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30 de dezembro de 2020

Trigésima primeira leitura..


 Olá, leitor ! 

Penúltima leitura deste ano (um tanto louco)!

Villette é uma releitura que fiz da autora Charlotte Brontë. 

Logo no prólogo da editora, algumas personagens são descritas conforme sua inpiração: o professor Héger, a grande paixão de Charlotte é ipsis litteris de Monsieur Paul Emmanuel. E que personagem grosseiro ele é! Não existe um momento que me faça detestar menos essa persona. Eu não sei o que Charlotte e Emily possuem como estereótipo de homem perfeito pois Monsieur Paul e Heathcliff são homens péssimos! 

Villete é a cidade fictícia de Bruxelas onde as duas irmãs estudaram. A protagonista de Villette é Lucy Snowe - órfã (é claro). A sua trajetória passa por três estágios: solidão, encontro e esperança.

O primeiro capítulo é diferente de todos os demais, pelo menos na minha opinião. Todo o livro e narrado em primeira pessoa, e relata a vida de Lucy. Porém, o primeiro capítulo que ela descreve as pessoas que estão ao seu redor e pouco do realmente acontece com ela. 

Lucy Snowe sabe quem ela é! Uma das reclamações da personagem é a falta de percepção dos outros em saber quem ela é ... apenas a supõem. Cada um entende Lucy como deseja sem a conhecê-la de fato. 

Existe uma solidão latente em Villette. Existe uma persistente solidão que ataca a personagem, como se os sucessos que consegue não devessem lhe pertencer - como se as amizades que conquista devam ser breves. Há uma citação que eu ser um desabafo da autora e não uma fala da personagem:

Eu gemia sob sua amarga severidade. Nunca - nunca! Oh, odiosa palavra! Esta bruxa, esta razão, nunca me deixou olhar para cima, ou sorrir, ou ter esperança: ela não podia descansar, a menos que eu estivesse completamente esmagada, acovardada, quebrada e aniquilada. Segunda ela, eu nascera só para trabalhar por um pedaço de pão, para esperar as dores da morte e perder constantemente a esperança através de uma vida de desânimo. Talvez a razão falasse a verdade, entretanto, não é de admirar que nós gostemos, por vezes, de estarmos contentes, de desafiá-la, de fugir de debaixo da sua vara e de dar uma hora de liberdade à imaginação - sua doce e brilhante inimiga, nosso bom auxílio, nossa divina esperança. Devemos romper os limites de tempos em tempos, apesar da terrível vingança que aguarda nosso retorno. A razão é vingativa como o diabo. Para mim foi sempre venenosa como uma madrasta. Se eu lhe obedeci foi, principalmente, com a obediência do medo, não a do amor. Há muito tempo eu deveria ter morrido por seus maus tratos: a sua mesa mesquinha, a sua cama gelada, o frio, seus selvagens e incessantes golpes. ah, se não fosse essa força mais suave que detém a minha secreta e jurada fidelidade! Muitas vezes a razão me expulsou para fora, em plena noite de inverno, no frio da neve, lançando-me para sustento os ossos roídos que os cães haviam abandonado. Declarava, severamente, que a sua dispensa nada tinha para mim. Negou-me duramente o direito de pedir coisas melhores... Então, olhando para cima, vi no céu uma cabeça rodeada de estrelas das mais brilhantes que emanava um raio de simpatia e atenção. Um espírito mais suave e melhor do que a razão humana desceu em voo tranquilo ao deserto, trazendo à sua volta um ar emprestado de eterno verão, o perfume das flores que não podem murchar; fragrância de árvores, cujos frutos são a vida; trazendo brisas de um mundo, cujo dia não precisa ser sol para iluminá-lo. Este bom anjo saciou minha fome um doce e estranho alimento, conseguido entre os anjos que guardam a sua colheita branca de orvalho na primeira hora de um dia celestial. Mitigou, ternamente, as minhas lágrimas insuportáveis que choravam a própria vida; acalmou os meus temores e, gentilmente, cedeu descanso ao meu cansaço mortal, deu esperança ao meu desespero. (página 288/89)

Eu achei simplesmente sensacional. Como mencionei para uma cliente que estava no Sebo do Portuga: Villette é um livro sobre solidão e sobrevivência - é um livro lento e amargo para ler, mas cada página vale de sua leitura. 

Como já mencionei, a figura de M. Paul é uma réplica fiel do caráter de seu amado professor C. Héger. A esposa deste homem está na figura de Madame Beck. A confissão de Charlotte à um padre - que não corresponde a fé que ela professava também está registrada no livro, no final da primeira parte. 

Eu preciso confessar que os momentos de solidão e tristeza são os que mais chamam a minha atenção: o mesmo aconteceu na leitura de Jane Eyre. As passagens são intensas e reais! E, talvez, por isso, O Morro dos Ventos Uivantes não saiu da minha estante...mas isso é outra publicação de outra irmã.


Omnia Vanitas. 💀

29 de dezembro de 2020

Trigésima leitura ..


 Olá, esquecido leitor! 

Faz algum tempo que preciso colocar este blog em dia! Eis o dia ! 

No ínicio de novembro, eu comecei a ler, pela segunda vez, este livro e Charlotte Brontë: O Professor. Neste link está a primeira impressão desta leitura.

Este livro foi a primeira tentativa de Charlotte em publicar um livro; e foi negado por todos que o tiveram em mãos. 

A primeira publicação foi depois de dois anos da morte da autora, em ano de 1857; seu marido Arthur Bell levou o manuscrito à um editor que publicou a obra - haja vista o renome de Charlotte desde a descoberta do seu pseudônimo Currer Bell.

Porém, na minha singela opinião, o livro não tem um poder tão grande de arrebatar o leitor como em Jane Eyre, Villette e até mesmo, Shirley. A narrativa é rápida naquilo que pretende e, para mim, algumas atitudes do professor Crimsworth me deixam inquieta. 

Também, neste conto, o professor é uma caricatura da paixão arrebatadora que Charlotte teve por Constantin Héger, e, também, do desejo da escritora de ter sua própria instituição de ensino - o que fez porém, sem o sucesso que sua personagem obteve. A esposa de Héger também é descrita em O Professor como a dona da instituição de ensino onde William Crimsworth lecionará - porém, ela é sempre retratada como uma mulher mesquinha e torpe. 

Esta edição que tenho é da Clube do Livro, publicada em 1958. Uma nota da edição avisa que alguns trechos foram omitidos no momento da tradução por achar que eram longos demais para descrever. Que triste! 

Omnia Vanitas. 💀

Vigésima nona leitura..


Olá, determinado leitor! 

Essa semana que passou, eu terminei a segunda leitura do segundo romance da caçulinha das Brontë, A Senhora de Wildfell Hall. Eu adorei! Incrível!

Este foi o segundo e último romance publicado por Anne Brontë. Sua primeira publicação ocorreu no ano de 1848 e, após a morte da autora, Charlotte Brontë não permitiu que fosse novamente por achar a obra violenta, e, claro, o abuso do álcool era baseada na vida promíscua do irmão e isso não agradou Charlotte. Apenas após a morte de Charlotte este livro voltou a ser publicado - e, também, em algumas edições alguns trechos foram emitidos pelos mesmo motivos que chocaram Charlotte - uma pena. 

Quando eu li Agnes Grey, a figura de Rosalie Murray ficou gravada na minha memória. Em A Senhora de Wildfell Hall essa personagem voltou à minha lembrança. 

Helen é uma jovem rica, órfã de mãe e criada pelos tios. Em sua estadia com os parentes fora da região rural, Helen é pressionada a escolher como futuro marido alguns pretendentes que sua tia acha conveniente para um futuro casamento. Helen descarta as orientações da tia, e, ao encontrar Arthur Huntingdon se apaixona de imediato. Contrariando os conselhos da tia, Helen decide casar com Arthur mesmo sabendo das falhas morais do rapaz - pois ela julgava ser capaz de mudar com seu amor de dedicação ao amado tornado o lar um lugar capaz de demolir os possíveis vícios do marido. Ledo engano. A moralidade de Arthur é decadente em vários aspectos e a protagonista se vê presa em um relacionamento abusivo com poucas chances de sair dele. 

Neste livro Anne Brontë trata com a maior realidade possível o que abuso do álcool pode causar ao usuário e àqueles que lhe são próximos (e íntimos).  Mas, principalmente, Anne nos mostra como os "erros" masculinos eram perdoáveis (e incentivados) em relação à conduta que uma mulher deveria ter. 

A chegada de Helen causa curiosidade na vizinhança: quem é aquela mulher de caráter sisudo, apegada ao filho de modo excessivo, e como pôde alugar uma casa tão velha como aquela e, como seu filho pode ser tão parecido com seu senhorio? 
Helen percebe sua vida se tornar insuportável quando fofocas sobre ela começam a rodar pela região e o seu relacionamento com o senhorio é visto com malícia por Gilbert Markham... então o leitor e apresentado ao seu diário através dos olhos do jovem e apaixonado fazendeiro Markham.

Uma outra situação que chamou a minha atenção foram as mães. A senhora Markham cobre Gilbert de cuidados e atenções - sua alimentação precisa ser preparada assim que ele chega pois mesmo atrasado ele não pode ter uma refeição fria. E ele a trata com pouca educação, às vezes exige que ela saia de perto de si, outras bate a porta ou responde com uma grosseria. 
Desde o início eu não gostei de Gilbert, e o tratamento de menino mimado me deixava com mais desgosto ainda. O mesmo ele fez com Helen: a cena de ele segurando o livro de Lawrence nas mãos e mostrando para a inquilina de Wildfell Hall me deixou irritada! Eu teria tirado o livro da mão dele e dito: "a porta para o senhor sair da minha casa é esta"! Muito mimado! 

Deixo uma nota especial para a gravidez de Helen. Nenhuma menção. A Era Vitoriana não gostava de mostrar uma mulher grávida pois seria uma vergonha saber que as mulheres casadas faziam sexo com seus maridos - porém, em contradição, era preciso que uma mulher tivesse uma prole de número alto para mostrar que era uma mulher capaz de gerar uma família numerosa.
A gravidez de Helen é só dita uma vez quando Huntingdon quer que sua esposa fique longe dele, a desculpa é esta: 

(...) Você anseia pelas brisas frescas de sua casa no campo e vai senti-las em dois dias. E lembre-se de seu estado, querida Helen. De sua saúde depende a saúde, se não a vida, de nossa esperança futura". (p. 225)

Este livro é maravilhoso; eu  o deixarei sempre perto de mim para uma pronta releitura! 


11 de outubro de 2020

Vigésima sexta leitura..



Olá, anônimo leitor!

Eu tinha esquecido como a leitura de Jane Eyre, de Charlotte Brontë, é maravilhosa.

Publicado em 1848 sob o pseudônimo de Currer Bell. O sucesso foi imediato ao lançamento e, nesta edição que tenho da BestBolso (2013, segunda edição) há o prefácio do autor para a segunda e terceira edições onde Brontë assina como Bell. 

Jane Eyre é um romance de formação que apresenta da vida da orfã (homônima) desde a sua infância até a fase adulta. O enredo é narrado pela protagonista e, portanto, não há outro ponto de vista exceto a do narrador.

A trama que dá vida à personagem é um empréstimo de alguns dramas vividos pela própria autora como: o orfanato para o qual a menina é enviada é uma representação do orfanato de Lancashire para onde ela e suas irmãs (Maria, Elizabeth e Emily) estudaram - e a precária condição da instituição deixou a saúde das duas irmãs mais velhas tão debilitadas que ambas morreram de tuberculose aos 11 e 10 anos sucessivamente). Para não perder Charlotte e Emily, o  pai - Patrick Brontë - busca as filhas e as ensina em casa. A personagem de Jane Eyre, Helen Burns é inspirada em sua irmã, Maria. 

E como Helen Burns me cativou nesta segunda leitura! Eu, simplesmente, não conseguia não me apaixonar pela personagem. Vou deixar duas frases - de tantas que gostei - para representar minha paixão por Helen:

(...) Acho que a vida é curta demais para ser gasta com animosidades, só pensando em acontecimentos ruins. (p.74)

Mesmo que o mundo inteiro detestasse você e a achasse má, se sua consciência a absolvesse de qualquer culpa, você não estaria sozinha (p.87)

Ainda sobre as ligações do romance com a vida da autora, o fato da protagonista ser órfã, também, diz muito respeito sobre Charlotte Brontë pois sua mãe faleceu em 1821 quando a autora tinha cinco anos de idade. E, este é um fato corriqueiro em seus romances, visto que a maioria de suas personagens não possuem os pais, ou pelo menos um deles.

Mais um fato marcante na obra de Jane Eyre é o Sr. Rochester que representa a figura de sua paixão por Constatin Héger, seu professor em Bruxelas.

O enredo, como já mencionado, contempla a infância da órfã Jane Eyre. Sua tia, Sarah Reed, precisava atender à apenas um pedido do falecido marido: cuidar da sua sobrinha como se fosse sua própria filha. Porém, isso não aconteceu. Sem o afeto da tia ou dos filhos desta - e tampouco dos empregados - Jane Eyre é enviado para o orfanado de Lowood. Neste lugar duas pessoas conquistam o coração carente da órfã, a supervisora Srta. Temple (que é uma figura materna para a criança) e sua amiga Helen Burns. Esta duas figuras darão a força e o amor necessários para que Jane Eyre aprenda a viver na obscura instituição de ensino. 

Após essas duas perdas, contanto com a idade de dezoito anos - e exercendo a função de professora desde os dezesseis - Jane Eyre rompe o laço com a instituição e se torna preceptora de uma menina órfã: Adèle Varens, em Thornfield Hall - residência de Edward Fairfax Rochester.

Uma nota que fiz sobre essa "casa". Ao meu ver, parece que o Sr. Rochester gosta de enviar para esse lugar os seus "problemas". Bertha Mason é a primeira a viver naquela mansão e Adèle chegará depois. Duas personagens que Monsieur Rochester parece querer esquecer em um lugar que lhe trouxe sofrimento.

Apesar de ser um ambiente amigável (Thornfield Hall), Jane Eyre não encontra muita alegria na sua estadia na mansão. Seu espírito ainda anseia por partir e descobrir outros lugares - mas, então, um encontro em um caminho obscuro muda toda a configuração dos sentimentos desta preceptora. 

Outra coisa que notei é que os fatos mais importantes da trama - os mais significativos pelo menos, acontecem à noite (ou madrugada). Preciso fazer mais anotações sobre isso em uma próxima leitura. Eu, infelizmente, somente atentei para este fato quando já havia passado da metade da leitura, mas os encontros com Rochester, com St. John e tantas outra decisões e atos aconteceram na madrugada ou, pelo menos, à noite. A Lua - nosso querido satélite natural - faz sua participação como coadjuvante nestas cenas "de la nuit".

Eu achei o capítulo vinte e sete interessante por ser a visão do Sr. Rochester sobre o primeiro encontro e tudo o houve até aquele momento - e foi um capítulo longo (o maior deles?) para o ponto de vista destas duas personagens.

Eu não quero parecer macabra, mas eu sou apaixonada pelas cenas de "sofrimento". Existe uma autenticidade na dor e nos conflitos que Charlotte Brontë descreve que impossível não entender o que Jane Eyre sente e como seu psicológico e moral sofrem quando ela se diante de grandes dilemas. 

Antes de terminar, quero deixar registrado que, assim como em Shirley, há uma punição e redenção para uma personagem. Quando o mal é causado, o agente precisa ser punido para que haja a redenção daquele que fez sofrer. 

Nesta leitura eu usei tantos "post-it" para marcar o que eu achei interessante, desde frases, o "escuro", e, também, todas as vezes que a protagonista descreveu o físico do Sr. Rochester (eu não sei porque fiz isso, mas foi algo que simplesmente aconteceu). Eu deveria tirar essas marcações, mas talvez eu as aproveite em outra próxima leitura, ou resolva fazer anotações à parte em algum caderno sobre o que senti/entendi sobre. 

Termino por aqui, e com a triste constatação que, apesar de ser a segunda leitura desta obra, é a primeira vez que escrevo sobre ela. Talvez eu seja mais eloquente na terceira 😉


Omnia Vanitas 💀



2 de outubro de 2020

Vigésima quinta leitura..

 



Fim de mais uma leitura !!! 


A partir de Shirley, eu decidi reler os livros das irmãs Brontë que estão comigo; e a escolha de desta obra de Charlotte Brontë é especial: foi nele que Elizabeth Gaskell se inspirou para escrever o meu amado Norte e Sul - porém, o livro de Charlotte não alcançou a mesma popularidade que o livro da amiga.

A publicação no livro foi no ano de 1849 - edição em três volumes sob o pseudônimo de Currer Bell. Este romance foi precedido por Jane Eyre (que teve uma ótima recepção pelo público e até hoje conhecido como a magnum opus de Charlotte Brontë) e seguido por Villete

A trama de Shirley acontece entre os anos de 1811 e 1812  - no período que a Inglaterra fecha o seu comércio por conta da guerra com Napoleão. Assim com em Norte e Sul, existe uma revolta ocasionada pela falta de emprego - porém, neste romance de Brontë a revolta se dá pela ocupação que as máquinas terão em detrimento a mão de obra humana. O desemprego é um dos temas de Shirley. A questão religiosa é uma das diferenças entre os romances de Gaskell e Brontë: em Norte e Sul é um assunto tratado de modo mais ameno, porém em Shirley a questão é mais aberta mostrando a rivalidade entre whigs e tories - para saber um pouco tem uma nota nesta publicação aqui

As personagens de Shirley também serviram de inspiração para Norte e Sul. O industrial Roberto Moore lembra muito a personalidade forte e determinada de John Thornton 💓. Ambos são ambiciosos, mas em Thornton há uma conotação de herói da trama que não lhe permite os erros de caráter de Roberto Moore. 

Entre as protagonistas, nenhuma delas tem relação entre si.

O romance, na minha opinião, poderia se chamar Carolina, pois mais de oitenta por cento da trama gira em torno desta personagem. A personagem que dá título ao livro aparecerá somente no capítulo dez (a partir da página 130 no meu exemplar*) e terá algumas participações na trama. Carolina Helstone, por outro lado, tem uma personalidade definida desde o início da trama e sua ausência na história se dá apenas para que o enredo entre a protagonista e Luís Moore 💗 cresça para fechar a trama.

Algumas anotações sobre Shirley - a mulher e não o livro - devem ser escritas: o nome dela era prevalentemente masculino, mas depois da publicação da obra algumas mulheres foram registradas com este nome. Shirley é uma das poucos mulheres ricas (protagonistas) que povoam as obras de Charlotte Brontë. Shirley tem personalidade forte e, por ser rica, muita das suas vontades são satisfeitas e poucas vezes é repreendida por algum ato cometido ou palavra dita. Shirley é quem cuida dos seus negócios, responde as cartas comerciais - geralmente feito pelo homem da casa ou por um contratado para o serviço; e por suas atitudes "masculinas", o tio de Carolina chama a herdeira de "Capitão Keeldar" - que é o sobrenome de Shirley, Keeldar. E ele o faz sem sentido pejorativo. E estas não são as únicas peculiaridades desta protagonista: seu cachorro não é de uma raça recomendada para "damas" - eu acredito que seja um buldogue inglês que, apesar de pequeno não é "educado". Geralmente as moças tinham poodles ou raça semelhante. Uma passagem intrigante para mim foi quando a sua acompanhante, a misteriosa senhora Pryor, repreende Shirley por ela estar assobiando - desde a primeira leitura essa foi uma parte marcante pois me instiga a pensar que não era "apropriado" para uma mulher assobiar - talvez seja pelo fato de homens usarem isso para caça (?); não sei!

Em oposto à Shirley está Carolina Helstone. Como em geral nos romances de Charlotte, ela é órfã - apesar de não saber o paradeiro da mãe, o pai é falecido. Mora com o tio que é pastor e tem sociedade com um casal de primos, os Moore (inicialmente Hortência e Roberto) e posteriormente, Luís. O fato de ela ser órfã e não ter fortuna para si, a faz crer que ser solteira será seu destino. E, o próprio Roberto a rejeita como esposa pela sua pobreza - pois com a guerra e sua possível falência, Roberto precisa de um cônjuge que lhe traga benefícios financeiros para que ele reerga a sua fábrica.  

Carolina é a personificação da heroína. Ela sofre por um amor que não pode ser conquistado, ela ajuda a todos além das suas forças, abdica do bem estar para que outros possam estar bem, jamais afirma que está cansada ou que algo lhe abate a alma - tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta - como está no Evangelho. E todos os benefícios colhidos (mesmo os mais ínfimos) são louvados, todas as injúrias sofridas são perdoadas em nome do amor.

Enquanto em Norte e Sul a morte permeia a trama, em Shirley ela é descartada. Talvez, porque no momento em que escrevia este romance, Charlotte Brontë havia perdido seus três último irmãos: Branwell (setembro 1848), Emily (dezembro 1848) e Anne (Maio 1849). 

Carolina sofre de um terrível mal físico (e psicológico)  que a deixa por várias semanas doente, a beira da morte. Sua recuperação se dá por meio de uma revelação que lhe trás um motivo para lutar contra a morte. Segundo uma amiga íntima de Charlotte, Carolina foi inspirada em sua irmã mais nova Anne e, pouca certeza há, que Shirley foi dedicada à Emily. Ellen Nussey, a amiga íntima, nunca confirmou a inspiração de Shirley em Emily. 

Um adendo para Luís Moore. 

Este irmão de Hortência e Roberto aparece no final da trama. Sua aparência não é tão bela quanto a de Roberto, mas ambos se assemelham fisicamente - e a comparação para por aí. Luís é quieto, mas altivo. Escolhe suas palavras antes de dizê-las, ao entrar em uma conversa ele domina o interlocutor - mesmo sendo Shirley. Ele é professor. E essa profissão é importante para Charlotte Brontë. Em sua estadia em Bruxelas, ela se apaixonou pelo professor, casado, Constantin Héger. Ela lhe enviava cartas para ele -  mesmo não sendo encorajada a fazer isso. A obsessão por este homem está marcado em seus romances: em O Professor (romance póstumo, publicado em 1857) William Crimsworth é a representação de Héger; em Villette ele é Monsieur Paul; em Jane Eyre ele é Mr. Rocherster. 


Então é isso! 

Omnia Vanitas 💀


*BRONTE, Charlottte. Shirley. Ed. Brasileira, 1949. Tradutor: Fábio Valente.


3 de setembro de 2020

Vigésima terceira leitura ..


 Olá, leitor !!


Que livro !! Mais um livro na lista para releitura: Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco.

Este ano eu já li Amor de Perdição, do mesmo autor, e gostei ; mas Amor de Salvação é sensacional! A trama é mais envolvente, as personagens são mais desenvolvidas na trama. 

Assim como em Amor de Perdição, um triângulo amoroso se forma: Afonso, Theodora e Mafalda, mas ao contrário da obra anterior, todos permanecem vivos - sem perdição.
Amor de Perdição é lindo! Mas como já mencionei, eu senti falta de personagens mais desenvolvidas: o amor de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque não me convenceu de fazer valer todo o sofrimento e sacrifícios do casal. Eu gostei muito mais de Mariana - o terceiro pé desta relação - e por pouco Simão não concorda comigo.

Antes de escrever sobre a leitura final, deixe-me fazer um adendo sobre Amor de Perdição: primeiro livro de Camilo Castelo Branco: escritor português, nascido na aristocracia - recebeu o título de visconde do rei D. Luís;  estava em cárcere por adultério quando escreveu esta obra quase biográfica.
Camilo Castelo Branco suicidou-se com um tiro na têmpora esquerda - movido pelo desespero de uma cegueira causada pela sífilis.

Amor de Perdição contém algumas notas muito semelhante com Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Ambas obras remetem à rivalidade entre as famílias do casal e ambas contém a morte como solução para a separação dos namorados. 

Amor de Salvação tem um viés diferente. 
Em uma véspera de Natal, um viajante/narrador busca informações sobre um atalho para chegar mais rápido ao seu destino e, seu informante, não é ninguém mais, ninguém menos que Afonso de Teive o protagonista de Amor de Salvação. Querendo saber mais sobre o rumo que levou o amigo ter oito filhos e uma felicidade sem medida, Afonso conta sua história trágica de amor e de como conseguiu encontrar a salvação no amor de esposa. 
Ao contrário dos Albuquerque e Botelho, a família de Afonso e Theodora são amigas. Ambos nasceram em um lar amoroso e abastado. Porém, Theodora fica órfã e é enviada para um convento - um convento era a solução para tudo no século XIX: órfãs, solteironas, viúvas e pasmem, para pessoas com vocação para a vida religiosa. 
Amada pela família de Afonso de Teive, Theodora é enviada para o convento das Ursulinas e separada do seu amigo de infância. Depois de exigir da mãe de Afonso, a boa Eulália, a tire daquela clausura, Afonso é separado de Theodora porque a mãe do jovem não gostou da personalidade forte da menina que exige sua saída da vida religiosa. 
Dois anos foi o tempo que estariam afastados os dois namorados - enquanto ficasse Theodora no convento.
Sem notícias e Afonso, Theodora faz a sua liberdade casando-se com seu primo Eleutério. 

A trama é muito bem arquitetada  e tem uma reviravolta magnífica. 

Eu não quero escrever mais sobre a obra não entregar o final, mas deixo minha sincera recomendação para que você, anônimo leitor, para que leia esta obra de Camilo Castelo Branco. 

Omnia Vanitas 💀

31 de agosto de 2020

A carta de Theodora ..






Olá, leitor !

Ontem, domingo, eu comecei minha manhã lendo na sacada do apartamento. Um café quente (sim, este ano decidi experimentar café e gostei - tomei três canecas) para acompanhar a leitura e ..enlouqueci !!! Que livro !!! Que leitura !!! Eu já decidi que este livro também será uma releitura com certeza ! 
Minha leitura atual é Amor de Salvação, do português Camilo Castelo Branco.

Eu gosto muito quando a personagem escreve cartas durante a trama. Amo cartas ! E, nesta leitura, Theodora escreve uma carta para Afonso! É maravilhosa !!! Divido esta experiência com você, leitor ! 

Quem te disse a ti que eu tinha caído diante de mim mesma, Afonso? Quando te dei eu direito de supor que o teu silêncio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, de um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te apareci magnífica dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lágrimas figuraram-se-te o pus de um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue. Não pudeste chegar com a fronte à altura da minha, e apedrejaste-ma! Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava. e não sabes sequer usar a misericórdia de dizer à mulher que te ama que não seja infame, amando-te?! (...) A contas, homem de ferro, que endureceste o teu frágil barro de outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezível! Que fazias tu quando eu me estorcia de saudades de ti e dores do meu cativeiro, dentro das grades das Ursulinas? Quando soubeste que a tirania me fechava a sete chaves numa cela e me media os átomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze anos de uma mulher que queria o sol das flores, das aves, dos mendigos, do último ver-me que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?! (...) Não respondas. A vil, a abjeta, a desgraçada, é generosa. Não respondas. Ri e escuta. Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços e esperar a morte. À borda do abismo. vi uma tábua de salvação. Sabia que, segurando-me nela, as mãos se rasgariam em chagas incuráveis. Sabia-o; mas agarrei-me à tábua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demônio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ela me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roía a serpente da soledade e do desabrigo. Vi árvores, vi estrelas, ouvi os cânticos da Terra e os amorosos murmúrios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a única mulher sem mãe, sem pai, sem amigo, sem coração que se abrisse às cinzas do meu. Não importa. Via o Sol no firmamento; e, para além do Sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor, que, à sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em inocência, não ousam interrogá-lo como Job! Transbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E,. quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a Terra que te não insulte. E escrevi-te, Afonso! Aquele papel era uma renunciação, aquelas palavras queriam dizer dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infâmia como glória; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que ele me aclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indigna delas; eu, contente da minha desonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseráveis que ma cuspirem. E tu, Afonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadáver, puseste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos lábios o sangue do coração, e escarraste-lhe! Voltei do outro mundo. A mulher que viste há pouco era um fantasma. Os cabelos negros que adornaste com três flores naqueles formosos quinze anos caíram-te aos pés. As flores vêm aradas do fogo do inferno. O fantasma voltou às suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos lábios com as chamas dos seus olhos. Vai tu ao Céu e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação e eternidade para o amor Adeus."


Trecho retirado do Domínio Público: Amor de Salvação 

30 de agosto de 2020

Vigésima Segunda leitura..


 Olá, abandonado leitor !! 
Faz muito tempo que não escrevo neste blog. Eu gosto refletir minhas leituras aqui, mas outros afazeres tiraram meu tempo para esta tarefa.
Porém, semana passada eu fui arrebatada pela leitura de A Mão e a Luva de Machado de Assis e este período de distanciamento foi quebrado. 

Que livro ! Que hisória! 

Eu comecei a ler no dia 21 de agosto (sexta-feira) e domingo (23 de agosto) eu concluí a leitura. Domingo foi o dia chave para completar o término da obra. 
Comecei pela manhã fria e aconchegante sob uma camada de cobertores e apreciada com pedaços de chocolate. 
Geralmente, meu marido e eu combinamos como será  dia: dividimos nosso dia em tarefas individuais e uma segunda parte dedicamos ao convívio de prazer mútuo.
A leitura da manhã estava ótima. O enredo prendia a cada capítulo e tornava impossível interromper a leitura. 
Após o almoço, combinamos que no período da tarde teríamos para nós. 
O período vespertino chegou, minha promessa de pós-almoço vacilava em ser cumprida! 
Somente no final da tarde consegui ir para a sala, e fui exclamando: Meu deus! Que livro ! Que livro !! 
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Entenda a história, leitor:

Guiomar é uma moça órfã que depois da morte prematura da sua prima vai morar com sua tia para lhe servir de consolo.
A beleza de Guiomar arrebatou o coração de Estevão, porém, o coração da dama exigia mais do que um simples elogia a sua formosura.
Um primo seu, Jorge, também querido pela tia, revelou suas intenções de afeto pela moça. Ousou-a pedir em casamento ... mas ainda havia Luís Alves.

A trama gira em torno destes três pretendentes que esperam de Guiomar uma resposta sobre qual será a decisão que ela tomará em relação à escolha do futuro marido.

Guiomar é ambiciosa.  Mas não julgue que seja mau o seu caráter, apenas anceia que sua vontade seja superior ao que lhe obrigam a aceitar. Ela mede cada pretendente conforme sua ambição.
Estevão lhe oferece um amor pueril, Jorge manterá sua fortuna dentro da família e Luís Alves lhe oferece um nome.

Eu adorei Guiomar, mas não desde o início. Ela é uma personagem que precisa ser observada com cuidado para não seja mau interpretada. E acredite, leitor! Você amará Guiomar.
Eu gostei do Machado de Assis "fez" com ela. Trouxe uma mulher com uma determinada sem a carregar de trejeitos romanescos exagerados. Ela sabe o que quer e, mais importante, quer concluir com êxito a sua ambição. 
Ela já está na minha lista de preferidas preferidas e A Mão e Luva em uma releitura desejada.

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3 de maio de 2020

Memórias de um Médico: primeira parte..


Livro um
Livro dois
Livro três
Livro quatro


Olá, leitor anônimo!!

Que prazer ter concluído esta primeira parte da saga Memórias de um Médico! Esta coleção estava mais de cinco anos na minha estante para a primeira leitura. E, desde a compra desta coleção foi algo muito especial para mim.
Deixe-me contar:

Eu tinha o plano de fazer um projeto de leitura livre no bairro que eu morava com meus pais; apenas um plano, quando uma amiga leu e levou à frente o projeto. Ela conseguiu vários patrocínios, bateu em várias portas para conseguir tudo o precisava para montar uma caixa para abrigar os livros. Depois, fomos buscar quem nos ajudaria com livros gratuitos para encher a caixinha. Visitamos alguns lugares que poderiam fornecer alguma doação para o projeto e, entre esses lugares, estava o sebo que eu amo visitar em Joinville - O Sebo Livraria. Foi lá que encontrei, sem ter procurado por ele na ocasião: foi na conversa informal com a dona do sebo sobre adaptações cinematográficas que cheguei a comentar sobre a saga e...ela tinha ! Não coleção completa, faltavam dois volumes que seriam muito fáceis de achar na internet ! E foi minha amiga que pagou para mim 😜 ..pois eu não tinha dinheiro na hora.

Ano passado eu fiz um "stories" no Instagram*  para comemorar o nascimento de Maria Antonieta pois a saga começa com a chegada dela na França para se casar com o Delfim (futuro Luíz XVI) e, me cobrei essa leitura pois era um crime ter passado tanto tempo para começar a lê-la. E, em Dezembro/19 eu trouxe a primeira parte para casa e jurei que começaria essa coletânea.
Neste ano, em março, foi obrigatório o recolhimento social por conta do COVID-19, então decidi começar a leitura desta obra de Dumas. Um dos motivo principais era não levar esses livros para minhas viagens de transporte urbano para não danificar mais a capa e páginas. Missão cumprida.

A leitura de todos os volumes foi muito agradável. Dumas (e Maquet) souberam compor uma trama que não deixou a leitura massante. Cada personagem foi bem aprofundada. Esta leitura me lembrou muito outras duas leituras: O Conde de Monte-Cristo (pela trama construída em lugares diferentes que se unem em determinada parte da narrativa) e O Visconde de Bragelonne por todas as tramas palacianas - o que me deixou com muita vontade de reler a trilogia de Os Três Mosqueteiros. 

Os romances de Alexandre Dumas são em sua maioria históricos. As suas personagens são reais mas o autor lhes dá atitudes que ele decide que servem para a sua obra. Ele não teve a intensão de tomar a história ao pé da letra, mas se utilizou dela para compor a sua realidade.  Portanto, a maior parte de seus personagem foram emprestados da história sem intensão de serem reais.
A corte francesa de Luíz XV está toda lá: a amante Du Barry, o marechal Richelieu - sim, mais um Richelieu, as filhas, o delfim, a nora Maria Antonieta... e o homem que dá nome a saga: Giuseppe Giovanni Battista Vincenzo Pietro Antonio Matteo Balsamo. José Balsamo.

Eu desconhecia totalmente esta personagem histórica. Ele foi tudo o que o Balsamo de Dumas é: maçom, alquimista, ocultista, feiticeiro, curandeiro - deve até jogar no bicho!
É com Balsamo que a trama inicia lá no livro um. Ele é o médico cuja memória é escrita.

O verdadeiro Balsamo, Giuseppe tinha uma real Lorenza - mas dela não procurei muito, visto que ela já deixou a trama. Giuseppe foi caçado pela inquisição e, teve um mestre que lhe ensinou sobre alquimia quando o rapaz tinha apenas dezessete anos. Giuseppe também atende pela alcunha de Alessandro, conde de Cagliostro e há alguns livros publicados sobre ele e o seu julgamento durante a Revolução Francesa.
Balsamo é respeitado até hoje como ocultista. Suas últimas palavras antes de morrer foram:
“Sono un cavaliere errante. Non sono di alcuna epoca né di alcun luogo, al di fuori del tempo e dello spazio, il mio essere spirituale vive la sua eterna esistenza e, se immergendomi nel mio pensiero risalgo il corso delle età, se distendo il mio spirito verso un modo d’esistenza lontano da quello che voi percepite, divengo colui che desidero."

Tradução: "Sou um cavaleiro errante. Não sou de nenhuma época ou lugar, fora do tempo e do espaço, meu ser espiritual vive sua existência eterna e, se imergindo em meu pensamento, volto ao longo dos tempos, se forçar meu espírito a uma maneira de existência longe do que você percebe, eu me torno o que eu desejo".

Nisso Dumas e Maquet acertaram: o José Balsamo da trama fictícia é um viajante além do tempo.

Omnia Vanitas.

*Salvo na pasta "Alexandre Dumas".

22 de abril de 2020

Leitura catorze..


Olá, isolado leitor!

Fim de mais uma leitura - e do terceiro livro da saga Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas. 
Esta primeira parte é composta por quatro volumes e chama-se José Bálsamo. Estes são os links para o primeiro e o segundo livros. 

Neste terceiro livro, o projeto de José Bálsamo segue seu curso, porém, nesta direção também estavam os planos de outros personagens

A condessa Du Barry estava em guerra contra todos que não a aceitavam como a favorita do rei Luís XV. Esta lista era composta por quase toda a França, pela família Choiseul, pela Delfina e seu esposo (Luiz XVI) e, também o marechal Richelieu - que muda mais de partido dentro da trama do que pode ser aceito em via de regra. 
Um adendo sobre esta personagem - não se trata do mesmo Richelieu de Os Três Mosqueteiros - o período entre as história o faria um matusalém; mas ambos existiram e foram ativos junto à monarquia francesa
Além de seus inimigos naturais, a condessa Du Barry ainda precisa enfrentar uma nova rival, a dama de companhia de Maria Antonieta, Andréa de Taverney. 
Mas o rei não é o único apaixonado por Andréa. A menina parece arrebatar corações por onde passa; e o mais apaixonado deste séquito de enamorados é Gilberto. Este aspirante a filósofo faz a sua vida orbitar conforme a trajetória de Andréa. E é isto que Du Barry utilizará para manter esta paixão de Luiz XV fora do alcance do rei. Em contra-partida, o marechal Richelieu pretende aproximar este casal para tirar a Du Barry "do sério" e "da vista".
Todo o mal entendido aconteceu por conta de um cargo no parlamento que foi recusado (pelo rei) ao senhor de Richelieu. Tal recusa foi entendida como uma traição de Du Barry ao marechal. E, sendo rivais, estão colocando empecilhos no caminho de cada um - que, às vezes, traz a vitória para um, outrora a vitória de outro. 
E nesta troca de cargo no parlamento francês, a disputa pela vaga que o ministro De Choiseul deixou, mobilizou uma revolta no parlamento que este decidiu não julgar mais nenhum caso. Mais uma vez a amante do rei entra em ação para fazer sua vontade ser ouvida. 

Entre os filósofos, Rousseau tem três participações interessantes: a primeira delas é a rompimento de relação professor x pupilo com o Gilberto. A segunda é em uma reunião onde ele encontra alguns participantes da maçonaria, entre eles, um médico relevante para a história com um sobrenome peculiar: Guillotin. A terceira participação que chamou minha atenção foi justamente a reunião com aqueles que causaram a sua separação de Gilberto - uma pequena ação contraditória.

Esta terceira parte de José Bálsamo me lembrou muito a saga O Visconde de Bragelonne, onde as intrigas da corte tomam mais conta da narrativa do que a trama central; mas, faço um adendo - desde que a sessão real foi convocada até a conversa que Bálsamo tem com Guillotin - a leitura foi muitíssima interessante (e dentro do enredo para  a queda da monarquia) e me permitiu terminar a leitura antes do prazo estipulado.

Esta saga apresenta o gérmen que surgiu para a  queda da monarquia francesa. José Bálsamo, um líder maçônico e alquimista (entre outros títulos) deseja tirar o rei Luís XV e sua descendência do poder e declarar a monarquia extinta. Para isso, conforme primeiro livro, ele pediu um prazo de vinte anos para a realização do projeto - prazo este que ele considerou justo para arrancar a monarquia pela raiz e não permitir a sua ascensão ao trono novamente.

Por hoje é só, começo a leitura do quarto e último volume desta primeira parte!

Omnia Vanitas

18 de março de 2020

Conversa de bar..


Maugham é maravilhoso!
Se você nunca leu nada dele, desorientado leitor, por favor, leia! Comece com O Fio da Navalha ou O Véu Pintado. Leia! Perceba como ele escreve em entrelinhas e conversas tolas as verdades da alma humana.

Aqui estou eu, passando raiva com Philip Carey quando um conserva com dele com um amigo artista - pois em Paris todos o são - chama a minha atenção. E, como eu não estou sozinha, no momento, e precisando muito desabafar essa conversa, deixo o trecho da leitura para pedir: converse comigo leitor anônimo!

— Soube que não faz grande opinião dos meus versos.
Philip sentiu-se embaraçado.
— Não é bem isso — respondeu. — Gostei muito deles.
— Não procure poupar a minha suscetibilidade — retorquiu Cronshaw, com um gesto da mão gorda. — Não empresto nenhuma importância exagerada aos meus trabalhos poéticos. A vida aí está para ser vivida e não para que escrevamos a seu respeito. Meu objetivo é procurar as múltiplas experiências que ela oferece, arrancando a cada momento toda a emoção que ele apresenta. Considero meus escritos como uma graciosa habilidade que, em vez de absorver a existência, acrescenta-lhe prazer. E quanto à posteridade — que o diabo a carregue!
Philip sorriu, pois dava na vista que esse artista da vida não produzira mais do que um mísero borrão. Cronshaw fitou-o meditativamente e encheu o copo. Pediu, depois, ao garçom que lhe trouxesse uma carteira de cigarros.
— Você acha graça por me ouvir falar assim quando sabe que eu sou pobre e vivo numa água furtada em companhia de uma fêmea vulgar que me engana com cabeleireiros e garçons de café. Traduzo livros miseráveis para o público inglês e escrevo artigos a respeito de quadros desprezíveis que nem ao menos condenados merecem ser. Mas faça o favor de me dizer: qual é o sentido da vida?
— Ora, a pergunta é bastante difícil. Por que não a responde você mesmo?
— Não, porque isso é inútil a menos que a gente o descubra por si próprio. Para que supõe que está no mundo?
Philip nunca havia pensado nisso. Após meditar um momento, respondeu:
— Oh, não sei! Acho que estamos aqui para cumprir o nosso dever, fazer o melhor uso possível de nossas faculdades e evitar magoar os outros.
— Em resumo: não faças a outrem o que não queres que te façam, não é assim?
— Creio que sim.
— Cristianismo.
— Não, não é — protestou Philip, indignado. — Isso nada tem a ver com o cristianismo. É apenas moral abstrata.
— Moral abstrata é coisa que não existe!
— Nesse caso, suponha que, ao sair daqui, sob a influência da bebida, esquecesse a sua bolsa sobre a mesa. Por que razão acha que eu a restituiria? Não havia de ser por medo da polícia.
— Seria o temor ao inferno, se você pecasse, e a esperança no céu, se fosse justo.
— Mas se eu não acredito no céu nem no inferno!
— Pode ser. Kant também não acreditava ao conceber o imperativo categórico. Você renegou um credo, mas conservou a ética desse credo. É ainda um cristão, para todos os efeitos, e se existir um Deus no céu você receberá sem dúvida a sua recompensa. O Todo-Poderoso não pode ser tão tolo como as igrejas o representam. Desde que obedeçamos às Suas leis, não me parece que Ele dê importância ao fato de acreditarmos ou não na Sua existência.
— Mas se eu esquecesse aqui a minha carteira, tenho certeza de que você me restituiria — disse Philip.
— Não por motivos de moral abstrata, mas somente por medo da polícia.
— As probabilidades de a polícia descobrir o furto seriam de um para mil.
— Meus antepassados viveram tanto tempo uma existência civilizada que o medo da polícia me impregnou os próprios ossos. A filha de minha concierge não vacilaria um só momento. Responderá,naturalmente, que ela pertence às classes criminosas. Nada disso. Ela está, apenas, isenta dos preconceitos vulgares.
— Nesse caso vai por água abaixo a honra, a virtude, a bondade, a decência, tudo enfim — observou Philip.
— Alguma vez já cometeu um pecado?
— Não sei, mas suponho que sim.
— Fala como um ministro dissidente. Pois eu nunca cometi pecado algum.
Metido no seu sovado casacão, a gola voltada para cima, o chapéu enterrado na cabeça, com seu rosto rechonchudo e vermelho e seus pequeninos olhos cintilantes, Cronshaw parecia extraordinariamente cômico, mas Philip estava levando a coisa muito a sério para rir.
— Nunca praticou algo de que se arrependesse mais tarde?
— Como poderia arrepender-me de haver praticado um ato inevitável? — perguntou Cronshaw, em troco.
— Mas isso é fatalismo.
— A ilusão nutrida pelo homem de que sua vontade é livre tem raízes tão profundas que estou pronto a aceitá-la. Procedo como se fosse um agente livre. Mas quando um ato se realiza, está claro que todas as forças do Universo, desde toda a eternidade, conspiraram para motivá-lo e nada que eu pudesse fazer o teria impedido. Era um ato inevitável. Se foi bom, não me posso arrogar mérito algum; se foi mau, não posso aceitar censura alguma.
— Minha cabeça está dando voltas — disse Philip.
— Beba um gole de uísque — redargüiu Cronshaw, passando-lhe a garrafa. — Não existe nada melhor que uísque para clarear as idéias. É natural que você tenha o espírito lerdo, uma vez que insiste em beber cerveja.
Philip balançou a cabeça e Cronshaw continuou:
— Você não é um mau rapaz, mas acontece que não bebe. A sobriedade perturba a conversação. Quando falo a respeito do bem e do mal... — Philip notou que ele retomava o fio do discurso — ... falo convencionalmente. Não atribuo significação alguma a essas palavras. Ninguém me induzirá a instituir uma hierarquia de ações humanas, emprestando dignidade a umas e vituperando outras. Os termos vício e virtude não possuem sentido algum para mim. Não louvo nem censuro. Apenas aceito. Sou a medida de todas as coisas. Sou o centro do Universo.
— Mas existem outras pessoas no mundo — objetou Philip.
— Eu falo apenas por mim. Só noto as outras pessoas na medida em que elas limitam as minhas atividades. O mundo também gira em torno delas, e cada uma julga ser o centro do Universo. Meus direitos sobre elas não vão além do alcance de minha força. O que eu posso fazer é o limite do que devo fazer. Somos gregários, e por isso vivemos em sociedade. E a sociedade se conserva unida por meio da força, a força das armas (isto é, a polícia) e a força da opinião pública (isto é, a mrs. Grundy*). De um lado há a sociedade; do outro, o indivíduo: cada um dos dois é um organismo que luta pela sua conservação. É a força contra a força. Eu me encontro só, obrigado a aceitar a sociedade, o que faço de bom grado, uma vez que ela, em troca dos impostos que eu pago, me protege (um fraco) contra a tirania de pessoas mais fortes do que eu. Mas eu me submeto às suas leis porque sou compelido a isso. Não lhe reconheço a justiça nem sei o que isso seja, pois conheço apenas a força. E, depois de pagar uma taxa para que o policial me proteja e (se eu viver num país onde o recrutamento militar for obrigatório) depois de servir no exército que guarda a minha casa e a minha terra contra o invasor, estou quite com a sociedade. Quanto ao mais, contrabalanço a sua força com a minha astúcia. Ela cria leis que visam à sua própria conservação, e se eu as violar sou morto ou encarcerado. A sociedade tem o poder de fazer isso e, por conseguinte, o direito. Se eu violar as leis, aceitarei a vingança do Estado, mas não a considerarei um castigo nem tampouco me julgarei culpado. A sociedade procura atrair-me para o seu serviço acenando-me com honrarias, riquezas e o bom conceito de meus semelhantes. Sou, porém, indiferente à opinião deles. Desprezo as honrarias e posso muito bem dispensar a riqueza.
— Mas, se todos pensassem assim, o mundo viria abaixo num instante.
— Nada tenho que ver com os outros. Só me ocupo comigo mesmo. Tiro proveito do fato de que a maior parte da humanidade é levada, com o olho nas recompensas, a realizar coisas que, direta ou indiretamente, vem beneficiar-me.
— Considero esse um modo extremamente egoísta de encarar as coisas — disse Philip.
— Julga, por acaso, que o homem seja capaz de fazer alguma coisa a não ser por propósitos egoístas?
— Julgo.
— É impossível que assim seja. Quando ficar mais velho, compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. É absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que sacrificariam eles os seus desejos pelos nossos? Quando você quiser compreender que cada um, no mundo, se preocupa apenas consigo mesmo, exigirá menos dos seus semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer".

MAUGHAM, William Somerset. Servidão Humana. Ed. Globo, 1940; cap. XLV, páginas 236 a 240.

Omnia Vanitas. 💀



26 de setembro de 2019

Mais um sonho realizado..



Olá, leitor!!

Que momento delicioso eu tenho para compartilhar! 

Eu tinha uma vontade enorme de conhecer um determinado sebo em São Paulo (capital). 
Neste final de semana, viajamos para lá para visitar a família do meu marido e, foi necessário, permanecer durante quatro dias por lá. 
As outras vezes que os visitamos, nem de longe tínhamos tempo livre para andar pela cidade. 
Desta vez, eu "exigi" visitar o Sebo do Messias.  
Leitor, eu sou apaixonada por esse lugar, e ele foi uma das inspirações para o Sebo do Portuga.
E, em uma preparação para viver um outro lado da compra de livros, eu fiz um pedido on line com retirada no balcão. 💗
Eu estava muito ansiosa pela chegado do momento de visitar (e comprar) livros "diretamente da fonte". 
Porém, o tempo não era somente meu e eu tive o prazer de visitar os autores que amo (e ainda faltaram tantos outros que esqueci em meio a emoção de estar lá) entre as prateleiras do senhor Messias
Mas nada se compara ao ver o dono do Sebo, o senhor Messias A. Coelho. A minha timidez não permitiu que eu fosse cumprimentá-lo, mas vê-lo ativo na loja foi muito emocionante para mim e, levantei uma pergunta: estarei eu, também, atrás do balcão e sendo tão cuidadosa quanto ele depois de tantos anos como livreira? Em meu coração é o meu desejo.

Na foto acima, os exemplares que comprei (exceto Não Me Abandone Jamais e O Instituto) no Messias. Que momento para guardar na memória!

Lista dos livros:
(retirados no balcão)
- A Cidadela
- Almas em Conflito
- Três Amores
(de A. J. Cronin - que ainda falarei sobre)

(comprados na loja)
- A Mortalha de Alzira (Aluízio Azevedo)
- As Mil e Uma Noites v.8 (coleção fechada) 
- Enquanto Eu Te Esquecia (Jennie Shortridge) - presente para minha mãe
- Primo Basílio (Eça de Queiroz)

Para os exemplares extra-Messias,  O Instituto (Stephen King) foi presente do meu marido quando passamos em frente a Livraria da Travessa, em Pinheiros. 
E, Não Me Abandone Jamais foi a leitura concluída durante a estadia em São Paulo. 


Omnia Vanitas 💀


23.09.19, foto by marido 

15 de setembro de 2019

Vigésima primeira leitura..


Olá, leitor anônimo!

Fim de mais uma leitura de Norte e Sul! 

Amo esse livro e, desde 2016, eu decidi que em cada Setembro, eu faria uma leitura dele. Eu não posso deixar Mr. Thornton apagar da minha memória! 
Infortunadamente, em 2018 essa prática foi comprometida por meu cérebro esquecido. Deixei meu exemplar na casa da minha mãe... e, como não queria lê-lo fora do mês escolhido, deixei-o para este ano. E para não ocorrer no erro novamente, Norte e Sul fica de modo permanente na estante da minha casa atual. 

Esta foi a quarta leitura desta obra. As datas registradas são essas:

* 02.12 à 14.12.13 - onde meu coração foi completamente entregue à Mr. Thornton!
* 10.09 à 20.09.16
* 07.09 à 19.09.17
e a última
* 30.08 à 13.09.19

Ganhei este exemplar da minha amiga GLN como presente de aniversário. O mais interessante foi que minha amiga entregou o dito presente depois da data e, neste meio tempo, o aniversário dela estava chegando; então, sem eu saber que ganharia Norte e Sul, eu comprei um exemplar igual de Norte e Sul para ela. Foi muito divertido o momento de abrirmos os presentes trocados. Nunca mais obtive sintonia mais fina que esta em um presente! 

E, ao pensar no que escrever nesta publicação, eu observei minha coluna de livros lidos deste ano e constatei o seguinte: os últimos cinco livros contém mulheres que influenciam diretamente na vida dos personagens que as rodeiam: Capitu e Raquel, Lady Barberina e Miss Jessel , Cecília Lisbon e suas irmãs e, claro, Margaret Hale.

Todas essas mulheres possuem um caráter forte e determinado. Mas sou propensa a gostar mais de Margaret.
Eu a percebi mais nesta leitura (na leitura anterior o fator "indústria" foi mais latente para mim). Eu a achei como uma mulher cuidadora dos seus. Primeiro, a prima em Harley Street, depois os pais, na mudança de endereço ela se viu mais envolta em cuidar dos pais - mas por maneiras mais fortes; os membros da família Higgins também tiveram a atenção dedicada dela. Eu adorei conhecer essa Margaret que para não pensar em sua miséria cuida de outros. 
Claro, existe um sofrimento na alma dela motivado por tudo o que se passa ao redor: a mãe doente, o pai apático, a amiga moribunda com o pai desempregado e a irmã tola. Mas ela se envolve porque é isso que lhe dá forças. 
Quando se muda da cidade industrial de Milton, ela não consegue conviver com esse estado de "tranquilidade" pois sabe que não longe dali existem pessoas que precisam de algum amparo e cuidado - coisa que a tia e prima não conseguem compreender. 

Eu gostei de Margaret porque talvez ela tenha uma personalidade de entrega que ainda preciso cultivar em mim: saber que apesar do meu sofrimento é preciso olhar para o próximo. Preciso ter mais Margaret Hale em mim.

Omnia Vanitas 💀 

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Links para outras publicação sobre Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell


Vigésima leitura..



Olá, Leitor!!

Este livro é maravilhoso! E está na minha lista de "favoritos" para releitura!

Cinco irmãs decidem se suicidar. Cecília é a primeira. Ela tem apenas treze anos e a caçula das Lisbon.

A sinopse que está na contra-capa do livro diz que "este livro é tudo, menos triste."
Eu discordo completamente. Desde a primeira morte eu não consegui sorrir em nenhuma situação. É triste. Cinco...CINCO IRMÃS decidem tirar a própria vida depois de vários chamados de socorros que foram ignorados. 

É uma trama envolvente e, como aconteceu quando eu li Romeu e Julieta na primeira vez, eu torci para que os outros suicídios não acontecessem. Torci para que alguém saísse do casulo de "boa vizinhança que não quer se intrometer" e socorresse essas meninas dos pais que tinham. 
Eu não quero dizer com isso que a culpa era dos pais.. mas algumas atitudes deles não contribuíram, ao meu entender, em ajudar as meninas naquilo que elas precisavam. 

Eu fechei o livro aos prantos de tanto chorar! É, sim, uma história muito triste. 

Essas cinco meninas, tão solitárias e enigmáticas que um grupo de amigos não consegue esquecer a existência breve que todas tiveram, cultivam como "prêmios" as lembranças que conseguiram obter daquele tempo - desde um santinho com um número de telefone até uma fotografia. 
Nunca entenderão a alma angustiada daquelas mulheres - e isso o corrói.



Décima Nona leitura..



Olá, leitor anônimo!

Peço desculpas por escrever somente agora sobre as leituras que já concluí faz muito tempo.

Começo com Lady Barberina/A Outra Volta do Parafuso de Henry James.

Esta foi a minha primeira leitura de um Henry James. O meu foco era ler apenas a segunda estória; mas a minha edição contém Lady Barberina e eu não quis deixar um livro lido pela metade. 

Lady Barberina apresenta duas sociedades em miscigenação: a americana e a inglesa.
Ah! Não pode-se deixar de mencionar que Henry James é americano naturalizado inglês.
A América apresentava seus novos ricos: pessoas que fizeram sua fortuna através do trabalho, não apresentavam nenhuma descendência de nobreza - um título ou algo do gênero. 
A Inglaterra tinha nobres quase falidos que precisavam do dinheiro jovem destes milionários desprovidos de nobreza. 
A junção era feliz para ambos. O dinheiro abundante precisava da nobreza que lhe faltava e vice e versa. 

Neste contexto, Jackson Lemon (não é preciso mencionar que ele é o americano rico), ao passar uma temporada no Velho Mundo descobre-se apaixonado por Lady Barberina - uma nobre.

A história apresenta o ponto de vista de cada personagem na trama - o que os move e seus limites para suas ações. 
Eu tive um desprezo enorme por Jackson Lemon - talvez porque ele me "pegou" em um momento delicado de temperamento. Mas fechei o livro e o xinguei muito por ser quem é. 


A leitura de A Outra Volta do Parafuso me fez ficar com medo algumas vezes. Superou em larga escala a história anterior - Lemom idiota!

Um grupo de amigos está em um castelo e propõe-se contar histórias fantásticas ou de terror. 
Um deles diz que ele tem uma história que aconteceu com a antiga preceptora dele. A história foi registrada por ele e guardada em sigilo. 
A expressão "a outra volta do parafuso" é mencionada (e eu vejo como uma explicação para o título):

"Se uma única criança aumenta a emoção da história (de terror) e da outra volta no parafuso, que diriam os senhores se fossem duas?"
Eu encontrei uma explicação na internet sobre essa expressão - com duas traduções de textos coo exemplo. Deixo-a a seguir:

Transcrevo o trecho da edição da Victor Civita (1988):
"[...] que o fato de haver aparecido, em primeiro lugar, a um menino de tão tenra idade lhe confere uma característica particular [...] Se uma única criança aumenta a emoção da história e dá outra volta ao parafuso, que diriam os senhores de duas crianças?" 
Trecho da edição da Penguin/Cia. dasLetras (2011) :
"[...] não se trata da primeira ocorrência de uma espécie encantadora a envolver uma criança. Se uma criança dá ao fenômeno outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças?" 
Em ambos os textos a palavra 'duas' está em itálico ...
A outra volta do parafuso seria, então, tornar a situação presente pior ainda - dar outra volta no parafuso teria o sentido de tornar a ocorrência do fenômeno mais estranho ainda, uma situação pior ainda, especialmente se narrado não por uma, mas duas crianças ...Em outras palavras, o fantasma aparecer para duas crianças torna o fenômeno mais incrível ainda.
É a minha conclusão depois de um bom tempo tentando entender ....(Essa primeira fase de Henry James foi muito estranha ...)
E buscando mais um pouco, achei esta publicação que também é interessante (Denise Bottman é tradutora e historiadora) :

atualização - gentilíssimo, fred spada fornece em comentário as soluções e esclarecimentos de marcelo pen: 
Seguem as traduções do Marcelo Pen (em "Contos de Horror do século XIX", Cia das Letras, 2005) e seu comentário na apresentação do conto: 
"Se uma criança concorre ao efeito com outro aperto do torniquete, o que diriam de duas...?" (p. 133) 
"(...) mas que apenas exigia enfim, sejamos francos, que se apertasse o torniquete da virtude humana usual." (p 227) 
E a apresentação: 
"Observação: o título 'A volta do parafuso' é um caso clássico, talvez mundial, de tradução equivocada. A rigor, não diz nada em português. Tighten the screw, give the screw another turn e expressões correlatas significam, em geral, aumentar a pressão sobre alguém que já se encontra em posição aflitiva. A expressão lembra o thumbscrew, os 'anjinhos' - antigos anéis de tortura com que se apertavam os dedos das vítimas. Curiosamente, existe em português uma expressão equivalente (inclusive com a reminiscência à tortura) - apertar o torniquete -, que, conforme atesta Antenor Nascentes [Tesouro da fraseologia brasileira], quer dizer 'pôr em situação difícil quem já não está em boa situação'. Não propomos mudar o título do clássico de James, hoje consagrado, mas ajustamos a expressão vernácula nas ocorrências em que o autor usou, posto que com ênfases diversas, a angustiante locução inglesa." (p. 132)

 Ou seja, é uma história de terror onde duas crianças são visitadas por dois espíritos que vivem na casa. A trama prende em cada linha. Eu me arrepiei em vários momentos e mal conseguia fechar o livro para fazer algum trabalho que exigia minha atenção. Tudo era o livro! Adorei muito e está na minha lista de releitura (mas antes buscarei uma edição individual).

Omnia Vanitas 💀 













8 de abril de 2018

Leitura nove .. Joana 2/3



Olá, planejado leitor!

Mais uma leitura terminada. Mais uma Joana concluída.

Esta foi a segunda leitura sobre a heroína francesa. O livro é um romance de Alexandre Dumas, Joana D'arc.

Dumas conta a história de Joana desde o seu nascimento até a sua morte. A parte da história que se  referente a morte desta personagem não há enxertos para compor a trama pois há registros que apresentam o martírio que acompanhou aquela que levou Carlos VII ao trono.
Porém, do nascimento à juventude (exceto quando esta ingressa na carreira militar), nada se sabe em como viveu Joana D'arc. Dumas, então, cria um nascimento quase messiânico para Joana:

Na noite em que nasceu Joana, a do dia de Reis de 1412 (...) uma ligeira brisa surgiu pela noite, impregnada dos suaves odores que só se respiram nos crepúsculos de maio; (...) então pareceu que uma estrela se destacou do céu e desenhando no espaço um traço luminoso, foi na casa de Jacques d'Arc.
E, ao descrever as ações e intensões desta heroína, torna-a um ser quase celestial.

Na minha opinião, somente após a prisão de Joana que a história se torna verossímil; antes disso, tudo o que se faz é preencher lacunas e adicionar frases não ditas para compor a trama. 

28 de março de 2018

Leitura oito.. Joana 1/3

"Os juízes não a querem santa. Também não a querem militar" (p.185)
Logo após a leitura de "O Clube Dumas" eu resolvi colocar em prática um projeto de leitura que planejei em 2017. E, nesta semana, eu terminei a primeira das três partes desta empresa.

Claude Bertin foi quem supervisionou este volume de Os Grandes Julgamentos da História: Joana D'arc.  Este é o quarto tomo desta coleção da editora Otto Pierre. Esta edição apresenta ilustrações da Bibliothèque National, agência Roger Viollet e uma gama bibliográfica que serviu de fonte para a composição deste livro.

Carlos V construiu com um bom território para a França. Carlos VI não soube o que fazer com este patrimônio real. Carlos VII não sabia se era apto para assumir o trono. Joana D'arc trouxe um rei para a França e a Inglaterra a queimou por bruxaria.

Joana D'arc se envolveu na luta pela França quando a Guerra dos Cem Anos estava acontecendo. A França havia perdido batalhas significativas para a Inglaterra: Crécy (1346) , Poirtiers (1356) e Azincourt (1415); e cada uma que era acrescentada tornava o território inglês maior. 
No ano de 1429 o certo a Orleans trouxe um novo ar para derrotada França. E seu líder foi Joana D'arc.

Joana D'arc foi uma camponesa que saiu da casa patriarcal e foi lutar pelo seu país. Despojou-se das roupas femininas e vestiu-se como guerreiro. Esta jovem trouxe à França vitórias e coroou um rei abatido. Depois desta glória a França a esqueceu e permitiu que sua redentora fosse queimada como bruxa pelos seus inimigos.

A igreja (inglesa) não a queria por santa, eles não aceitariam suas visões e suas profecias; mas não puderam dizer que as visões não possíveis ou estariam condenando todos os profetas bíblicos.
O controverso julgamento desta jovem lhe custou a vida quando tinha apenas dezenove anos. 
A Inglaterra juntou provas, e forjou outras tantas, para lhe condenar como bruxa; caso contrário, teriam que admitir que Deus estava contra eles. 
De todas as acusações, poucas foram comprovadas para lhe dar o veredito de culpada; portanto, culpar-lhe pelos trajes masculinos que vestia foi o que a levou à fogueira. 

A fervorosa jovem cristã pedia para que o Papa lhe soubesse o caso e, julgando ele que ela falava mentiras, aceitaria a condenação. Mas o Papa nunca foi chamado, porém, conhecia o caso de Joana. Segundo Bertin "a verdade é que toda a época foi cúmplice da condenação". Em toda a parte se sabia sobre a virgem guerreira que coroou o rei da França; porém, nem mesmos Carlos VII não se pronunciou em momento algum sobre um resgate para o seu soldado. 

Entretanto, quase vinte e cinco anos depois da morte da herege, o Papa contemporâneo, Calisto III, foi feita a reabilitação da jovem guerreira. Carlos VII se pronunciou, os guerreiros que estavam com ela também deram contribuição para o novo julgamento e, as amigas de Joana D'arc foram ouvidas. 
Apesar das declarações e louvores à jovem devota, pouco se sabe soube como ela era fisicamente; exceto a cor dos cabelos: castanhos. Nenhum esboço serviu para dar rosto àquela mulher.

A igreja lhe condenou pelas roupas de homem que vestiu;  mas a virgindade lhe tornou santa.

Você pode acreditar ou não, crédulo leitor, que Joana D'arc tinha visões e ouvia vozes dos santos; fato é que esta jovem mulher liderou batalhas - e venceu a maioria delas sem nunca ter treinado para isso. Você pode acreditar ou não, mas ela foi eloquente o suficiente para dobrar um rei a fazer  o que ela queria. Ela o corou rei de uma nação desesperada. A vida de Joana D'arc foi verdade. Seus atos são verdade. 

No ano de 1929, Joana D'arc foi canonizada. 








Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...