31 de julho de 2016

Novelas Exemplares de Cervantes..


Parte I: Cervantes e Seu Tempo
Parte II: Por que Ler o Clássico Dom Quixote
Parte III: O Retrato e a Escrita de Cervantes
Parte IV: A Obra prima de Cervantes
Parte V: Sentenças e Aforismos em Cervantes

Eu lembro do dia em que comprei o livro Novelas Exemplares. Estava animada em comprar mais um livro de Cervantes - contando que fiquei apaixonada por Dom Quixote de La Mancha.
E, na primeira vez que me propus a ler esta obra, não cheguei nem até a metade. Algo não estava pronto em mim para ler as doze novelas. 
Foi depois de um pouco mais de um ano que eu tive a segunda oportunidade de ler este livro incompreendido. E, mesmo assim, eu não atendi o significado que tem as novelas.

Agora, lendo o artigo de Adma Fadul Muhana foi uma boa explicação minha ignorância. 

Começo, com as palavras da dona do artigo, sobre a definição do termo "novela":

"A questão, na época, é importante. No século XVI, o termo 'novela' - cuja raiz é a mesmo de 'novo', 'nova' e 'notícia', ou em bom português, 'caso' - reporta-se apenas a historietas (...). Embora o uso do termo tenha se difundido rapidamente, até serem consideradas 'novelas', como hoje em dia, as picarescas, as sentimentais, as da cavalaria e as pastoris, ate então elas eram pensadas como sendo desprovidas de critérios que permitissem incluí-las entre os grandes gêneros poéticos da Antiguidade, nomeadamente a épica e a tragédia; esses critérios se referiam sobretudo ao caráter dos personagens, ao modo narrativo, à ação, ao estilo e à destinação. Isso fazia das novelas uma espécie menor, isto é, que só podia interessar a jovens, mulheres e semiletrados".

Sendo assim, era um livro "ao gosto do povo", sem muitos requintes que o tornavam tolerável à corte.
Um grande "inimigo" de Cervantes era o poeta Lope da Vega. Este poeta tinha um grande prazer de fazer dos escritos de seu conterrâneo diminutos aos olhos da corte - de onde ele participava com grande reconhecimento dos príncipes. E, mesmo sendo um grandessíssimo baba-ovo  fazia de Cervantes um enganado escritor. E, talvez, por ser Miguel de Cervantes um dos primeiros a escrever esse gênero literário - visto que antes eram traduções italianas que chegavam até o leitor espanhol. Lê-se o que o mal-amado Veja escreveu sobre as Novelas de Cervantes:

Lope da Vega, portanto, apesar de reconhecer alguma graça e estilo nas novelas de Cervantes, não partilha da opinião de que elas pudessem ser tidas por exemplares, pois seu autor, infere-se, nem era letrado, nem se remetia aos hábitos da corte - como o faz ele, Lope a propósito, que vivia com fausto principesco, cuja popularidade na corte nunca foi superada e que, além de eclesiástico, dispunha do grau de doutor em teologia outorgado pelo papa Urbano VIII, em agradecimento ao poema La corona trágica, que lhe enviara...".

Miguel de Cervantes, ao contrário do seu desafeto, nunca foi reconhecido por seus feitos em Lepanto - ou reconhecido suficientemente - para cair no gosto da corte. Somente após o sucesso da primeira parte de O Engenhoso Dom Quixote da La Mancha que experimentou viver sob os olhos da realeza nos seus últimos dez anos de vida. No ano de 1613, ele publica Novelas Exemplares, uma forma humorada e humanista de educar. Porém, como já foi escrito na opinião de Lope da Vega, as novelas não estavam situadas na vida da corte espanhola, mas no populacho. Desta forma, as novelas

"(...) exploram os lugares baixos da cidade, em que personagens de comédia se locomovem - e não fidalgos de alta estirpe, que já desconhecem os ideias heróicos. A ação decorre entre ciganos em A Ciganinha; entre ladrões, em Riconete e Cortadilho; entre mercadores, em A Espanhola Inglesa e em O Ciumento da Extremadura; entre alferes e licenciados que lutam por obter lugar na corte, em O Licenciado Vidraça e em O Casamento Enganoso; entre fidalgotes desonrados, em A Força do Sangue etc.".
A falta de caráter de alguns personagens servem de exemplo nas novelas de Cervantes, não o exemplo que deve ser seguido, mas algo que ao término da narrativa precisou ser alterada para terminar "bem". Outra característica é que os personagens inseridos nas tramas não estão distantes de uma descrição realista da vida cotidiana do leitor. Cervantes levou a sério utilizar-se de personagens comuns que inclusive na fala de suas personagens é própria da  classe social que representam.  

Em seu artigo, Muhana destaca personagens como Tomás Rueda {O Licenciado Vidraça} e Campuzano {O Colóquio dos Cães}. Confesso, lembro vagamente da primeira história - que é hilária, mas pouco lembro da segunda portanto, somente escreverei sobre aquela que lembro. Este fato me move a ler novamente esta obra de Cervantes.

O motivo de Muhana destacar em especial estas duas personagens é que a loucura de ambos parece salvar-lhes a vida de uma existência enfadonha. Explicarei: Tomás Rueda é um licenciado que foi enfeitiçado por uma mulher que foi desdenhada por ele. O poção dada à Rueda lhe causou loucura, achando que era feito de vidro. Seus costumes eram respeitados e seus conselhos e repreensões aceitos por todos - visto que era louco e a todos fazia rir sendo louco.

"Vidraça é um desses que abusa do modo sentencioso de falar proferindo seus impertinências com citações bíblicas, lugares-comuns, trocadilhos, versos, pensamentos, provérbios, anexins, agudezas, parêmias, máximas - cujas tantas denominações mostram a diversidade das formas breves, que significariam a autoridade moral daquele que as pronuncia se não significassem a parvoíce de quem as diz por tudo e por nada".

Mas ao ser curado, ele perde o seu encanto e torna-se apenas mais um comum licenciado entre todos - sem utilidade para o público que antes lhe acolhia.

Neste artigo, Muhana definiu o que era uma novela no século XVI e também porque este gênero literário foi classificado como "exemplar" - mesmo seguindo os rumos contrários, inicialmente, à moral que deveria ser seguida. Muhama também destacou o que o sucesso de Dom Quixote trouxe a Cervantes e o seu empreendimento em iniciar uma narrativa novelística fora dos padrões preexistentes de concepção deste gênero literário, dando ao seus personagens características singulares à classe social que estavam inseridos. 

Em suma, esta é a minha visão do que se tratou este artigo. Espero não ter sido confusa em todas as publicações que até o momento escrevi sobre Miguel de Cervantes Saavedra.

Omnia Vanitas.


MUHANA, Adma Fadul. Novelas Exemplares; página 54 à 65. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.


30 de julho de 2016

Sentenças e Aforismo em Cervantes..



Primeira Parte: Cervantes e Seu Tempo


Fim de mais uma etapa de leitura sobre a vida e a obra de Miguel de Cervantes. 
Este artigo foi escrito por Adolfo Mintejo Navas. O estudo de Navas será sobre  estilo de escrita que Cervantes utilizou em suas obras. 
Aforismo é uma maneira de escrever verdades morais a cerca de algo - como uma máxima ou um ditado; porém, o aforismo é uma maneira um pouco mais culta de expressão linguística. Conforme Navas, era um modelo de escrita muito comum

"(...) são muitas as seleções ou inventários de sentenças que circulam pelo século XVI, em latim ou romanço, como parte de uma herança clássica que estava vias de torna-se popular. Por seu caráter de antologia, eles permitiam reunir fragmentos literários e filosóficos de tempos clássicos (Grécia e Roma), assim como guia espiritual ou receituário de conduta ética".

Não pense, máximo leitor, que este uso caiu no esquecimento; na verdade está aprimorado. Explicarei a ideia pontuada: lembra que no artigo de Molina o próprio declarou que existe uma poluição de informações que não permite ao leitor descobrir a obra, apenas suas idéias e trechos fragmentados? Pois trata-se disso nos dias de hoje. Pegue uma frase de efeito em algum livro que esteja em uma prateleira e você terá seu aforismo - sem contextualizar o trecho, coloque-o em algum lugar de destaque e as curtidas e compartilhamentos serão instantâneos, mesmo que ninguém esteja interessado em saber do que se trata. Faz-se isso continuamente com várias obras, algumas distorcidas por filmes. A literatura saiu uma linha de livros que compilam frases de filósofos e comentam, rapidamente, a ideia destes em questão. Acho uma literatura crua pois não alcança a dimensão da totalidade da obra citada. Perde-se o valor verdadeiro do estudo.

Ça va, voltando à Navas

"(...) os aforismos procedentes da Grécia também orientam pelo conhecimento ou por um tipo de saber de caráter científico - mas neles o que se reforça é a necessidade de uma sabedoria contrastada pela práxis humana, certa validade universal, da qual bebem também, ainda que de outra forma, os provérbios populares".

E quando se menciona provérbios/ditados populares, Sancho Pança é o rei da categoria. Não existe um momento para este escudeiro que não precise ou seja necessário um bom ditado popular. E, acredite, até mesmo alguns ditados possuem uma história sobre si. 
Na minha família, minha irmã número cinco tem o hábito de dizer "Agora, Inês é morta!". Eu sempre acho engraçada essa frase e, de tanto cismar, procurei o significado. Clique aqui e saberá quem é Inês! ;)

Segundo Navas, o aforismo era tão apreciado por Cervantes que foi um desejo deste escrever apenas um livro com essas máximas filosóficas mas, pelo pouco - ou nenhum, talvez - patrocínio, Cervantes abandonou a ideia é buscou outros rumos. 
Mas repare bem, anônimo leitor, que quando uma ideia chega a cabeça, de uma maneir ou outra torna-se imperativo colaca- lá em prática - direta ou indiretamente ( no caso de Cervantes foi de !odo indireto). Seguindo com Navas

(...) há exemplos numerosos dessa escrita breve, concentrada (...) A Galatéia, Dom Quixote, Novelas Exemplares".

A maior parte estará em Dom Quixote, sem dúvida. Para exemplificar, le-se os seguintes aforismos quixotescos

"Procura descobrir a verdade entre as promessas e dádivas do rico entre os soluços e inoportunidade do pobre"; "Come pouco e janta ainda menos, que a saúde de todo o corpo se forja na cozinha do estômago"; "Não desejes e serás o mais rico homem do mundo".

O mais interessante nas obras de Cervantes é que o aforismo não estava fora do contexto que seus personagens a citavam, isso torna mais rico ainda a construção literária dos livros de Cervantes e, também é as mazelas da vida particular foram decisivas para a dedicação do espanhol na escolha de quais sentenças utilizar na sua produção textual.

Bom, leitor, não quero mais prolongar minhas palavras para este artigo; e, termino esta publicação com meu aforismo favorit em O Engenhoso Dom Quixote de La Mancha

"...aquele que não tenciona satisfazer não regateia condições no contratar"

Omnia Vanitas.

NAVAS, Adolfo Montejo. Sentenças e Aforismos; página 46 à 53. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



28 de julho de 2016

A Obra-Prima de Cervantes..


Primeira Parte: Cervantes de Seu Tempo
Segunda Parte: Por que Ler o Clássico
Terceira Parte: O Retrato e a Escrita (nesta publicação há dois outros links - no final - que ajudam de complemento)
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Depois de ler sobre o tempo, a vida e a escrita de Cervantes, chegou o momento de escrever sobre a obra deste espanhol.

A proposta de Sérgio Molina é de esquecer tudo o que já foi escrito sobre a obra. Sim, esforçado leitor, deixe de lado todas as referências já feitas para Cervantes e Dom Quixote é mire o alvo para a obra em si.
Em alguns pontos eu concordo com Molina: muito é dito sobre a obra e pouco dela é lida.  Vou lhe dar um dica, confuso leitor: quando ouve-se o nome próprio Quixote a primeira imagem que surge na cabeça na cabeça do ouvinte é um moinho de vento; mas a obra de Cervantes vai além da alucinação do protagonista.

O autor deste artigo apresenta um conselho já debatido - uma quimera muito semelhante ao Quixote: "aconselha ao leitor despojar-se de toda a ideia preconcebida e aproximar-se da obra com a mente limpa e o coração puro".

Sabendo que esta sugestão é impossível de ser aplicada e que a visão imposta por mecanismos de comunicação não é fácil de suplantar, Molina apresenta suas impressões sobre a obra de Cervantes:

"(...) compartilhar impressões nascidas de minha experiência de leitura e reescritura, situado num lugar que não é nem o do leitor acadêmico, nem o do leigo, nem o do escritor, mas onde chegam as três vozes".

E lá se vai Molina, tirando de Cervantes as construções literárias que já foram escritas através do tempo - conclua você, letrado leitor, se isso é bom ou não.

Uma das pontuações de Molina é visto já no título do livro do espanhol: "O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha". Se você notou, culto leitor, parabéns! À mim passou sem percepção o dualismo de títulos sociais que Alonso Quijana (Quesada, Quijada  ou Quijano) atribui à sim. Para ser sincera, fidalgo ele já era, mas o título de Dom não é algo que se deva utilizar à mesma pessoa e, Molina esclarece a nossa razão:

"(...) O que interessa observar aqui, em primeiro lugar, é a contradição entre don e fidalgo. Este, situado no nível mais baixo da hierarquia nobiliárquica, a rigor nunca poderia ostentar essa marca de status, reservada às altas-rodas dos caballeros e grandes de Espanha. Uma apropriação indébita que já não era incomum na época, mas ainda vista, quando menos, como um censurável desatino".
Mas a investida não pára: 

"(...) se o fidalguete pode tomar para si tal don porque estava doido, como se explica o qualificativo de 'engenhosos', que lhe atribui uma excelência intelectual? (...) Uma faculdade (...) caracterizada sobretudo pela elegância e inteligência no falar: o discreto".

Bom, desocupado leitor, isso é tudo o que tenho a escrever sobre o artigo de Sérgio Molina. O estudo que ele propôs foi uma leitura sem vínculos viciosos, mas nada pode acrescentar daquilo que já se sabe sobre a narrativa louca e racional de Quixote ou da malícia e parvorice de Sancho Pança. As pontuações que li, para mim, nada mais são do que citações da obra e observações comuns do texto, por exemplo:

"(...) personagens entram voluntária e alegremente no faz-de-conta do maníaco*. (...) É para livrar-se do hóspede problemático que um estalajadeiro se finge cavaleiro castelão (...); é para despachar um barbeiro impertinente que se inventa um judiciosa tribunal dedicado a dirimir dúvidas absurdas quanto à aparência de dois objetos banais; é para reconduzir Dom Quixote à aldeia que seus amigos montam a farsa de uma princesa destronada e a pantomima dos feiticeiros-profetas".
Veja só o que ele fez: referiu-se às cenas sem acrescentar nada do que o leitor menos interessado consegue observar. 

Por isso, limito minha publicação nesta altura, sem mais nada acrescentar.  E, para justificar o (*) na citação acima, não concordo com o termo usado por Molina para descrever Dom Quixote.

Omnia Vanitas.
MOLINA, Sérgio. A obra-prima; página 33 à 45. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

27 de julho de 2016

O Retrato e a Escrita de Cervantes


Sabe as corriqueiras fotos de Miguel de Cervantes que encontramos na internet? Falsas. Sim, enganado leitor.

Nenhum retrato de Cervantes que foi apresentado ao público é uma representação fiel dos traços da fisionomia deste espanhol. Veja, iludido leitor, no que Viera nos elucida: ela escreve que nenhum retrato fidedigno deste espanhol, exceto aquele que ele mesmo descreve em seu prólogo de Novelas Exemplares. Como sou boa moça, tenho esta citação caricatura em uma publicação feita na época que li a obra em menção; então, clique aqui e saberás sobre o que ela escreveu.

Não há quem escreva sobre o escritor, por esse motivo, ele introduz um "amigo" que lhe descreve - porém, este amigo é o próprio Cervantes escrevendo sobre si. Vieira escreve o seguinte:

"A presença do 'amigo' não se dá apenas no prólogo das Novelas Exemplares. Trata-se de um recurso recorrente nos prólogos cervantinos, usando a primeira pessoas num discurso supostamente referencial, multiplica as vozes, desdobrando-se em um 'ele' que emite opiniões, confunde-se e se contrapõe à voz da primeira pessoa, fazendo com que o próprio autor se converta em uma terceira pessoa, provocando afetos e opiniões divergentes".

Anônimo leitor, você consegue imaginar que um escritor como Cervantes não tenha ninguém para lhe ajudar em um mísero prólogo, tornando-se ele mesmo o enunciador de seu caráter? É muita solidão! Eu mesma fiquei  triste ao descobrir o descaso que cobria este escritor na sua contemporaneidade.

Escrevendo Ocho Comedias y Ocho Entremeses, "o autor simula um diálogo com um livreiro que o acaba convencendo a publicar suas peças teatrais, já que elas não produziram interesse entre os diretores de companhias e corriam, assim, o risco de se perderem entre velhos papéis".  E, no dias finais que lhe vinham, ele se despede dos leitores com a seguinte frase:

"Adeus, graças; adeus, donaires, adeus jubilosos amigos; pois me vou morrendo, e desejando logo vos ver contentes na outra vida!"

...mas no prólogo desta obra, ele se depara com um "estudante" que é grande admirados do "Manco de Lepanto", e esta fantasiosa pessoa cita as qualidades do espanhol. Segundo Vieira o encômio do estudante se contrapõe à modéstia do autor e, e cita Jean Canavaggio ao acrescentar esta atitude "como a voz do reconhecimento que o próprio escritor planejava para si mesmo em suas derradeiras horas de vida".

Não é apenas o retrato que não conhecido do escritor, é o próprio escritor desconhecido para todos. 

Mas Cervantes não era desprovido de referências literárias, conforme escreve Vieira:

"É muito provável que Cervantes tenha tido contato com os teóricos italianos, sobretudo no período italianos, sobretudo no período em que viveu na Itália, mas também com as perspectivas espanholas (...). Além de orientações teóricas, Cervantes leu profundamente obras literárias e estabeleceu intenso diálogo com várias formas, não apenas com as novelas de cavalaria, mas também com os demais gêneros e conceitos. Desse modo, é plenamente possível ler as andanças do cavaleiro manchego como uma obra sobre a própria literatura, em toda sua complexidade". 

Cervantes tem uma preocupação ao escrever suas histórias: torná-las acessíveis tanto para leigos como para instruídos; ou "vulgares" e "discretos". Viera faz a descrição destas duas categorias, lê-se:

"Os leitores discretos seriam os leitores cultos e com discernimento, enquanto os vulgares seriam os incultos e néscios, mostrando completa incapacidade para discriminar. O discreto seria aquele leitor capaz de observar nuances no modo de contar, estando atendo aos percursos engenhosos do narrador, enquanto o vulgar ficaria limitado ao aspecto anedótico da narrativa, sem notar a gama de artifícios que ela contém. (...) Cada uma das espécies de leitores teria seu lugar garantido na obra, de maneira que ela pudesse agradar tanto o mais refinado, preocupado com a construção engenhosa, quanto ao que se limita ao aspecto puramente anedótico da narração".

E não era apenas essa característica que tornou as obras de Cervantes a dulcineia* de muitos leitores, o escritor mantinha-se fiel ao requisito principal para escrever uma obra no seu tempo: ser verossímil. Escreveu Vieira:

"Outro princípio fundamental no século XVI era o da verossimilhança. A narrativa que não a respeitasse corria o risco de ser classificada como totalmente  disparatada, equiparada às fábulas milésias, que buscavam apenas o deleite e não o ensinamento. (...) Como dizia Pinciano, o critério da literatura criativa era o de fingir de forma plausível, provocando admiração no leitor e ainda respeitando o princípio do utile dulce de fazer coincidir o ensinamento com o deleite".

E, para finalizar este artigo composto por Maria Augusta da Costa Vieira, escreve-se o seguinte, nas palavras de Cervantes em Novelas Exemplares, citada pela autora:
"Minha tentativa foi colocar na praça de nossa república uma mesa de bilha, onde cada um pode chegar e entreter-se sem danos alheios, digo, sem dano da alma nem do corpo, porque os exercícios honestos e agradáveis antes favorecem que prejudicam".

Omnias Vanitas.

*querida, namorada, amada

VIEIRA, Maria Augusta da Costa. Por que Ler o Clássico; página 25 à 31. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.



Primeira Parte: Cervantes e Seu Tempo
Segunda Parte: Por que Ler o Clássico
Leitura Complementar: entrevista feita pela Folha com a BNE em abril/2016.
Entrevista de Maria Augusta da Costa Vieira: Literatura Fundamental.


Por que Ler o Clássico Dom Quixote..


Caro leitor, eu achei a publicação anterior um pouco longa; então, para deixar um pouco menos longa, eu resolvi dividir este artigo de Maria Augusta da Costa Vieira em duas partes - talvez três. A dona Maria tem este artigo intitulado como "Por que Ler o Clássico". E, ainda falando um pouco do autor, eu vou pegar a escrita dela para acrescentar o que não foi escrito pelo Lopes. Sigamos, honorável leitor.

Viera se utiliza do mesmo argumento de Lopes ( e de qualquer pesquisador de Miguel de Cervantes) afirmando que o pouco material deixado pelos contemporâneos de Miguelito - e pelo próprio - não permite que a vida do espanhol seja explorada e entendida por aqueles que  sucederam sua época. Sendo assim, Viera acrescenta:

"(Cervantes) não deixou escritos que pudessem definir suas idéias acerca da poética e da literatura em geral (...). Cervantes não deu margem a esse tipo de especulação, que, sem dúvida, poderia permitir e estimular suspeitos cruzamentos entre aspectos biográficos e produção artística. Assim, não há registro de cartas, debates ou polêmicas travados com outros escritores e com a intelectualidade da época e, menos ainda, manifestos sobre seu !ido de entender a arte da composição literária. Cervantes foi !muito mais habilidoso: deixou uma obra em prosa e em poesia repleta de discussões e controvérsias sobre a literatura".

Um ponto que eu não havia lido sobre a biografia do espanhol é que sua origem pudesse ser judaica. Segundo Vieira, a profissão do pai, Rodrigo, que hoje corresponde a atividade sanitária (cirurgião) e as várias mudanças de local - tão comum entre os judeus que mudam-se constantemente em busca de lugares mais rentáveis financeiramente - conotam um caráter judaico aos pais de Cervantes.
Maria Augusta também descreverá a fuga da Justiça pela condenação que o aguardava por haver agredido um homem e, também, registrará a marcante participação de Cervantes na Guerra de Lepanto  que ocasionou o ferimento que inutilizou permanentemente a mão esquerda do espanhol.

Como já escreveu Lopes, em 1585 houve a publicação do A Galatéia; mas Viera acrescenta que a boa receptividade desta primeira publicação desencadeia, após cinco anos, a segunda edição. E, assim como Lopes, apresenta um leitor estrangeiro mais ávido para ler os escritos de Cervantes do que a pátria que o pariu.
O interesse neste patrício escritor desconhecido é motivo de conversa entre seus personagens dentro de Dom Quixote:

"Muitos anos há que é grande amigo meu esse Cervantes, e sei que é versado em desventuras que em versos. Seu livro tem algo de boa invenção; propoe algo e concluí nada: é mister esperar a segunda parte que promete" {Dom Quixote  I, VI}.

Depois de A Galatéia, Cervantes escreveu peças de teatro (a coqueluche daquela época) e listo A Destruição de Numancia como uma das obras rejeitadas por espanhóis e acolhida por alemães.

Segundo Vieira, Cervantes fica sem registro algum de 1598 e 1604 quando está prestes a lançar Dom Quixote. Sobre este período, ela escreve:

"Entre 1598 e 1604, pouco se sabe sobre Cervantes e de sua família. No entanto, às vésperas da publicação da primeira parte do Dom Quixote, sabe-se que reside em Valhadoli, ao lado da esposa, de duas irmãs, de uma sobrinha e da filha". 

Conforme um estudo de Roger Chartier em 2005, entre 1605 e 1615 ( ano de publicação da segunda parte de Dom Quixote)

"calcula-se que tenham sido publicados 13.500 exemplares da primeira parte da obra, divididos em nove edições (três em Madri, duas em Milão, duas em Lisboa, uma em Valência, uma em Milão e duas em Bruxelas), cifra surpreendente para uma época em que o número de leitores ainda era bastante reduzido".

A corte real tem consigo uma vasta fila de seguidores, então, quando está se instala em Madri, Cervantes encontra a possibilidade de se fazer valorizar ingressando na Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1606 e, poucos dias antes da sua morte em 1616, faz votos e encomenda dez missas para sua alma através da Ordem Terceira de São Francisco onde inicou três anos antes.

Quero fechar esta publicação com algo que deixa os atuais pesquisadores sobre a vida de Miguelito com pulga na cama:

"Deixou encomendadas dez missas pela intenção de sua alma e foi enterrado com o hábito dos franciscanos, no convento dos trinitários, em Madri: uma vida dedicada às armas e às letras. Sua filha, Isabel, morre em 1652 sem deixar herdeiros, quando os demais membros da família já haviam falecido, encerrando assim a história da família Cervantes y Saavedra".

VIEIRA, Maria Augusta da Costa. Por que Ler o Clássico; página 18 à 25.. Revista Entre Livros: EntreClássicos Cervantes nº 3: Ediouro.

Primeira publicação: Cervantes e Seu Tempo



Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...