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3 de abril de 2021

Trigésima segunda leitura..


 

Olá, abandonado leitor !

Que loucura ! Deixei este blog sem atualização durante muito tempo! Perdão aos leitores inexistentes desta página! Tive motivo para isso. Plausíveis? Não! Então, vamos à atualização de algumas leituras. 


Emily Brontë e o seu "O Morro dos Ventos Uivantes" foi a minha última leitura de 2020. Que livro, senhoras e senhores! Que força!

Este romance único de Emily Brontë traz a história de Heathcliff e Catherine Earnshaw. Estas duas personagens foram criadas sob o mesmo teto. Ele sendo adotado e ela filha legítima. 

Heathcliff é uma personagem que eu gosto muito por tudo o que ele representa: sua identidade incógnita, seus sentimentos por Catherine, seu tratamento com todos que habitam a cidade (e principalmente sua casa). Ele é o mal que foi trazido para um seio familiar que, ao meu ver, parecia próspero. Porém, o tratamento que ele recebeu de  todos foi retribuído com uma intensidade que poucos souberam entender. 

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um livro singular em alguns aspectos como sua narrativa muito verossímil com a realidade da sua época; para mim, ele tem toda a força da sua autora; possui passagens que são icônicas até os dias atuais. 

Este exemplar da foto tem a tradução da escritora brasileira Rachel de Queiroz.

Omnia Vanitas 💀


2 de outubro de 2020

Vigésima quinta leitura..

 



Fim de mais uma leitura !!! 


A partir de Shirley, eu decidi reler os livros das irmãs Brontë que estão comigo; e a escolha de desta obra de Charlotte Brontë é especial: foi nele que Elizabeth Gaskell se inspirou para escrever o meu amado Norte e Sul - porém, o livro de Charlotte não alcançou a mesma popularidade que o livro da amiga.

A publicação no livro foi no ano de 1849 - edição em três volumes sob o pseudônimo de Currer Bell. Este romance foi precedido por Jane Eyre (que teve uma ótima recepção pelo público e até hoje conhecido como a magnum opus de Charlotte Brontë) e seguido por Villete. 

A trama de Shirley acontece entre os anos de 1811 e 1812  - no período que a Inglaterra fecha o seu comércio por conta da guerra com Napoleão. Assim com em Norte e Sul, existe uma revolta ocasionada pela falta de emprego - porém, neste romance de Brontë a revolta se dá pela ocupação que as máquinas terão em detrimento a mão de obra humana. O desemprego é um dos temas de Shirley. A questão religiosa é uma das diferenças entre os romances de Gaskell e Brontë: em Norte e Sul é um assunto tratado de modo mais ameno, porém em Shirley a questão é mais aberta mostrando a rivalidade entre whigs e tories - para saber um pouco tem uma nota nesta publicação aqui. 

As personagens de Shirley também serviram de inspiração para Norte e Sul. O industrial Roberto Moore lembra muito a personalidade forte e determinada de John Thornton 💓. Ambos são ambiciosos, mas em Thornton há uma conotação de herói da trama que não lhe permite os erros de caráter de Roberto Moore. 

Entre as protagonistas, nenhuma delas tem relação entre si.

O romance, na minha opinião, poderia se chamar Carolina, pois mais de oitenta por cento da trama gira em torno desta personagem. A personagem que dá título ao livro aparecerá somente no capítulo dez (a partir da página 130 no meu exemplar*) e terá algumas participações na trama. Carolina Helstone, por outro lado, tem uma personalidade definida desde o início da trama e sua ausência na história se dá apenas para que o enredo entre a protagonista e Luís Moore 💗 cresça para fechar a trama.

Algumas anotações sobre Shirley - a mulher e não o livro - devem ser escritas: o nome dela era prevalentemente masculino, mas depois da publicação da obra algumas mulheres foram registradas com este nome. Shirley é uma das poucos mulheres ricas (protagonistas) que povoam as obras de Charlotte Brontë. Shirley tem personalidade forte e, por ser rica, muita das suas vontades são satisfeitas e poucas vezes é repreendida por algum ato cometido ou palavra dita. Shirley é quem cuida dos seus negócios, responde as cartas comerciais - geralmente feito pelo homem da casa ou por um contratado para o serviço; e por suas atitudes "masculinas", o tio de Carolina chama a herdeira de "Capitão Keeldar" - que é o sobrenome de Shirley, Keeldar. E ele o faz sem sentido pejorativo. E estas não são as únicas peculiaridades desta protagonista: seu cachorro não é de uma raça recomendada para "damas" - eu acredito que seja um buldogue inglês que, apesar de pequeno não é "educado". Geralmente as moças tinham poodles ou raça semelhante. Uma passagem intrigante para mim foi quando a sua acompanhante, a misteriosa senhora Pryor, repreende Shirley por ela estar assobiando - desde a primeira leitura essa foi uma parte marcante pois me instiga a pensar que não era "apropriado" para uma mulher assobiar - talvez seja pelo fato de homens usarem isso para caça (?); não sei!

Em oposto à Shirley está Carolina Helstone. Como em geral nos romances de Charlotte, ela é órfã - apesar de não saber o paradeiro da mãe, o pai é falecido. Mora com o tio que é pastor e tem sociedade com um casal de primos, os Moore (inicialmente Hortência e Roberto) e posteriormente, Luís. O fato de ela ser órfã e não ter fortuna para si, a faz crer que ser solteira será seu destino. E, o próprio Roberto a rejeita como esposa pela sua pobreza - pois com a guerra e sua possível falência, Roberto precisa de um cônjuge que lhe traga benefícios financeiros para que ele reerga a sua fábrica.  

Carolina é a personificação da heroína. Ela sofre por um amor que não pode ser conquistado, ela ajuda a todos além das suas forças, abdica do bem estar para que outros possam estar bem, jamais afirma que está cansada ou que algo lhe abate a alma - tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta - como está no Evangelho. E todos os benefícios colhidos (mesmo os mais ínfimos) são louvados, todas as injúrias sofridas são perdoadas em nome do amor.

Enquanto em Norte e Sul a morte permeia a trama, em Shirley ela é descartada. Talvez, porque no momento em que escrevia este romance, Charlotte Brontë havia perdido seus três último irmãos: Branwell (setembro 1848), Emily (dezembro 1848) e Anne (Maio 1849). 

Carolina sofre de um terrível mal físico (e psicológico)  que a deixa por várias semanas doente, a beira da morte. Sua recuperação se dá por meio de uma revelação que lhe trás um motivo para lutar contra a morte. Segundo uma amiga íntima de Charlotte, Carolina foi inspirada em sua irmã mais nova Anne e, pouca certeza há, que Shirley foi dedicada à Emily. Ellen Nussey, a amiga íntima, nunca confirmou a inspiração de Shirley em Emily. 

Um adendo para Luís Moore. 

Este irmão de Hortência e Roberto aparece no final da trama. Sua aparência não é tão bela quanto a de Roberto, mas ambos se assemelham fisicamente - e a comparação para por aí. Luís é quieto, mas altivo. Escolhe suas palavras antes de dizê-las, ao entrar em uma conversa ele domina o interlocutor - mesmo sendo Shirley. Ele é professor. E essa profissão é importante para Charlotte Brontë. Em sua estadia em Bruxelas, ela se apaixonou pelo professor, casado, Constantin Héger. Ela lhe enviava cartas para ele -  mesmo não sendo encorajada a fazer isso. A obsessão por este homem está marcado em seus romances: em O Professor (romance póstumo, publicado em 1857) William Crimsworth é a representação de Héger; em Villette ele é Monsieur Paul; em Jane Eyre ele é Mr. Rocherster. 


Então é isso! 

Omnia Vanitas 💀


*BRONTE, Charlottte. Shirley. Ed. Brasileira, 1949. Tradutor: Fábio Valente.


3 de setembro de 2020

Vigésima terceira leitura ..


 Olá, leitor !!


Que livro !! Mais um livro na lista para releitura: Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco.

Este ano eu já li Amor de Perdição, do mesmo autor, e gostei ; mas Amor de Salvação é sensacional! A trama é mais envolvente, as personagens são mais desenvolvidas na trama. 

Assim como em Amor de Perdição, um triângulo amoroso se forma: Afonso, Theodora e Mafalda, mas ao contrário da obra anterior, todos permanecem vivos - sem perdição.
Amor de Perdição é lindo! Mas como já mencionei, eu senti falta de personagens mais desenvolvidas: o amor de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque não me convenceu de fazer valer todo o sofrimento e sacrifícios do casal. Eu gostei muito mais de Mariana - o terceiro pé desta relação - e por pouco Simão não concorda comigo.

Antes de escrever sobre a leitura final, deixe-me fazer um adendo sobre Amor de Perdição: primeiro livro de Camilo Castelo Branco: escritor português, nascido na aristocracia - recebeu o título de visconde do rei D. Luís;  estava em cárcere por adultério quando escreveu esta obra quase biográfica.
Camilo Castelo Branco suicidou-se com um tiro na têmpora esquerda - movido pelo desespero de uma cegueira causada pela sífilis.

Amor de Perdição contém algumas notas muito semelhante com Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Ambas obras remetem à rivalidade entre as famílias do casal e ambas contém a morte como solução para a separação dos namorados. 

Amor de Salvação tem um viés diferente. 
Em uma véspera de Natal, um viajante/narrador busca informações sobre um atalho para chegar mais rápido ao seu destino e, seu informante, não é ninguém mais, ninguém menos que Afonso de Teive o protagonista de Amor de Salvação. Querendo saber mais sobre o rumo que levou o amigo ter oito filhos e uma felicidade sem medida, Afonso conta sua história trágica de amor e de como conseguiu encontrar a salvação no amor de esposa. 
Ao contrário dos Albuquerque e Botelho, a família de Afonso e Theodora são amigas. Ambos nasceram em um lar amoroso e abastado. Porém, Theodora fica órfã e é enviada para um convento - um convento era a solução para tudo no século XIX: órfãs, solteironas, viúvas e pasmem, para pessoas com vocação para a vida religiosa. 
Amada pela família de Afonso de Teive, Theodora é enviada para o convento das Ursulinas e separada do seu amigo de infância. Depois de exigir da mãe de Afonso, a boa Eulália, a tire daquela clausura, Afonso é separado de Theodora porque a mãe do jovem não gostou da personalidade forte da menina que exige sua saída da vida religiosa. 
Dois anos foi o tempo que estariam afastados os dois namorados - enquanto ficasse Theodora no convento.
Sem notícias e Afonso, Theodora faz a sua liberdade casando-se com seu primo Eleutério. 

A trama é muito bem arquitetada  e tem uma reviravolta magnífica. 

Eu não quero escrever mais sobre a obra não entregar o final, mas deixo minha sincera recomendação para que você, anônimo leitor, para que leia esta obra de Camilo Castelo Branco. 

Omnia Vanitas 💀

31 de agosto de 2020

A carta de Theodora ..






Olá, leitor !

Ontem, domingo, eu comecei minha manhã lendo na sacada do apartamento. Um café quente (sim, este ano decidi experimentar café e gostei - tomei três canecas) para acompanhar a leitura e ..enlouqueci !!! Que livro !!! Que leitura !!! Eu já decidi que este livro também será uma releitura com certeza ! 
Minha leitura atual é Amor de Salvação, do português Camilo Castelo Branco.

Eu gosto muito quando a personagem escreve cartas durante a trama. Amo cartas ! E, nesta leitura, Theodora escreve uma carta para Afonso! É maravilhosa !!! Divido esta experiência com você, leitor ! 

Quem te disse a ti que eu tinha caído diante de mim mesma, Afonso? Quando te dei eu direito de supor que o teu silêncio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, de um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te apareci magnífica dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lágrimas figuraram-se-te o pus de um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue. Não pudeste chegar com a fronte à altura da minha, e apedrejaste-ma! Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava. e não sabes sequer usar a misericórdia de dizer à mulher que te ama que não seja infame, amando-te?! (...) A contas, homem de ferro, que endureceste o teu frágil barro de outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezível! Que fazias tu quando eu me estorcia de saudades de ti e dores do meu cativeiro, dentro das grades das Ursulinas? Quando soubeste que a tirania me fechava a sete chaves numa cela e me media os átomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze anos de uma mulher que queria o sol das flores, das aves, dos mendigos, do último ver-me que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?! (...) Não respondas. A vil, a abjeta, a desgraçada, é generosa. Não respondas. Ri e escuta. Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços e esperar a morte. À borda do abismo. vi uma tábua de salvação. Sabia que, segurando-me nela, as mãos se rasgariam em chagas incuráveis. Sabia-o; mas agarrei-me à tábua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demônio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ela me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roía a serpente da soledade e do desabrigo. Vi árvores, vi estrelas, ouvi os cânticos da Terra e os amorosos murmúrios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a única mulher sem mãe, sem pai, sem amigo, sem coração que se abrisse às cinzas do meu. Não importa. Via o Sol no firmamento; e, para além do Sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor, que, à sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em inocência, não ousam interrogá-lo como Job! Transbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E,. quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a Terra que te não insulte. E escrevi-te, Afonso! Aquele papel era uma renunciação, aquelas palavras queriam dizer dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infâmia como glória; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que ele me aclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indigna delas; eu, contente da minha desonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseráveis que ma cuspirem. E tu, Afonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadáver, puseste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos lábios o sangue do coração, e escarraste-lhe! Voltei do outro mundo. A mulher que viste há pouco era um fantasma. Os cabelos negros que adornaste com três flores naqueles formosos quinze anos caíram-te aos pés. As flores vêm aradas do fogo do inferno. O fantasma voltou às suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos lábios com as chamas dos seus olhos. Vai tu ao Céu e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação e eternidade para o amor Adeus."


Trecho retirado do Domínio Público: Amor de Salvação 

30 de agosto de 2020

Vigésima Segunda leitura..


 Olá, abandonado leitor !! 
Faz muito tempo que não escrevo neste blog. Eu gosto refletir minhas leituras aqui, mas outros afazeres tiraram meu tempo para esta tarefa.
Porém, semana passada eu fui arrebatada pela leitura de A Mão e a Luva de Machado de Assis e este período de distanciamento foi quebrado. 

Que livro ! Que hisória! 

Eu comecei a ler no dia 21 de agosto (sexta-feira) e domingo (23 de agosto) eu concluí a leitura. Domingo foi o dia chave para completar o término da obra. 
Comecei pela manhã fria e aconchegante sob uma camada de cobertores e apreciada com pedaços de chocolate. 
Geralmente, meu marido e eu combinamos como será  dia: dividimos nosso dia em tarefas individuais e uma segunda parte dedicamos ao convívio de prazer mútuo.
A leitura da manhã estava ótima. O enredo prendia a cada capítulo e tornava impossível interromper a leitura. 
Após o almoço, combinamos que no período da tarde teríamos para nós. 
O período vespertino chegou, minha promessa de pós-almoço vacilava em ser cumprida! 
Somente no final da tarde consegui ir para a sala, e fui exclamando: Meu deus! Que livro ! Que livro !! 
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Entenda a história, leitor:

Guiomar é uma moça órfã que depois da morte prematura da sua prima vai morar com sua tia para lhe servir de consolo.
A beleza de Guiomar arrebatou o coração de Estevão, porém, o coração da dama exigia mais do que um simples elogia a sua formosura.
Um primo seu, Jorge, também querido pela tia, revelou suas intenções de afeto pela moça. Ousou-a pedir em casamento ... mas ainda havia Luís Alves.

A trama gira em torno destes três pretendentes que esperam de Guiomar uma resposta sobre qual será a decisão que ela tomará em relação à escolha do futuro marido.

Guiomar é ambiciosa.  Mas não julgue que seja mau o seu caráter, apenas anceia que sua vontade seja superior ao que lhe obrigam a aceitar. Ela mede cada pretendente conforme sua ambição.
Estevão lhe oferece um amor pueril, Jorge manterá sua fortuna dentro da família e Luís Alves lhe oferece um nome.

Eu adorei Guiomar, mas não desde o início. Ela é uma personagem que precisa ser observada com cuidado para não seja mau interpretada. E acredite, leitor! Você amará Guiomar.
Eu gostei do Machado de Assis "fez" com ela. Trouxe uma mulher com uma determinada sem a carregar de trejeitos romanescos exagerados. Ela sabe o que quer e, mais importante, quer concluir com êxito a sua ambição. 
Ela já está na minha lista de preferidas preferidas e A Mão e Luva em uma releitura desejada.

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5 de maio de 2020

Releitura de "As Viagens de Gulliver"..



Olá, anônimo leitor!

Estou na segunda leitura deste livro do Swift, depois de mais de oito de distância da primeira. E é um novo olhar por dois motivos.

Primeiro, faz muito tempo desde a primeira leitura, todas as particularidades foram esquecidas conforme outras leituras foram feitas depois desta. 

Segundo motivo foi que desta vez eu decidi incluir as notas explicativas na leitura.
Este exemplar é da Nova Cultural (2003) com tradução e notas de Therezinha Monteiro Deutsch. Ela, também, traduziu pela editora Best Bolso os livro Emma e Razão e Sensilidade de Jane Austen - ambos indicados pela Raquel Sallaberry Brião no seu site Jane Austen em Português como as entre as melhores traduções das obras da escritora inglesa.

Faz pouco tempo que comecei a cuidar das traduções que tenho na minha estante. Algumas edições eu tenho a oportunidade de trocar, mas em sua maioria fico à mercê do que tenho em mãos.
A primeira vez que notei uma tradução diferente foi no livro Persuasão da própria Jane Austen. Vou deixar o link aqui para não me alongar na explicação.
Para outras obras, eu uso as publicações do blog Não Gosto de Plágio da Denise Bottman.
Sendo assim, mais confiante na tradução e nota de Deutsch, eu faço desta segunda leitura de As Viagens de Gulliver uma aventura mais real da história. 

 As notas sobre o texto enriquecem muito a leitura. As observações permitem que o leitor encontre os motivos que levaram àquele trecho ou algumas possíveis ideias de estudiosos de Swift para que esta ou aquela frase estivesse ali. Estar na cabeça e na história que o escritor viveu ao escrever torna a leitura muito mais rica e completa e permite ao leitor rir da sátira que é As Viagens de Gulliver. 
Para não deixar você, leitor anônimo, sem um exemplo, deixarei dois para lhe dar uma luz sobre o que escrevi.

"(...) Diverti-me, entre outras coisas, como dançarinos na corda-bamba¹, que se apresentavam sobre um fino fio branco esticado a cera de um metro e meio do solo. Peço licença, e paciência ao leitor para me alonga um pouco a este respeito.
Esta diversão é praticada apenas pelas pessoas que são candidatas a altos cargos e altos favores na corte. São treinadas nesta arte desde bem pequenas e nem sempre são de nascimento nobre ou têm educação liberal. Quando um alto cargo fica vago, por morte ou queda em desgraça (o que acontece muito), cinco ou seis desses candidatos apresentam petições para divertir Sua Majestade e a corte com a dança na corda-bamba; então, aquele que saltar mais alto sem cair ganha o cargo". (página 62-3)
 (...)
"Mandei tantas cartas e petições para minha liberdade que por fim Sua Majestade mencionou o assunto no gabinete e, depois, numa reunião do Conselho, ninguém e opôs, a ser Skyresh Bolgolam², que resolveu, sem nenhum motivo, ser meu inimigo mortal". (página 67).

Notas:

(1):  dançarinos em corda-bamba: exibição preferida ente os divertimentos populares no período. Para avaliar o significado satírico, confrontar com a observação de Swift num panfleto religioso (1709): "Leve-se em conta que andar na corda-bamba é o único talento requerido por um ato do Parlamento para transformar um homem em bispo; não se duvide de que depois de ter feito esta demonstração de atividade, de estar em forma, esse homem poderia sentar-se na Câmara dos Lordes...mas é preciso ser pouco cristão para acreditar que esse funâmbulo depois disso tornara-se um tiquinho ais bispo do que antes..." prose, ii, 75; E.W. Rosenheim, PQ, xxxi, 1952, 209).

(2): Skyresh Bolgolam: "Estilo 'im Mar'boro'" (Clark, pp 604-5, i.é,; o duque de Marlborough, a quem Swift atacara várias vezes (principalmente no Examiner, 23 de novembro de 1710) como chefe representativo da polícia-de-guerra dos whigs*. Firth (p.242) identifica Bolgolam como o conde de Nottingham, que usou sua iinflência para impedir que Swift conseguisse um bispado. Se bem qu não fosse um almirante, Nottingham fora Primeiro Lode do Almirantado (1680-4), e se bem que totalmente ignorante em conhecimentos marítimos, sempre se vangloria de ser um perito naval. Case (p.72), que relata a carreira de Gulliver em Liliput não em relação à biografia de Swift, mas sim em referência à sorte política de Oxford e Bolingbroke, aceita esta identificação pelo fato de que Nottingham era hostil a Oxford "sem que tivesse havido nenhuma provocação", a ser o fato de Oxford (então Harley) tê-lo sucedido no cargo (1704).

*whigs: Whig é uma expressão de origem popular que se tornou termo corrente para designar o partido liberal no Reino, e contrapunha-se ao Tory, de linha conservadora.

Eu ainda estava procurando algumas informações sobre a tradutora quando achei dois trabalhos que serão um ótimo suporte para esta leitura, segue os links abaixo;

- Autor: Leonardo José César de Mattos Guerra. Título: Viagens de Gulliver: recepção (história) e interpretação (crítica)

- Autor: Evaldo Gondim dos Santos. Título: Tradução e ironia: o cientificismo iluminista em Gulliver’s Travels vs. (As) Viagens de Gulliver

Então é isso, leitor!

Omnia Vanitas. 💀


2 de maio de 2020

Fábula de La Fontaine..



O Louco que vende Sabedoria

Mantenham distância dos loucos, é o melhor conselho que posso lhes dar. Há muitos na corte e os príncipes gostam deles porque disparam seus chistes contra os teimosos, os tolos e os patifes.
Um Louco ia gritando, pelas ruas e praças, que vendia sabedoria, e muitos crédulos corriam para comprá-la. Fazia estranhas caretas e, depois de tomar-lhes o dinheiro, lhes dava uma bofetada e dois metros de barbante. A maior parte dos enganados se revoltava, mas de que adiantava? Acabavam sendo zombados duplamente: o melhor era rir e ir embora sem dizer nada. Buscar naquilo algum sentido seria levar a sério os mentecaptos. Qual razão explica os atos de um louco? A causalidade é o que movo o cérebro de um transtornado. Mesmo assim, um dos enganados foi procurar um homem erudito, que, sem vacilar, lhe disse: "O barbante e a bofetada têm sim um significado: toda pessoa de bom senso deve manter-se longe dos Loucos e a distância desse cordão. Se não fizer assim, se expõe a tomar uma pancada. O Louco não enganou ninguém: ele realmente vende sabedoria".

Le Fou qui vend la sagesse

Jamais auprès des fous ne te mets à portée:
Je ne te puis donner un plus sage conseil.
Il n'est enseignement pareil
À celui-là de fuir une tête éventée.
On en voit souvent dans les cours :
Le Prince y prend plaisir ; car ils donnent toujours
Quelque trait aux fripons, aux sots, aux ridicules.
Un Fol allait criant par tous les carrefours
Qu'il vendait la sagesse ; et les mortels crédules
De courir à l'achat : chacun fut diligent.
On essuyait force grimaces ;
Puis on avait pour son argent
Avec un bon soufflet un fil long de deux brasses.
La plupart s'en fâchaient ; mais que leur servait-il ?
C'étaient les plus moqués ; le mieux était de rire,
Ou de s'en aller, sans rien dire,
Avec son soufflet et son fil.
De chercher du sens à la chose,
On se fût fait siffler ainsi qu'un ignorant.
La raison est-elle garant
De ce que fait un fou ? Le hasard est la cause
De tout ce qui se passe en un cerveau blessé.
Du fil et du soufflet pourtant embarrassé,
Un des dupes un jour alla trouver un sage,
Qui, sans hésiter davantage,
Lui dit : Ce sont ici hiéroglyphes tout purs.
Les gens bien conseillés, et qui voudront bien faire,
Entre eux et les gens fous mettront pour l'ordinaire
La longueur de ce fil ; sinon je les tiens sûrs
De quelque semblable caresse.
Vous n'êtes point trompé : ce Fou vend la sagesse.

Link para o texto em língua francesa aqui.

1 de maio de 2020

Mudança de planos..


Olá, recluso leitor !!

Essa semana eu fiz uma enquete no Instagram para saber qual deveria ser a minha próxima leitura ao fim da primeira parte de Memórias de um Médico (Alexandre Dumas). As opções eram as seguintes:

- Crônicas Saxônicas (livros 7 à 10) de Bernard Cornwell
- As Cartas da Prisão de Nelson Mandela (Saham Venter - ed.)

O livro mais votado foi a saga do Cornwell. 

Nesta mesma semana, ainda em quarenta, eu estava ouvindo algum noticiário na televisão quando um avalanche de frases absurdas saíram do aparelho televisor. 
No mesmo instante eu lembrei do livro do Lima Barreto,  Os Bruzundangas. Um pequeno resumo da obra que achei na internet:
A obra é uma sátira da vida brasileira nos primeiros anos da Primeira República, Bruzundanga é um país fictício, onde havia, tal como na Primeira República, diversos problemas sociais, econômicos e culturais, entre os quais os títulos acadêmicos possuídos pelos ricos que eram não mais que pseudo-eruditos.
 Entenderam a recordação que me levou a pensar em Os Bruzundangas?

Porém, lembrei que a obra era uma inspiração no livro de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver.
Como, por sorte, eu tenho o livro do Swift na minha estante (já que noventa por cento está - ainda - na casa dos meus pais), eu decidi começar a leitura de As Viagens de Gulliver antes de começar o livro do Barreto.

Então é isso.. Que comece a leitura ...

Omnia Vanitas 💀

22 de abril de 2020

Leitura catorze..


Olá, isolado leitor!

Fim de mais uma leitura - e do terceiro livro da saga Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas. 
Esta primeira parte é composta por quatro volumes e chama-se José Bálsamo. Estes são os links para o primeiro e o segundo livros. 

Neste terceiro livro, o projeto de José Bálsamo segue seu curso, porém, nesta direção também estavam os planos de outros personagens

A condessa Du Barry estava em guerra contra todos que não a aceitavam como a favorita do rei Luís XV. Esta lista era composta por quase toda a França, pela família Choiseul, pela Delfina e seu esposo (Luiz XVI) e, também o marechal Richelieu - que muda mais de partido dentro da trama do que pode ser aceito em via de regra. 
Um adendo sobre esta personagem - não se trata do mesmo Richelieu de Os Três Mosqueteiros - o período entre as história o faria um matusalém; mas ambos existiram e foram ativos junto à monarquia francesa
Além de seus inimigos naturais, a condessa Du Barry ainda precisa enfrentar uma nova rival, a dama de companhia de Maria Antonieta, Andréa de Taverney. 
Mas o rei não é o único apaixonado por Andréa. A menina parece arrebatar corações por onde passa; e o mais apaixonado deste séquito de enamorados é Gilberto. Este aspirante a filósofo faz a sua vida orbitar conforme a trajetória de Andréa. E é isto que Du Barry utilizará para manter esta paixão de Luiz XV fora do alcance do rei. Em contra-partida, o marechal Richelieu pretende aproximar este casal para tirar a Du Barry "do sério" e "da vista".
Todo o mal entendido aconteceu por conta de um cargo no parlamento que foi recusado (pelo rei) ao senhor de Richelieu. Tal recusa foi entendida como uma traição de Du Barry ao marechal. E, sendo rivais, estão colocando empecilhos no caminho de cada um - que, às vezes, traz a vitória para um, outrora a vitória de outro. 
E nesta troca de cargo no parlamento francês, a disputa pela vaga que o ministro De Choiseul deixou, mobilizou uma revolta no parlamento que este decidiu não julgar mais nenhum caso. Mais uma vez a amante do rei entra em ação para fazer sua vontade ser ouvida. 

Entre os filósofos, Rousseau tem três participações interessantes: a primeira delas é a rompimento de relação professor x pupilo com o Gilberto. A segunda é em uma reunião onde ele encontra alguns participantes da maçonaria, entre eles, um médico relevante para a história com um sobrenome peculiar: Guillotin. A terceira participação que chamou minha atenção foi justamente a reunião com aqueles que causaram a sua separação de Gilberto - uma pequena ação contraditória.

Esta terceira parte de José Bálsamo me lembrou muito a saga O Visconde de Bragelonne, onde as intrigas da corte tomam mais conta da narrativa do que a trama central; mas, faço um adendo - desde que a sessão real foi convocada até a conversa que Bálsamo tem com Guillotin - a leitura foi muitíssima interessante (e dentro do enredo para  a queda da monarquia) e me permitiu terminar a leitura antes do prazo estipulado.

Esta saga apresenta o gérmen que surgiu para a  queda da monarquia francesa. José Bálsamo, um líder maçônico e alquimista (entre outros títulos) deseja tirar o rei Luís XV e sua descendência do poder e declarar a monarquia extinta. Para isso, conforme primeiro livro, ele pediu um prazo de vinte anos para a realização do projeto - prazo este que ele considerou justo para arrancar a monarquia pela raiz e não permitir a sua ascensão ao trono novamente.

Por hoje é só, começo a leitura do quarto e último volume desta primeira parte!

Omnia Vanitas

14 de abril de 2020

Fábula de La Fontaine..


O Ancião e os Três Jovens

Um octogenário plantava árvores.
"Construir, nessa idade, entende-se; porém, plantar árvores?, diziam três Jovens da vizinhança. "Sem dúvida, está caduco! Que fruto obterá de seu trabalho? Quantos anos você ainda tem de vida? Por que trabalhar para um futuro que não vai aproveitar? Pense nos erros passados, renuncie às esperanças futuras e aos empreendimentos ambiciosos. Este solo é bom somente para nós".
"Não é assim", respondeu o Ancião. "Tudo o que projetamos tarda em se realizar e dura pouco. As pálidas Parcas jogam da mesma forma com os seus dias e com os meus. Igualmente breves são suas vidas. Quem de nós será o último a ver a luz do dia? Meus bisnetos e tataranetos se lembrarão de mim como um homem honrado que se aplicou no trabalho para o bem alheio. Essa satisfação é um fruto que eu colho e saboreio hoje mesmo, e saborearei amanhã e alguns dias mais, pois é possível que eu veja muitas auroras sobre a sepultura de vocês".
O Ancião tinha razão.
Um dos três Mancebos se afogou no porto, indo para a América. Outro, ansioso por alcançar os primeiros postos nas missões de Marte, servindo à República, sucumbiu a um golpe imprevisto. O terceiro caiu de uma árvore que tentava cortar; e o Ancião, depois de chorar sua morte, escreveu na lápide funerária o que acabei de contar.

Fábulas de La Fontaine, ilustrações de Gustave Doré, editora Lafonte.




LE VIEILLARD
ET LES TROIS JEUNES HOMMES

Un octogénaire plantait. (1)
Passe encor de bâtir ; mais planter à cet âge !
Disaient trois Jouvenceaux, enfants du voisinage ;
Assurément il radotait.
....... ...... Car au nom des Dieux, je vous prie,
Quel fruit de ce labeur pouvez-vous recueillir ?
Autant qu'un patriarche il vous faudrait vieillir.
À quoi bon charger votre vie
Des soins d'un avenir qui n'est pas fait pour vous ?
Ne songez désormais qu'à vos erreurs passées :
Quittez le long espoir et les vastes pensées ;
Tout cela ne convient qu'à nous.
Il ne convient pas à vous-mêmes,
Repartit le Vieillard. Tout établissement (2)
Vient tard et dure peu. La main des Parques blêmes
De vos jours et des miens se joue également.
Nos termes(3) sont pareils par leur courte durée.
Qui de nous des clartés de la voûte azurée
Doit jouir le dernier ? Est-il aucun moment
Qui vous puisse assurer d'un second seulement ?
Mes arrière-neveux me devront cet ombrage :
Hé bien défendez-vous au Sage
De se donner des soins pour le plaisir d'autrui ?
Cela même est un fruit que je goûte aujourd'hui :
J'en puis jouir demain, et quelques jours encore ;
Je puis enfin compter l'aurore
Plus d'une fois sur vos tombeaux.
Le Vieillard eut raison ; l'un des trois Jouvenceaux
Se noya dès le port allant à l'Amérique.
L'autre, afin de monter aux grandes dignités,
Dans les emplois de Mars servant la République, (4)
Par un coup imprévu vit ses jours emportés.
Le troisième tomba d'un arbre
Que lui-même il voulut enter ; (5)
Et pleurés du Vieillard, il grava sur leur marbre
Ce que je viens de raconter.

La forme est celle d'une narration ; en fait, une inscription "gravée dans le marbre" par l'un des personnages de la narration...ce que nous révèlent les deux derniers vers.
La narration trouve ses sources dans Abstémius où le débat se limite à un vieillard et à un seul jeune homme qui se tue en tombant d'un arbre où il était monté pour prendre des greffes.
Ce modèle est enrichi de nombreux souvenirs d'Horace, Sénèque, Cicéron, Virgile.

(1) faisait planter
(2) tout ce que l'homme établit
(3) les limites de notre existence
(4) l'État
(5) greffer

fonte: clique aqui

Omnia Vanitas 💀

31 de março de 2020

Leitura onze..parte final



Olá, esperançoso leitor!

Fim da leitura de Servidão Humana, de William Somerset Maugham. 
Este livro é uma pseudo-biografia do autor. 

Gosto muito dos livros do Maugham, e com este não foi diferente; apesar de ter perdido o foco da leitura por achar que se tratar de uma narrativa onde a relação amorosa seria o tema central. Ledo engano.  Deixe-me explicar, equivocado leitor!


A primeira parte da vida de William Carey está nesta publicação. 
Partindo deste ponto, ele foi para Paris para viver como pintor, pois achava que esse era seu dom. Encontrou um tipo variado de pessoas que também se julgavam pintores natos. Poucos realmente tinha aptidão para a pintura. Suas vidas eram dedicadas a esta arte, devotados por uma arte que não os reconhecia como participantes dela. E algumas vezes, tal arte exige a vida.

Novamente à Inglaterra, Philip precisa decidir em que profissão encaixará a sua vida. Escolheu a medicina e, neste processo de estudo - que não exercia por paixão mas por necessidade - conheceu Mildred. 

Servidão Humana é um livro sobre escolhas. Para onde ir, quem amar, o que fazer da sua vida.. Philip colocou-se em situações que escolheu viver, desfrutou de viagens, escolher amar quem não lhe amava, conheceu  a solidão e amigos leais. 

Este livro me lembrou muito outro livro de Maugham: O Fio da Navalha. Enquanto Larry buscava se livrar das amarras que as pessoas exigiam dele, tentava descobrir o sentido de estar vivendo; em Philip a busca era por aprovação social, familiar e amorosa. 

Os livros de Maugham são muito reflexivos, e nesta obra que representa a sua vida, não poderia ser diferente. 

Omnia Vanitas. 💀

16 de março de 2020

Leitura onze..parte I



Olá, fragmentado leitor!

Antecipo-me ao escrever neste blog sobre a leitura atual de Servidão Humana do querido William Somerset Maugham.
Como não poderia ser diferente, é uma leitura densa, com pensamentos e personalidades que atraem minha atenção.
Portanto, mesmo estando apenas na página 178 (de 701), preciso parar para fazer algumas breves considerações. Vamos lá ...

Philip Casey em menos de um ano perdeu seus pais em circunstâncias diferentes: o pai fora envenenado e a mãe morreu após o parto do seu irmão natimorto. Philip tinha nove anos na época que sua mãe faleceu. 

Após toda essa tragédia, foi morar com o tio e sua esposa. William Casey é um vigário na região de Blackstable. 

Após a chegada na casa dos tios, Philip viu sua vida direcionada para o trabalho religioso.  Frequentou a escola da região e teve seu primeiro contato social: sua deficiência no pé o levou conhecer a maldade que seus colegas de ensino lhe demonstravam por ele não ser "normal". Precisou enfrentar o deboche dos alunos e conviver com o autoritarismo de alguns professores. E neste ambiente, Philip precisou construir o seu caráter.
A falta de habilidade esportiva o levou aos livros. Tornou-se o primeiro em algumas matérias, cativou a simpatia de alguns professores e o horror de outros. Sua inteligência e perspicácia permitiram à Philip saber usar de argúcia contra seus colegas - visto que mesmo com seu destaque nos estudos, pouco convívio social tinha com os demais alunos pois em sua maioria o consideram estranho ou arrogante. 
E, na falta de companheiros, o protagonista encontrou Rose, um aluno que chegou ao instituto e logo cativou amizade com todos, incluindo Philip. E Philip se entregou a esta amizade de corpo e alma. Ele tinha alguém para compartilhar a vida na escola e ao chegar as férias, ansiou pelo retorno ao liceu para voltar a compartilhar da amizade de Rose. 
Mas o período de férias trouxe um novo Rose.

Philip precisou aprender a lidar com a indiferença do amigo e com o próprio orgulho ferido. Sua personalidade muda. Seu caráter tornou-se ácido com os outros, os estudos já não lhe davam prazer. Suas notas ficaram abaixo do normal e, agora, ele viu que precisa de um novo horizonte. 

E este horizonte foi a Alemanha. Na casa de pensão de uma pequena família, conhece outras personalidades completamente diferentes daquelas que ele conviveu no instituto - incluindo o convívio com o sexo oposto (dentro da sua faixa etária). 
Ainda era um mundo estranho para ele. Philip tem dificuldade de fazer-se expressar e de entender os outros.  E as mulheres com mais dificuldade ainda. 
Entre os conhecidos que faz e das conversas que tece, descobre-se ateu. E os pensamentos e ideais que descobre nesta nova condição lhe são mais confusos do que a própria crença cristã. 
E, apesar das coisas que descobriu que pensão, ainda faltava apaixonar-se... Mas antes lhe faltou dinheiro - o que levou a retornar para a casa dos tios.

Blackstable lhe trouxe uma nova mudança, e ela veio na figura de Emily Wilkinson. Ela foi seu ensaio amoroso. A busca pelo descobrimento de um sentimento profundo ou efêmero pela mulher, testava meros galanteios que pudessem sortir efeito positivo; viu-a desdenhar ou ignorar suas investidas. As longas conversas e as leituras permitiram a Philip conhecer Miss Wilkinson com mais propriedade. O convívio lhe foi prazeroso e educativo. Emily era mais velha que Philip e isto não estava definido para ele com atrativo ou desagradável. 
As relações íntimas que teve com ela o fez mentir em uma carta para o colega que conheceu na Alemanha. Florou a situação, falseou a imagem de Emily para convencer o destinatário da grande façanha que viveu.  Ainda não era amor. Ainda não lhe conheceu aquela que o faria viver a intensidade do sentimento amoroso. 

Philip Casey está perdido. Sua personalidade não está completa pois lhe falta o amor. Viveu as mudanças que precisou fazer para conhecer-se como cidadão em sociedade: enfrentou o tio, os professores, seus colegas - tornou-se aquele que lhe foi permitido ser; dialogou uma fé que lhe foi imposta, descobriu as falhas que nela há e naqueles que vivem dela e para ela. Compreendeu que uma mulher pode ser atraente mas não necessariamente amada. 
E segue adiante a leitura...

Omnia Vanitas. 💀

10 de março de 2020

Leitura dez..


Olá, equivocado leitor!!

Fim de mais uma leitura! E esta foi especial porque se trata de um dos meus personagens preferidos: Basílio de Brito.

O Primo Basílio é uma das grandes obras do escritor português Eça de Queiroz.
O livro trata da história de um casal que vive uma vida confortável e pacata no subúrbio de Lisboa. As relações sociais de Luísa e Jorge são de nível medianas à medíocres; porém, por Jorge ter um emprego como engenheiro, faz-se respeitável perante a vizinhança. 

Nesta paz que entra Basílio. 
Vindo à Lisboa para negócios e Jorge, neste mesmo período, ausenta-se de casa para ir trabalhar em outra cidade. Sabendo da ausência do marido da prima, Basílio vai à casa de Luísa para saber como a prima está - de aparência, para saber se está conservada ou feia. Imediatamente, as fagulhas do antigo namorico reacendem em ambos, tornando o adultério inevitável.

Luísa Mendonça do Brito Carvalho, a do Engenheiro, tem um caráter simplório e é coberta de mimos - desde antes do casamento. Nada a vida lhe pareceu muito difícil de conseguir e seu temperamento é romanesco: acredita ser amada pelo primo apenas porque merece esse amor, e o fantasia como se fosse saída de uma romance de Dumas (filho).

Os livros lidos pelos personagens ou apenas mencionados na trama são um esboço da própria obra. Como citei acima, o livro lido por Luísa é A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas (filho). Na trama, uma mulher cortesã vive um romance com um jovem estudante de Direito. Outro momento que um livro é apresentado - de modo a significar tão bem o momento da trama, é a representação teatral de Fausto do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, onde e protagonista vende a sua alma e em troca quer o amor de uma mulher. 

A personagem de Luisa é a principal personagem na trama. Mesmo Basílio está à margem na trama. 

E por falar em Basílio. Ele tem trinta e quatro anos quando reencontra sua prima, casada. Luísa tem vinte e cinco anos. O romance deles começou que ela tinha dezoito. A separação brusca do casal devido ao falecimento de um parente de Basílio - e das suas dívidas, segundo as línguas afiadas, o fizeram sair do país e vir para esta terra nossa, o Brasil. 
Apesar da dor da separação, o casamento com Jorge não foi penoso para a moça; mas o reencontro trouxe a nostalgia de um romance abandonado. 

Porém, Basílio é um canalha. O único motivo para estar em Lisboa, segundo ele mesmo, é por causa de Luísa. Esta afirmação não significa que lhe quer bem, apenas a deseja e usufrui dos prazeres que desfrutam no Paraíso. 
Ambos vivem esse adultério de modo pleno. E, também, vivem de modo leviano pois a do Engenheiro esquece de ter cuidados para que a vizinhança não note suas saídas ou as visitas frequentes de Basílio. E quem está prestando atenção nesta relação parental é Juliana Couceiro Tavira. 

Juliana é a empregada "de dentro" do casal Carvalho. Ela é uma "herança" que Jorge trouxe da casa de uma tia. Esta tia, adoentada ao longo de um ano, teve a sua cabeceira a dedicada Juliana. Como enfermeira zelosa, cuidou a velha tia até o fim...com apenas um interesse: ganhar uma gorda herança da doente para que pudesse parar de trabalhar e tornar-se senhora e deixar de ser serviçal. 
Toda a sua vida foi de sofrimento nas casas que trabalhou, e naquelas em que foi bem tratada, com toda a amargura que adquiriu não conseguia reconhecer os benefícios e boas atenções que lhe davam. 
Ao perceber que poderia fazer uma pequena fortuna e deixar de trabalhar para poder cuidar de sua saúde - e talvez, até encontrar um marido - viu na relação de Luísa e Basílio a sua moeda da boa sorte. 

Infelizes mulheres. Seja Luísa ou Juliana, ambas se iludiram em suas paixões. Enquanto a patroa achava-se amada e adorada pelo amante, a empregada achou-se rica com os abusos que fazia Luísa sofrer. 

Para finalizar, este romance deveria ser lido por todos que pensam em ter um relacionamento, seja ele qual for. Eça de Queiroz apresenta a realidade das relações que são romanceadas: amantes, litigioso, ambicioso, adúltero; a expectativa e convívio real das situações são mais complexas do que nas páginas de um livro. 

Omnia Vanitas. 💀

28 de fevereiro de 2020

Leitura nove..



Olá, anônimo leitor!

Fim a leitura do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Na verdade, terminei apenas a leitura do romance pois, nesta edição há alguns contos do autor. Mas, como o título do livro remete somente ao romance, esta publicação se aterá somente a ele.

Clara dos Anjos é a única filha de Joaquim e Engrácia - única filha que sobreviveu. Eles moram no subúrbio carioca e é nessa sociedade que todo o romance é passado. 

Lima Barreto apresenta a história de cada personagem do subúrbio. O romance, então, não se concentra apenas em Clara, mas faz da personagem o motriz que leva o leitor para conhecer a vida privada das outras pessoas da trama. 

Cada vida é apresenta em sua dignidade e seu vício; as famílias e os princípios que as regem. A leitura não está ligada ao personagem central - Clara - porém, todos a sua volta tornam-se participantes da sua vida e, alguns, fatais ao seu destino. 

Clara dos Anjos apaixona-se por Cassi Jones de Azevedo. Ambas as famílias criam seus filhos através da dignidade.
O núcleo Dos Anjos vêem na única filha sobrevivente o motivo de orgulho e preocupação. Rodeada de cuidados excessivos, Clara pouco conhece ou se envolve com a sociedade ao seu redor - fora a vizinha e algumas poucas amigas. Protegida e com pais que pouco prezam em designar a filha uma aprendizagem adequada para sua vida em sociedade - desta forma impedem que a menina tenha conhecimento sobre atuar em uma relação extra-família. 
Esse "aprisionamento" molda na protagonista uma personalidade fraca e inocente. Com todos esses cuidados excessivos, Clara não cria um discernimento sobre o caráter das outras pessoas.  
Enquanto a mãe a mantém presa em casa para a segurança da menina, o pai pouco a vê (pois trabalha de manhã até à noite). Ambos desejam que a menina tenha um bom casamento - desde que não seja com Cassi Jones, à quem mantém longe dos olhos da filha (ou pelo menos assim acham).
Todos esses cuidados são somente um motivo para que Clara se rebele - dentro da sua personalidade - contra as opiniões que os pais tem do rapaz.

Cassi Jones vem de uma família que, para o orgulho de dona Salustiana, apenas possui o subtítulo de um parente do passado. Apesar da mãe orgulhosa e totalmente cega aos maus feito do filho, o pai, senhor Azevedo, é um pais austero que ignora e expulsa o filho do convívio familiar à fim de não deixar que suas duas outras filhas (Catarina e Irene) sejam privadas de bons casamentos e sociedade por causa das atitudes do filho. 

Clara dos Anjos mostra a diferença social, mas, principalmente, racial de uma sociedade suburbana em formação. Os agouros e sonhos de pessoas que precisam sobreviver mediante sua dignidade, apesar da condição econômica e discriminação racial que vivem -e a última frase do romance mostra o desespero destas pessoas. 


Omnia Vanitas 💀



24 de fevereiro de 2020

Leitura sete..


Olá, realista leitor!

Quando eu iniciei a leitura de O Seminarista, duas obras foram citadas no prefácio: Eurico, o Presbítero (Alexandre Herculano) e O Crime do Padre Amaro (Eça de Queiroz).
Infelizmente, o livro do Alexandre Herculano está na minha biblioteca lá na casa dos meus pais. Felizmente, Eça de Queiroz estava à mão.

Que livro!!!

Eu achei que a leitura estaria comprometida por eu conhecer o final da história. Ledo engano. Nada se perdeu durante a leitura por este motivo. Até gostei do Amaro Vieira - pelo menos até o capítulo XII.

Esta obra de Eça (e também outras, como Os Maias) causou burburinho quando do seu lançamento. Qual! Falar assim do clero e da instituição eclesiástica não deveria ser permitido. Mas o foi!

Eça de Queiroz apresenta uma sociedade mesquinha, habilidosa e sem virtude na figura do clero da pequena cidade de Leiria. O poder dessa classe era tão forte que ditou o modo de vida da região; ditando casamentos, empregos e vícios.

Amaro Vieira é um órfão que ficou sob a tutela da família na qual seus pais eram empregados. Franzino e de compleição submissa e tímida, sua tutora, ao falecer, o deixou de herança uma função: tornar-se padre. Padre? Justo à Amaro que adorava a companhia da mulheres, seus paparicos e chamegos. Porém, não tinha ideia do que ser na vida, mas sabia que padre não queria ser. Nunca compreendeu aqueles que se engajaram na profissão por amor a ela. Mas padre se tornou. Seu tempo de seminário foi um suplício e, não fosse pelo conde Ribamar, genro da sua tutora, viveria em uma comunidade serrana - totalmente fora dos centros urbanos onde ferviam atualidades e mulheres lindas. 
Leiria foi um ótimo celeiro para Amaro. Uma cidade repleta de vícios religiosos onde a figura da igreja - seja qual o seu cargo, era respeitada como o próprio Deus - e tão pouco questionável quanto o próprio. 
Apesar de se chocar com esta sociedade no início, Amaro fácil se acostumou a ela - visto que sempre um janota que aprecia tudo o que é bom e de fácil acesso.

Amélia Caminha é uma jovem de Leiria criada por uma mãe carola. Viveu sempre rodeada pelo clero e ouvindo história sobre esta classe de forma romanceada: uma mulher que perdeu o amor do sua vida e tornou-se freira para não se entregar a outro homem, ou o padre que se apaixonou por uma freira que teve a sua vida eclesiástica ofuscando essa paixão e blá-blá-blá.
Então, para uma jovem de vinte e três anos foi fácil apaixonar-se pelo bonito padre que chegou na região: Amaro Vieira. 

Eça de Queiroz deixa muito claro como o clero abusou do seu poder sobre as mentes fracas de seus seguidores. Criticou, também, o sacerdócio sem a vocação e como isso pode levar a uma função fora dos propósitos da fé. 
Todos os personagens, desde o menor até o principal apresentam vícios e caráteres que são baixos na personalidade humano. Pessoas mesquinhas e inclementes, orgulhosas, avarentas  e odiosas. 
Porém, antes de terminar a obra, Eça apresenta um personagem carismático e exemplo de sacerdócio. É uma flor em meio as ervas daninhas. 

Eu adorei a leitura desta obra, e, assim como minha mãe, odiei o Amaro - e fui torcedora fiel de João Eduardo (outro queridão que coloquei na minha lista junto com Ferrão).

Omnia Vanitas. 💀



14 de fevereiro de 2020

Leitura seis..



Fim de mais uma leitura!

Foi o primeiro livro de Bernardo Guimarães que eu li. Eadorei!

A trama gira em torno de Eugênio Antunes, filho único destinado pelos pais a se consagrar padre. 
O sacerdócio elevaria o "status" da família na sociedade local, o que é desejado pelos pais do menino.

Eugênio tem um caráter tímido e submisso e, mesmo que tente ir contra a vontade dos pais e autoridades do seminário, acaba por acatar o que dizem. 

O grande empecilho para a realização dos sonhos dos Antunes é a afilhada deles: Margarida. 

A menina foi criada na companhia de Eugênio e, sem perceberem, estavam apaixonados.
Ao contrário do rapaz, Margarida tem caráter forte e independente. Mesmo em meio ao revés que sua paixão por Eugênio lhe causa, mantém-se determinada a não quebrar a promessa feita ao rapaz.

Em meio ao romance deste casal quase shakespeariano, há uma crítica sobre aqueles que são levados ao sacerdócio sem a vocação, ao ensino que dispõem nestas instituições e, claro, a eterna guerra de classes sociais nas figuras de Umbelina (mãe de Margarida) e os pais de Eugênio. 

O livro é envolvente em sua trama simples - e nada monótona. Eu não conseguia ficar com os olhos longe da leitura e, na primeira noite de leitura, avancei a noite adentro lendo. Vale muito dedicar o tempo para esta obra de Bernardo Guimarães. 

31 de janeiro de 2020

Empréstimo..


Olá, leitor!

Essa semana começou com uma conversa literária na agência dos Correios que frequento: Cervantes tem ou não um biografia paupável - além das obras que deixou?
Enquanto eu coloquei em dúvida a existência de uma biografia do autor de Dom Quixote, o atendente dos Correios foi contra minha opinião.
Com uma pitada de rivalidade literária, foi proposta uma leitura a partir da biografia que cada um tem em sua biblioteca - no meu caso, Cervantes de Jean Canavaggio. E, meu colega atendente, esta edição de Roger Chartier.
Para efeito de biografia, o francês não tem nada a oferecer; apenas a história sobre um conto que se encontra na primeira parte do livro O Engenhoso Dom Quixote da Mancha: Cardenio.

Eu lembro desta história em especial por conter duas citações de que sou apaixonada:

Quem não tenciona satisfazer não regateia condições no contratar.
e
Se aos céus piedosos apraz que chegues a gozar algum descanso, em nenhum lugar, leal, firme e formosa senhora minha, o encontrarás ao meu parecer mais seguro que nestes braços que te agora recebem, e que já em outro tempo te receberam quando a fortuna permitiu que eu pudesse chamar-te minha.

Neste livro, Roger Chartier traz documentos factuais que apontam que este mesmo conto "Cardenio" foi apresentado por Shakespeare.

Ainda estou nas primeiras páginas, mas a viagem até uma época de publicações obscuras de autores esquecidos é maravilhosa. Um simples conto traz em si muitas facetas de um período que as traduções e publicações ainda engatinhavam. 

Se eu conseguir ler até o final  - pois trata-se de uma leitura pesada (com datas, nomes e períodos desconhecidos para mim), trarei um breve esboço da obra.

Torça por mim, anônimo leitor!

Omnia vanitas. 💀💪

30 de janeiro de 2020

Leitura quatro..



Leitor apaixonado...estou ouvindo David Gilmour (apaixonada até o fim e além) tocando Echoes. 

Mais uma leitura chegou ao fim! 

Antes de escrever sobre o livro, deixe-me explicar-lhe, anônimo leitor, a escolha da leitura.

Em um domingo sonolento, eu decidi que precisava escolher a próxima leitura (eu estava lendo Almas em Conflito e terminaria antes do meia da semana seguinte). Sempre prestativo, meu marido entrou em um sorteio que eu fiz. Entre cinco leituras, ele escolheu aquela que continha Robert Louis Stevenson, Mary Shelley e Bram Stoker. Um um breve stories no Instagram, eu expliquei que a leitura escolhida apresenta três monstros diferentes. Em Stevenson, o monstro está dentro do homem. Em Shelley,  o monstro é criado pelo homem. Em Stoker o homem caça o monstro. Na minha cabeça isso parece fantástico!

O Doutor Jekyll e o Monstro contém outros contos que me deixaram mais fã do escritor de A Ilha do Tesouro. 

Eu não irei escrever o senhor Jekyll pois já o fiz nesta publicação de 2013. 
Os outros contos que estão presentes nesta edição da Paulinas de l968 são: Will do Moinho, Markheim, Janet do Pescoço Quebrado e, Olallá.

Impossível escolher um deles como favorito. Todos fantásticos! 

Will do Moinho conta a história de um menino que gostaria de sair do lugar onde vive - e nunca o faz. A vida que leva se torna confortável e amistosa. Este conto é um contraste com Markheim que se viveu uma vida desafortunada e seguiu um caminho perigoso (que o levou a tomar a atitude de entrar em um antiquário). 

Janet do Pescoço Quebrado conta a história de uma mulher que criou o seu filho fora de um casamento, em uma vila pequena. De personalidade firme, não se deixa levar pelas ideias que criam sobre ela e, quando possível, cala a todos com palavras duras. Porém, a vida lhe dá a oportunidade de morar na casa do novo pároco da vila. Mas nada é fácil para Janet.

Olallá é o conto mais longo depois de O Doutor Jekyll... . A saúde frágil de um homem o leva a morar em uma casa longe do movimento da cidade. Neste lugar de repouso habitam três pessoas que provém de uma família de alta linhagem - infortunadamente, estão todos pobres e sem perspectiva de melhorar ou seguir com a hereditariedade. A vida desta miserável família nobre está envolta em um mistério que nem mesmo o amor poderá mudar o seu fim. 

Adorei! Olallá me levou longe ao tentar solucionar o caso da família. Janet do Pescoço Quebrado me tirou algumas risadas pela impetuosidade da moça. Markheim me deu um "medinho" e, Will do Moinho me deixou mais dúvidas sobre a vida do que eu achei que teria. 

E sempre terei vontade de ler A Ilha do Tesouro quando estiver com um Stevenson nas mãos. 

Omnia Vanitas. 💀





17 de janeiro de 2020

Leitura dois..



Segundo livro deste ano. Sensacional!

Este exemplar eu encontrei perdido na casa da minha mãe. À priori, eu o descartaria porque sua capa estava prestes a cair e percebi outras avarias. Como me dói muito descartar um livro, eu o trouxe comigo para casa e adotei-o definitivamente. É meu, mesmo que outros exemplares surjam, este livro é meu. 

Como eu já mencionei na primeira leitura, a suspeita de Carroll ser um pedófilo e, Nabokov expressara-se desta forma a respeito do autor de Alice no País das Maravilhas:

“I always call him Lewis Carroll Carroll, because he was the first Humbert Humbert.” — V.N.
E, não deixando passar ao largo, Nabokov cita de maneira velada o país das maravilhas de Carroll (Carroll).

Mas, além de Carroll, o autor de Lolita cita um fato que aconteceu em l948: o sequestro de Sally Horner, de apenas onze anos de idade, pelo pedófilo de cinquenta anos Frank Lasalle.

Será que eu havia feito a Lolita o mesmo que Frank Lasalle (...)?

 Lolita é um ótimo livro. Duro de ler - pelo menos para mim. 

Desde o prólogo o livro surpreende e, para os desavisados ou com compreensão equivocada sobre a obra, desde o princípio é apresentado como uma ação sexual contra uma criança. Portanto leitor, não entenda de outro modo. É isso.

A obra de Nabokov é fantástica ao tratar a pedofilia. Ela é apresentada na visão de um homem adulto que ao encontrar a filha de sua senhoria, apaixona-se imediatamente por aquela criança. Primeiramente, por esta criança lembrar seu primeiro. Em segundo lugar sua fantasia por Lolita sobrepõe a finada Annabelle e torna-se sua obsessão.

Humbert Humbert, como se denomina o escritor desta narrativa, é um homem erudito e literato e, todo a sua personalidade cátedra é vista neste seu relato sobre a sua história com Lolita. Em momento algum o leitor se deparará com palavrões, descrições grotescas de alguma situação. Humbert Humbert mostra, apesar de sua personalidade podre, um ótimo domínio sobre a escrita que não traz ao leitor nada que irá chocá-lo demasiadamente - visto que a pedofilia em si já enoja.

Dolores Haze - Lolita - é uma criança. Durante a leitura da obra, o leitor não pode esquecer disso. Quando Humbert Humbert tem relações sexuais com ela, Lolita em tem doze anos. Quando ele a acaricia, ela tem doze anos. A personagem de Nabokov não tem absolutamente nada a ver com os filmes de 1962 e 1997. Em ambos, as atrizes são mulheres acima de dezoito anos com esteriótipos sexualizados para trazer uma imagem erótica: Lolita tem doze anos, um metro e quarenta e cinco de altura. Ela é uma infante.

Por hoje é só ! Tentarei ser mais pontual com cada publicação. Ou não.

Omnia Vanitas 💀







16 de janeiro de 2020

Leitura um..



Primeiro livro lido deste novo ano!

Inicialmente, eu preciso dizer que este livro é um presente de amigo secreto da minha sobrinha-neta número três. Foi a primeira vez que uma delas me sorteou nesta brincadeira. E, o mais bacana disso foi que o sorteio precisou ser feito uma segunda vez - e, assim como na primeira - ela me sorteou, também, na segunda. Achei maravilhoso.
Dito isso, "ela" (a mãe, na verdade) me deu um vale-presente em uma livraria e uma deliciosa barra de chocolate. O chocolate não está mais entre nós; então, eu decidi que o livro escolhido deveria ser especial: tanto para mim como para minha sobrinha-neta. E não foi muito difícil escolher, visto que eu já estava com este título na minha listinha de compras. 

Então, esta é a história de como este livro chegou até mim. 

Agora, deixe-me contar sobre a leitura.

Foi minha primeira leitura de um livro do Lewis Carroll, mas eu já sabia do básico sobre ele (que existiu uma Alice) e conhecia algumas frases de efeito. É incrível como uma frase solta se torna íntima depois que a leitura completa da obra é feita. A pessoa deixa de ser uma pessoa comum e se torna um leitor-amigo-da-obra.

E eu gostei de tudo o que li. Desde o mais louco encontro, da citação mais marcante, da personagem não conhecida; tudo agradou-me. 

Eu estava dentro de um sonho muito estranho e precisa "vivê-lo" para seguir a sua ordem, ou poderia achar que tudo não passava de uma grande loucura.

Como eu disse anteriormente, este livro estava na minha lista de compras faz algum tempo, esperando pelo momento de acontecer. Eu já assisti alguns filmes e séries que mencionam estas duas obras de Carroll, mas, também, repito: nada melhor do ler para saber o que é realmente Alice. 
Assisti aos dois filmes do Tim Burton e agora eu já os detesto. 

Porém, cometi um pequeno deslise que tirou meu deleite na leitura. Em um vídeo que assisti em uma plataforma da internet, de um programa chamado Literatura Fundamental, eu descobri - ou só ativei uma informação que estava no fundo da mente - sobre o fato de Lewis Carroll ter  uma paixão de cunho duvidoso por crianças.  Eu não diminuí a obra, mas deixou meu coração triste com esta referência a uma possível pedofilia. 

Foi assim que decidi que ao terminar de ler Alice (no País das Maravilhas + Através do Espelho) eu leria Lolita do Vladimir Nabokov. Assim o fiz.


Omnia Vanitas 💀




Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...