4 de janeiro de 2015

O Filho do Forçado..



Fim de outra leitura. Desta vez o escolhido foi meu querido Alexandre Dumas.

O título merece um pouco de atenção. O Filho do Forçado? Eu conheci este termo  nas leituras que fiz de Cervantes e Dumas. É uma expressão quase corriqueira. "Forçado" é uma expressão para "Galé" e "Galeras". Isso designa uma punição para os fora-da-lei: estes eram obrigados a trabalhar em galeras, ou seja, como remadores em navios. Esse serviço era comumente chamado de "forçado". Logo, o filho do "Forçado" é o filho de um fora-da-lei, bandido, criminoso etc. 

Essa edição que eu tenho foi publicada em treze de outubro de mil novecentos e trinta e sete. E, como mostra a imagem, tratava-se de uma revista chamada "A Novela". Segundo as propagandas que estão no exemplar, esta revista tinha publicações integrais ou por volume em seu conteúdo. No meu número além de "O Filho do Forçado" também há outras duas histórias: "Honolulu" do meu amado W. Somerset Maugham (que eu li em Histórias dos Mares do Sul) e "Falk" de Joseph Conrad (que não li). 
O interessante nesta simpática revista é que há várias piadas em forma de charges durante a história - algumas vezes há ilustrações de meia página.
Outro fator interessante é que a impressão do texto está dividido: há duas colunas (estilo bíblia sagrada) em cada página. Eu achei isso muito ruim, mas deveria ser bom para os impressores, pois poupa folha na hora da publicação. Ah! A letra! Eita "miserê"! Pequeninha que só! Eu tinha quase uma hora para ler uma página com duas colunas (rs) - exagero meu!

E a história?

Millette, uma sonhadora moça, casou com Pierre Manas - um vagabundo de primeira. Logo após o casamento, o dedicado marido mostrou o caráter preguiçoso e mandrião que lhe caracterizava. Além de vagabundo, ele batia na pobre Millette - que aprendeu a suportar tudo calada.  Após o casamento, o senhor Manas resolveu mudar-se com a infeliz esposa para Marselha - jurando à ela que nesta cidade poderia encontrar um emprego que lhe pagasse o justo que merecia. Claro que isso não aconteceu. 

Outro personagem - que me arrancou muitos risos durante a leitura - foi o pitoresco e mercenário senhor Paul Coumbes. Este ignorante senhor não media esforços para realizar seus sonhos - quase todos quimeras. Comprou uma casa em um lugar onde só havia rochas e cascalhos. E, jurou para si que lá nasceria a melhor horta de toda a França. Pobre senhor Coumbes. O vento lhe varreu o sonho durante muitas estações.

Mas, antes do senhor Coumbes mudar-se para a tão sonhada cabana, ele conhece o casal Manas e seu pequeno filho, Marius.

É em Marius que toda a trama se enreda.

Na época que o casal Manas se separou, o protagonista estava na tenra idade e nada se lembrara do pai. A mãe, depois de ser acolhida como empregada/amante do mesquinho senhor Coumbes, tratou de fazer o filho ser agradecido ao seu patrão pela benevolência que este mostrou a ambos. O pobre Marius, rapaz honesto e trabalhador - tão oposto ao pai - cresceu achando que era filho do patrão/amante de sua mãe. 

Com o passar do tempo, o senhor Coumbes adquiri, contra sua vontade, vizinhos. Este vizinho é um jovem abusado que passa às noites a atormentar a paz do primevo morador com bebedeiras, jogatinas e pregando peças ao vizinho exasperado. 
A paz é promovida por Marius - que se dispõe a levar um recado para o vizinho. Mas, ao invés de encontrar Jean, o vizinho; encontra Madelleine, a irmã deste. Paixão a primeira vista, claro! 

Toda a trama ficará rebuscada com a descoberta de Marius não ser filho do senhor Coumbes e, também com a volta de Pierre Manas.

E o que aprendi com essa leitura? Que quando você tenta ajudar uma pessoa, outra acaba em desgraça. 

Marius tentou acobertar o pai - na tentativa de honrar o nome paterno que nada tinha de orgulho a dar à família - em detrimento ao sofrimento da pobre mãe. 

Claro, que ao final, ele casa com a mocinha, sua condição hereditária é perdoada pelo irmão da moça e quase todos ficam felizes.

E o senhor Coumbes continua a ser o ganancioso e mesquinho ex-estivador. 

Dumas é assim, ele desenvolve uma trama onde a honra e os princípios morais e religiosos são sempre o alicerce para as decisões de seus protagonistas - em algumas histórias. Em O Filho do Forçado ele não agiu diferente.

É uma história muito agradável para ler - e mesmo o senhor Coumbes dar aflições aos nervos pela sua mesquinharia - é possível dar algumas risadas as custas do ex-estivador sempre atrapalhado.

Omnia Vanitas.



3 de janeiro de 2015

O Leitor e a Prisão de Ventre..


Boa noite, querido leitor!

Estou eu, no aconchego do meu lar, lendo e ouvindo meus discos de vinil, quando me deparo com uma lembrança do antigo dono do livro que possuo. 

Livro usado é assim, às vezes nos trás a agradável surpresa de uma lembrança do dono anterior! Desta vez pude perceber que o ex tinha um caso complicado de prisão de ventre. Será que que ele conseguiu chegar até a farmácia indicada? ;)

Omnia Vanitas.

Parabéns, Professor ..



Hoje é aniversário dele, John Ronald Reuel Tolkien

Este é um dos homens que têm a minha máxima estima. Ele não é apenas escritor, ele é um criador! Ele detestava ser chamado por essa alcunha "criador", mas eu não consigo descrevê-lo de outra forma. 
Ele criou Arda, a Terra Média, Dragões, Anões, Homens, Elfos, reis e reinos, costumes, tradições, lendas que ninguém pensou em criar antes. Ele criou idiomas!!! Cada língua com suas características próprias, escritas, desenhos e formas! Ele foi um homem admirável! Professor Tolkien foi uma dessas pessoas ímpares que surgiram entre nós - e talvez a humanidade só terá um semelhante depois que muitas gerações tiverem passado. 
Para ele, a leitura tinha um gosto diferente - não era apenas uma leitura que guiava mas que criava. Se você, caro leitor, tiver a oportunidade e a sensibilidade de ler O Silmarillion (sou apaixonada por esse livro), saberá sobre o que estou escrevendo. A Mitologia teve uma nova simbologia a partir de Tolkien. Não é atoa que nos livros dele está escrito a seguinte frase do The Sunday Times:

"O mundo se divide entre aqueles que já leram O Hobbit e O Senhor dos Anéis e aqueles que ainda não leram".

Outro fato que mantém o professor Tolkien em alta conta comigo (rs) é o seu carisma. Ele não foi desses intelectuais bestas que se auto-classificam "superiores". Ele gostava de rir, de conversar com animação e de contagiar os outros com suas histórias sem colocar em detrimento o ouvinte. Por isso repito, como o professor Tolkien houve, há e haverá poucos.

Infelizmente, pelo meu não gosto por leituras biográficas, eu fico devendo muitos pormenores da vida deste homem excepcional. Porém, prometo, para o próximo ano colocar em minha leitura as cartas deste querido Mestre!

Omnia Vanitas.

2 de janeiro de 2015

Ah King..

"Nenhum dos dois notou a aproximação do amor". - Somerset Maugham

No último dia de Dois Mil e Catorze eu terminei minha leitura de Ah King, do Somerset Maugham. Mas, apenas hoje, eu consegui me convencer de que poderia escrever sobre.

Eu já escrevi, anteriormente, sobre este livro - que erro terrível! Não permiti-me terminar para entender o todo do livro - agora, paciência.

Ao concluir a leitura, eu percebi que cada história mostrava um modo de amar.

Em Pegadas na Floresta o amante se submete a assassinar o esposo da mulher que ama para continuar com ela; A Porta da Oportunidade relata a decepção da esposa ao perceber que o homem que ama é covarde e indiferente ao sofrimento alheio - por isso não o suporta e se divorcia dele. O Vaso Ira descreve a engraçada paixão da irmã de um missionário pelo bêbado da cidade - que culmina em casamento feliz. Saco de Livros mostra o retrato da intimidade de dois irmãos que ultrapassa as convenções sociais. Além do Além foi o meu conto preferido. Pode o amor suportar o sofrimento e a honra? E, por fim Neil Mac Adam apresenta a determinação de um jovem em manter-se virgem a todo preço e a sua ira por uma mulher casada que lhe jura amor.

Você e eu, caro leitor, podemos não concordar com algumas "performances" de amar. Mas elas existem. Não podemos colocar a peneira em frente ao sol e achar que elas não são reais. Elas estão presentes desde antes de Maugham as descrever e vivem até hoje. Elas provocam dor, aflição, angústia, medo, sofrimento,  indiferença, alegria, êxtase, prazer etc. 
Eu concordo com Platão quando ele diz que ao toque do amor todos nos tornamos uma porta. 
Leitor, você pode ler vários livros, artigos, revistas, teste de alma gêmea e tudo mais. Mas uma coisa lhe digo, não adianta nada. Quando esse bichinho corroer seu coração, é tarde demais. Não há voz de razão que lhe coloque no prumo. Não há leitura de Jane Austen ou de Irmãs Brontë que lhe diga que a prudência é o melhor remédio. Ninguém é prudente quando se fala de amor e chocolate. 
Foi isso que senti ao terminar de ler este livro: não há regra. É essa delicadeza de Maugham em expressar de forma tão delicada sobre um assunto tão complexo: o amor. 

É isso aí...

Omnia Vanitas.

Histórias dos Mares do Sul ..


Terminei de ler Histórias dos Mares do Sul do meu querido Maugham. 

Todas as histórias deste livro são maravilhosas. Elas me remeteram à situações inusitadas, chocantes e ... perfeitas. Maugham é fantástico. Que tato delicado em compreender e transcrever a alma humana. 
Eu não quero me delongar neste post, pois tenho a impressão que não conseguirei fazer jus à obra. Ele é incrível.
Deixo a seguir o post scriptum como gostinho para ativar o paladar literário, querido leitor.
Leia Maugham!

Quando o nosso navio parte de Honolulu, penduram-nos ao pescoço leis, que são grinaldas de flores suavemente odoríficas. O cais regorgita de povo, e a banda toca uma derretida melodia havaiana. Os passageiros lançam serpertinas coloridas aos que ficam, e a amurada do navio engalana-se toda com as finas tiras de papel, vermelhas, verdes, amarelas, azuis. E quando o navio começa a mover-se devagar, as serpentinas rompem-se docemente, com um leve estalido. É como a ruptura dos laços humanos. Homens e mulheres são momentaneamente reunidos por uma fita de papel de cor alegre, vermelha, azul, verde ou amarela. Depois a vida os separa, e o papel se rompe, tão facilmente, com um pequeno estalido! Por uma hora ainda, os fragmentos tremulam ao longo do casco. Afinal o vento os leva. As flores da nossa grinalda murcham, e o seu aroma torna-se opressivo. Então jogamo-las ao mar.


Omnia Vanitas.

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...