4 de abril de 2013

Shirley .. Parte II



“São nove horas; a carruagem não voltará antes das onze, tenho certeza. Até lá sou livre; até lá posso ocupar o quarto dela, sentar-me em frente da sua cadeira, apoiar o cotovelo à sua mesa, ter em volta de mim estes deliciosos objetos que ma recordam.
“É bom escrever sobre a pessoa que me é mais querida do que o meu coração. Ninguém me pode tirar este livrinho, e graças a este lápis posso dizer aquilo que nem sequer ouso exprimir em voz alta.
“Raramente nos encontramos depois daquela noite. Uma vez, quando eu estava só no salão, procurando um livro para Henrique, ela entrou, vestida para um concerto. Foi o seu embaraço, e não o meu que pôs um véu entre nós. Quando passou diante da janela, depois de, tácita mas graciosamente, me haver reconhecido, apareceu ao meu pensamento como a “virgem sem mácula”: rodeava-a um delicado esplendor, e o seu recato de moça era a sua auréola. Eu devia estar com um ar estúpido e pesadão; senti as delícias do paraíso quando ela baixou os olhos diante dos meus, e desviou docemente a cabeça para esconder o seu enrubescimento.
“Eu sei que isto são divagações de um sonhador, o êxtase de uma louco romântico. Sim, estou sonhando; quero sonhar de quando em quando.
“Mas se ela encheu de vida minha natureza prosaica, que hei de fazer?
“Como ela é criança às vezes! Que vivacidade e que inocência há nela!
“Adoro as suas perfeições; mas são os seus defeitos, ou pelo menos, as suas fraquezas, que fazem com que eu a atraia a mim, que a ponha no meu coração, que a rodeie do meu amor, e isso pela mais egoísta e mais natural das razões; porque estes defeitos são os degraus que me fazer elevar acima dela.
“Mas, para falar com mais simplicidade, vê-la é um prazer; ela me agrada. Se eu fosse um grande senhor e Shirley minha criada, não poderia impedir-me de amá-la. Tirem-lhe a educação, os enfeites, os vestidos suntuosos, tirem-lhe toda a graciosidade, exceto aquela que a beleza da sua pessoa torna inevitável; apresentem-na à porta de uma cabana; eu gostarei dela.
“Que negligência, deixar assim aberta a sua escrivaninha, onde sei que há dinheiro! Aqui estão as chaves de todos os seus móveis, mesmo a do cofre de joias. Nesta bolsa de cetim também há dinheiro. Semelhante espetáculo havia de encolerizar meu irmão Roberto; todas as pequenas fraquezas dela, bem o sei, seriam para ele um motivo de irritação. Se me envergonham a mim, é uma deliciosa vergonha. Adoro encontrá-la em falta. Quanto mais o humor dela é decidido, malicioso, impertinente, quanto mais ela me dá motivos para desaprovar, tanto mais eu a procuro e a amo. Nunca ela é menos tratável do que quando, montada na sua égua, volta de cavalgar nas montanhas; e, contudo, confesso-o a esta página muda, tem-me acontecido de esperar uma hora, no pátio, para assistir ao seu regresso, e para a receber nos meus braços ao descer da sua montaria. Tenho observado (é ainda uma coisa que só confio a esta página) que ela só de mim consente este auxílio. Sei agora, sabe-o o meu coração, porque o sentiu, que ela se me abandona sem qualquer aversão. Saberá ela a alegria que sinto em pôr a minha força ao seu serviço? Não sou escravo dela, declaro-o, mas o meu ser é atraído para a sua beleza, o meu saber, toda a minha prudência, toda a minha calma e toda a minha força estão aos seus pés, esperando humildemente uma tarefa a cumprir.
“Chamei-lhe negligente; é digno de nota que a sua negligencia não comprometa nunca a sua elegância; e é nisso que se pode verificar a realidade, a profundidade, a pureza dessa elegância. Tenho tido nas minhas mãos muitos objetos dela, porque muitas vezes ela os deixa em qualquer lugar. Nunca vi nenhum que não revelasse a mulher mais delicada. Em um certo sentido, ela é tão minuciosa como em outros é imprudente; fosse ela aldeã, seria, da mesma forma, elegante e asseada. Veja-se a pureza desta luva, a frescura do cetim desta bolsa.
“Que diferença entre S. e essa pérola da C.H.! Carolina, imagino eu, é a alma da pontualidade conscienciosa e da exatidão; conviria perfeitamente aos hábitos domésticos de meu irmão. Ela é tão delicada, tão hábil, tão engenhosa, tão diligente, tão calma! Com ela tudo se faz imediatamente, tudo é desenhado a esquadro. Ela conviria ao Roberto; mas que poderia eu fazer de coisa tão perfeita? Ela é minha igual, tão pobre como eu. É linda, sem dúvida, uma linda cabeça de Rafael. Mas que há nela que seja preciso aturar, que se tenha de censurar? É composta de tons pálidos, como os lírio dos vales, mas a cor ser-lhe-ia inútil. Como retocar essas perfeições? Que pincel se atreveria a aflorar essa pétalas? Na minha bem-amada, se algum dia eu tiver algumas, quero antes uma semelhança com a rosa; há de ser uma doce e profunda delícia guardada por um eriçamento de espinhos. A minha mulher, se eu algum dia me casar, deverá espicaçar a calma dos meus nervos. Não me fizeram tão calmo para ser emparelhado com uma cordeirinha; e eu teria uma responsabilidade mais de acordo com o meu temperamento, tendo a meu cargo uma leoa ou uma pantera. Não gosto das coisas doces, se não são picantes; ou das coisas brilhantes, se ao mesmo tempo não queimam.
“Oh! Minha discípula! Turbulenta demais para o céu, inocente demais para o inferno! Nunca poderei eu então ir além de ver-te, adorar-te, desejar-te? Ai de mim! Sabendo que poderia fazer-te feliz, estarei condenado a ver-te na posse de quem não tem esse poder?
“Tomai cuidado, Sir Filipe Nunnely.
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“Aí vem a carruagem! Fechemos a escrivaninha e guardemos as chaves. Ela há de procurá-las amanhã de manhã: terá de vir falar comigo:
“- Senhor Moore, não viu minha chaves? – Assim ela dirá na sua voz clara, falando com hesitação e parecendo envergonhada à ideia de que á vigésima vez que me faz tal pergunta. Posso conservá-la na expectativa e na dúvida; e, quando lhe restituir estes objetos, não deixarei de lhe ralhar. Aqui estão a bolsa e o dinheiro, as luvas, a pena, o sinete. Terá de arrancar lentamente, um por um; e só à força de uma confissão, de penitência, de súplicas. Nunca posso tocar na sua mão, ou numa madeixa dos seus cabelos, ou num laço dos seus vestidos; mas hei de reservar-me privilégios: cada traço do seu rosto, os seus olhos brilhantes, os seus lábios, passarão, para o meu prazer, por todas as transformações que podem sofrer; exibirão as deliciosas mudanças do olhar e da expressão, para meu enlevo, para me penetrarem, talvez para me agrilhoarem. Se tenho de ser escravo dela, não quero perder a minha liberdade por coisa alguma do mundo”.
Fechou a escrivaninha, pôs todos os objetos no bolso e saiu do aposento.

BRONTË,Charlotte.SHIRLEY, Capítulo 26. Ed. José Olympio,1949.

28 de março de 2013

Carrie, a Estranha - mas nem tanto..


Terminei de ler "Carrie, A Estranha".

O livro é muito bom. "Carrie, AE" é um daqueles livros que você assisti ao filme e, depois, não quer dar muito crédito ao livro por achar que poderá ser frustante ler a repetição do filme sem nenhum acréscimo de "emoção". Eu fiz isso com "Carrie, AE".

À mim, o livro emocionou com a declaração do autor sobre como foi inspirada história: em seus dois fantasmas, Tina White e Sandra Irving. Confesso, fiquei com um nó na garganta ao ler este relato.

Assim como Stephen King, também tenho minhas confissões a fazer.

"Carrie, AE" é um relato do típico tratamento americano sobre adolescentes maltratando adolescentes. O tratamento de Carrie é um caso gritante de bullying. Acho que não preciso esclarecer o que é "bullying", visto os grandes absurdos que servem de exemplo para esse tipo de tratamento ao próximo.

Bom, eu já oprimi algumas pessoas. Bom, talvez não publicamente, mas, o fato de me divertir (sem participar), para mim, dá no mesmo. Lembro da frase de Martin Luther King que diz: "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons".
Um ditado pode ser acrescentado: quem cala, consente.

Quando eu estava na sexta série, eu tive uma professora de Artes muito estranha. Ela se vestia estranha, falava estranho, andava estranho e era feia. Acho que eu tinha uns 13 ou 14 anos. Eu era estranha. Cabelo horrível, espinhas no rosto etc. Mas aquela professora era mais estranha do que eu. As garotas mais descoladas (filha de diretora, professora e agregados em geral) zoavam a professora à torto e à direito com perguntas que a inibiam, risadinhas escondidas e comentários maldosos. Eu sei, éramos adolescentes e cabeças ocas, em geral. Mas havia aquela turma que respeitava o outro. Eu era da turma dos que riem da piadinha sem graça e, depois, sentem "pena".
Ela não foi minha única professora estranha.
No ensino médio eu tive dois professores que chamaram a atenção da sala - não do modo positivo.
O primeiro foi meu professor de História. Ele era vesgo. Então, para zoar com ele, todas as vezes que ele olhava para um dos alunos, o que estava ao lado perguntava: O professor está falando comigo? - A risada era inevitável.
O outro professor era um senhor baixo, gordinho. Ele ia com uma bicicleta velha para a escola. A zoada com ele era por causa do "tic" nervoso que ele tinha (ou ainda tem). Para cada cochicho em sala, ele soltava um "shii" para o "barulhento". Um dia, para divertir a sala, eu e minhas amigas contamos quantas vezes ele fez "shii" em sala de aula.

Ao contrário de Carrie, os meus alvos não eram meus semelhantes - eram pessoas com grau superior à mim. Porém, ainda sinto um sentimento "estranho", talvez consciência pesada, por haver menosprezado essas três pessoas, em especial. Realmente, triste.

Bom, voltando ao livro.

Carrie foi alvo de bullying desde a primeira série: gorda, religiosa e pobre - só para começar. E, para piorar, mãe estranha, adolescência com espinhas, timidez estrema e gorda - mas nem tanto.

Carrie não reagia. Ela deveria ser mesmo engraçada, pois as pessoas viviam rindo dela, ela pensava.

Um dos piores dias de Carrie, foi quando ela menstruou pela primeira vez. Ela achou que estava morrendo e, suas colegas de classe, quase a mataram de vergonha.
Foi nesse dia que ela descobriu que era telecinética. Bom, não quero falar desse fenômeno paranormal da protagonista - apesar de ele ser o grande barato do livro.

Além de Carrie, outra pessoa teve uma descoberta: Susan (Sue) Snell. Gostei dela no filme e também no livro. Achei legal a atitude dela com Carrie. Cheguei a achar nobre o que ela fez. Porém, quando fechei o livro, hoje, pensei: "Ela empurrou Carrie para o precipício".

Sue pediu ao seu namorado Tommy Ross para levar Carrie ao fatídico Baile de Primavera. Tommy foi ao baile e lá mesmo morreu. Eu senti um aperto no coração quando soube da morte dele. Eu gostei dele, um cara legal, bonito, não era esnobe, inteligente e tals. Um genro perfeito para meus pais.

Susan tentou aliviar a consciência por haver oprimido Carrie no episódio da menstruação presenteando a telecinética com a companhia do bonitão e popular da escola no Baile da Primavera.

O que eu penso disso: se quer fazer algo por alguém, faça você mesma  e não mande alguém no seu lugar.
Se Sue queria amenizar sua consciência ou humanizar-se em relação à Carrie, que ela mesma tomasse a dianteira e fosse ao encontro da oprimida - não se esconda atrás de ninguém.

Acho que isso tem a ver com pedir confessar o erro: admitir que estava errada. É ter que encarar o outro e falar algumas palavras pesadas, como: "Eu errei com você".

Talvez, andar com pessoas como Carrie é o mesmo que compartilhar a placa "Chute-me" nas costas. Ninguém quer andar com perdedores. Ninguém gosta de ser alvo de chacotas. Sentimos pena dessas pessoas, mas não andamos ao lado delas. Pouca vezes tomamos suas dores ou ajudamo-as à enfrentar seus medos e monstros.

Quem sabe, se Sue tivesse chamado Carrie para ir à sua casa, ou ter ido tomar uma cerveja verde no Kelly Fruit Company - ter feito ela participar da vida social comum - teria feito da protagonista alguém menos trágica, mesmo a telecinética ser muito legal (rs).

As pessoas tem medo daqueles que possuem "dons" especiais como os de Carrie - e, por isso isolam e menosprezam, algumas vezes.  Que possamos ter menos Carries, Tinas e Sandras. Que sejamos mais ousados em acolher do que oprimir, visto que o último parece ser mais cômodo.

Omnia Vanitas.







20 de março de 2013

E eu sei que é amor..





Vejam que reportagem mais fofa!!!


O inglês Jack Potter não quer que sua esposa Phyllis esqueça o amor que os une há mais de 70 anos. Sabendo que Phyllis sofre de demência e falta de memória, o homem visita todos os dias a casa de repouso na cidade de Rochester, Inglaterra, e lê para ela o diário que guarda desde o dia em que se conheceram.
O inglês, de 91 anos, disse ao jornal Daily Mail Online que lembra exatamente do momento em que os dois se cruzaram, num baile. Foi em 1941 (casaram em 1943) e no diário escreveu: “Foi uma noite muito agradável. Dancei com uma garota muito legal. Espero encontrá-la novamente”.Esses e outros momentos, como o casamento, as férias, as fotografias e todos os momentos partilhados a dois, estão nesse diário que Jack faz questão de ler para sua esposa demente. Apesar de debilitada, Phyllis se esforça para abraçar o marido. Eles festejaram 70 anos de casamento.

Fonte: clique aqui.

5 de março de 2013

Novela real..


Está é uma novelinha que eu gosto de acompanhar, quando possível! E, por ser uma novela de época, algumas curiosidades reais se misturam e compõem a ficção; como a reportagem abaixo que está no site da novela LADO A LADO, na Globo.com.


Acuada, Constância (Patrícia Pillar) é capaz de tudo para impedir que Laura (Marjorie Estiano) denuncie um esquema de corrupção no Judiciário do qual a megera faz parte - Constância "comprou" o promotor do processo movido por Isabel. Para isso, ela chega ao limite da razão e interna a própria filha em um sanotório. A autora Cláudia Lage conta que esse momento dramático foi inspirado em histórias reais e serve para mostrar o quanto muitas mulheres sofreram, apenas por sonharem com novos horizontes. Confira a entrevista:
Na época, era comum mulheres serem internadas em sanatórios simplesmente por contrariarem seus pais ou maridos? Isso aconteceu com mulheres que se destacaram pelo trabalho intelectual, no jornalismo, por exemplo?

Cláudia Lage - "Era uma prática comum no século XIX, que perdurou até meados do século XX. Na pesquisa que nossa pesquisadora, Luciane Reis, fez pra gente, os prontuários dos médicos eram impressionantes. As justificativas para a internação parecem inverossímeis aos olhos de hoje. 'A paciente apresenta grave obsessão por livros', 'desprezo pela família', 'excitação sexual nervosa', 'recusa em ter filhos'. Um dado notável é que boa parte das pacientes nos sanatórios eram mulheres que haviam estudado além do estipulado para as mocinhas na época, que só aprendiam o suficiente para ler, escrever e fazer contas. Elas foram além, fizeram o curso normal ou ainda eram normalistas, dedicavam-se ou não ao magistério, mas eram mulheres com o intelectual acentuado, com interesses sociais e profissionais, que fugiam à ideia do casamento e da maternidade como o único destino possível. Não que não quisessem se casar e ter filhos, mas buscavam também a realização pessoal fora da família. Foram tantas mulheres que passaram por isso, a maioria anônimas, que os seus nomes só chegaram a nós por meio de suas tristes histórias, já que todo o impulso delas de independência foi sufocado pelos familiares, o pai ou o irmão, ou pelo marido, que tinham a autorização para interná-las mesmo contra a vontade. Quer dizer, eles tinham o poder de julgar e decidir se suas esposas, irmãs e filhas eram loucas ou não, e interná-las caso assim desejassem. Do mesmo modo, só eles, ou uma junta médica, podia tirá-las do sanatório, ou deixá-las para sempre lá, como foi o caso de muitas".

No sanatório, Laura vai contar com a ajuda de uma interna. Essa personagem representa alguma dessas mulheres que queriam mais da vida?
Cláudia Lage - "Laura vai conhecer no sanatório uma interna, a Judite, que, como ela, não tem nenhum problema psiquiátrico e também foi jornalista quando mais jovem. Inspirada em muitos casos reais, que vimos na pesquisa, Judite foi internada pelo próprio marido e esquecida no sanatório. Quando Laura chega, ela já está lá há 11 anos. A personagem ganhou esse nome, Judite, em homenagem a um texto da escritora Virgínia Woolf, no qual fala que se Shakespeare tivesse tido uma irmã tão talentosa quanto ele, ela nunca teria as mesmas oportunidades, e nunca se tornaria uma grande dramaturga. Virgínia batiza essa irmã fictícia de Judite. Enquanto Shakespeare ia para a universidade, Judite ficava em casa descascando batatas, por imposição dos pais. Essa irmã de Shakespeare, criada pela Virgínia Woolf, simboliza todas essas mulheres repletas de potenciais e de desejos, todos refreados e sufocados pela mentalidade sexista da sua época".
Constância vai ter alguma crise de consciência depois dessa maldade? Ela vai perceber que passou dos limites?

Cláudia Lage - "Constância vive de acordo com os próprios princípios. Ela justifica os atos mais cruéis como um sacrifício pelo bem e pela reputação da família, e fará o mesmo com a internação da Laura. Para ela, a filha passou dos limites ao querer ser uma jornalista profissional, somando a isso a matéria que Laura vai escrever sobre a corrupção no judiciário e a decisão de depor como testemunha da Isabel. No sanatório, a mãe leoa, que, apesar da vilania, ama a filha, dará lugar à mãe cruel e devoradora, que não aceita que o filho reja o próprio destino".

28 de fevereiro de 2013

Chiquinha Gonzaga..



Reportagem: Terra.

Há 88 anos, o Brasil perdia uma das maiores contribuidoras musicais e figura marcante no cenário dos direitos humanos: Chiquinha Gonzaga. Francisca Edwiges Neves Gonzaga foi a primeira compositora da música popular brasileira, autora de duas mil composições e abolicionista. Nasceu no dia 17 de outubro de 1847, na cidade do Rio de Janeiro.

Aos 16 anos, ela foi forçada pelos pais a se casar com um oficial da Marinha Mercante, Jacinto Ribeiro do Amaral, com quem teve três filhos: João Gualberto, Maria do Patrocínio e Hilário. Abandonou-o por um engenheiro de estradas de ferro, de quem logo se separou, e sobrevivia como professora de Piano.

Com o fim do casamento, Chiquinha entrou em contato com o meio boêmio carioca. Mas uma mulher separada no século XIX era uma aberração na sociedade, e Chiquinha pagou um preço alto. Foi expulsa de casa por seu pai que, a partir daquele momento, renegou sua paternidade. Levou consigo apenas o filho mais velho, João. Maria foi criada pela avó materna e Hilário, por uma tia.

Em 1877, estreou como compositora com a polca Atraente, que foi publicada pela editora de Joaquim Antonio Calado, amigo que a ajudou a ingressar no universo musical. Com ele formou uma dupla que foi precursora do choro ou chorinho. Como maestrina, a estréia aconteceu com a opereta A Corte na Roça, em 1885.

Ao lado da carreira de maestrina, compositora e pianeira, dedicou-se também às campanhas abolicionista e republicana. Chiquinha vendia suas músicas de porta em porta e, com o dinheiro obtido, libertou o escravo Zé da Flauta. Após a abolição da escravatura, compôs um hino em homenagem à princesa Isabel. Na campanha republicana, protestava contra a monarquia em locais públicos, utilizando-se do seu prestígio para propagar a idéia.

Chiquinha é a autora da primeira marcha carnavalesca do País, Ô Abre-Alas, composta em 1899. Faleceu em seu apartamento no Rio de Janeiro aos 87 anos de idade, no dia 28 de fevereiro de 1935, antevéspera de Carnaval.

Medalha
A Medalha Chiquinha Gonzaga, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, é concedida todo ano às personalidades do sexo feminino que tiveram destaque, seja em áreas artísticas, culturais ou humanitárias.

Homenagens, séries e filmes
Em 1999, a Rede Globo exibiu a minissérie Chiquinha Gonzaga. Regina Duarte interpretou a compositora e a elogiou, dizendo ser uma mulher "extraordinária e de pulso firme". No filme Brasília 18%, quem deu vida à Chiquinha foi Bete Mendes. Malu Galli a interpretou no filme O Xangô de Baker Street, baseado no livro de Jô Soares.

Chiquinha Gonzaga também recebeu homenagens de escolas de samba. No ano de 1985, quem fez um tributo foi a Mangueira, com o enredo Abram Alas Que Eu Quero Passar. Em 1997, foi a vez da Imperatriz Leopoldinense, com o samba Eu Sou Da Lira, Não Posso Negar.

Casarão
Em 2010, um fogo destruiu o casarão em que viveu Chiquinha Gonzaga. O imóvel estava abandonado, e já havia sido usado como sede do Arquivo Nacional de Teatro. O imóvel de dois pavimentos servia de abrigo a invadores.

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...