9 de junho de 2015

Duas Vontades..


Eu adoro nadar! Mesmo quando meu professor insiste que eu devo aprender a nadar "borbo", eu gosto de nadar. 

E, durante as minhas aulas de natação, eu vejo, sentado na arquibancada, um rapaz que faz aula depois do meu horário. Ele está lá, sentado com seu livro, apreciando a leitura. 
Mesmo adorando nadar, eu sinto uma vontade enorme de sentar naquela arquibancada e ler. Estranho, não é?

Dias atrás, minha irmã ficou com gripe e eu fui sozinha para a natação. Como não precisei esperá-la chegar para caminharmos até ao complexo de esportes, cheguei mais cedo do que de costume para a aula. Então, "matei" minha vontade de sentar naquela arquibancada e ler. Quinze minutos, minha leitura era "Emma". Sentamos: eu, meu livro e meu chocolate.

Ontem, eu fui sozinha novamente. Não tive o mesmo  tempo livre que da primeira vez, então, vesti meu maiô, meu roupão e fui para a beira da piscina esperar minha hora da aula começar. Eu e meu livro, agora é "Mansfield Park", também de Jane Austen. Depois de poucos minutos, ouço meu professor gritar:

- Sai da teoria e vem para a prática!

Minha aula começaria. Guardei o livro no bolso do roupão e fui fazer uma atividade que adoro: nadar.

Omnia Vanitas.

8 de junho de 2015

Uma Carta de Cassandra Austen..


Estava lendo o blog da Raquel Sallaberry Brião sobre a compra da carta de Cassandra Austen (irmã de Jane Austen) para a sobrinha Fanny Knight.
Para finalizar a publicação, Raquel S.B. traduz a carta, que segue abaixo! Eu achei linda esta missiva e quase fui às lágrimas. Espero que logo seja publicado um livro com as cartas que Jane Austen trocava com Cassandra, será uma realização de leitora que anseio à muito tempo!
Segue a carta traduzida por Raquel Sallaberry Brião:






29 de julho de 1817
Chawton, terça-feira


Minha queridíssima Fanny,

acabei de ler sua carta pela terceira vez e agradeço sinceramente por cada gentileza para comigo, e ainda mais calorosamente por seus louvores a ela que acredito era mais conhecida por você do que qualquer outro ser humano além de mim. Nada desse tipo poderia ter sido mais gratificante para mim do que a maneira pela qual você escreve sobre ela, e se o querido Anjo pode saber o que se passa aqui, e não estiver acima dos sentimentos deste mundo, ela talvez possa receber com prazer o fato de ser tão pranteada. Tivesse sido ela a sobrevivente posso imaginá-la falando sobre você quase nos mesmos termos. Há certamente muitos pontos fortes de semelhança em suas personalidades; na intimidade entre vocês, e na forte e mútua afeição vocês eram idênticas.

Quinta-feira não foi um dia tão terrível como você imaginou. Havia tantas coisas necessárias a fazer que não houve tempo para infelicidade adicional. Tudo foi conduzido com a maior tranquilidade, e exceto que eu estava determinada que veria até o final, portanto estava na escuta, eu não deveria ter sabido quando eles saíram de casa. Assisti o pequeno cortejo, do comprimento da rua, passar; e quando desapareceu de minha vista eu a tinha perdido para sempre, mesmo nesse momento eu não fiquei subjugada, nem muito agitada como estou agora em escrever isto. Nunca houve um ser humano mais sinceramente pranteado, por aqueles que atenderam seu velório, do que foi esta querida criatura. Possa a tristeza com que ela partiu com da terra ser um prognóstico da alegria com a qual ela será saudada no céu!

Eu continuo toleravelmente bem, muito melhor do que se poderia supor possível, porque certamente tenho tido um cansaço considerável no corpo como também uma angustia mental faz meses; mas estou realmente bem e espero estar devidamente agradecida ao Todo-Poderoso por ter sido apoiada. Sua avó, também, está muito melhor do que quando cheguei em casa.

Não acho que seu querido papai pareça indisposto e creio que ele me parece muito mais confortável depois de seu retorno de Winchester do que antes. Não preciso dizer para você que ele foi um grande conforto para mim; de fato, eu nunca poderei dizer o suficiente da bondade que recebi dele e de todos outros amigos.

Eu tenho saído e me ocupado. É claro que essas ocupações se adequam melhor quando me deixam livre para pensar nela, a quem perdi, e realmente penso nela na mais variadas circunstâncias. Em nossas horas felizes de conversas confidenciais, nas animadas festas familiares que ela tanto adornava, em seu quarto de doente, em seu leito de morte, e (espero) como habitante dos céus. Ah, se eu puder um dia me reunir a ela lá! Sei que virá o tempo em que minha mente não ficará tão absorvida dela, mas eu não gosto de pensar sobre isso. Se penso nela menos na terra, que Deus garanta que eu nunca cesse de refletir sobre ela como uma habitante do céu, e nunca cesse meus humildes esforços (quando isto for do agrado de Deus) de juntar me a ela.

Olhando uns poucos e preciosos papeis os quais são agora minha propriedade, achei alguns memorandos, entre os quais ela quer que uma de suas correntes de ouro seja dada a sua afilhada Louisa, e uma mecha de seus cabelo seja destinada a você. Você não necessita de nenhuma garantia, minha querida Fanny, de que cada pedido de sua amada tia será sagrado para mim. Assim sendo me diga se você prefere um broche ou anel. Deus abençoe você, minha querida Fanny.

Acredite-me, mais carinhosamente sua,
Cass. Elizth. Austen

Omnia Vanitas.

Nota de esclarecimento em 08 de junho de 2016: Jane Austen faleceu em 18 de julho de 1817 e foi sepultada dia 24 de julho do mesmo ano, na cidade de Winchester, Reino Unido.

3 de junho de 2015

Harriet, A Chave para Emma..

"Oh, Deus! Gostaria de jamais tê-la conhecido!" (Emma, BBC Londres)

Quando o assunto é "Harriet Smith" as opiniões divergem.

Harriet é filha ilegítima de alguém que não quer ser encontrado e, para isso, paga os estudos da moça em Highbury. E a própria filha não tem interesse em saber do seu parentesco, parece não se interessar por ela mesma. Harriet é totalmente ignorante e sem caráter firme. Conforme o vento sopra, ela toma as decisões que outros a orientaram a  tomar. Mas, desocupado leitor, ela não é uma má pessoa, apenas é desligada de si - o que talvez seja pior.

Quando a "pobre senhorita Taylor" casou-se com o senhor Weston, Emma sentiu, pela primeira vez, o peso que a ausência da senhora Weston causou na sua vida. E, sem nada melhor para fazer, a protagonista decidiu que Harriet, a interna da escola da senhora Goddard, seria a substituta da sua amiga. 

O nível intelectual da ex-governanta de Hartfield e a nova amiga é muito distinto (pelos motivos que apresentei acima). E isso não parece incomodar Emma pois há, para a protagonista, o benefício de usar sua inteligência e persuasão para que Harriet faça aquilo que a patricinha decidir. Emma até tenta ser justa e deixar Harriet tomar suas próprias decisões, mas ela falha miseravelmente nesta tentativa. Um exemplo muito prático dessa situação é quando a pensionista recebe a proposta de casamento do senhor Martin. Emma tenta se manter imparcial, mas é possível perceber que seus olhares e intenções à Harriet  a levam a recusar o fazendeiro apaixonado. 
Considerações sobre o pedido de casamento, clique aqui.

E a trama se desenvolve com Harriet sendo a distração de Emma. Ela jura que o estúpido pároco da região, o senhor Elton, está apaixonado por sua amiga. Com esta travessura, a patricinha colhe sua primeira fruta da má ação.

Mas o ponto principal fica sendo quando ela eleva tanto o brio de Harriet, que esta não se contenta em ter um mero fazendeiro como marido, ela escolheu o melhor cavalheiro que Surry poderia ter: Mr. Knightley.

E então, Emma exclama o seguinte: "Gostaria de jamais tê-la conhecido!".

E não somente pelo motivo de Harriet estar apaixonada por Mr. Knightley que Emma lamenta essa amizade. A patricinha recorda de todos os acontecimentos que passaram juntas e descobre como foi imprudente em manter uma amizade tão sem propósito e, também, mal administrada com Harriet. A pobre pensionista, em sua cabecinha oca, tornou-se "a Criatura" e Emma, o doutor Frankenstein. Agora, havia a necessidade de livrar-se da amizade, de manter o convívio de Hartfield para Harriet isolado. 
A consciência de Emma entende o quanto imprudente e egoísta ela foi ao se aproximar da senhorita Smith.

Por todo o enredo que envolve essa amizade, Harriet é a chave para Emma descobrir o quanto sua personalidade estava longe de ser perfeita como ela imaginava. As considerações do senhor Knightley começaram a ser relevantes a ela. 

Se não fosse por Harriet, Emma ainda seria uma riquinha tola e nem desconfiaria que ao seu lado vivia o homem por quem ela se apaixonaria. Isso, nem mesmo o conselho de "George" poderia prever.

Omnia Vanitas.


22 de maio de 2015

Senhorita Bates

"Mas ela é tão divertida, extremamente divertida! Gosto muito de ouvir a Srta. Bates falar" (F.C.)

Faço minhas as palavras de Frank Churchill, é adorável ouvir a senhorita Bates falar (apesar de eu possuir somente o benefício de ler as falas desta senhorita).

A senhorita Bates não é apenas "senhorita Bates"; ela possui um nome, porém, eu não o grifei na minha leitura e perdi a oportunidade de lhe dizer, anônimo leitor, o nome de batismo desta simpática personagem. 
Ela é adorável. Consegue falar sobre diversos assuntos e com pessoas diferentes ao mesmo tempo! Ela sempre elogia a todos, indiferente do caráter. Sempre simpática e prestativa e incapaz de ofender alguém. Apaixonada pela sua sobrinha, pode enumerar por horas todas as qualidades da misteriosa Jane Fairfax. 
Infelizmente, há um momento que o coração desta adorável personagem é ofendido: no piquenique em Box Hill. Mas, na minha opinião, tudo deu errado nesse fatídico piquenique; e, para tristeza de quem tem carinho pela adorável senhorita Bates, seu caráter é ofendido justamente pela protagonista: Emma.  

Porém, todos os personagens gostam da pobre família Bates. Apesar de viverem humildes em Surry, nunca lhes falta alguém para olhar pela velha e pela senhora e senhorita Bates. As maçãs de Mr. Knightley estão sempre à disposição das Bates, o açougueiro e o padeiro também zelam por essas duas solitárias mulheres. Mesmo Emma conhece a carência financeira desta pobre família e beneficia a elas com um corte de carne da produção de sua fazenda. 

Talvez, sirva de exemplo para os leitores estes dois pontos que enumero na vida das Bates:
- elogiar sem olhar o demérito que uma pessoa (buscando sempre o melhor que há naqueles que nos cercam)
- dividir nossos bens com aqueles que sabemos que precisam de ajuda, mesmo que não sejam todos simpáticos e adoráveis como a senhorita Bates.

Para terminar, deixo uma fala desta adorável solteirona, que ocupa meia página do livro para dar um simples recado (rs).

- Jane, Jane, querida Jane! Onde está? Olhe, eis aqui seu xale. A senhora Weston diz que por favor ponha seu xale. Diz que tem medo que haja corrente de ar no corredor, embora se tenha feito todo o possível para procurar... Uma porta foi pregada! Uma quantidade de placa de metal... Querida Jane, tem que lhe pôr isso Senhor Churchill... OH, que amável é você! Muito obrigado por lhe ajudar... Muito agradecida! Que baile mais delicioso!, verdade? Sim, querida, como já te havia dito, saí um momento para ir a casa e ajudar a vovó a deitar-se... e tornei em seguida, e ninguém me sentiu falta de... Fui-me sem dizer uma palavra a ninguém, como já te disse que o faria. A vovó se encontra muito bem, passou uma noite encantadora com o senhor Woodhouse; estiveram conversando muito e jogaram gamão... antes de que se fora serviram o chá ali mesmo, com bolachas, maçãs assadas e veio; em algumas partidas teve uma sorte louca; e me tem feito muitas perguntas sobre ti, se lhe divertia e com quem dançava. «OH!», hei-lhe dito eu, «não posso adivinhar o que vai a fazer Jane; quando eu me fui estava dançando com o senhor George Otway; amanhã ela mesma lhe contará isso tudo; seu primeiro casal foi o senhor Elton, mas não sei quem será a próxima, talvez o senhor William Cox». Por Deus, OH, que amável é você! De veras não prefere dar o braço a nenhuma outra senhora? Não sou uma inválida... OH, é você tão amável! Vá, Jane em um braço e eu no outro! Alto, alto, não vamos tão às pressas que vem a senhora Elton! Querida senhora Elton, que elegante está você! Rendas tão lindas! Agora entraremos todos detrás de você, que é a rainha da festa... Bom, já estamos no corredor. Dois degraus, Jane, cuidado com os dois degraus. OH, não, só há um! Bom, pois eu estava convencida de que havia dois. Que estranho! Eu estava segura de que havia dois e só há um... OH! Nunca se tinha visto nada igual em comodidade e em distinção... Velas por toda parte! Estava-te falando da vovó, Jane... Só teve uma pequena decepção... As maçãs assadas e as bolachas eram excelentes, sabe?; mas para começar serviram um delicioso fricasé de moelas de vitela com aspargos, e o bom do senhor Woodhouse opinou que os aspargos não estavam bem fervidos e fez que os voltassem a levar. Mas, claro, a vovó não há nada que goste tanto como as moelas de vitela com aspargos... ou seja que ficou um pouco decepcionada... mas o que acordamos foi que não o diríamos a ninguém para que não chegue para ouvidos da querida senhorita Woodhouse, que se levaria um desgosto se o soubesse... Vá! Isso sim que é...! Estou deslumbrada! Nunca tivesse podido imaginar...! Que elegância e que luxo...! Não tinha visto nada parecido desde... Bom, e onde nos sentamos? Onde nos sentamos? Em qualquer lugar, com tal de que Jane não tenha corrente de ar. me dá igual me sentar em um sítio ou em outro. Ah! Me aconselha você este lugar? Bom, então senhor Churchill... só que me parece muito bom... mas, enfim, como você queira... O que você mande nesta casa não pode estar mal feito. Jane, querida, como vamos lembrar nos depois nem da metade dos pratos para contar-lhe a vovó? E sopa também! Santo Céu! Não teriam que me haver servido tão logo... mas cheira tão maravilhosamente que não posso resistir a tentação de prová-la.

Omnia Vanitas.

19 de maio de 2015

Anti-antagonista ..

Emma e Frank Churchill (produção BBC Londres, 2009)


Eu não consigo ler Emma e sentir raiva de Frank Churchill. Na verdade, em minha opinião, a leitura só se torna interessante quando ele surge na trama. Ele coloca fogo na vida pacata e sem sal de Highbury. 
Frank Churchill e seu corte de cabelo urgente em Londres - que outro personagem arrumaria uma desculpa tão tola e singular para comprar o presente de sua amada? 
Frank Churchill nunca será um canalha como Willoughby (Razão e Sensibilidade), Wickham (Orgulho e Preconceito), Crawford (Mansfield Park), Elliot (Persuasão) ... John Thorpe é um idiota e não um vilão em A Abadia de Northanger
Frank Churchill é só um cara apaixonado que se atrapalha na hora de disfarçar e guardar o segredo  de amar sua musa. 
Ele é divertido, envolvente, inteligente (na medida de um garoto de 24 anos), sociável e com uma vontade imensa para promover bailes em todos os lugares que se apresenta.

Se ele é para ser o antagonista, sinto muito, mas na minha opinião ele é o anti-antagonista. Tudo em Frank Churchill é divertido e envolvente. E, mesmo Emma descobre esse espírito alegre no jovem cavalheiro e não se deixa envolver por seus galanteios espontâneos e educados. 

Eu gosto dele do início ao fim, mesmo com a pisada na bola que ele dá quando acontece o piquenique Box Hill. 

Leitor, se um dia você tiver vontade de ler Emma, seja justo com Frank Churchill e sua paixão e, leitora, não condene o jovem cavalheiro  porque sua preferência é o adorável Mr. Knightley.

Omnia Vanitas.

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...