30 de setembro de 2025

Leitura 13


Olá, esquecido leitor !

Nesta última leitura do mês, eu decidi reler um livro que tenho apreço: O Véu Pintado, de William Somerset Maugham. 

Por que eu gosto ? Porque ele é simples na narrativa e o arco de crescimento da protagonista é incrível! 

Kitty Fane casou-se com Walter pelo simples fato de não querer ver sua irmã mais nova casar-se antes dela. Porém, não soube escolher seu marido. Ele a ama, pelo menos assim ele declara. Ele cuida dela com toda afeição, envolve-se nas distrações que deixam Kitty satisfeita (mas não feliz). Durante uma saída social, Kitty encontra Charlie - um sedutor pseudo-elegante (o melhor que tem na região). Tornam-se amantes até o momento que Walter descobre o caso entre ambos. Rebaixada pelo marido e abandonada pelo amante, Kitty está sozinha em um lugar desconhecido e numa sociedade que não aceita muito bem o divórcio (anos 20). 

No lugar fictício de Mei-tan-fu (China) - envolvido em uma epidemia de cólera - Kitty vive dias insípidos e longos na companhia de Waddington - um homem que trabalha na alfândega, sem nenhum atrativo físico e um gosto excessivo pela bebida. No primeiro momento que saem da casa de Kitty e Walter, eles estão na seguinte cena que me chamou a atenção desta vez: 

"Subiram a colina ate chegarem no arco. Era mum monumento ricamente esculpido. Fantástico, irônico, erguia-se como um marco sobre a região vizinha. Sentaram-se no pedestal e ficaram a olhar a planície. A colina estava semeada dos montículos verdes dos mortos, não em linhas regulares mas desordenadamente, dando a impressão de que eles se acotovelavam embaixo da terra. A vereda estreita serpeava entre os verdes arrozais. Um menino montado no pescoço de um búfalo dirigia-o vagarosamente para casa, e três campônios de enormes chapéus de palha avançavam lerdos como o corpo vergado sob os seus fardos".

Permita-me, desocupado leitor, dividir convosco minha visão desta cena que Waddington e Kitty assistiam. 

Primeiramente, eles estavam sentados em uma visão privilegiada - o que é realmente o que vivem, pois por serem estrangeiros e brancos possuem um status social superior aos nativos. Eles estão, neste caso, acima da morte" - pois os montes (jazigos sem indicação) estão amontados como desconhecidos. Em uma parte da narrativa, eles declaram que em Mei-tan-fu as pessoas morrem como moscas. Exatamente isso, vidas que são dispensadas rapidamente de forma aleatória em um cemitério desordenado na paisagem dos arrozais - fonte de vida da região. 

Em segundo lugar (e último), um menino vem cadenciando um búfalo manso. A vida na forma de uma criança montada em um animal que a leva para casa. Criei (por não imaginar do Maugham tenha tido essa ideia) que a representação da criança é sempre a esperança, o futuro; enquanto três homens curvados pelo fardo do trabalho seguiam atrás dele. Nestes três homens eu vejo a representação das Parcas: Nona, Décima e Morta. Na mitologia grega elas são chamadas de Moiras (mas a função é mesma): dar a vida, tecer esse fio da vida, e cortar o fio (morte). É o destino do homem (menino) seguindo até em casa - se o caminho é longo ou curto, não cabe a ele saber. 

Então é isso, leitor desconhecido, que eu pensei quando li esta passagem nesta manhã, e não sosseguei até escrevê-lo aqui. 


Omnia Vanitas 💀

 

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