8 de agosto de 2016

Alucinações sobre Cervantes..



Caro leitor, estou em estado de pasmo! A leitura de "Dor e Glória de Cervantes" começou e eu estou lendo algumas descrições tão ínfimas sobre as emoções do enigmático espanhol, que começo a duvidar do conhecimento de Bráulio Sánchez-Sáez. Vou-lhe citar duas passagens utópicas:

 "(...) A maior delícia de Miguel era quando saía a reboque de sua irmã mais velha, em virtude de alguma incumbência ou ordem da mãe, e detinham-se, abobalhados, pelas esquinas, onde algum mendigo ou jogral de pouca importância, esguelando-se, recitava os velhos romances tradicionais de mouros e cristãos (...)"

Eu concordo com a descrição de como uma multidão se comportava em feiras ou vendas de rua, mas a dar a Miguel de Cervantes uma atitude tão genuína (justo à ele que não deixou nada escrito sobre sua vida ou criações e influências literárias que o tornaram o escritor que foi...). Minha credulidade precisa de mais fé sobre os assunto que Sáez escreve com tanta convicção.

"Miguel vivia em estado de pleno exaltação. A estrada parecia-lhe maravilhosa e era mais o que andava de um lado para o outro, junto às cavalgaduras, taramelando com os arrieiros".

Detalhes demais para alguém tão indecifrável como Miguel de Cervantes.
A "Nota Explicativa" de Edgar Cavalheiro me sugeriu um escritor (Sáez) mais sóbrio ao escrever sobre o espanhol seiscentista.

"(...) Refiro-me como todos devem ter percebido, a Bráulio Sánchez-Sáez, que ainda há pouco tempo nos brindou com um curso sobre Cervantes, curso ora reunido num volume muito bem apresentado e que circula por aí sob os auspícios da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, da qual, ele faz parte, como professor  de Língua e Literatura Castelhanas e Hispano-Americana".

Vou continuar a leitura, ignorando alguns trechos de cunho demasiado criativo.

Omnia Vanitas.

7 de agosto de 2016

Biblioteca Cervantina..


Último artigo da revista Entre Livros na edição Entre Clássicos - Cervantes.

Confesso, eu precisaria escrever sobre os pintores que foram inspirados pela obra de Cervantes, mas não vou me prender a este artigo pois não sou interessada em obras de arte - sinto muito, leitor. É uma falha minha não escrever sobre cada artigo, como prometido.

Este último artigo Biblioteca Cervantina, também, é escrito por Reynaldo Damazio. 

O autor do artigo inicia a sua escrita trazendo à pauta a importância de um boa tradução. Uma tradução, escreve Damazio, não é apenas um tradução de palavras; a cultura e a história presente dentro da história também tem a sua importância. Segundo Damazio ao citar Miguel de Cervantes y Saavedra

"A riqueza da linguagem empregada por Miguel de Cervantes, que oscila do rebuscado ao popular, do poético ao prosaico, do trocadilho à referência erudita, do provérbio à parábola, intercalando gêneros e narrativas, fez do Quixote um texto paradigmático e, para muitos, fundador do romance moderno. Se a isso acrescentarmos o torneio das frases, seu ritmo, o uso de termos arcaicos, a variedade de tons discursivos, chegamos a uma obra de difícil tradução, poque que compreendê-la em sua grandeza semântica e sintática já demanda esforço considerável. Na maioria das vezes, a tradução de uma obra dessa natureza fica no meio do caminho entre a transposição literal - na medida do possível - e a adaptação, de acordo com o talento e os objetivos dos tradutores".

Quero acrescentar mais umas palavras de Damazio sobre a dificuldade em traduzir clássicos, como este de Cervantes:

"Com o passar do tempo e das mudanças no idioma, na cultura e no pensamento, traduzir é quase como reconstruir arqueologicamente certas estruturas linguísticas. Por outro lado, optar pela tradução dita 'literal' é quase uma falácia, pois há expressões que são típicas da época ou daquela língua e não fazem sentido se transportas ao pé da letra. Por outro lado, enveredar pela transcrição radical traz o risco de destruir a beleza e as peculiaridades  do original, que dizem respeito ao momento em que foram criadas".

Damazio faz observações sobre três traduções principais da obra D. Quixote de La Mancha: os portugueses Viscondes de Castilho e Azevedo, o argentino Sérgio Molina, e a dupla: o brasileiro Carlos Nougué com o espanhol José Luiz Sanchéz.

A primeira tradução feita para o Brasil, foi em 1794 - tarde, não é mesmo? Note, atrasado leitor, que na França a tradução ocorreu em 1614 e na Inglaterra em 1612. A explicação para a tardia tradução para nossa língua colonizada é que os portugueses que por cá estavam liam na língua original.

Foi no século XX que houve a primeira tradução integral da obra. Exemplar já não disponível em lojas do ramo, a tradução de Almir de Andrade e Milton Amado, pela José Olympio, foi feita em 1952. 

As editoras Nova Cultural e L&PM tem como tradutores os viscondes portugueses. E, sobre estes Damazio escreve

"Os viscondes 'formalizam' Cervantes e até o corrigem. Tiram-lhe, assim, a ousadia e a inventividade que estão justamente nos usos e abusos da linguagem, do coloquialismo e das imperfeições da fala cotidiana. Deram certa informalidade a uma narrativa cuja graça está propositalmente na irregularidade, na maleabilidade de focos narrativos e de vozes que se atritam no interior do discurso".

Para minha tristeza, leitor, a minha tradução dos dois volumes é destes nobres viscondes! :( Mesmo assim, nesta ignorância tradutória, ri às boas com Dom Quixote e Sancho Pancha; mas estou atenta para a tradução mais próxima que o argentino fez deste clássico. É assim que escreve Damazio sobre Molina:

"(...) Molina afirma que desde o início do trabalho esteve sempre preocupado em encontrar o 'tom', mas que não poderia ser um tom geral para toda a obra, que por sua vez não atendesse 'à diferenciação de vozes, à variedade de estilos e gêneros incorporados e retrabalhados por Cervantes'. (...) Molina realizou intensa pesquisa para chegar à tradução, que incluiu viagem à Espanha, e acrescenta notas importantes ao final dos capítulos, com referências históricas, literárias, idiomáticas etc. A edição traz ainda o texto original no rodapé a página, que permite um cotejo imediato, muito enriquecedor, a cada passo da leitura".

Este exemplar da Editora 34 com a tradução de Sérgio Molina custa, atualmente, R$ 98 mil réis! Sinto muito, rico leitor, meu pobre bolso não pode arcar com essa beleza no momento! Ficarei com os viscondes.

A última tradução que Damazio apresenta é da dupla Nougué e Sanches. Sobre eles, o autor do artigo escreve o seguinte:

"(...) Mudaram os epítetos formados por topônimos, como Quixote 'da' Mancha, Dulcinéia 'do' Toboso; mantiveram as inversões sintáticas e sintagmáticas, a voz passiva etc. Tiveram a preocupação excessivamente didática, aferrada à correção, e talvez por isso mesmo perderam um pouco a força, do humor e da musicalidade do original. Não que a leitura não flua, mas há momentos em que o texto parece simplificado, para facilitar a leitura; e noutros, volta-se a uma certa sobriedade, escorada numa dicção mais antiga".

Esta não foi a primeira que leio elogios à Editora 34. Logo que eu tiver a oportunidade financeira, estarei adquirindo esta edição de Dom Quixote e, também Crime e Castigo de Dostoiévski - de quem ouvi pela primeira vez elogios à tradução.

Para finalizar, Damazio escreveu sobre a tradução infantil do clássico cervantino por Monteiro Lobato. Eu quero adicionar este comentário pois se trata do meu primeiro contato com Miguel de Cervantes. Escreveu Damazio

"No episódio 'Dom Quixote das Crianças, o escritor Monteiro Lobato (1882 - 1948) fez Dona Benta contar as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura para a turma do sítio do Pica-Pau Amarelo, depois que a boneca Emília encontrou o título de Cervantes numa estante alta da biblioteca. Em linhas gerais, a obra está ali, com sagacidade e o virtuosismo de Lobato".

Damazio detalha outras traduções, mas estou me prendendo apenas nestas que citei - aquelas que me interessam. 

E..fim. Minha próxima leitura será de Bráulio Sánchez-Sáez:  Dor e Glória de Cervantes.

Até lá! 

Omnia Vanitas.


DAMAZIO, Reynaldo. Biblioteca Cervantina; página 92 à 98. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



Lazarillo de Tormes..


Ontem, para meu desespero, deixei a revista que estava lendo sobre Cervantes em casa. Para passar o dia, eu resolvi começar uma leitura alternativa.
A escolha não poderia ser outra: Lazarillo de Tormes.

La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades é o título original deste livro, escrito no século XVI, época de Miguel de Cervantes - que recebeu influência desta obra - publicado em 1554. À princípio, a autoria desta novela picaresca é anônima, porém, na edição que li, o nome de Diego Hurtelo de Mendonza é apontado como um possível autor desta obra.

Lazarillo de Tormes é uma novela picaresca que, segundo a Wikipédia significa:

Romance picaresco (em espanhol: "picaresca", de "pícaro", "delinquente" ou "malandro") é um sub-gênero literário narrativo da ficção em prosa, geralmente satírico e que descreve, em detalhes realistas e muitas vezes humorísticos, as aventuras de um herói malandro da classe social baixa, que vive por sua inteligência em uma sociedade corrupta. Este estilo do romance foi originado na Espanha, nos anos de transição do Renascimento para o Barroco, durante o chamado Século de Ouro, possivelmente influenciado pela literatura árabe (especificamente o gênero maqamá), e floresceu na Europa nos séculos XVII e XVIII, e continua a influenciar a literatura moderna.

O momento que a Espanha vivia na época que Lazarillo foi escrito contava um momento bom para a país - porém a miséria era agravante mesmo em meio a sua fortuna. A explicação é simples: buscando descobrir o Novo Mundo, a coroa espanhola lançava ao mar sua tripulação - e com ela ia todo o dinheiro do reinado, deixando, então, um país pobre para trás. Toda a narrativa de Lazarillo demonstra essa pobreza na Espanha. 

E o personagem? Ele é carismático! É fácil se comover com a história dele e, quando possível, rir com ele. Escassos são os momentos de felicidade deste personagem, que se vê longe da mãe e da família desde a idade mais tenra. 
Lázaro, como se chama o menino, tem cinco patrões durante a primeira parte da sua vida - que é narrada até a vida adulta.
Seu primeiro patrão é um cego que se diz curandeiro, meteorologista e toda a sorte de mentiras que possam lhe trazer algum benefício financeiro (ou mesmo em troca de comida - moeda comum neste meio). O segundo patrão de Lázaro foi um padre - tão avarento quanto o cego. O terceiro patrão foi um escudeiro falido que tinha para si somente a honra, nada mais. 
Este trio deu à Lazarillo um banquete de nulidade. A fome foi próspera na vida deste menino, que se não foi a piedade de alguns, teria morrido de fome no segundo capítulo. 
Foi o quarto patrão foi um trambiqueiro maior que os outros - porém, não faltava comida para Lázaro. E, mesmo em meio ao banquete, os escrúpulos do pobre menino não puderam aguentar a mentira que o doutro Cura-Tudo aplicava ao povo pobre e ignorante. 

Foi o quinto capítulo que trouxe a alegria a Lázaro - e  também à mim, pois tenho a hábito de sofrer com os personagens que tenho simpatia. 

A miséria do protagonista e a maneira que Lazarillo utiliza para se manter em cada situação que lhe ocorre é um exemplo do caráter correto que ele possui, mesmo vindo da pobreza e ignorância do berço. Assim como em Novelas Exemplares de Miguel de Cervantes, o ensinamento vem da adversidade de vida do protagonista e não da sua boa sorte. E, assim como em Cervantes, o final culmina com o sacramento do matrimônio - que encerra todo o mal na vida do protagonista.

E esta foi minha leitura de sábado/domingo de manhã! Recomendo esta leitura, não somente instrutiva mas, muito agradável de ler! 
Omnia Vanitas.

3 de agosto de 2016

Reinveções do Quixote..


Assim como a maioria dos clássicos, Dom Quixote de La Mancha foi reescrito em diversas adaptações e reinvenções, como escreveu o autor deste artigo Reynaldo Damazio.
O artigo é bem simples pois comenta as referências literárias que tiveram Cervantes como ponte para sua concepção. 
Eu acho cansativo fazer um resumo do resumo de cada uma, então, apenas deixarei algumas poucas palavras que podem ligar a obra do espanhol àquela que criada à partir dela.

Vamos lá, dinâmico leitor, àquelas obras que foram inspiradas pelo obra máxima de Miguel de Cervantes y Saavedra.

Damazio começa citando o escritor francês Gustave Flaubert e sua Madame Bovary: "mulher sonhadora e perturbada por uma visão livresca, idealizadora, do mundo". Além disso, um amante lhe sonda as saias já que percebe que seu casamento é monótono. Delirante leitor, imagine o "estrago" que este francês causou quando o livro foi publicado.

Próximo: Charles Dickens bebeu da fonte quixotesca e criou o seu clássico As Aventuras do Sr. Pickwick. Há muito tempo que quero ter esse livro na minha biblioteca, ansioso leitor, mas o que me impede de comprá-lo é o fato de encontrar somente as edições da Abril que são impressas com letras miseravelmente pequenas para uma leitura anciã. Veja só, preocupado leitor, quando eu for uma senhorinha de 80 anos, pretendo continuar sendo uma leitora ativa. Portanto, se hoje eu comprar livros com letras minúsculas, que trabalho enorme terei no futuro! Cautela, jovem leitor! 
Voltando ao senhor Pickwick, só o nome já dá sinais de divertimento - pelo menos à mim. Damazio liga o espanhol ao inglês com a seguinte explicação: "um grupo se reúne para realizar uma pretensa investivação científica dos costumes e das relações humanas na capital inglesa".

Se o assunto é reinvenção, o russo Dostka não pode ficar de fora da festa. Fiódor Dostoiévski retratou o Cavaleiro da Triste Figura através do seu O Idiota. Já fiz publicações aqui. Acrescento Damazio:

"Dostoiévski enfrentou com brilhantismo incomum temas cruciais que preparam a mentalidade do mundo contemporâneo, como o misticismo e  o materialismo, o nacionalismo e o universalismo, as paixões e a razão, a barbárie e o senso de humanidade no terreno movediço da literatura, fazendo do ficcional o instrumento de reflexão sobre as angústias mais profundas do homem".
Damazio ainda cita o livro de Nikolai Gógol Almas Mortas e o livro de Rudolf Erich Raspe com Gottfired August Bürger intitulado As Aventuras do Barão de Münchhausen. 
A minha ignorância não permite comentar sobre estas duas reinvenções. Perdoe-me, culto leitor.

O Brasil não deixou de beber desta fonte cervantina. E, não que me "gambar" - como diria uma amiga - mas antes de eu ler este artigo, eu já reconhecera Dom Quixote na obra de Machado de Assis Quincas Borba e na obra de Lima Barreto O Triste Fim de Policarpo Quaresma. Ai, sou tão inteligente! 

Rubião é o personagem de Machado de Assis que recebeu uma herança de seu amigo Quincas Borba. Eu achei hilário o fato de o dono ter colocado o próprio nome no cachorro. Fantástico. E, após a morte do filósofo (dono do cão), o bichano vai junto com a herança deixada à Rubião. O cômico é que muitas vezes Rubião olhava para o cachorro e não sabia se era animal que lhe olhava ou amigo falecido. E, do mesmo modo que Dom Quixote provocou em mim uma fúria pelo mau tratamento que recebia de seus amigos, Rubião também despertou esta carisma em mim. Coisa de leitor.

Na obra de Lima Barreto é muito fácil identificar Dom Quixote: o personagem promove a volta da língua materna do Brasil - antes que os portugueses viessem impor a cultura aos nativos das terras de cá. Sim, ele desejava a volta da língua indígena na cultura brasileira colonizada. E o fim de Policarpo Quaresmo, como título da obra já declara, é triste - assim como Dom Quixote. A realidade volta à razão do protagonista e o devora a sua tolice.

Segundo Damazio, outros escritores brasileiros beberam de Miguel de Cervantes: José de Alencar, Aluísio Azevedo, Coelho Neto, José Lins do Rego, Fernando Sabino. Os estrangeiros do nosso continente como  Jorge Luis Borges Pierre Menard, autor de Dom Quixote, e Italo Calvino O Cavaleiro Inexistente.

A primeira vez que li Dom Quixote foi na versão infantil que foi adaptada por Monteiro Lobato no seu Dom Quixote para Crianças - com a participação da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo (saudades!). Emília encontra um exemplar nas coisas da Dona Benta e, ao final da história, ela clama em plenos pulmões o que eu também tenho em meu coração de leitora:

- Morreu, nada! - dizia ela. - Como morreu, se D. Quixote é imortal?


Omnia Vanitas.


DAMAZIO, Reynaldo. Reinvenções de Quixote; página 78 à 83. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.


2 de agosto de 2016

Persiles e Sigismunda: a grande aposta de Cervantes..




Eis um desafio: escrever sobre algo completamente desconhecido, para mim. 
Nunca chegou às minhas mãos ou ao meu interesse o livro Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, e nem sei explicar o motivo.  Na minha pequena biblioteca, encontra-se, das obras de Cervantes, apenas três volumes de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (volumes: 1, 2 e único), Novelas Exemplares, e A Galatéia - que ainda não li.
E, mesmo se eu quisesse obter esta obra póstuma de Miguel de Cervantes, eu teria que investir um valor monetário sublime para chamá-la de minha. O título não está disponível para vendas em sebos ou livrarias mortais - apenas sob encomenda. Talvez, se eu procurar em uma biblioteca pública eu poderia roubar.. digo, emprestar está joia tão valiosa à pena que a concebeu!

Depois desta introdução simplória e lamuriosa, eu espero que tenha paciência comigo, passageiro leitor, para ler meus possíveis enganos de interpretação do artigo de Adma Fadul Muhana - isto mesmo, a mesma autora do artigo Novelas Exemplares.

Para começar, quero lembrar que Cervantes concluiu e dedicou esta obra três dias antes de morrer, segundo relata no prólogo desta obra:

"Ontem me deram a extrema-unção e hoje escrevo está; o tempo é breve, as ânsias crescem, as esperanças minguam e, com tudo isso, levo a vida além do desejo que tenho de viver".

Eu não sei quanto a você, desocupado leitor, mas à mim tocou essa despedida de Miguel de Cervantes. E, talvez, tenha sido bom ele não ver superioridade que Dom Quixote ainda mantém desta publicação que foi aquela ns qual apostou que sobrepujaria ao cavaleiro.
Segundo Muhana

"Desde quando Cervantes começou a redigi-lo, não se sabe; mas, no todo, o livro oferece como que uma morada de ancião, cheia de memórias, lembranças e histórias, acumuladas durante uma longa e diversificada existência, cuja vida as justificava. Claro, é tempo em que ecoam a Contra-Reforma e seu esquisito estoicismo, o Seiscentos renascido e já cansado".

Tão certo quanto Quixote é uma alegoria para os cavaleiros andantes, Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda tem sua base na epopeia grega de Heliodoro Teágenes e Caricléia. Muhana ainda acrescenta que Cervantes queria "atingir seus fins e agradar pela variedade, fazendo os protagonistas se envolverem em uma sucessão de episódios memoráveis".

E os coadjuvantes desta trama tinham suas características bem marcadas pela nacionalidade de cada personagem, conforme Muhana

"Aliás, em toda a ficção até o século XVIII, a tipificação dos caracteres pátrios é tão frequente quanto na Antiguidade. Aqui, portugueses sempre falecem de amor, espanhóis são presunçosos, judeus são médicos e avarentos, franceses, bonitos, italianos, afeitos às artes (IV,3); mouros, por sua vez, são tão corteses como traidores, do mesmo modo que, nas epopeias em prosa antigas, os de Lesbos são lascivos, os egípcios são supersticiosos, dos atenienses, amantes de fábulas e, na Pérsia, as !mulheres são luxuriosas e os homens, efeminados".

Os personagens secundários caminham pela trama sem ter a intenção de chegarem ao destino que espera os protagonistas. Saem de cena quando são dispensáveis para a próxima teia do enredo.
Os protagonistas, obviamente, mantêm-se firmes aos seus propósitos até o fim da trama, pois são os heróis que não caem em desagrado moral perante o leitor - sendo a exatidão do modelo a ser seguido, e deles só se espera que alcancem "aquilo que lhes é destinado como prêmio, a felicidade".

Termino está publicação com as palavras finais de Muhana para seu artigo:

"São tempos são diferentes, ou melhor, não há mais tempo. Seus livros estão escritos, sua vida está cumprida (...). Os tempos são mesmo diferentes, inclusive para Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda. Não há hoje quem julgue ser o melhor livro que já se escreveu em língua castelhana, nem o melhor de Cervantes. Poucos são os que conhecem as histórias bizantinas e esses acham que elas já não tem mesmo muito lugar. São pomposas, eruditas, parecem estar sempre a ensinar. Sua graça luxuosa e aristocráticas, reside muito no conhecimento que se tem dos demais gêneros poéticos da Antiguidade".

Omnia Vanitas.

MUHANA, Adma Fadul. Persiles e Sigismunda; página 66 à 75. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...