2 de junho de 2013

Alfarrábio..


Reportagem abaixo encontrada no blog da Veja

Eu sou adepta à compra de livros de segunda mão. É uma ótima maneira de ser sustentável nesta Era. Já escrevi algo em relação à isso, portanto, para não repetir post, clique aqui. ou, na imagem ao lado descrita como: "Campanha do Livro Usado".
A menos que algum estudioso desencave um documento de época que nunca veio à luz, a consulta de Bruno não tem uma resposta definitiva, do tipo que se possa escrever na pedra. Sebo como sinônimo de alfarrábio, ou seja, loja de livros usados, é um brasileirismo que surgiu informalmente, a princípio como gíria, e sobre sua origem tudo o que há são especulações. Isso não nos impede de, por eliminação, chegar a uma resposta provavelmente correta, como veremos adiante.
Primeiro, vamos às eliminações.
A tese do SEcond-hand BOok me parece mais falsa do que promessa de candidato a vereador. Talvez fosse defensável se houvesse em inglês, mesmo que apenas num vilarejo esquecido do País de Gales, a palavra sebo com o mesmo sentido, mas não há. Seria necessário imaginar a existência em algum ponto da história de um estabelecimento comercial brasileiro, anglófono e com peso cultural suficiente para dar origem a uma acepção popular – e do qual, apesar dessa popularidade, não restasse registro algum. Na seara da etimologia fantasiosa, que agrada a tanta gente, prefiro a tese que deriva sebo das iniciais S.E.B.O., isto é, Suprimentos Econômicos para Bibliófilos Obsessivos. Soa melhor, não soa? O único problema é que acabo de inventá-la.
A história da velha vela de sebo que escorre sobre as páginas não chega a ser exatamente delirante, mas também reluto em comprá-la – mesmo a preço de sebo. O maior problema aqui é cronológico: tudo indica que a acepção livreira de sebo entrou em circulação em meados do século 20, quando a leitura à luz de velas já era história antiga.
Há quem cite ainda, para acrescentar à confusão uma tese não mencionada por Bruno, o caminho erudito que o etimologista brasileiro Silveira Bueno encontrou para explicar o sentido da palavra “sebenta”, que em Portugal é sinônimo de apostila, caderno de apontamentos das lições dadas em sala de aula. O estudioso foi buscar a origem do termo no português arcaico “assabentar”, isto é, instruir, o que é interessante. Mas Silveira Bueno em momento algum sugere que se recorra à etimologia de “sebenta” para explicar sebo. Além do fato de a primeira palavra ser portuguesa e a segunda, brasileira, apostilas usadas nunca foram itens característicos de tal tipo de comércio.
Resta de pé, assim, a hipótese mais simples: a de que essa acepção de sebo (do latim sebum, “gordura”) tenha surgido como metonímia brincalhona a partir da ideia irrefutável de que livros muito manuseados ficam ensebados, sujos, engordurados. Com poucas exceções, a simplicidade costuma ser um bom norte para quem navega no mar alto da etimologia. Essa tese eu compro sem susto – pelo menos até alguém descobrir num sebo um volume sebento no qual fique provado que S.E.B.O. não era uma ideia tão maluca, afinal.

11 de maio de 2013

A Lista que não é a Schindler ..



Usei parte da minha manhã livre para atualizar minha lista de livros ainda não lidos. Sim, vaidade pura e descarada.
Porém, ela (a lista) precisava de uma ordem nova. Meu propósito de não comprar livros até chegar a metade da primeira lista foi um fiasco completo. Portanto, parei de me enganar sobre mim mesma.

Os livros que estão em vermelho são os que eu adquiri neste ano. Adicionei um pequeno espaço para os livros que emprestei para amigos - que permanecerão amigos se devolverem intactos os títulos que emprestei (risada).

Estou lendo "O Arqueiro" de Bernard Cornwell - que, por motivos acadêmicos e eclesiásticos, está com a leitura atrasada. Este é o décimo segundo livro que leio este ano.
Estou feliz que dos livros que comprei, poucos ainda estão na prateleira - considerando que "Novelas Inacabadas" e "Sentinelas do Apocalipse" foram adquiridos nesta semana:

- O Leitor (Bernhard Schilink) - início da leitura 22/1/13
- Shirley (Charlotte Brontë) - início da leitura 10/3/13
- Cinquenta Tons do Sr. Darcy (Emma Thomas) - início da leitura 8/3/13
- O Segredo e Lily Hart (Charlotte Brontë)
- O Professor (Charlotte Brontë)
- O Juramento da Duquesa (M. Pinheiro Chagas)

Na verdade, observando a lista que postei, posso desconsiderar "O Iluminado" e "A Máscara Vermelha" livros comprados.
"O Iluminado" foi uma troca - estava lendo "A Hospedeira" e desisti, fui até um sebo e troquei. Logo, não comprei.
"A Máscara Vermelha" foi um presente de grego dos meninos do trabalho - visto que eles pagaram o livro em troca de uma Coca-Cola (risada). Adoro eles!

Minha lista soma 49 livros que ainda não li. Que a força esteja comigo!

Bom, é isso aí, pessoal!


Omnia Vanitas!

7 de maio de 2013

Dom Quixote ..






Minha parte preferida em O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes Saavedra.


"Este, cheio de espanto e confusão, depois de passado um bom espaço de tempo, no qual esteve olhando para Dorotéia, alargou os braços, e, deixando-a livre, disse:
— Venceste, formosa Dorotéia, venceste, porque não é possível haver ânimo para negar tantas verdades juntas.
Lucinda, por causa do desmaio que havia sofrido, assim que D. Fernando deixou de sustê-la, ia a cair no chão, porém Cardênio, que ao pé dela estava, colocado atrás de D. Fernando para que este o não conhecesse, perdido todo o receio, e aventurando-se a correr todo o risco e perigo, a sustentou em seus braços e ao mesmo tempo lhe disse:
— Se aos céus piedosos apraz que chegues a gozar algum descanso, em nenhum lugar, leal, firme e formosa senhora minha, o encontrarás ao meu parecer mais seguro que nestes braços que te agora recebem, e que já em outro tempo te receberam quando a fortuna permitiu que eu pudesse chamar-te minha.
A estas palavras Lucinda, firmando a vista em Cardênio, a quem começara a conhecer primeiro pela voz, agora se certificou de que era ele próprio, e sem atender a algum honesto respeito, quase como fora de si, lhe lançou os braços ao pescoço, e, juntando o seu rosto com o dele, lhe disse:
— Vós sim, senhor meu, vós é quem sois o verdadeiro dono desta vossa cativa, por mais que a isso se oponha o poder de uma inimiga sorte, e por maiores ameaças que feitas sejam à minha vida, que só na vossa se sustenta.
(............................)
A este tempo Dorotéia, que estava olhando para D. Fernando, como que entreviu mudar ele de cor, e que dava ares de querer vingar-se de Cardênio, porque lhe viu levar a mão ao punho da espada; e, havendo observado isto, com infinita presteza se lhe abraçou aos joelhos beijando-lhos, e tão fortemente que não o deixava movê-los, e com muitas lágrimas lhe dizia:
— Que pensas tu fazer, tu, que és o meu único refúgio, neste tão inesperado transe? Tens a teus pés a tua esposa, e aquela que querias que o fosse está nos braços de seu marido: medita se porventura te ficará bem quereres desfazer, ou se isso te será possível, aquilo que o próprio céu tem feito, ou se te será conveniente o igualares a ti mesmo aquela que, saltando por cima de todas as dificuldades, confirmada na sua própria firmeza e lealdade, apresenta diante dos teus olhos os seus banhados em amorosas lágrimas, capazes de inundar o rosto e o peito do seu verdadeiro esposo. Por Deus, senhor meu, te rogo e mesmo até por quem tu és te suplico, que este tão notório desengano não só não acrescente a tua ira, mas antes de tal maneira a diminua e adoce, que permitas a estes dois amantes poderem, durante todo o tempo que o céu para isso lhes conceder, gozar descanso e tranqüilidade, mostrando assim a generosidade do teu nobre e ilustre peito, e então verá o mundo que a razão tem contigo um poder muito superior ao do apetite.
(....................................)
A estas razões ajuntaram os demais várias outras, tais e tantas, que o valoroso peito de D. Fernando, como quem era alimentado por sangue tão ilustre, se abrandou e se deixou vencer pela verdade, a qual lhe era impossível negar, ainda que o quisesse fazer; e o sinal que deu de haver-se rendido e sujeitado ao bom parecer, que lhe fora proposto, descobriu-o ele, abaixando-se e abraçando Dorotéia, dizendo ao mesmo tempo estas palavras:
— Levantai-vos, senhora minha, pois não é justo estar a meus pés ajoelhada aquela que eu tenho posta dentro da minha alma; se até aqui não tenho dado indícios de ser verdade o que digo agora, talvez assim o céu o dispusesse para que, havendo eu visto a fé constante com que sou por vós amado, soubesse melhor e mais completamente apreciar-vos e estimar-vos no alto valor que mereceis: suplico-vos que me não repreendais pelo mal que tenho procedido para convosco, pois a mesma força de paixão que me moveu para querer-vos por minha, foi essa a própria que me impelia a procurar o não ser vosso: e porventura para prova desta verdade, e para desculpa dos meus desvarios, atentai nos olhos encantadores da ao presente tão alegre Lucinda, e neles encontrareis a única explicação possível de meus erros; e pois que ela achou e alcançou o que desejava, e eu achei em vós aquilo que me convém, viva Lucinda segura e satisfeita por anos dilatados e venturosos com o seu Cardênio, e eu ajoelhando perante o céu lhe rogarei que me conceda viveis com a minha Dorotéia.
E havendo acabado de dizer isto, tornou de novo a abraçá-la, ajuntado seu rosto com o dela, com um sentimento de tão viva ternura, que necessário lhe foi ter grande cuidado em que as lágrimas não viessem dar provas indubitáveis do seu amor e do seu arrependimento".

26 de abril de 2013

Atrasada..


Publicação atrasada! Encontrei essa notícia no site Jane Austen em Português (www.janeausten.com.br) da competentíssima (ou você acha que chamariam uma mera leitora de clássicos para fazer a apresentação?) Raquel Sallaberry Brião - acho chique esse nome! rs.

É um capítulo do livro "Sanditon" que foi lançado, ontem, no RJ, com a presença do renomado Ivo Barroso e da mestra Raquel Sallaberry Brião.

Para quem cultua (haha) Jane Austen e tem problemas em ler em língua inglesa (como eu), eis o trecho abaixo para dar uma aguinha na boca e comissão nos dedos!

Omnia Vanitas!




Um cavalheiro e uma senhora, viajando a negócios de Tunbridge para a parte costeira de Sussex entre Hastings e Eastbourne, foram induzidos a abandonar a estrada principal e se aventurar por uma vereda escarpada, e, ao tentarem uma longa subida, meio pedra, meio areia, seu veículo tombou. O acidente ocorreu logo depois de passarem pela única moradia próxima à vereda, casa essa que o condutor da carruagem, ao ser solicitado a prosseguir naquela direção, julgou ser o objetivo final da viagem, e por isso foi com a expressão mais insatisfeita que se viu na obrigação de seguir por ali. Resmungava amiúde e encolhia os ombros, açoitando os cavalos tão duramente que não estaria a salvo das suspeitas de haver feito a carruagem tombar de propósito (especialmente por não ser esta de propriedade de seu amo), caso a estrada não tivesse se tornado indubitavelmente pior do que antes.
Assim que as imediações da dita casa ficaram para trás, deu a entender, com a mais agourenta das fisionomias que, além dali, nenhum veículo, a não ser carroças, poderia seguir com segurança. A gravidade da queda foi amenizada por estarem avançando muito devagar e pela estreiteza do caminho; tanto o cavalheiro, que se arrastou para fora, quanto a companheira, que ele ajudou a sair, a princípio não sentiram mais do que arranhões e os abalos da queda. Mas o cavalheiro havia, no ato de se libertar, torcido o tornozelo; e, logo sentindo os efeitos da torção, teve de interromper suas repreensões ao cocheiro ante a satisfação de ver que estavam bem tanto ele quanto a esposa, indo sentar-se à beira da estrada, incapaz que estava de ficar de pé.
- Estou sentindo algo aqui - disse ele, apertando com a mão o calcanhar. - Mas não se preocupe, minha querida - continuou, olhando para ela com um sorriso -, isso não poderia, como sabe, ter ocorrido em lugar mais propício, ainda bem. Era o que de melhor poderíamos desejar. Em breve seremos socorridos. Lá, imagino, está a minha cura - disse, apontando para a nítida silhueta de um chalé que se via romanticamente situado em meio a um bosque numa elevação do terreno a pouca distância dali.
- Aquilo não promete ser o próprio lugar? - A esposa desejou fervorosamente que de fato fosse, mas estava ali parada, atemorizada e ansiosa, sem poder fazer nem sugerir nada, até vislumbrar uma primeira e real ajuda no vulto de várias pessoas que vinham em seu auxílio. O acidente fora percebido a distância desde um campo de feno próximo da casa pela qual haviam passado. E as pessoas que se aproximavam eram um bem-apessoado senhor de meia-idade, robusto e de aspecto cavalheiresco; o proprietário do campo, que por acaso estava entre os segadores no momento; e três ou quatro deles entre os mais hábeis que se prontificaram a seguir o patrão; para não mencionar todo o resto do campo, homens, mulheres e crianças não muito distantes dali. O sr. Heywood, tal era o nome do proprietário, aproximou-se com um cumprimento muito cordial, muito preocupado com o acidente, um tanto surpreso em ver alguém arriscar-se em carruagem por aquela estrada, e de imediato ofereceu seus préstimos. Sua oferta de ajuda foi aceita com afabilidade e gratidão, e, enquanto um ou dois homens prestavam ajuda ao cocheiro para levantar a carruagem, o viajante disse:
- Está sendo extremamente gentil, meu caro senhor, e confio em sua palavra. O ferimento que tenho na perna me parece insignificante. Mas é sempre melhor nestes casos, como bem sabe, ter o parecer de um médico sem perda de tempo; e, como a estrada não parece estar em condições para eu ir ao encontro dele, peço-lhe o favor de mandar um de seus homens buscá-lo.
- Quem, o médico? - perguntou o sr. Heywood. - Temo que o senhor não venha encontrar nenhum médico à mão por aqui, mas devo garantir que poderemos nos arranjar perfeitamente sem ele.
- Desculpe, senhor, mas, se ele não estiver disponível, seu assistente poderá igualmente tratar-me, ou mesmo até melhor. Aliás preferiria que viesse o assistente. Estou certo de que um de seus bons empregados poderá chegar a ele em três minutos. Não preciso dizer que daqui esteja a ver a casa - disse ele olhando em direção ao chalé -, pois, excetuando-se a sua, não passamos nesta região por nenhuma que possa ser a residência de um médico.
O sr. Heywood olhou para ele um tanto espantado.
- O quê, meu caro senhor! Está esperando encontrar um médico naquele chalé? Não temos médico nem assistente em toda a freguesia, asseguro-lhe.
- Peço-lhe desculpas, caro senhor - replicou o outro -, por parecer que esteja a contradizê-lo, mas, considerando o tamanho da freguesia ou alguma outra causa de que o senhor possa não estar ciente, acho que... espere lá... estarei eu enganado quanto ao lugar? Não estou mesmo em Willingden? Aqui não é Willingden?
- É de fato, caro senhor, aqui é certamente Willingden.
- Então, caro senhor, posso lhe dar a prova de que existe um médico nesta freguesia, seja isso do seu conhecimento ou não. Aqui está, caro senhor - disse, tirando do bolso sua agenda -; se fizer o favor de dar uma olhada nestes anúncios, que recortei do Morning Post e da Kentish Gazette ainda ontem mesmo de manhã em Londres, penso que ficará convencido de que não estou falando por falar. Verá que se trata do anúncio da dissolução de uma associação médica "em sua própria freguesia", "expansão de negócios", "reputação ilibada", "ótimas referências", "desejando estabelecer um consultório independente". Aqui está o texto completo, caro senhor - disse ao outro, oferecendo dois pequenos recortes oblongos.
- Meu caro, mesmo que o senhor me mostrasse todos os jornais impressos nesta semana em todo o país, não iria me convencer de que existe um médico em Willingden - disse o sr. Heywood com um sorriso bem-humorado. - Moro aqui desde menino há 57 anos e penso que deveria conhecer o tal personagem. Pelo menos posso me arriscar a dizer que essa pessoa não tem tido lá muito trabalho. Na verdade, se os pacientes tiverem que subir esta encosta em berlindas, não será de bom alvitre para um médico ter sua casa no alto da colina. Quanto àquele chalé, posso assegurar-lhe que, na verdade, a despeito de seu ar elegante visto a distância, é tão modesto quanto qualquer outro sobrado da freguesia e que meu caseiro vive num dos extremos e três velhas senhoras no outro.
Ele tomou os recortes enquanto falava e, tendo-os examinado, acrescentou:
- Creio ter agora a explicação. O senhor se enganou foi de lugar. Há duas Willingden nesta região. E estes anúncios devem se referir à outra, que é a Great Willingden, ou Willingden Abbots, que fica a dez quilômetros de distância do outro lado de Battle. Lá bem no meio da mata. E nós, caro senhor - acrescentou um tanto orgulhoso - estamos fora dela.
- Não lá no meio da mata, sem dúvida - replicou o viajante gracejando. - Levamos meia hora só para subir a colina. Bem, é forçoso dizer que o senhor tem razão e que cometi uma tremenda e estúpida mancada. Por questão de um momento. O anúncio só despertou minha atenção na última meia hora em que passamos na cidade; tudo na pressa e na confusão que sempre ocorrem numa curta estadia por lá. A gente nunca consegue concluir nada na linha de negócios, bem sabe, até que a carruagem chegue à porta. Então, satisfazendo-me com uma breve indagação e achando que estávamos de fato a pouco mais de dois ou três quilômetros de uma Willingden, eu não pensei mais nada... Minha cara (para a esposa), lamento muito tê-la metido nesta enrascada. Mas não se alarme em relação à minha perna. Não tenho dores enquanto estou quieto. E, assim que esta boa gente conseguir botar a carruagem de pé e atrelar os cavalos, a melhor coisa que teremos a fazer será voltar pelo mesmo caminho até a bifurcação e seguir de lá para Hailsham, em direção a casa sem esperar mais nada. Em duas horas estaremos lá a partir de Hailsham. E, uma vez lá, teremos o tratamento à mão, bem sabe. A brisa do nosso pequeno braço de mar logo me porá novamente de pé. Pode confiar, minha querida: é um caso para o mar resolver. O ar salino e as imersões farão o resto. Já estou pressentindo tudo isso.
De maneira muito cordial, o sr. Heywood interferiu neste ponto, rogando-lhes que não pensassem em prosseguir antes que o tornozelo fosse examinado e que tomassem algum refresco em sua casa, e instando-lhes cordialmente a que a usassem para ambos os propósitos.
- Sempre temos boa provisão de remédios caseiros para torceduras e arranhões. E garanto-lhes que minha mulher e minhas filhas terão muito prazer em servi-los naquilo que estiver a seu alcance.
Uma ou outra pontada, na tentativa de mover o pé, convenceu o viajante a considerar com mais atenção do que antes os benefícios de uma imediata assistência, e, consultando a esposa em rápidas palavras (- Bem, minha cara, penso que será melhor para nós), voltou-se de novo para o sr. Heywood e disse:
- Antes de aceitarmos sua hospitalidade, caro senhor, e a fim de afastar qualquer impressão desfavorável que esta perseguição absurda em que me encontrou lhe possa ter causado, permita que me apresente. Chamo-me Parker, o sr. Parker de Sanditon; esta senhora, minha esposa, é a sra. Parker. Estávamos vindo de Londres para a nossa casa. Embora eu não seja de modo algum o primeiro da família a ter uma propriedade rural na freguesia de Sanditon, meu nome talvez seja desconhecido a esta distância da costa.
Mas quanto a Sanditon... certamente todos já ouviram falar de Sanditon. O local favorito para uma nova e crescente estação balneária, decerto o lugar favorito entre todos os que se situam na costa de Sussex; o mais favorecido pela natureza e que promete vir a ser o escolhido pela gente...
- Sim, já ouvi falar de Sanditon - replicou o sr. Heywood.
- A cada cinco anos, a gente ouve falar de um novo lugar ou de outro que esteja começando na praia e entrando na moda. Como poderá a metade deles ser povoada é o que me surpreende! Onde encontrar tanta gente com dinheiro e folga para ir a eles! Um mau negócio para a região, certamente os preços dos gêneros irão subir e os pobres sofrerão ainda mais... como talvez o senhor também ache.
- De maneira alguma, meu caro senhor, de maneira alguma - exclamou o sr. Parker impaciente. - Pelo contrário, asseguro-lhe. É a ideia geral, mas um equívoco. Isso pode se aplicar aos lugares desenvolvidos, superpovoados como Brighton ou Worthing ou Eastbourne, mas não a um vilarejo como Sanditon, impedido por suas dimensões de sofrer quaisquer males da civilização; ao passo que o crescimento do lugar, as edificações, as sementeiras, a demanda por tudo e a segura existência das melhores companhias (dessas famílias regulares, sólidas e reservadas dotadas de nobreza e caráter que são uma bênção em qualquer parte) estimulam o trabalho dos pobres e difundem o conforto e o desenvolvimento de toda a sorte entre eles. Não, meu caro senhor, asseguro-lhe que Sanditon não é um lugar...
- Não quis dizer que não haja exceções em algum lugar em particular - respondeu o sr. Heywood -, só penso que a nossa costa está repleta deles. Mas não seria melhor levar o senhor...
- Nossa costa está repleta! - repetiu o sr. Parker. - Talvez nesse ponto não possamos de todo discordar. Pelo menos já há o bastante. Nossa costa já está muito explorada. Não precisa de mais. Atende ao gosto e às finanças de cada um. E essa boa gente que está tentando ampliar o número das estações balneárias, na minha opinião, insiste num exagero e em breve se verá vítima de seus próprios cálculos falaciosos. Um lugar como Sanditon, senhor, posso dizer que foi sonhado, foi exigido. A natureza selecionou-o, indicou-o em caracteres maiúsculos. A brisa mais pura e suave da costa, tida como tal, banhos excelentes, areia fina e firme, águas profundas a dez metros da praia, sem lama, sem ervas, sem pedras escorregadias. Nunca houve um lugar mais claramente projetado pela natureza para ser o balneário de enfermos, o verdadeiro lugar de que milhares de pessoas estavam à procura! À mais conveniente distância de Londres! Um quilômetro e meio mais perto do que Eastbourne. Imagine apenas, senhor, a vantagem de economizar toda essa distância numa longa viagem. Mas Brinshore, senhor, na qual acredito esteja pensando, as tentativas de dois ou três especuladores em Brinshore no ano passado de promover aquele mesquinho povoado, situado como está entre um charco estagnado, uma charneca árida e as constantes emanações de um brejo de algas putrefatas, não pode resultar em nada a não ser em decepção. E, em nome do bom senso, Brinshore poderia ser recomendável? Um ar muitíssimo insalubre, estradas sabidamente detestáveis, água suja sem igual, sendo impossível ter-se uma boa chávena de chá num raio de cinco quilômetros em redor. E, quanto ao solo, é tão gelado e infértil que nem consegue produzir um repolho que seja. Confie em mim, senhor, que esta é uma descrição a mais fiel de Brinshore, sem o mínimo grau de exagero, e se o senhor ouviu falar dela de modo diverso...
- Meu senhor, eu nunca ouvi falar dela em toda a minha vida - disse o sr. Heywood. - Nem sabia que havia tal lugar no mundo.
- Não sabia! Veja, minha cara - voltando-se com exultação para a esposa -, veja como são as coisas. Eis a celebridade de Brinshore! Este senhor nem sabia existir tal lugar no mundo. Pois bem, meu senhor, na verdade creio que poderíamos aplicar a Brinshore aqueles versos do poeta Cowper descrevendo a aldeã religiosa, que ele opõe a Voltaire: "Ela nunca ouviu falar de algo que esteja a cerca de um quilômetro de casa."
- Sinceramente, caro senhor, aplique a isso os versos que quiser. Mas quero ver é algo aplicado à sua perna. E estou certo, pelas feições de sua senhora, de que ela é bem da minha opinião e acha inútil estarmos perdendo mais tempo aqui. E lá vêm minhas filhas para falar por elas próprias e pela mãe delas.
Duas ou três jovens amáveis e simpáticas, seguidas por outras tantas criadas, estavam agora saindo das portas da casa.
- Estava admirado que o alvoroço ainda não tivesse chegado a elas. Um incidente deste gênero logo se torna um acontecimento num lugar solitário como o nosso. Agora vejamos, senhor, qual a melhor maneira de conduzi-lo até a casa.
As jovens chegaram e disseram tudo o que seria próprio para reforçar as ofertas do pai e sem a menor afetação trataram de propiciar comodidades aos viajantes. Como a sra. Parker estivesse ansiosamente necessitada de repouso, e o marido a essa altura não muito menos inclinado a isso, não fizeram cerimônia; mesmo porque a carruagem, agora posta em pé, revelou ter sofrido no lado da queda tais estragos que tornavam imprópria a sua utilização. O sr. Parker foi carregado então para a casa, e a carruagem empurrada para dentro de um galpão vazio.

25 de abril de 2013

Bed Stories..



Epionando a net, para variar, e achei essa informação muitíssima interessante. Espero que compartilhem desta opinião comigo!

Você sabe a origem dos contos de fadas??


No século 16, os contos de fada não eram brincadeira de criança. Sexo, violência e fome apimentavam as tramas inventadas por camponesas nas poucas horas de diversão.

Você já imaginou se o lenhador não aparecesse ao final da história para salvar 
Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha?

Agora pior do que isso , E se a menina, antes de ser devorada pelo Lobo Mau, ainda fosse induzida por ele a beber o sangue da avó, além de tirar a roupa e deitar-se nua na cama? Você contaria tal historinha a seu filho? Os camponeses da França do século 16 contavam – e os detalhes violentos e libidinosos desta e de outras histórias que povoam o nosso imaginário infantil não param por aí. Se você nunca ouviu as versões apimentadas, foi por obra e graça de escritores como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen, que entre o fim do século 17 e o início do século 19 pesquisaram, recolheram e adaptaram as histórias contadas por camponesas criadas em comunidades de forte tradição oral.

Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, João e Maria, A Bela Adormecida e outros contos de fadas tão familiares foram passados de geração para geração por trabalhadores analfabetos, que se sentavam à noite em volta de fogueiras para contar histórias. Nestas reuniões, chamadas de veillées pelos franceses, as mulheres narravam seus casos enquanto fiavam e teciam, o que originou expressões como “tecer uma trama” e “costurar uma história”. Os homens consertavam suas ferramentas ou quebravam nozes. No universo dos camponeses franceses pré-Revolução, nos séculos 17 e 18, não havia tempo para descanso. Durante o Antigo Regime, diversão e trabalho misturavam-se, como na história da pobre Gata Borralheira.

Sem papas na língua, as contadoras de histórias caprichavam nos detalhes, digamos, escabrosos. Na versão original, A Bela Adormecida, por exemplo, foi violada por um anão durante o sono. Isso acontecia porque, naqueles tempos, essas não eram exatamente histórias infantis. Naquela época não havia distinção entre infância, adolescência e idade adulta. Esses contos eram galhofas, que serviam para unir a comunidade. 

Tanta inspiração nascia do cotidiano: a segurança da casa e da aldeia opunha-se aos perigos da estrada e da floresta, como em Chapeuzinho Vermelho. A crueldade fazia parte do roteiro pois era pobreza e morte que se esperava do mundo no século 16. A fome, o maior mal daquele tempo, protagonizava muitas das narrativas, como em João e Maria, em que os pais abandonam as crianças na floresta por não ter como alimentá-los. No caso da história de João e Maria tem a parte da preocupação dos adultos com a fome que assolava a todos e das crianças que temiam ser abandonadas.


Tudo começa a mudar e os contos começam a ter nuances de contos de fadas com final feliz no final do século 18, quando se começa a fazer distinção entre a infância e a vida adulta. E é nesse momento da história que entraram em ação Perrault, os irmãos Grimm e, mais tarde, Andersen. Eles não foram os primeiros a passar para o papel as histórias dos camponeses, mas foram os mais bem-sucedidos em sua adaptação ao gosto da nobreza e das crianças. Perrault, por exemplo, incluiu comentários sobre os costumes e a moda das elites em suas versões para dar uma cara à nação francesa.

O que o escritor fez em seu Contos da Mamãe Gansa, de 1697, de certa forma foi o que os contadores faziam nas aldeias: adaptou um fio condutor comum a sua realidade, eliminando detalhes violentos ou de conteúdo sexual – e incluindo a “moral da história”. A adaptação ao gosto do contador, aliás, é uma marca que atravessa os tempos. 
Em uma história da China do século 9, por exemplo, uma moça chamada Yeh-Hsien é ajudada por um peixe mágico, que lhe dá chinelas de ouro para a festa da aldeia. Na volta para casa, ela perde uma das chinelas, que vai parar nas mãos do governante. No fim, o chefe local apaixona-se pelos pés pequenos de Yeh-Hsien, em consonância com os costumes chineses de enfaixar os pés das meninas para que não crescessem. As diferenças culturais estão claras, mas pode-se reconhecer as origens de Cinderela no conto.Quando uma história é narrada de forma oral, normalmente é adaptada a realidade do momento. É, quem conta um conto sempre aumenta um ponto, seja na China do século 9, na França do século 18 ou nos dias de hoje.

Esse post vai ficar enorme..rsrs, mas coloquei abaixo a histórias da Chapeuzinho Vermelho como eram contadas originariamente...e como ficou depois (essa última todos conhecem né?)mas se puder opinar, diria para não contar aos seus filhos a versão original.

“Chapeuzinho Vermelho”

Na França do século 18, Chapeuzinho Vermelho não usava um chapeuzinho vermelho. E o Lobo matava a vovó, enchia uma jarra com o seu sangue e fatiava sua carne. Quando a menina chegava, ele, já travestido, mandava que ela se servisse do vinho e da carne. Depois, pedia à menina para se deitar nua com ele. A cada peça de roupa que tirava, Chapeuzinho perguntava o que fazer, e o lobo respondia: “Jogue no fogo. Você não vai precisar mais”. E ela não perguntava dos olhos, orelhas ou nariz do algoz. Dizia, sim: “Ah, vovó, como você é peluda!”, ao que ele respondia: “É para me manter mais aquecida”. Citava ainda seus ombros largos e suas unhas compridas, em comentários sensuais, antes de dizer: “Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!”. E a história terminava com o lobo devorando a garota. Sem caçador para salvá-la, sem final feliz e sem medo de mexer com tabus.

Na versão dos irmãos Grimm, do início do século 19, não tem banquete canibal, nem strip-tease ou mortes. Chapeuzinho, incitada pelo Lobo, desvia-se do caminho para colher flores. Enquanto isso, o lobo devora a vovozinha e veste suas roupas. Quando a gorota chega, faz as perguntas clássicas: Por que a senhora tem orelhas tão grandes?” É para te ouvir melhor”, responde o Lobo, e assim sucessivamente, passando pelos olhos, o nariz e as mãos, até a pergunta fatal: “Por que a senhora tem essa boca enorme? “É para te comer!”, diz o Lobo, devorando-a. Os Grimm incluíram na trama ainda a figura do caçador, que corta a barriga do Lobo e liberta a avó e a neta. Chapeuzinho então joga pedras na barriga do Lobo, que morre. E aprende a obedecer a mãe, a andar sempre no caminho certo e a não dar papo para lobos..

Fonte: Eu Amo Ler (Facebook)

Os Meninos da Rua Paulo - Prefácio

  Olá, abandonado leitor!  Comecei neste final de semana a leitura de "Os Meninos da Rua Paulo". Ainda não cheguei na página 50, a...