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24 de fevereiro de 2017

Ele chegou..


Ansioso leitor, o desejado livro chegou!!!

Com a bondade do meu maridão - que foi buscar o livro lá na Ilha (Floripa) - hoje posso manusear meu querido livro!!!

O estado de conservação beira a perfeição. Há um desenho do baleeiro Essex, o nome de toda a tripulação e tudo mais! Muito ansiosa para ler - depois que eu terminar a leitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, claro!

Por enquanto, fica a sinopse da capa final:

Nunca se imaginara que uma baleia pudesse atacar um navio. Em 1820, porém, o baleeiro Essex foi abalroado por um cachalote enfurecido e afundou rapidamente. Os marujos reuniram o que puderam em três botes e, durante três meses, navegaram milhares de milhas pelo Pacífico, em busca de salvação. Os rigores da natureza, a fome e a sede lhes impuseram sofrimentos atrozes e os levaram aos extremos da loucura, da morte e do canibalismo.

Esta é a história verídica que, no século XIX, inspirou Herman Melville a escrever Moby Dick, e que o historiador Nathaniel Philbrick reconstruiu aqui em todos os detalhes, apoiado em ampla pesquisa e fontes inéditas. Uma tragédia vivida por pessoas reais e que põe em questão os limites da capacidade de sobrevivência humana.


Só de transcrever essa sinopse me dá vontade de parar de trabalhar e começar a leitura agora!
Perfeito!!!


P.S.: Se você, leitor, pensa que estou saindo da temática marítima que tomei porque estou lendo Vidas Secas, eu tenho a certeza que você não conhece a cachorra da trama! ;)

14 de fevereiro de 2017

Terceira leitura..




Determinado leitor, terminei!
Ontem, eu consegui terminar minha segunda tentativa de ler o romance chave de Herman Melville: Moby Dick.

Foram dias "abandonando" meu marido assistindo filmes/séries/futebol/jornal sozinho no sofá. Ainda estou casada.

A história que Ismael conta é de um sobrevivente: ele. Seu nome, talvez, nem seja "Ismael". A primeira frase do livro  "Chamai-me Ismael." é apenas uma resposta para um início de conversa ou para credibilidade a história.

Moby Dick não é apenas sobre um grande cachalote branco e bravo que é caçado por um capitão doido e perneta que lhe jura vingança. O livro é um tratado sobre a navegação baleeira. Ismael mostra a cetologia de um grupo específico de baleias, a caça, o corte..e muita poesia; não a poesia como estrutura elaborada, mas tudo o Ismael escreve sobre as baleias tem um tom de amor - ele realmente adora o que faz.
Por vezes, a falta de diálogo deixa a narrativa enfadonha e os detalhes históricos e detalhes do próprio trabalho que minha imaginação não conseguia seguir, eu apenas aceitava o fato. Porém, preciso dizer, que a caçada ao segundo cachalote levou-me às lágrimas, novamente. É triste! É cruel! É injusto! 

Quando o capitão Acabe decidiu caçar o cachalote que lhe amputou a perna, ele não levou consigo uma tripulação, ele os sequestrou e levou até a morte (exceto Ismael).
A maioria dos homens que embarcaram no Pequod sabiam da história do capitão - acidente e loucura. Mas, somente em alto mar, depois de dias em seu camarote, Acabe sobe até o convés e desafia seus homens não apenas a caçar baleias para lhes extrair o óleo, os convoca a caçar o cachalote branco lhes prometendo uma moeda de ouro que foi paga com a vida.

Entre as inspirações que Melville teve, como contam os estudiosos, o naufrágio do baleeiro Essex e o cachalote dos mares do Chile, chamada Mocha Dick compuseram o imaginário do escritor. Interessante, hein, criativo leitor. 
Deixe-me dizer uma coisa sobre o baleeiro Essex: a história conta que os sobreviventes ao ataque do cetáceo sobreviveram por praticar, no limite da sobrevivência, o canibalismo. Em Moby Dick, o mais civilizado dos personagens é o canibal Queequed: gentil e heroico - pulando no mar para salvar o colega de profissão.

Enfim, Moby Dick é um livro muito interessante e eu lhe desafio a lê-lo de proa à popa! ;)


Omnia Vanitas

P.S.: {15fev17} Esqueci de mencionar na publicação de ontem a diversidade de religiões, logo, de culturas, que há dentro do Pequod: quacre, índio, canibal, hindu, africanos etc. Essa mistura de cultura não era importante para a caça de cetáceos dentro do baleeiro do capitão Acabe.
Mas, mesmo com diferentes culturas e crenças, uma fé imperava entre todos: os presságios e agouros.
Quando o clandestino Fedellah e seus amigos surgem no convés do Pequod para a caça da primeira baleia, os tripulantes de baleeiro não ficam contente e o julgam um fantasma.
E quando o pequeno Pip é abandonado em alto mar depois de cair do bote de Stubb, a falta de luz dos seus olhos era encarado como a perda da alma - e até o próprio menino declara que está  vagando perdido sem sua essência para lhe completar.

12 de fevereiro de 2017

Culinária baleeira ..



Olá, faminto leitor!

Neste processo de terminar Moby Dick até amanhã (dedos cruzados), muitas foram as passagens que tive vontade de parar para escrever sobre; porém, para não me distrair do foco, eu as deixei passar ao largo deste blog.

Já que estou na reta final, deixo aqui uma das passagens que chamam minha atenção durante minhas leituras: a culinária de determinados personagens.

Stubb é o segundo imediato do navio baleeiro Pequod, comandado pelo monomaníaco Acabe.  E, a receita que vou apresentar pertence a este caçador náutico.

A primeira cachalote é caçada e captura. Presa ao lado do navio (onde passou a noite cercada de tubarões a lhe mordiscar) Stubb manda seu cozinheiro tirar um pedaço de bife do animal pois, à meia noite, a fome de um naco de baleia lhe tira o sono.

Entre protestos de como o cozinheiro é mau na profissão escolhida por este, Stubb dá conselhos de como um bife de baleia deve ser preparado.


“Pois bem, cozinheiro, perceba que esses bifes de baleia estão tão ruins que tenho que tirá-los da minha frente o mais rápido possível; você percebe isso, não? Pois bem, no futuro, se você fizer outro bife de baleia para a minha mesa particular aqui, o cabrestante, vou lhe dizer o que fazer para não estragá-lo cozinhando-o por muito tempo. Segure o bife com uma mão e mostre-lhe uma brasa com a outra; isto feito, sirva-o, escutou? Amanhã, cozinheiro, quando cortarmos o peixe, não deixe de estar por perto, para pegar as pontas das barbatanas; coloque-as em conserva. Quanto às pontas da cauda, coloque-as em salmoura, cozinheiro. Pronto, agora pode ir.”
Mas, mal Fleece tinha dado três passos, foi novamente chamado.
“Cozinheiro, quero costeletas para a ceia amanhã à noite na minha vigília. Escutou? E agora vá – Ei! Pare! Faça uma reverência antes de partir – Pare outra vez! Os testículos da baleia para o café da manhã – não se esqueça.”

Bom apetite, leitor!

Omnia Vanitas.

2 de fevereiro de 2017

Dias marcados..


Olá, determinado leitor!

Hoje eu coloquei uma meta para terminar minha leitura de Moby Dick! Trinta páginas por dia. 
Hoje, dia dois de fevereiro de dois mil e dezessete, lerei até a página duzentos e noventa e oito e, nos dias seguintes serão acrescentados trinta páginas até chegar no dia treze de fevereiro e daí, fim!

E porque eu "inventei" esse programa de leitura?
Porque no dia treze de fevereiro é o prazo para a entrega do livro "No coração do Mar" de Nathaniel Philbrick que narra a história do baleeiro Essex afundado por um cachalote. 
Sim, obcecado leitor, eu estou muito afim de conhecer o evento trágico que motivou Herman Melville a escrever sobre seu cachalote branco.

E então, homens do mar, vamos seguir rumo ao fim desta jornada! Braço forte no remo! Naveguemos! Naveguemos! Remem, homens! Remem!

💪


30 de janeiro de 2017

A loucura de Ahab!...


Insano leitor, por vezes é cansativo ler Moby Dick; muitos detalhes que, na minha parca opinião, são desnecessários, como a descrição de vários tipos de baleia encontradas no oceano e a divagação sobre a cor branca e suas nuances.

Porém, nem tudo tudo cetologia e lápis de cor, devotado leitor. 

Eu estava lendo, hoje, quando precisei voltar minha leitura de ontem, pois os parágrafos finais do capítulo foram lidos com sonolência. E, bendita hora! Que parágrafo maravilhoso! 
Trata-se da loucura de Ahab (Acab, Acabe - escolha o preferido). 
Eu não sou psicóloga e, também, não leio psicologia (exceto Jane Austen). Portanto, não posso descrever com exatidão cátedra sobre o assunto, além daquilo que me tocou.
Eu achei fantástica descrição da loucura do capitão e como a sua alma (espírito), mente e corpo foram tomados pela vingança, ódio e horror! 
Sem mais delongas, deixo para você, leitor, o final do capítulo LXIV:


Muitas vezes, arrancado à noite de sua rede por sonhos exaustivos e insuportavelmente reais, os quais, continuando seus intensos pensamentos através do dia, carregavam esses pensamentos numa conflagração de frenesis, e os faziam rodopiar, voltas e mais voltas, em seu cérebro ardente, até que o próprio pulso de seu cerne vital se tornasse insuportável angústia; e quando, como às vezes era o caso, esses espasmos espirituais erguiam-lhe o ser de sua base, e um precipício parecia se abrir dentro dele, do qual disparavam labaredas e raios bifurcados, e demônios amaldiçoados convidavam-no a pular para junto deles; quando este inferno dentro de si escancarava suas bocas embaixo dele, um grito selvagem se ouviria pelo navio; e com os olhos dardejantes Ahab sairia de sua cabine, como se escapasse de um leito em chamas. Mas estes, talvez, em vez de serem os sintomas irreprimíveis de alguma fraqueza latente, ou do medo de seu próprio desenlace, fossem os mais puros indícios de sua intensidade. Pois, nessas ocasiões, o louco Ahab, o ardiloso, irreconciliável e tenaz caçador da baleia branca; esse Ahab que tinha ido para sua rede, não era o agente daquilo que o fazia fugir dali horrorizado mais uma vez. Esse agente era o eterno princípio vital ou alma dentro dele; e no sono, estando por algum tempo dissociado da mente discriminadora, que noutras ocasiões o usava como veículo ou como agente externo, esse princípio buscava escapar espontaneamente da escorchante contiguidade daquela coisa frenética, a qual, naquele momento, não integrava. Mas, como a mente não existe senão atada à alma, portanto deve ter sido essa, no caso de Ahab, quem dirigia todos os seus pensamentos e suas fantasias para seu propósito supremo; este propósito, por mera tenacidade da vontade, impingiu-se contra deuses e demônios numa espécie de ser independente. Assim, podia viver e queimar implacavelmente, enquanto a vitalidade comum à qual estava ligada fugia horrorizada daquele parto arbitrário e ilegítimo. Portanto, aquele espírito atormentado que observava do lado de fora dos olhos do corpo, aquele que parecia ser Ahab saindo de seu quarto, era naquela hora apenas uma coisa vazia, um ser sonâmbulo sem forma, um raio de luz viva, é certo, mas sem objeto para colorir, e, portanto, a própria vacuidade. Que Deus te ajude, velho: teus pensamentos criaram uma criatura em ti. E aquele cujo pensamento intenso o transformou num Prometeu; um abutre devora-lhe o coração eternamente; e esse abutre é a própria criatura por ele criada.

Omnia Vanitas

10 de janeiro de 2017

O naufrágio do Essex..


A história do naufrágio do Essex foi inspirador para Melville, Moby Dick.
Fuçando a web, achei esse artigo na Superinteressante, no ano de 2004. Segue:

A fantástica história da baleia que afundou um barco e inspirou um dos maiores clássicos da literatura.

Paula Ungar

Oceano Pacífico, 20 de novembro de 1820. Mais um dia de trabalho começava para os tripulantes do Essex, que estava há mais de um ano em alto-mar capturando baleias para extrair o óleo usado na iluminação pública e na lubrificação das máquinas industriais. Um dia que entrou para a História. O dia em que, pela primeira e única vez, foi registrado um ataque de uma baleia contra um barco. Um ataque que deixaria os 20 tripulantes à deriva durante três meses, obrigando-os até a comer os próprios companheiros mortos para não passar fome – e que serviria de inspiração para um dos maiores clássicos da literatura mundial, Moby Dick (leia mais no quadro da página 32).Hoje, a caça é largamente condenada, mas no início do século 19 a extração do óleo de baleia era uma importante atividade econômica. A ilha de Nantucket, na costa leste dos Estados Unidos, era um dos maiores centros baleeiros. Mais de 70 embarcações iam e vinham constantemente. O trajeto era bem conhecido dos marinheiros: pelo Atlântico, rumo ao sul. Os barcos, porém, só retornavam ao porto com os porões cheios.

Por isso, era preciso contornar a América do Sul em direção ao Oceano Pacífico. Era exatamente isso que o Essex tinha feito. Naquela manhã de novembro, ele contava com aproximadamente 700 barris de óleo, metade de sua capacidade total. O céu estava claro e havia pouco vento (clima perfeito para caçar) quando os esguichos dos cetáceos foram avistados – e os botes se lançaram ao mar. O primeiro imediato Owen Chase logo teve de dar meia-volta para reparar seu barco, atingido pela cauda de uma baleia, fato bastante corriqueiro. Foi quando a tragédia começou. O camareiro Thomas Nickerson, que ajudava Chase no conserto, viu algo estranho. Era um cachalote macho, com 26 metros de comprimento, cerca de 8 toneladas e a cabeça cheia de cicatrizes. O bichão não era apenas enorme. Estava a menos de 35 metros do Essex e nadava em direção a ele, com a cauda de 6 metros de largura chacoalhando para cima e para baixo.

“Olhamos uns para os outros com total espanto, quase mudos”, escreveu Chase no livro Narratives of The Wreck of the Whale-Ship Essex, em que relata o episódio. Foi tudo muito rápido. De um golpe, o animal atingiu a parte frontal do navio. Em seguida, passou por baixo do casco, arrancou a quilha e emergiu do outro lado. Afastou-se um pouco e voltou ao ataque. Em grande velocidade, atingiu o barco logo abaixo da âncora. O Essex estava condenado a ser enterrado no fundo do mar. A baleia se desvencilhou dos destroços e saiu nadando para nunca mais ser vista.

Terror no mar

Chase, 22 anos, era tripulante do Essex desde 1815. Pela primeira vez, fazia uma viagem na condição de primeiro imediato (o último passo antes de se tornar capitão). Thomas Nickerson estreava no mar e era o mais jovem dos marinheiros. Tinha apenas 14 anos e sonhava desde criança em partir com um baleeiro. Mal sabia ele que o barco, com mais de duas décadas de serviços no mar (e fama de pé-quente), faria sua última viagem. Todos estavam preparados para ficar até três anos a bordo. No momento do ataque, porém, foi só desespero. Owen, Nickerson e outros sete homens tiveram de correr para tirar o máximo de provisões dos destroços do Essex e colocar na baleeira. A poucos metros de distância, os 11 tripulantes que estavam nos dois botes que espreitavam as presas na água quase não acreditavam no que viam. “Nenhuma palavra foi dita por vários minutos”, relatou Chase em seu livro. Com muito esforço, foi possível recuperar 270 quilos de bolachas, um pouco de água doce, algumas tartarugas que haviam sido capturadas nas Ilhas Galápagos e instrumentos de navegação.

Quando o sol raiou, todos se dividiram nos três barcos menores e se prepararam para partir. Tinham duas opções: ir até as ilhas Marquesas, na Polinésia, a 1200 milhas (cerca de 2 mil quilômetros), ou tentar chegar à costa da América do Sul, bem mais distante. Por medo dos canibais que, dizia-se, habitavam a região das Marquesas, escolheram a segunda alternativa. O destino se revelaria de uma trágica ironia (veja no infográfico da página 30 o percurso feito pelos náufragos).

Em meio às águas geladas do Pacífico, os marujos experimentaram novos limites de sobrevivência. Muitos nem conseguiam dormir, só de pensar no desastre. E a natureza não ajudava em nada. Os ventos fortes desviavam as baleeiras do destino sonhado e os jatos de água salgada deixavam todos molhados e com frio. Os cabelos começaram a cair e a pele queimada pelo sol cobria-se de dolorosas feridas. O primeiro grande desafio foi mesmo a fome. A pouca comida resgatada proporcionava apenas 500 calorias diárias para cada um – menos de um terço do necessário para um adulto. Para piorar, logo no terceiro dia parte das bolachas se perdeu depois que o bote de Chase foi atingido por uma onda. Em seguida, as bolachas do bote do capitão George Pollard Jr. se estragaram.

O próximo martírio foi a sede. “A violência da sede delirante não encontra paralelo no catálogo das calamidades públicas”, observou Chase na época. Resultado: gargantas irritadas, saliva grossa e língua inchada. Pouco mais de 20 dias depois, a solução foi beber a própria urina. Ao final do primeiro mês à deriva, uma esperança renasceu. O grupo avistou terra firme. Não foi muito difícil chegar até a ilha, mas ela tinha pouco (em termos de comida e bebida) a oferecer aos náufragos, que ficaram apenas uma semana e voltaram ao mar. Três marinheiros acharam melhor ficar do que se arriscar naquela viagem rumo ao desconhecido. Os outros dividiram-se nos três botes e seguiram em frente, para mais privações e perigos.

De cara com a morte

No caminho, um dos barcos se perdeu – para sempre. E em 20 de janeiro de 1821 morreu Lawson Thomas, um dos tripulantes do bote do arpoador Obed Hendricks. Era a terceira morte desde o afundamento do Essex. Até então, os corpos eram jogados ao mar. Naquele momento, uma necessidade se impôs: por que não usá-lo como alimento? Por mais que o canibalismo fosse visto como um ato incivilizado, a prática era razoavelmente disseminada nos oceanos, uma saída legítima para a sobrevivência. Cruel ironia. Meses antes, todos preferiram evitar as ilhas Marquesas por medo dos canibais. Agora, estavam prestes a comer um de seus companheiros. O jeito foi retirar todos os sinais de humanidade, como cabeça, mãos e pés. Em registros posteriores, o capitão Pollard Jr. contou que, antes de ser comidos, os órgãos e a carne eram assados numa pequena chama acesa sobre uma pedra chata no fundo do bote.

Não demorou muito para o desespero atingir níveis ainda maiores. Apenas duas semanas mais tarde, diante da absoluta falta de comida, decidiu-se fazer uma espécie de votação para definir quem seria o próximo a servir de alimento aos sobreviventes. No dia 6 de fevereiro, Owen Coffin, então com 18 anos, foi o escolhido. Ele era primo do capitão – e estava no mesmo bote. A mãe do garoto, Nancy, nunca perdoou o sobrinho por não ter impedido tamanha crueldade com o filho – e, o que é ainda pior, por ter ele próprio se alimentado daquela carne. “Ela ficou quase louca ao saber daquilo e nunca mais tolerou a presença do capitão”, escreveu Nickerson.

A tragédia estava por terminar. Doze dias depois, em 18 de fevereiro de 1821, quase três meses após o naufrágio, o primeiro barco foi resgatado, navegando sem controle na altura do porto de Valparaíso, no Chile. Com os olhos saltados da cavidade do crânio e o rosto salpicado de sal e sangue, Owen Chase, Thomas Nickerson e o arpoador Benjamin Lawrence tiveram de ser carregados para dentro do navio inglês que os avistou. Cinco dias mais tarde, o bote do capitão Pollard se aproximou da Ilha de Santa Maria, também na costa chilena. Quando os tripulantes do baleeiro Dauphin avistaram a embarcação, só viram ossos. Pollard e Charles Ramsdell estavam encolhidos, cada um em uma extremidade, incapazes de se mexer. Não queriam largar, de jeito nenhum, os ossos que chupavam em desespero, único alimento que restara desde a última morte do grupo. Os três marujos que ficaram na ilha Henderson foram resgatados no dia 9 de abril.

Por mais incrível que possa parecer, os oito homens que sobreviveram à tragédia do Essex acabaram por voltar ao mar. Pollard reassumiu o posto de capitão no inverno seguinte e levou consigo Nickerson, promovido a arpoador. A viagem foi um tremendo fracasso. Pollard decidiu virar vigia noturno em Nantucket. E Nickerson transformou-se em dono de pousadas na ilha. Chase fez mais uma viagem antes de se tornar capitão. Tinha 28 anos – e prosseguiu atravessando os oceanos por vários anos. No entanto, as lembranças daquela manhã de céu azul e pouco vento nunca o deixaram em paz. Morreu em 1869, aos 71 anos, considerado louco. No fim da vida, sentia fortes dores de cabeça que acreditava ser conseqüência do naufrágio. Passou também a esconder comida no sótão de sua casa. Nem mesmo a paixão pelo mar foi capaz de fazê-lo superar as cicatrizes deixadas por aquele cachalote.

Tragédia em quatro momentos
Foram 2 500 milhas no mar até chegar à costa do Chile
1. O começo do sofrimento

O Essex foi atacado em 20 de novembro de 1820 e a tripulação se refugiou em três botes salva-vidas. No terceiro dia, uma onda quebrou sobre um dos barcos, molhando as bolachas. Os marinheiros fizeram o possível para salvar o alimento, sem sucesso

2. Chuva de peixes voadores

Perto do 20º dia no mar, um cardume de peixes voadores cercou os botes. Quatro se chocaram com as velas improvisadas. Um foi devorado no mesmo instante. Foi a primeira e única vez que todos sentiram vontade de rir – em vez de chorar – da situação em que se achavam

3. Esperança frustrada

Após um mês de naufrágio, muitos já haviam desistido de sobreviver. Mas uma ilha foi avistada e a idéia de encontrar comida e água animou o grupo. Os botes logo voltaram ao mar, mas três tripulantes optaram por ficar. Seriam resgatados, com vida, mais de três meses depois

4. O desespero da fome

Com quase três meses no Pacífico, a morte mostrou sua face. Quando o terceiro faleceu, muitos pensaram: por que não comer essa carne? Até o resgate, seis marinheiros, mortos, foram devorados e um foi assassinado para servir de alimento

Baleia famosa
No lançamento, Moby Dick foi um fracasso
O ataque ao baleeiro Essex foi um dos desastres mais comentados do século 19. Tanto que serviu de inspiração para um clássico da literatura, Moby Dick, do norte-americano Herman Melville (1819-1891). A idéia de escrever o livro veio depois que ele leu o relato de Owen Chase sobre a experiência. Na versão ficcional, o ataque da baleia é o clímax da história – enquanto na vida real ele foi apenas o início. “Moby Dick é uma colcha de retalhos. Fala de vários temas, da busca de Deus à questão do herói, o que o torna muito singular”, comenta Viviane Cristine Calor, que escreveu uma tese de mestrado para a Universidade de São Paulo sobre a obra. Lançado em 1851, Moby Dick foi um fracasso comercial e de crítica. Só teve seu valor reconhecido quando Melville já havia morrido. “Ele estava à frente de seu tempo”, destaca Viviane.

Atividade cruel
Homem caça há mil anos
Pelo menos mil anos antes de Cristo os fenícios já caçavam baleias. Mas a caça em grandes embarcações, como na época do Essex, só foi adotada no século 8 da nossa era, pelos bascos. No século 19, o método de abate era o seguinte: ao avistar a presa, seis homens deixavam o navio num barco a remo e golpeavam a baleia com um arpão, para depois matá-la com uma lança. No início do século passado, as lanças foram substituídas por arpões com explosivos e os botes ganharam motor. Hoje, os baleeiros têm toda a aparelhagem necessária para transformar o animal em produtos devidamente embalados. Essas inovações tecnológicas passaram a representar um grande risco à sobrevivência desses bichos. Calcula-se que ao longo do século 20 mais de 2 milhões de baleias tenham sito mortas pelo homem – e hoje, entre as mais de 40 espécies existentes no mundo, cinco estão ameaçadas de extinção: a azul, a cinza, a bowhead, a jubarte e a franca.

A azul, a franca e a jubarte podem ser vistas na costa brasileira. Felizmente, nosso país proíbe a caça, pois é um dos membros da Comissão Baleeira Internacional, criada em 1946 para impedir a matança desordenada. Em 1986, a entidade aprovou uma moratória à caça comercial, mas nem todos os signatários (são mais de 50) a respeitam. Três países lideram o descumprimento da suspensão, alegando fins científicos para a caça: Japão, Noruega e Islândia.

Presa fácil
As principais espécies caçadas
Minke

Seu nome científico é Balaenoptera bonaerensis. Japão, Islândia, Groenlândia e Noruega são caçadores vorazes

Cachalote

Foi uma Physeter macrocephallus que atacou o Essex em 1820. O Japão é seu maior algoz

Sei

A Balaenoptra borealis é uma das mais rápidas. Vive em todos os oceanos e é caçada por barcos do Japão.

Mas o que eu procurava é o mapa de navegação do Pequod.

Omnia Vanitas

11 de dezembro de 2016

Chamai-me Adelita..




Essa semana que passou eu corri meus olhos pelos títulos que a Netflix estava dispondo para meros mortais quando, para minha alegria, encontrei Moby Dick.

Rostos conhecidos compõem a lista de personagens para esta adaptação: Gillian Anderson, Donald Sutherland, Ethan Hawke, William Hurt..

A história foi bem contada - até a parte que eu me lembro da minha leitura (como faltou 100 páginas para o final, não sei como aconteceu o desfecho para compará-lo ao filme).

A adaptação foi produzida em duas partes. E, tenho que dizer, Moby Dick está muito assanhado* nesta adaptação. Ele aparece logo na partida do Pequod e na primeira caçada - lá pela 1h20 de filme. Foi interessante e bati palminhas para a cena que ela destroça três botes - acho que a inspiração foi nesta imagem antiga da internet: 
O meu personagem preferido é, ninguém mais, ninguém menos que o  querido canibal Queequeg. A cena da noite que ele encontra Ismael é bem sugestiva, mas ambos se entendem e tornam-se amigos próximos. E, infelizmente, a minha citação favorita não foi adicionada na película:
"Prefiro dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão embriagado".

Claro que eu tive meu ataque histérico quando o personagem do Ismael se apresentou com a clássica saudação:

 - Chamai-me Ismael.

Como eu escrevi anteriormente, Moby Dick é presente na navegação do Pequod, mas na narrativa de Melville o leitor talvez se pergunte (eu questionei à mim sobre) onde está Moby Dick no livro. Seria a baleia mesmo uma delírio do capitão Acabe? E o que dizer de Acabe: um louco, mas um homem determinado.

Uma das cenas que chamou minha atenção no filme foi quando o vento parou de soprar. Minha primeira e inconcluída leitura tirava minha vontade de ler quando esses dias chegavam: eram lentos, ociosos e quentes - e minha leitura foi no verão; parecia que eu estava no Pequod suando e "morrendo" com os tripulantes.

Os efeitos especiais são toleráveis; mas no final ficoram péssimos.

Recomendo a película, mas não esqueçam de ler o livro - mesmo que ele tente derrubar seu ânimo.


*Moby Dick é uma baleia macho.


9 de dezembro de 2016

Pre-pa-ra..


Postagem do celular.
Da minha ultima visita aos meus pais, um pequeno acervo foi alocado para minha casa.
Mesmo não havendo um local adequado, eis um retrato da trupe!
O distinto senhor de lombada marrom é Moby Dick - o primeiro da lista.
Eu não me recordo de haver escrito o motivo de o romance de Melville ter sido escolhido como o primeiro: trata-se do fato de ele ter sido rejeitado nas 100 últimas páginas.
Espero não abandonar o navio desta vez (trocadilho besta)!!

Não sou muito boa em teclar no celular, por isso essa postagem será curta!!

Omnia Vanitas.

7 de novembro de 2016

Blá-blá-blá e afundou..


Deixe-me lhe contar uma coisa sobre minhas habilidades náuticas: inexistentes.

Eu não sei absolutamente nada sobre navegação. Meu senso de direção (sobre tudo) se limita a saber o que direto-esquerdo-frente-trás e só. Acaba aqui.

Por eu estar lendo um clássico que tem a navegação marítima como pano de fundo {Dantés era o imediato do Pharao}, é inevitável que surja narrativa sobre como o navio era conduzido. Seja em língua portuguesa ou em língua francesa, tudo o que eu me dou ao trabalho de entender é: blá-blá-blá e afundou. Simples assim. "Estibordo", "bombordo", proa, ... convés eu sei o que é. Então, hoje, enquanto lia meu querido romance de Alexandre Dumas, esta parte da narrativa foi totalmente ignorada por mim; segue:

— Range à prendre deux ris dans les huniers ! cria le capitaine ; largue les boulines, brasse au vent, amène les huniers, pèse les palanquins sur les vergues !
— Ce n’était pas assez dans ces parages-là, dit l’Anglais ; j’aurais pris quatre ris et je me serais débarrassé de la misaine.


Então, minha compreensão é que houve uma manobra náutica feita pelos empregados do senhor Morrel para salvar o navio: solte não sei o que, jogue sei lá onde, puxe o treco, baixe o troço .. e daí Edmond Dantés, o inglês na cena, diz que faria isso ou aquilo.
Totalmente inútil para mim buscar compreensão em palavras que, mesmo em português, são um assombro para minha mente sem rota.

Eu sei que quando minha leitura de Moby Dick chegar, muitas manobras marítimas serão mandarim para mim! Por mais que eu goste de ler e buscar conhecimento, ...tudo tem um limite! 

Omnia Vanitas.

6 de novembro de 2016

A Lista de Adelita


Voltei!

E estou com uma dúvida cruelíssima! Que livros ler em 2017?

No ano que vem, eu me comprometi a ler todos os livros que eu já li (e tenho); ou seja, 2017 será um ano de releituras. Será maravilhoso poder ler os livros que me encantaram .. mas, QUE LIVROS DEVO ESCOLHER??

Vou ler Maugham: mas que livros de Maugham devo ler? Amo todos que li: O Véu Pintado, O Fio da Navalha, Ah King, Histórias dos Mares do Sul ..nossa! Tudo de Maugham eu amo!

E Stephen King? Meu primeiro livro foi O Cemitério, adorei Desespero, Cujo, O Iluminado, A Coisa, Misery .. tudo!

E Tolkien? O Hobbit, Silmarillion ou a trilogia do Anel? Todos? E Contos Inacabados, Mestre Gil de Ham, Roverandom..??

E as irmãs Brontë? E Jane Austen?

E ainda tem Dostoièvski, Melville, e ainda tem a literatura brasileira: Machado de Assis, José de Alencar, Rachel de Queirós, Aluísio Azevedo e .. e.. tantos livros e apenas 365 dias. Que injusto! Que cruel!

Sem contar que não posso deixar minhas leituras em francês paradas para não retroceder .. então, ou releio tudo o que li em francês ou terei problemas em mantes o vocabulário que aprendi até agora!

A vida é cruel com leitores compulsivos e ansiosos!

Omnia Vanitas!

1 de agosto de 2012

Moby Dick..

Desde que li Moby Dick, de Herman Melville, fico sensibilizada quando leio algo sobre baleias.
Estava fuçando a net e encontrei essa reportagem reportagem sobre uma jubarte que foi encontrada, infelizmente, morta, dentro de uma piscina natural na Austrália.

Vanitas Vanitatum!


O  corpo de uma baleia jubarte morta foi parar dentro de uma piscina oceânica em Newport Beach (Sydney, Austrália). Agentes ambientais tiveram que remover parte da cerca da piscina para que a carcaça da baleia, de mais de 11 metros e 30 toneladas, possa flutuar e seguir mais facilmente de volta ao mar com a alta da maré. 

 Acredita-se que a baleia tenha morrido há pelo menos três
dias.
"Era uma grande pilha de geleia. Você não conseguia ver a cabeça e o rabo", disse ao "Sydney Morning Herald" Steve Messenger, que estava visitando a região, que atrai muitos surfistas.





Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...