Olá, abandonado leitor!
Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a história ainda não se desenvolveu direito; porém, o que chamou minha atenção foi o prefácio e tradução de Paulo Rónai (Rónai Pal). O primeiro texto que conheci de Rónai foi na faculdade de Letras, na matéria (infelizmente curta) de Latim: Gradus Primus. Como fiquei apaixonada por esse estudo (apesar de não ser boa neste assunto), o nome de autor ficou gravado na minha memória.
Nesta edição com a tradução e notas de Rónai, eu não pude deixar de notar o esmero que há neste trabalho. Primeiramente, o Prefácio é algo que está além de falar sobre o livro; ele apresenta a língua húngara (também sua língua nativa) e como houve uma certa barreira em levar a literatura húngara para outras partes do mundo; e a história de um povo que mudou de região e teve que levar sua língua para outros lugares que não conheciam seu idioma.
"Os Meninos da Rua Paulo" foi apresentado aos brasileiros em 1952 - através de Rónai pela editora Saraiva. E, uma história infantil escrita por um homem saudoso da sua terra natal, atingiu o coração dos leitores. O tradutor apresenta dois exemplos de amigos que lhes escreveram para parabenizá-lo pelo trabalho; e um deles deixou uma frase que me chamou a atenção:
"O mundo é um só, meu caro. Pena que os donos da vida continuem a dividi-lo para proveito próprio" (p.11).
E neste ponto, chego a outra observação do tradutor que chamou minha atenção: que existem literaturas escritas para adultos que são adaptadas para o público infanto-juvenil. Porém, há literatura juvenil adotada por adultos - assim como "Os Meninos da Rua Paulo" pela sua semelhança com a vida do leitor - mesmo sendo um brasileiro lendo uma história de adolescentes de Budapeste, porque "o mundo é um só, meu caro". Esse é o poder da literatura!
Além do prefácio, as notas que Paulo Rónai deixa no rodapé do texto são singulares. Todas as vezes que um leitor tem contato com leitura estrangeira (fora as línguas mais conhecidas como inglês e espanhol), não vemos uma iniciativa de apresentar a fonética deste idioma para o leitor - apenas somos deixados por conta própria para decifrar a pronúncia deste nome ou aquele. Porém, Rónai teve o apuro de apresentar sua língua e fonética para os leitores:
- Csengey - pronuncía-se Tchênguei
- Nemecsek - pronuncía-se Nêmetchek
- Krajcár - pronuncía-se cráitsar.
Outra coisa que chamou minha atenção foi como foi mantida a tradução de Rónai ao leitor brasileiro com um glossário de Nelson Ascher para palavras do português pouco usadas como: verberou (censurou, repreendeu), magote (bando), esfaimados (famintos).
Essa permanência em manter a tradução original me lembrou o quanto Ernani Ssó trouxe a tradução de Dom Quixote (ed. Penguin) para uma "realidade" brasileira e, transformou o "rocim" em "pangaré"; ou, o que fez Sérgio Molina (também para Dom Quixote) transformou a raça do cachorro do protagonista (galgo) em "bom cão". Esse tipo de ofensa ao texto original é uma forma de diminuir a obra do dito autor. Quando Ssó transforma o "rocim" em "pangaré" ele esquece que esta palavra arrancada do texto deixa de fazer sentido com o próprio nome do cavalo de Dom Quixote - Rociante (o ante-Rocim, ou seja, o primeiro rocim da história da cavalaria andante). Ou como Molina deixa algo tão característico como a magreza do dono, do cavalo e do cão como uma figura só.
Por hoje é só, eu apenas quis deixar registrado o apreço pelo prefácio e tradução antes mesmo de me deliciar com a história.
Omnia Vanitas 💀
Publicado: 27/07/26. Editado: 28/07/26
Autor: Fenrec Molnár
Tradução, Prefácio e notas: Paulo Rónai
Revisão e Tradução: Aurélio Buarque de Holanda
Posfácio e Notas: Nelson Ascher
Ilustrações: Tibor Gregely
Editora: Cosac Naify



