo. 




17 de dezembro de 2017

Trigésima* leitura..

"Não, mãe, sou eu, a Ingrid!"

Olá, matutino leitor!

Fim de mais uma leitura!

E, este livro chamou minha atenção desde o primeiro que caiu em minhas mãos - durante a negociação de compra lá no sebo. A importância aconteceu porque eu lembrara da soltura desta refém, durante a transmissão televisiva. Eu lembro de pensar: Caramba, seis anos presa!
E, depois, a esqueci.

Passou-se um tempo e, enquanto eu estava lendo uma reportagem em uma revista, eu li sobre um outro sequestrado das FARC que dizia que havia perdoado seus algozes - pois do contrário não conseguiria viver (com ódio no coração). Achei a matéria singular e logo esta me remeteu ao livro de Ingrid Betancourt - que ainda estava na prateleira à venda. Comecei a lê-lo, sabendo que, de uma hora para outra, ele poderia ser tirado de mim por algum cliente da loja. 
Precisei interromper a leitura (pois minha encomenda chegara) e o livro voltou para a prateleira. 
Por sorte, em Dezembro do ano passado ele ainda estava na prateleira e eu o comprei para mim. E, ontem, a leitura foi terminada.

A leitura é fascinante. Eu não entrarei no questionamento político da situação; apenas comentarei sobre a condição irracional do ser humano. 
Muitos são os relatos que mostram que os próprios sequestrados se viraram contra seus semelhantes para mendigar algum benefício próprio: água, mais tempo para o banho, um caderno, mais comida (de aparência duvidosa)...
Eu não vou apontar o dedo e ditar menosprezos para estes, pois eu também sou humana e não vivi a situação deles. Mas, mesmo assim, vi um ser humano egoísta capaz de tudo para viver somente para si em detrimento à outros. 

Há uma citação no livro que chamou minha atenção sobre o assunto:
Os chulos* podem gastar tudo o que quiserem com aviões e radares para procurá-la. Enquanto houver oficiais corruptos, sempre seremos** os mais fortes! Veja só, está zona onde estamos encontra-se sob o controle militar. Tudo o que se consome aqui ser justificado, deve-se indicar quem são os beneficiários, o número de pessoas ir família, os nomes, as idades, tudo. Mas basta haver um que queira um dinheirinho extra no fim do mês e todo o plano deles vai por água abaixo. Não é só o baixo escalão que faz isso! Não é só o baixo...
*militares; **FARC
Basta apenas um. E não o "um" político corrupto; é o "um" ser humano, desprovido de senso moral ético. O ser humano não sabe medir sua capacidade de ser mesquinho - tudo parecerá normal: é normal receber suborno, é normal não devolver o troco recebido à maior, é normal trocar o preço dos produtos no mercado, é normal desde que "eu" seja o beneficiário.

Há partes que chamaram minha atenção em especial como o nascimento de Emmanuel, a morte de Pinchao, o momento em que Ingrid foi vítima de uma agressão - o que eu julgo ter sido um estupro..

O livro é muito bom, nas condições que eu propus a ler. Se houve romance entre Ingrid e outros sequestrados: eu não estou nem um pouco interessada. A história desta mulher é muito mais relevante do que sua situação amorosa em um cativeiro.

Omnia Vanitas. 💀



* A vigésima nona leitura foi "La rentrée du Petit Nicolas" de Sempé e Goscinny, e não foi feito publicação neste blog. ✌

1 de abril de 2016

Hora do Mergulho..


"Feche a porta, esqueça o barulho
Feche os olhos tome ar: é hora do mergulho
(...)
Esqueça a luz... respire o ar"

Esse é um trecho de uma letra de música de um grupo chamado "Engenheiros do Hawaii" e o título é "Hora do Mergulho".

Talvez seja apenas nostalgia das minhas aulas de natação ou o cansaço do dia; mas às vezes eu acho que esse mundo é tão corrido e doido.
Hoje, enquanto voltava para casa caminhando, olhei para o mar a minha frente e para um barco que iniciara sua navegação com dois tripulantes. Achei lindo. Achei lindo o mar e sua imensidão e suas montanhas ao redor, achei lindo o barco em seu movimento lento e leve.
E, olhando para tudo isso que minha visão limitada me mostrou e meu sentindo ínfimo de emoções me  comoveu, eu senti que a vida não pode ser vivida para sugar sua energia vital. 

Entrando na página do Facebook eu percebi quantas coisas nos distraem, quantas coisas diferentes são postadas em um mesmo momento, enquanto a vida corre sem rédeas. Porque não ficamos mais perto da vida e mais longe do fútil? O que mais é preciso perder para encontrar o essencial?
Hoje, enquanto trabalhava, lembrei de um livro do meu querido Maugham que conta a história de um homem que saiu da vida "moderna" e foi morar em uma cabana bem longe dos ditos "confortos", para lá descobrir que a vida é mais do que correria e distração. O livro tem o título de "Um Gosto e Seis Vintés".
Percebamos a vida a nossa volta e a vivamos no seu devido valor! Esqueça o resto! Mergulhe!

Omnia Vanitas.

30 de março de 2016

Duas medidas..

Charlotte Lucas, Orgulho e Preconceito 2005

Estava eu, em estado confortável, lendo meu livro quando um trecho do mesmo eleva minha atenção.
Veja só, folgado leitor, que me deparo com a ambiguidade de pensamento da heroína de Orgulho e Preconceito.

Quando Charlotte Lucas decidiu casar-se com Mr. Collins, Elizabeth Bennet ficou horrorizada pela escolha da amiga. Casar com Mr. Collins? Por tudo o que há de sagrado; este homem é tolo, soberbo, ridículo, subserviente, mesquinho; e, como todas as características anteriores o conotam, a conversa de tal pessoa é enfadonha e, portanto, insuportável à sociedade que o acolhe.
Pois bem, quando a amiga decidiu casar com tal homem, Lizzy ficou atônita com tal propósito. Como ela pode, segundo o pensamento de Elizabeth, desejar passar a vida ao lado de tal homem? Como ela pode rebaixar a si e conceder a mão em casamento a tal cavalheiro?
Pois bem, a explicação de Charlotte foi de cunho pratico:

"(...) Como deves saber, não sou romântica. Nunca o fui. Apenas desejo um lar confortável; e, considerando o caráter de Mr. Collins, as suas relações e situação na vida, estou convencida de que as perspectivas que se me oferecem de vir a ser feliz com ele são tantas quanto as da maioria das mulheres ao darem esse passo".

E, Elizabeth não poderia ficar tão ultrajada com tal decisão pois conhecia o pensamento da amiga antes de Mr. Collins aparecer:

" (...) se ela se casasse com ele amanhã, eu diria que as probabilidades de ser feliz seriam tantas quantas aquelas que se lhe ofereceriam após ela ter passado doze meses estudando o caráter dele. A felicidade no casamento é uma questão de sorte. Por mais profundo que seja o conhecimento mútuo ou identidade entre as partes interessadas antes do enlace, em nada contribui para a felicidade. Há sempre, depois, uma disparidade de feitios suficiente para lhes assegurar a cada um sua dose de amargura (...)".

Assim é Charlotte Lucas nua e crua. Esta última conversa aconteceu em um determinado encontro social no qual o assunto era Mr. Bingley e Miss Jane Bennet. 

Porém, quando Mr. Wickham resolve dar atenção a certa moça (Miss King) por ela haver herdado dez mil libras, Elizabeth acha conveniente que ele venha buscar algum conforto para sua vida; conforme carta que ela escreveu a sua tia:

" (...) um jovem belo necessita tanto de um pecúlio para viver como qualquer outro".
Logo mais, quando encontra a tia (que a interpela sobre a atenção de Wickham com Miss King) Elizabeth censura-a por esta chamar o cavalheiro de interesseiro:

"Por amor de Deus, querida tia, qual a diferença no casamento entre o interesse e o motivo prudente? Onde acaba a prudência e começa a cobiça?"

Quanta mudança em poucas páginas!
Então, ao meu parecer, há duas explicações razoáveis à atitude de Elizabeth com Charlotte e George Wickham:

- ou ela eleva a natureza feminina em detrimento a natureza masculina (propondo que uma mulher deve buscar um conforto social baseado no nível intelectual do companheiro e não apenas na sua disposição social)

- ou ela é machista.

Talvez, seja uma miscelânea destas duas coisas que permeiam o pensamento de Miss Eliza Bennet!  

3 de julho de 2015

Falsa Liberdade..


Perdoe-me, nobre leitor, por não estar escrevendo loucuras com a mesma frequência de antes. Final de semestre no curso de francês e eu estou perdendo a linha do tempo. Para ser sincera, eu deveria estar fazendo o meu trabalho da aula, mas preciso escrever algo sobre algo diferente de francês (mesmo amando francês).

Bom, lá vai!

Eu estou ouvindo o show acústico do grupo Engenheiros do Hawaii, e, quando ouvi a música "Terceira do Plural", a pulga da inquietação mordeu meu debilitado cérebro. Aqui estou eu escrevendo quando deveria estudar.

A música fala sobre "eles" (terceira do plural, sacou?). "Quem são eles? Quem eles pensam que são?", diz a música do gaúcho Humberto Gessinger. Quem são eles, pergunto eu, esquecido leitor. Eles são aqueles de quem nós compramos uma ideia, uma missão, uma marca... Sempre há alguém por trás de nós - não somos nós que escolhemos, mas eles que nos escolhem. Isso se chama, na minha debilitada opinião, falta de liberdade.

Não somos livres, encare esse fato, leitor! Você não escolhe ser livre, mas alguém lhe disse que você estava preso e, então, você decidiu se libertar daquilo que lhe "oprimia". É isso, leitor, a liberdade é uma falseta que inventaram para vender uma boa ideia. A igreja, o Cosmos, o Invisível, o Filósofo, o padeiro da esquina, o pedreiro, o empresário - alguém está comprando um pedaço de você.

Você acha que é livre? Porque? O que você criou para lhe fazer que é livre? Plantou uma árvore? Isso não é liberdade, é cultivo de uma natureza já formada. Você criou um ser humano? Não, você apenas reproduz uma versão sua ou adota. Você não criou nada, apenas reproduz o espelho de algo já pronto.

E depois, vão dizer que tudo o que era certo agora é errado. E, agora, o que fazer com o velho? O velho é opressivo e o novo a liberdade. Mentira. Tudo é prisão.

Omnia Vanitas

5 de março de 2013

Novela real..


Está é uma novelinha que eu gosto de acompanhar, quando possível! E, por ser uma novela de época, algumas curiosidades reais se misturam e compõem a ficção; como a reportagem abaixo que está no site da novela LADO A LADO, na Globo.com.


Acuada, Constância (Patrícia Pillar) é capaz de tudo para impedir que Laura (Marjorie Estiano) denuncie um esquema de corrupção no Judiciário do qual a megera faz parte - Constância "comprou" o promotor do processo movido por Isabel. Para isso, ela chega ao limite da razão e interna a própria filha em um sanotório. A autora Cláudia Lage conta que esse momento dramático foi inspirado em histórias reais e serve para mostrar o quanto muitas mulheres sofreram, apenas por sonharem com novos horizontes. Confira a entrevista:
Na época, era comum mulheres serem internadas em sanatórios simplesmente por contrariarem seus pais ou maridos? Isso aconteceu com mulheres que se destacaram pelo trabalho intelectual, no jornalismo, por exemplo?

Cláudia Lage - "Era uma prática comum no século XIX, que perdurou até meados do século XX. Na pesquisa que nossa pesquisadora, Luciane Reis, fez pra gente, os prontuários dos médicos eram impressionantes. As justificativas para a internação parecem inverossímeis aos olhos de hoje. 'A paciente apresenta grave obsessão por livros', 'desprezo pela família', 'excitação sexual nervosa', 'recusa em ter filhos'. Um dado notável é que boa parte das pacientes nos sanatórios eram mulheres que haviam estudado além do estipulado para as mocinhas na época, que só aprendiam o suficiente para ler, escrever e fazer contas. Elas foram além, fizeram o curso normal ou ainda eram normalistas, dedicavam-se ou não ao magistério, mas eram mulheres com o intelectual acentuado, com interesses sociais e profissionais, que fugiam à ideia do casamento e da maternidade como o único destino possível. Não que não quisessem se casar e ter filhos, mas buscavam também a realização pessoal fora da família. Foram tantas mulheres que passaram por isso, a maioria anônimas, que os seus nomes só chegaram a nós por meio de suas tristes histórias, já que todo o impulso delas de independência foi sufocado pelos familiares, o pai ou o irmão, ou pelo marido, que tinham a autorização para interná-las mesmo contra a vontade. Quer dizer, eles tinham o poder de julgar e decidir se suas esposas, irmãs e filhas eram loucas ou não, e interná-las caso assim desejassem. Do mesmo modo, só eles, ou uma junta médica, podia tirá-las do sanatório, ou deixá-las para sempre lá, como foi o caso de muitas".

No sanatório, Laura vai contar com a ajuda de uma interna. Essa personagem representa alguma dessas mulheres que queriam mais da vida?
Cláudia Lage - "Laura vai conhecer no sanatório uma interna, a Judite, que, como ela, não tem nenhum problema psiquiátrico e também foi jornalista quando mais jovem. Inspirada em muitos casos reais, que vimos na pesquisa, Judite foi internada pelo próprio marido e esquecida no sanatório. Quando Laura chega, ela já está lá há 11 anos. A personagem ganhou esse nome, Judite, em homenagem a um texto da escritora Virgínia Woolf, no qual fala que se Shakespeare tivesse tido uma irmã tão talentosa quanto ele, ela nunca teria as mesmas oportunidades, e nunca se tornaria uma grande dramaturga. Virgínia batiza essa irmã fictícia de Judite. Enquanto Shakespeare ia para a universidade, Judite ficava em casa descascando batatas, por imposição dos pais. Essa irmã de Shakespeare, criada pela Virgínia Woolf, simboliza todas essas mulheres repletas de potenciais e de desejos, todos refreados e sufocados pela mentalidade sexista da sua época".
Constância vai ter alguma crise de consciência depois dessa maldade? Ela vai perceber que passou dos limites?

Cláudia Lage - "Constância vive de acordo com os próprios princípios. Ela justifica os atos mais cruéis como um sacrifício pelo bem e pela reputação da família, e fará o mesmo com a internação da Laura. Para ela, a filha passou dos limites ao querer ser uma jornalista profissional, somando a isso a matéria que Laura vai escrever sobre a corrupção no judiciário e a decisão de depor como testemunha da Isabel. No sanatório, a mãe leoa, que, apesar da vilania, ama a filha, dará lugar à mãe cruel e devoradora, que não aceita que o filho reja o próprio destino".

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...